Thursday, July 02, 2009

Fliperama I

Este é o curioso mosaico feito de livros, que forma o retrato de Manuel Bandeira, poeta homenageado. Curioso porque a imagem, a olho nu, quase que não se revela, mas na oto até que dá para reconhecer.
Aqui vão algumas frases pinçadas durante a sessão das 11:45
Domingos de Oliveira:
Não existe banalidade.
Estou convencido de que existe uma "terra dos romances prontos", o escritor deve ser capaz trnar-se leve para chegar lá.
O segredo da produtividade é acabar tudo o que se começa.
Meu amor não é meu, dou para quem quiser.
Toda obra de arte boa é de auto-ajuda. Se eu vejo um filme e ele não me ensina nada, é um mau filme.

Tuesday, June 30, 2009

FLIP, revisited

Lisbon Revisited (1923)

NÃO: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.
Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.
Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!
Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-na!
Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?
Não me macem, por amor de Deus!
Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?
Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!
Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Lisbon revisited (1926)

Nada me prende a nada. 
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo. 
Anseio com uma angústia de fome de carne 
O que não sei que seja - 
Definidamente pelo indefinido... 
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto 
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.

Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias. 
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua. 
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.

Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido. 
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota. 
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados. 
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...

Compreendo a intervalos desconexos; 
Escrevo por lapsos de cansaço; 
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia. 
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme; 
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago; 
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.

Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma... 
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei, 
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa 
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas), 
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas 
Onde supus o meu ser, 
Fogem desmantelados, últimos restos 
Da ilusão final, 
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido, 
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.

Outra vez te revejo, 
Cidade da minha infãncia pavorosamente perdida... 
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...

Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei, 
E aqui tornei a voltar, e a voltar. 
E aqui de novo tornei a voltar? 
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram, 
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória, 
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?

Outra vez te revejo, 
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.

Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -, 
Transeunte inútil de ti e de mim, 
Estrangeiro aqui como em toda a parte, 
Casual na vida como na alma, 
Fantasma a errar em salas de recordações, 
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem 
No castelo maldito de ter que viver...

Outra vez te revejo, 
Sombra que passa através das sombras, e brilha 
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida, 
E entra na noite como um rastro de barco se perde 
Na água que deixa de se ouvir...

Outra vez te revejo, 
Mas, ai, a mim não me revejo! 
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico, 
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim - 

Um bocado de ti e de mim!...

Será que alguém ainda se lembra de Fernando Pessoa e seus poemas Lisbon revisited? Tecnicamente, Alvaro de Campos é quem os assina. 
Não posso deixar de meio que "plagiá-los" agora que estou de partida para Paraty, onde tantas vezes perambulei pelas calçadas incertas, me apoiando nos braços de quem me amparou também nas calçadas de Lisboa.  A quem será que revejo nas tendas e nas vielas? Qual a voz que me chama no vento das praias? Que imagem é essa que projeto, através dos livros?
Ih, melhor guardar esse papo cabeça para a hora do bate-papo na Flip. Beijos, partindo.

Monday, June 29, 2009

A morte e o sonho

Uma coisa assim, repentina, e minha dor aparece fingindo que é para um alguém que nem conheço. E eu rememoro uma fase da vida que me pareceu tão agitada, espremo uma lágrima que quer escorrer no cantinho do olho esquerdo, do coração. Pegue essa bandida!, ordeno à minha mão. Rápido, antes que ela escorra! E, obedecida, mantenho meu ar de indiferente doçura perante a agitação da turba. Sinto inveja. De quê? Talvez dos aplausos, ao se fechar a cortina…
E eis que outra morte, e mais outra, dão o tom melancólico ao fim de semana. Morre o festejado cantor, a bela atriz e o corajoso jurista. Arte e inteligência parecem não ter vez nesse mundo. Falam muito do cantor: uma figura estranha. Falam pouco da atriz, já quase esquecida, bela e imitada em sua glória, depois, em seu sofrimento, amada por quem uma vez tinha sido seu parceiro. Morre o jurista e esse, que devia ser tão celebrado e comentado, a quem se deve, no país, um exemplo de cidadania, fica quase que limitado a uns poucos comentários, quase sem imagens. Um morto sem séquito para mostrar na TV. Talvez o povo esteja lá, talvez tenha acorrido, agradecido pela carta que um dia recebeu, querendo retribuir seu interesse. Mas as equipes de TV, essas, embarcaram para Los Angeles e estão entrevistando a torto e a direito umas figuras que agora possuem o prestígio da proximidade. Alguém que um dia apertou a mão do cantor. Outro que tocou tambor a seu lado. A cozinheira que preparava pratos vegetarianos há mais de 20 anos. A babá, despedida, que denuncia defeitos. A família, implacável, que deseja os despojos. A mãe dos filhos, a ex-mulher, o ex-médico, a enfermeira.
Ninguém abriu espaço para o documentário dos últimos dias da atriz cancerosa.  Ninguém quer saber do conteúdo da carta aos brasileiros. Queremos glitter. Dança. Morte misteriosa e declarações bombásticas que nos façam esquecer as vergonhas intestinas do país. Para ajudar, bons jogos de basquete, conquista do ambicionado título de futebol numa batalha árdua que nem parecia estar sendo travada contra os EUA, mas contra a incompetência do próprio time.  Vuvuzelas impiedosas nos impedindo de pensar, de sentir outra coisa que não seja a insensibilidade dos remédios para a dor de viver.
Mas a morte é assunto que os vivos não esgotam. Viver e morrer, já ensinava o filósofo, são coisas que se excluem. Será? Mas não vou discutir isso agora, pois me dedico a satisfazer o pedido do amigo Guilherme Ramos, em seu blog Prosopoética. Ele quer saber de meus sonhos, oito deles. Ah, Guilherme, se você soubesse o quanto procuro sonhar, sem conseguir… Mas não vou ser freudiana, e vou ficar com os sonhos na acepção de "desejo", aquilo que os americanos chamam de daydreaming, e nisso até que sou boa. Todos os dias sonho alguma coisa, olhando para o mar, sonho alguma coisa, lendo os livros do Mia Couto, sonho alguma coisa, e por aí vai.
O que mais queria era o meu amor de volta, mas isso não vale, então vamos aos sonhos possíveis (sem prioridades, apenas à medida que vão surgindo em minha imaginação):
1 Sonho em ser uma escritora de sucesso: e aí me questiono – sucesso significa o que? Muitas vendas? Entrevistas nos jornais? Reconhecimento nas universidades? Teses publicadas a cerca de minha obra? Acho que o sucesso que desejo é mais humildezinho – um tratamento mais deferente por parte da minha Editora, que deixa meus imeios sem resposta, que nem se lembra de fazer uma propagandazinha de meus livros, nem de organizar um ciclo de palestras para divulgar os autores nacionais sem "exposição midiática".
2 Sonho em poder me sustentar com o produto de meu trabalho: meus livros e minhas palestras e aulas.
3 Sonho em viajar pelo mundo (e isso até que faço), só que voando em primeira classe, para não chegar nos lugares tão desoladamente desconfortável e cansada. 
4 Sonho em ser professora visitante na Sorbonne. Queria ter a chance de viver por uns tempos em Paris, transformando essa cidade numa paisagem interna, quase que orgânica. Paris é a cidade mais lógica que conheço, cartesiana, apesar de que essa lógica se impõe sobre uma cidade viva, que se modifica e se rebela. Numa das vezes em que estava na cidade, surpreendi uma noite em que o trânsito parou nas redondezas do meu "feudo" (entre o Jardim de Luxembourg e a Université) e as ruas foram invadidas pelas bicicletas, que foram, aos milhares, percorrendo os caminhos cinzentos com suas cores e suas campainhas alegres, numa espécie de festa. E o caos não se instaurou na cidade, como aconteceria aqui se tivessem feito uma festa dessas num final de dia de semana.
5 Sonho em ser magra e flexível, um corpo adolescente que não reclame das canseiras a que possa obrigá-lo.
6 Sonho em ter uma mente ágil e criativa, sempre disposta a aprender e a assimilar novidades.
7 Sonho em abraçar o mundo, oferecer paz e conforto a todos a quem eu possa encontrar.
8 Sonho em romper o casulo de minha solidão.
Aí está, Guilherme. E, de bônus, mais um sonho: mergulhar nas águas das praias azul-esverdeadas de Alagoas, e deixar-me dissolver de prazer!

Monday, June 22, 2009

Brecht.com

Fui ao teatro, fui ao cinema, matei o concerto (menina má), pois preferi ir ao lançamento do livro de minha amiga Adriana Lisboa (boa menina). O filme? Assim, assim. Bom para coroas sonhadoras e para jovens atores e atrizes, que podem ver dois grandes atores transformando uma historinha gasta num passatempo regular. A peça? Ingênua. Nosso mundo está muito mais sofisticado que o de Brecht, mais cínico. Duvido que a platéia tire as conclusões pedidas pelo elenco, ninguém vai dar bola para aquela divindade, nem para o conflito da jovem prostituta que acredita em amor, nem se impressionar com o aguadeiro que se mutila para ganhar uma pensão– tudo dejà vu, infelizmente. O livro da amiga? É infantil, e estou guardando para ler acompanhada por uma criança. Mas é lindo, ilustrado pelo fantástico Rui Oliveira.
Hoje entreguei minha resenha para o Rascunho. Falo sobre o Frenesi polissilábico, do Nick Hornby, mas acho que falo mesmo é sobre o Rascunho – esse jornal idealista que se mantém graças ao Rogério Pereira, um dínamo, todo coração e energia, sonho e realização. 
Agora vou aos textos para a UFF. E ainda darei aula, hoje. Mas estou me sentindo melhor (passei o fim de semana meio adoentada) e com muita alegria por ter cumprido meus prazos. E por ter internet, ora viva!

Sunday, June 21, 2009

Horóscopo

Acordo e leio o jornal (isso quer dizer: leio o horóscopo) que me aconselha a olhar alguma bela paisagem. E lá começo eu o dia, pensando o que devo privilegiar? Contemplarei o mar ou a montanha? A Lagoa, talvez? Uma floresta urbana? Que sorte a minha viver numa cidade de tantas belezas, onde se torna difícil escolher para que lado me voltar, quando me recomendam olhar uma bela paisagem. De acordo com minha preferência habitual, corro a olhar o mar, que hoje se funde com o céu numa comunhão mítica, geradora de vida. Adoro quando a linha do horizonte se desfaz nesta imprecisão de contornos e nos deixa vivendo num mundo em que tudo se torna possível. É possível que eu hoje tenha um dia produtivo, mas meus planos são outros. Quero ir ao cinema. Quero ir a dois cinemas e a um teatro. Tenho ingresso para um concerto, mas acho que vou faltar. No entanto, me lembro que o horóscopo me avisa: não deixe de escutar boa música. Começo a duvidar de mim mesma. Será possível que essas recomendações sejam tão precisas? E, ao serem precisas, serão necessárias? Rebelo-me. Hoje quero ter a liberdade de sonhar, de fazer as coisas que decidir no último momento, sem planejamentos. No entanto, olhos as ilhas que enfeitam minha nesguinha de mar, como a me relembrar que os limites estão ali, embora eu não os veja. Decido que ainda é muito cedo para decidir. Talvez eu saia agora, para usufruir o mar, tão próximo, mas o mais provável é ficar por aqui, tentar colocar em dia a correspondência e os trabalhos. A leitura nunca ficará em dia, já sei. Mas sei que irei ao cinema, atrás de alguma ilusão romântica. E talvez vá ao concerto. Afinal, adoro música. Só me entristece é a Sala Cecília Meirelles, que tem me parecido escura e triste.
Peço desculpa ao Guilherme, que me mandou uma tarefa e ainda não consegui cumprir: mescla de internet pisca-pisca e preguiça. Mas irei sonhar com você, em breve. Peço desculpa a Cris, e a todos os amigos que tenho deixado sem resposta, mas é que tem sido mesmo difícil fazer alguma coisa com essas limitações tecnológicas e mais uma cirurgia dentária e um inexplicável mal-estar (talvez do antiinflamatório?) que tem drenado minhas energias. Hoje tenho internet, mas tenho também o horóscopo que me dá olhos para ver e ouvidos para ouvir. Então, com sua licença, meus amigos, mergulho meus olhos no mar e aguardo o momento de submergir nas ondas sonoras. Ciao.

Friday, June 12, 2009

Espaço aberto - Literatura

Acabo de me assistir na TV – Que experiência mais estranha! O que valeu é que o programa ficou mesmo muito legal, com uma edição onde os textos de Borges, com a leitura do sempre grande Othon Bastos (meu eterno Paulo Honório, do filme São Bernardo) e as imagens do autor tão bem escolhidas, valorizaram os comentários que fizemos a respeito de seus textos. Fico pensando em como a TV é impactante: falamos de Borges e, como por um milagre, ele apareceu ali entre nossas falas, corroborou o que dissemos, dialogou conosco. O que eu gostaria é saber que alguém, por virtude de assistir esse programa, se sinta tentado a ler algum conto de Borges, algum de seus poemas, ou ler suas entrevistas, sempre tão finamente irônicas e inteligentes. Ou ler seus ensaios, cuja concisão nos deixa enganosamente levados a pensar que são textos simples, fáceis de preparar. Me lembro de uma aula que tive em Yale, com a professora Shoshana Felman. Era um Faculty Seminar, o que quer dizer que era aula para professores, e era uma grande honra para mim ter permissão de assistir as sessões com chefes de departamento, juízes da Suprema Corte, e especialistas nas diversas áreas que tinham a ver com a pesquisa dela na época, que era a questão de testemunhar (witnessing) e de prestar testemunho (testimony), em situações ligadas ao Trauma. A cada semana tínhamos uma leitura prévia, que preparávamos e debatíamos em sala de aula. Os textos podiam ser capítulos ou livros inteiros. No caso em questão, a leitura era apenas um conto de Borges. El testigo. Apenas uma página. Nem sequer uma página completa, dois parágrafos, quase nada. Negligenciamos a leitura. Lemos,é verdade, mas fizemos uma leitura rápida, lemos sem nos deter. Nenhum de nós preparou o texto com a devida atenção. Em menos de dois minutos ela percebeu que não tínhamos dado ao texto o mesmo cuidado que havíamos dado a outros que, pela extensão, nos pareciam muito mais complexos. Ela foi de um a um, e todos foram se calando. E ela, como Júpiter, revelou-se em toda sua ira, mostrou que tínhamos sido omissos e preconceituosos e que, com isso, tínhamos perdido a chance de ter uma aula brilhante (como eram todas as aulas dela, extraordinárias!) Até hoje, pelo menos uma vez por ano releio El testigo. É uma lição de humildade que me dou. Leio como penitência, procurando sozinha o que poderia ter encontrado através da experiência de um grupo tão especial como aquele. E penso no privilégio que tive de, por uns poucos anos, conviver com pessoas que realmente fazem a diferença na maneira em que podemos compreender o mundo. E, cada vez que leio aqueles dois parágrafos, percebo a lição extraordinária do valor de cada um de nós. Todo o sentido da vida parece estar contido naquele pequeno texto.

Carne Trêmula e outros celulóides

Acordei pensando em cinema, talvez porque tenha ido ao cinema ontem de noite, depois de um longo jejum. Fui ver A partida, um filme sobre os rituais da morte, da despedida. Claro que isso mexe comigo, ainda mais nas vésperas de um dia como hoje, todinho dedicado ao "amor".  Aí, depois de muito tempo com essa minha internet pisca-pisca, descobri que hoje ela estava funcionando, e aproveitei para ver mensagens, facebook, blog… que saudade de meus amigos. André, no Rechavia, tem escrito muito e eu tenho muito que ler. Ana Cristina, Leila,Guilherme Ramos, Valéria, MM, alguns de meus amigos blogueiros desculpem, mas não sei se vou conseguir ler todo o passado. É uma pena, mas hoje a gente, quando perde um dia, perde mesmo, pois o mundo está cada vez mais intensamente "escrito", interpretado, comentado.
Bem, para não perder mais tempo, vouu ficando por aqui, logo depois de explicar o porquê de carne trêmula –nada a ver com a história de Almodovar, apenas aproveito o título dele para brincar com o meu nervosismo por aparecer hoje no Espaço Aberto Literatura, numa conversa sobre Borges, com o Edney e o Antônio Fernando Borges. O mais engraçado foi descobrir que uma amiga minha foi namorada dele. Como falei sobre isso, o Edney lembrou que só existem 6 graus de separação entre nós, e lá embarquei eu, pensando no filme de temática tão borgeana, pois Borges era fascinado pela definição da identidade, e das fronteiras entre real e imaginário. E, afinal, o que será mais importante? Qual a identidade que mais vale: a que nos é imposta pelo nascimento ou a que construímos com os nossos próprios sonhos? Por falar em construção de sonhos, passo a uma pessoa que conheci ontem, um livreiro do cyberespaço, como ele se define e que, sozinho, dirige uma empresa com N funcionários virtuais, com sede mundial no "Catumbi". Ele, outro borgeano, claro, queria me convencer a vender meus livros para ele. E fez os cálculos matemáticos de quantos livros eu conseguirei ler, ao final de 60 anos, lendo um livro por semana, para provar que eu já tinha em casa muito mais livros do que jamais conseguirei terminar de ler. Desprezei os cálculos dele, pouco mais de três mil, dizendo que leio mais do que um livro por semana, e assim defendi minha biblioteca! E, numa cruzada insana, saí e comprei mais um livro, desafiadora. E ele, muito simpático, ainda me deu um livro de presente, do Blaise Cendrars. Entrincheirada entre estantes, me despeço, com votos de que todos assistam ao programa do Edney, nem que seja só para ver o ex da minha amiga!

Wednesday, June 10, 2009

Espaço aberto - Literatura

Hoje fui toda feliz gravar um programa na Livraria da Travessa do Leblon. Coisa de realização de desejos ocultos: entrar num shopping antes do horário, passar por galerias e áreas reservadas, entrar pela porta de serviço da livraria e ter todos aqueles livros ali, estremunhados de sono, deitadinhos, indefesos… 
Fiquei entusiasmadíssima! Cheguei na hora que marcaram, 8:30, mas o Claufe Rodrigues estranhou: Chegou cedo! A gente geralmente marca às 15 para as 9. Bem, eu sou pontual, aprendi isso nos 5 anos em que vivi nos EUA. Mas a produção do programa, pensando em termos brasileiros, em que os horários são apenas sugestões, deve ter se precavido. Eu aproveitei para me sentar naquela poltrona de salto alto, – quem frequenta a Travessa conhece bem – e me envolvi com um livrinho de tal maneira que nem vi o Edney chegar, nem o Borges (o outro Borges). Depois, quando íamos começar a gravação o cameraman achou que eu podia tirar um pouco do brilho de meu rosto. "Você não tem aquelas coisas de mulher aí?" Tive vontade de responder que de mulher eu tinha o DNA.  E fiquei achando que o meu devia ter vindo defeituoso, pois não chegava atrasada, nem andava com pó de arroz (será que é isso que ainda se usa?) na bolsa. Mas, em compensação, na minha bolsa tinha livros, papéis com anotações, um ticket usado de metrô parisiense, uma entrada de teatro de uma peça tão ruinzinha cujo nome nem vou mencionar, algumas moedas, a carteira e o celular. Em resumo: Não se assustem se virem meu rosto brilhando no programa. 
Será que ficou legal? O Edney me deixou super tranquila, descontraída. Em alguns momentos cheguei a esquecer a câmera. Mas aí lembrava do "brilho" e não sabia se devia enxugar o rosto, passar a mão no "bigode", que foi como o cameraman chamou o meu "discretíssimo buço".
Adorei escutar as coisas que o Antônio Fernando Borges tinha para contar. Ele tem uma memória muito melhor que a minha, e contava as coisas dizendo onde elas estavam. Eu nunca lembro o nome dos contos – só lembro das historinhas. Mas o outro Borges sabia a que contos eu me referia e foi completando as minhas lacunas. Esqueci de falar uma coisa que eu queria muito dizer: a opinião de Borges sobre Kafka. Borges gostava tanto do que Kafka tinha produzido que dizia que sua vida (de Borges) era supérflua. Isso ficou muito mal-redigido, mas tenho que deixar assim como está e seguir adiante com as minhas obrigações. Vou ler o livro que meu amigo MM organizou, o Dicionário amoroso. O livro está lindo. Depois eu conto.

Tuesday, June 09, 2009

Rent

O musical Rent tem uma música que adoro, que divide o ano em horas ou minutos, sei lá. (Os que me conhecem sabem que nunca sei as letras das músicas, ou só sei as letras e não a melodia – sou dos extremos, sou do laraiá ou das palavras) Antes de continuar, talvez seja bom fazer mais um parênteses: sou louca por musicais! Outro dia fui visitar uma amiga e lá encontrei um cara que tinha acabado de voltar de NY, onde tinha assistido às novas versões de musicais. Nossa, passei a noite inteira conversando com o cara, me deliciando com o que ele me contava. Nem senti o tempo passar. 
Voltemos então ao assunto principal: meu fim de semana sem internet foi medido assim, como na canção de Rent, segundo a segundo, que gotejaram sobre a testa da minha paciência, me enlouquecendo. Sempre que me sento frente ao computador, vou dar uma olhadinha nos "imeios". E fico pulando de um lado para o outro: pesquisa na internet, texto, imeio, e um pouquinho de paciência, enquanto organizo as idéias, ou espero que alguma chegue. Bem, claro que, sem internet, fiqui presa no laço, tentando, tentando sem parar, me irritando, saindo da cadeira e da frente da minha nesguinha de mar, que tanto encanta os meus olhos.
Azul, azul, azul… minha cor querida, cheia de significados. Cor amorosa e violenta, suave e agressiva, essa cor viva que o mar e o céu podem oferecer.
Paliativo? Nenhum. nem mesmo um bom filme, pois o último que assisti foi O falsário, muito bom, mas fugido, no meio da semana. No sábado e domingo fiquei naquela loucura do "preciso trabalhar, preciso ler, preciso escrever" que sempre me ataca nos finais de semana. 
Pontos altos destes dias sem comunicação? A LUA! Gente, quando ela se mostrava por entre as nuvens eu me sentia tão alegre que nem sei! Mais ponto alto? A leitura da declaração de amor de Levine a Kitty, em Anna Karenina. Baseada na própria experiência, ele consegue trazer para o texto toda a emoção vivenciada. Foi bom de gritar! EU AMO LITERATURA! AMO LER! É tão bom que nem sei explicar. Mais outro ponto alto? Livros que comprei – não paro com o vício! Não consigo ler tudo, mas é tão bom olhar para eles aqui em casa, esperando docilmente que eu abra suas páginas e … daí tudo muda: eles se tornam vivos, me tomam pelos olhos e logo por toda a mente e, quando vejo, estou em outro lugar, tomada, em transe, vencida! Booommm…
Então, tá. 
Ah, não esqueçam de ir lá nas Histórias Possíveis, que, sob nova direção, continua sendo o máximo!
Aos meus leitores: obrigada pelos comentários e carinho. Fico feliz quando alguma coisa que posto aqui serve a alguém. E adoro as contribuições que vocês me dão!

Saturday, June 06, 2009

balanço quase geral

Uma semana triste, que começa com o sumiço de um avião, com a partida de um amigo, com a venda de uma velha TV... Alguém pode estranhar meu luto por uma TV, mas é que, depois de vendê-la, lembrei-me de que é uma coisa a menos de minha outra vida. Porque eu me sinto vivendo uma vida que não é mais a minha, de verdade. Uma vida a que, legitimamente, não tenho direito. Então, a cada vez que tenho notícias da morte de alguém, conhecido ou não, me sinto culpada: com que direito continuo por aqui? Que sacrifício esotérico terei feito, que pacto com o anjo da morte? Pergunto isso porque hoje, assistindo uma entrevista do Fernando Morais com o Edney Silvestre, ele falou das loucuras do Paulo Coelho, que estava convencido de ter feito um acordo com o anjo da morte, por ocasião de uma tentativa de suicídio não completada. Mas as loucuras não são apenas dos magos. As diversas teorias que escutei a respeito do voo 447 da Air France me fazem pensar em Simão Bacamarte: ou tenho que sair por aí prendendo lunáticos ou eu mesma devo me encerrar num asilo. Do deslocamento do Triângulo da Bermudas à ascenção dos crentes dos últimos dias, abduções por alienígenas e outras coisas igualmente improváveis, as versões vão se multiplicando desavergonhadamente, tal como os desmentidos.
Será que algum dia saberemos o que aconteceu? Precisamos de fatos, de provas, de alguma explicação que contente nossa lógica -- ou falta de!
Bem, enquanto isso, vou escrevendo, lendo o que posso, testando os meus limites para não deixar nenhum prato chinês cair no chão. Preciso dar uma escovada no Borges -- fui convidada a falar sobre ele. O que tenho para dizer sobre ele? Muito pouco, quase nada. Autor difícil, mas que nos engana com uma aparente simplicidade. Em sua longa vida escreveu muitas coisas interessantes, mas o interesse maior parece-me se concentrar no jogo de ambivalência entre realidade e ficção. A literatura, em Borges, é determinante para a vida -- uma inversão do que geralmente se admite. Talvez por isso a gente se sinta tão tentado a responder-lhe uma ou duas coisinhas. Para terminar, um dedinho de Nick Hornby. É sobre ele que devo escrever neste mês, para o Rascunho. Um amigão, do mesmo gênero do Manguel, é a impressão que tenho dele.Um cara com quem gostaria de trocar figurinhas, mas as figurinhas dele são, na sua maioria anglo-saxãs. As minhas são, bem, "ecléticas". E nunca fui sistemática o bastante para dizer que conheço "tudo" sobre algum autor. Mas conheço o bastante para dialogar um pouco com ele, antes de sair divagando sobre outras coisas. Coisas como a inconstância da internet em minha casa. Que mistério essas coisas, hein? Um pisca-pisca de conexão, que nme deixa absolutamente insegura!
Bem, aproveito agora que ela está on para postar esse texto.Qem sabe quando vou voltar a conseguir me conectar de novo?

Saturday, May 30, 2009

Juiz de Dentro (do meu coração)

Acabo de voltar de Juiz de Fora, onde descobri amigos novos, encontrei amigos antigos, e vibrei ouvindo falar de literatura. Gente, como gosto disso! Seminários, seminários, seminários... Passava o dia inteiro no auditório, e, quando terminava, uma sessão ainda mais divertida começava: os seminários no bar. Aquela mistura de receitas com filosofia, de moda com cinema, de fofoca com ciência. Ia dormir sem vontade, acordava sem precisar de despertador, sorridente, me sentindo parte de uma humanidade perfeita, de gente que sonha e analisa, que desmonta e constrói, que reparte leituras e mundos com uma generosidade onde o altruísmo se mescla com uma boa pitada de narcisismo. Conheci a Prisca, velha amiga do HP a quem nunca tinha visto. Ela se desculpou de não estar colaborando com o site, mas claro que não era preciso. Nossos momentos são, infelizmente, contados. Temos uma parca ração de tempo. Prisca investe na carreira, eu já estou, há muito, desencaminhada. Sem carreira a seguir, persigo sonhos. E vou acumulando saudades de tudo. Viva a UFJF!

Tuesday, May 26, 2009

Um café e a conta

Não fui entrevistar ninguém, nem mesmo ser entrevistada. Só me sentei ali porque havia uma mesa vazia e eu tinha tempo e um livro para ler. Pedi o café. Junto veio uma história, um sujeito apaixonado, reclamando de sua amada pelo celular. Depois de separados por um ano, um ano e meio (essa imprecisão me enlouquece, não funcionaria num conto!)  Ela topa sair de novo com ele. Foram jantar. Ele pensava em levá-la para cama (juro que tudo isso eu ouvi, e não tinha como não ouvir, ele falava alto, no celular, e sua cadeira estava ao lado da minha). Ela "conversou legal", mas de repente, danou de falar de um outro, o tal que ela namorou durante a separação. Mas ele não desistiu, queria levá-la para casa, transar com ela, pois era natural, depois dessa separação, afinal, ela o procurara, aceitara sair numa sexta à noite. Mas aí ela tomou dois copos de vinho e apagou. A mulher do outro lado, pois agora ele já tinha dito o nome da interlocutora, deve ter querido saber o que ele queria dizer com "apagou" e ele repetia, "apagou, apagou, passou a falar coisas desconexas, os olhos ficaram vidrados, apagou!" Mas ele não se conformou. Propôs saírem outra vez e a amada aceitou, mas no dia D disse que não tinha com quem deixar a filha. Mas o apaixonado reclamava: "Como é que ela aceitou sair e não fez planos para deixar a filha com alguém? Ela aceitou, e no dia quis desconversar, quis arrumar uma desculpa…"
Eu estava completamente fisgada pela história. O homem já era bem maduro, mais de sessenta, ele aparentava, mas se conservava, os cabelos estavam todos lá numa farta cabeleira grisalha, as mãos eram bem tratadas. Não vi seu rosto todo, só o perfil. Fiquei pensando que a mulher tinha que ser bem mais nova, para ter uma filha que precisasse deixar com alguém. Será? Mas aí ele disse que ela, naquela idade, não ia arrumar mais ninguém. Ou melhor, ia, sim, mas um tipo de gigolô que lhe tirasse o pouco que ela ainda tinha. 
Ele continuou falando e reclamando, querendo aquela mulher de volta. Estava claro que ele dizia tudo aquilo para que a amiga fosse intermediar, fazer as pazes dos dois. Mas eu sabia que não ia dar mais. Que mesmo que ela fosse para a cama com ele, ia ser só por cansaço, por desalento. Não era ele quem acendia suas pupilas, pelo contrário, ele as apagava. E, na verdade, quem é que ia querer um homem que ficava assim no celular, contando tudo o que se passara entre eles, deixando que uma bisbilhoteira ficasse acompanhando a história feito novela? Paguei minha conta e vim para casa, escrever. Ele continuou, se queixando, insistindo. Eu aposto que a amiga, do outro lado do celular, já estava quase apagando!

Monday, May 25, 2009

Twitting

Cara, entrei no twitter! Não aguentava mais saber que todo o mundo andava brincando com uma coisinha nova, menos eu.  Consegui entrar, consegui colocar uma foto e já tenho até seguidores. UAU! Agora, a pergunta que não quer calar: será que vou brincar muito com isso? Até que tenho dado as caras no facebook, mas essas coisas tomam muito tempo da gente. Tempo que me falta para ler e escrever e ir ao teatro e ao cinema, essas coisinhas básicas. Bem, fui ao cinema, ver Desejo e perigo. Bom filme, com uma história tão bem urdida que a gente não se desliga dela nem mesmo nas tórridas cenas de sexo. (Comentário que ouvi de uma amiga: "A Fulana disse que tinha posições que ela não conhecia… acho que ela está pensando que faz sexo, mas faz é outra coisa!")
Fui ao teatro assistir a peça da Susana Fuentes, que ela escreveu e ela mesma representa. Fiquei impressionada! Bem montada, com um texto poético e engraçado, e recursos teatrais explorados com muita elegância. Fiquei amiga do sumido Ramón, da vaidosa Rodinha e do Balão das lembranças. Me encantou a música tocada no acordeão, com seus gemidos que soam tão franceses, românticos. E ela também toca flauta, improvisa uma banda de circo com a platéia, envolve a todos com a magia do palco. Foi uma ótima noite. Prelúdios, chama-se a peça, e ontem foi o último dia, mas vamos torcer para ela ir para outro local, encantar mais gente!
Também li o livro do Leandro Resende, finalmente! Estava comigo há meses, mas entre viagens e trabalhos atrasados, ia adiando, certa de que ele compreenderia a demora. Agora li, e adorei. Meu companheiro de Histórias Possíveis, alguns dos contos eu já conhecia de lá. Mas os que ainda não tinha lido me surpreenderam com suas inovações, o caráter telegráfico de textos que vão sendo lançados de um lado a outro, construindo um painel que os ultrapassa, tudo muito legal. Estou muito contente por ele. Adoro meus amigos!
Para terminar, um poema de Chico Buarque de Hollanda, Soneto. É uma letra de música, mas vale sozinha, assim, e espero que inspire a semana de todos.

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio

Saturday, May 23, 2009

Aviso aos navegantes

Gente, recebi uma coisa incrível da Gerusa, amiga de Pernambuco (Ah, Recife, cidade dos meus amores…) e coloco aqui o link para vocês poderem imaginar;
Trata-se do I leilão de manuscritos. Quem dá mais? Eu dava tudo para poder estar lá assistindo. Infelizmente, não tenho manuscritos. Não escrevo a mão. Meus originais estão nos arquivos de GZK (sabe a brincadeira do Kubrik? HAL era o nome do computador revoltado, que tinha sido batizado com as letras anteriores a I-B-M, daí que, supondo que o alfabeto forme uma roda contínua, o meu computador imaginário se chama GZK, letras anteriores a H-A-L). Voltando aos manuscritos – lindos, pessoais, verdadeiros quadros – acho que devia copiar meus livros a mão, em folhas soltas, de boa qualidade, e depois… não sei, talvez forrar as paredes com elas. Isso é um projeto para depois, um dia que me sobre tempo. Ou que me falte inspiração. Por enquanto corro atrás das tarefas, que abandono de vez em quando para escrever historinhas novas. Daí que na quarta-feira, dia 27 de maio, o blog do Prosa vai postar (acho que não cabe publicar, mas talvez caiba) um conto meu: Lorelei. Escrevi especialmente para o Prosa, me sentindo muito feliz e completamente "prosa" pela chance de participar do espaço.
Aqui vai o link, para vocês já colocarem nos favoritos e irem sempre até lá:

Thursday, May 21, 2009

Vãos pensamentos, dores igualmente vãs

http://www.youtube.com/watch?v=XwrDPucMO4k

Quem clicou já pode ver o meu estado de ânimo nesta manhã de maio. Creio que estou ficando cliclotímica ( não é esse o novo nome para bi-polar?) Um dia, eufórica ( bem, nem tanto) com as notícias da brasiliana, outro deprimida e desanimada.  Bem, mas hoje é meu dia de UFF, preciso funcionar, daí que vou à luta.

Wednesday, May 20, 2009

Brasiliana, José Mindlin e Zezinho

Não sei do que falar primeiro: Dr. Mindlin e  sua incrível simpatia e paixão compartilhada? A Brasiliana, orgulho de nosso país, apresentada ao mundo todo? Ou o Zezinho, esse incrível robot, criado para ler livros e compartilhá-los? Acho que fico com o Zezinho, que eu aperfeiçoaria e já o conectaria com um chip na minha cabeça, e me alimentaria, incessantemente, com páginas de histórias e Histórias, de sabedoria e diversão.  Quero o Zezinho! Mas, será que o prazer da leitura poderia ser substituído pelos implantes de chips? O processo de decodificação dos textos não seria a fonte de todo o prazer de ler? O que nos atrai na leitura, o ato de ler ou o conhecimento da história? Acho que é da combinação das duas coisas que nasce esse prazer (como, talvez, todos os prazeres – estímulo e estimulado). Daí que meu pensamento-borboleta já se dirige a outra flor colhida no jornal da manhã: o movimento dos sem-namorados. Combino-o com a entrevista que assisti, outro dia, a uma médica que se dedicou a estudar o cérebro dos apaixonados, e traduz paixão em dopamina, serotonina e outros "inas". Ela escaneia cérebros de pessoas apaixonadas e tira suas conclusões a partir das partes dos cérebros que se iluminam. Fico pensando (estou muito cibernética, hoje) num novo cartão para o dia dos namorados, onde apareça o catscan do remetente e as palavras: meu cérebro se ilumina quando te vê, ou quando pensa em você ( a versão visual é para os remetentes do sexo masculino, a outra é para os remetentes do sexo feminino, pois, no estudo, a Dra. descobriu que as mulheres amam através da memória, e os homens através da visão). O mais incrível de tudo é que ela gosta de poesia, essa doutora, diz ser uma apaixonada leitora de poesia. Voltamos, assim, ao Dr. Mindlin, que, enquanto sua esposa foi viva  e ele ainda enxergou, todas as noites lia poesia para ela. Na sua simplicidade, ele dizia: ela gostava de escutar poesia, e eu de ler poesia em voz alta, era um casamento perfeito. Ah, Dr. Mindlin, o senhor nem pode imaginar como o meu cérebro se ilumina ao falar do senhor. Pois não deve ser só a paixão que provoca belas cores em nosso catscan, mas a amizade e a admiração também devem ter as suas luzes especiais. Gosto do senhor e da sua família, adoro um dos livros da sua filha Betti, Muqueca de maridos, imperdível recompilação dos mitos de origem do ponto de vista feminino (a Betti é antropóloga). E deixo aqui, para meu publiquinho pequeno, mas fiel, e que tem se ampliado com a adesão do David e de outros recém-chegados cujos nomes ainda não decorei, mas que são muito benvindos, o agradecimento pela Brasiliana.

Sunday, May 17, 2009

Domingos de sol

Adoro essas manhãs preguiçosas de domingo, quando o sol nos convida a um passeio, mas o corpo, preguiçosamente, se recusa a sair. Ficamos, então, passeando apenas em pensamento, o olhar comprido mergulhado no azul, nos azuis que competem em beleza entre si. Meus leitores devem ter percebido o quanto me agrada a cor azul. Agrada tanto que não titubeio em pintar de azul os olhos de meus personagens. Volta e meia aparece um de olhos azuis, o que não significa que a cor imaginada seja mesmo azul. É o espírito de alguns olhos que são azuis. Meu amor tinha olhos azuis, embora os dele fossem castanhos, escuros. Mas ele tinha essa qualidade de olhar, olhos que, ao olharmos dentro deles, nos mostram surpresas, abismos, liberdade e sonho. São olhos que nos convidam a aventuras, ao mundo. Não hesitamos em aparelhar nossas naus e partir. Ou, mais impacientes, largamos tudo e mergulhamos, em ondas que nos sustentam e nos trazem, sãos e salvos, para a praia.
Passeio no barco que tivemos juntos e ancoro, mais uma vez, entre as Cagarras. De lá julgo me ver aqui nesta torre, prisioneira, desejando quem já partiu. Vejo-me a me contemplar, e me pergunto se algum dia alguma lágrima desceu pelas minhas faces salgadas, apiedada. Mas sei que não. Ao lado dele, julgava que o que via era uma miragem, impossível de acontecer. Nas minhas faces apenas os seus lábios deixavam traços doces, desenhando um mapa de meus prazeres.
Imagino beijos, borboletas, pássaros e nuvens se desfazendo no azul. Sonho com o nada. Azul.

Friday, May 15, 2009

Frases que ando lendo - o retorno

"No 'homem cordial', a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência".
Todo mundo conhece o termo, mas acho que poucas pessoas leram o excelente Raízes do Brasil, do pai do filho famoso, Chico. É engraçado ver como gerações diferentes identificam as pessoas de maneiras diferentes. Tenho amigas mais velhas que falam daquele menino, o filho do Sérgio, ou, até mesmo, o filho da Maria Amélia. Para consumo atual, temos que falar no cara que é pai do Chico Buarque. 
O Sérgio ( e aqui se manifesta minha cordialidade, afastando o nome de família) não é o pai do termo, cunhado por Ribeiro Couto. Mas é o pai do homem menos cordial da história do Brasil: seu filho preserva sua intimidade, é polido, civilizado como um japonês, pouco expansivo nos seus atos - embora seja dos mais expansivos nas suas obras. Somente as palavras do Chico são cordiais, e nos aproximam de seu coração dele. (Essa construção meio arrevezada, tirei do José de Alencar, não é erro, não.) De uma certa maneira, também é pai do "My man cordial", já que foi um dos fundadores do PT, e o PT floresceu em Lula, personificação mais perfeita do homem cordial tal como explicado por Buarque de Holanda. Essa sacação da cordialidade do Lula não é minha, é de Lívia Reis, minha orientadora e amiga de toda a vida.
Voltando às amigas mais velhas, uma delas contou um comentário de D. Maria Amélia (que já vai chegando aos 100) sobre o filho: "Ainda bem que ele não entrou em decadência." O que será que ela quis dizer com isso? Eu agora vou me labirintar com Borges, lá no TELEZOOM. Bye!

Wednesday, May 13, 2009

Fotos no facebook

Oi, Turma.
Consegui. Postei algumas fotos no Facebook. Vou ver se consigo postar outras. E depois vou ver se descubro como vocês podem ir até esse tal de Facebook, se é que vocês ainda não sabem.

Frases que li hoje

Hoje estava lendo A Prisioneira, de Proust, e ele descreve Albertine como um ser em fuga, uma amante que lhe escapa entre os dedos e que por isso mesmo ainda se torna mais desejável. Aí está o cerne do amor e do ciúme em Proust: a incapacidade de se possuir o que se deseja, pois só se pode desejar aquilo que não se possui. Os amores serão sempre infelizes, em Proust, e desencontrados. Uma gangorra amorosa, pois quando um deseja o outro se escapa, e quando o outro deseja, o um já não o pode amar…
Outra descrição digna de nota são os "olhos fragmentados". Fiquei lembrando de Machado. Num, o perigo, noutro, a desconstrução, quase pós-moderna. Olhos fragmentados: uma escolha vocabular tão inesperada, que nos obriga a pensar que, afinal, Picasso já estava pintando e fazendo sucesso nesta época. Quando foi que o mundo passou a ser visto como um caleidoscópio? O impressionismo, o fauvismo, o cinemascópio, tudo isso revelava uma nova maneira de olhar, que nos afastaria cada vez mais da UNIDADE. Um mundo que se desfaz, visto por olhos fragmentados. Impossível harmonia, como diria Alejo Carpentier, anos mais tarde, em seu Concerto Barroco.
Bem, depois de amanhã tem mais um encontro no Telezoom. Mais labirintos, desta vez, espero, com o powerpoint funcionando direitinho. Meus slides estão bem bonitos. Os contos que escolhi para comentar são excelentes. Tomara que tudo dê certo.
 Agora vou a Mariátegui, a Sérgio Buarque de Holanda, a Nélida Piñon. Mistura de UFF e Rascunho que vai ampliando a fragmentação de meu olhar.Pois, foi com Mário de Andrade que aprendi que é preciso ser trezentos, ser trezentos e cinquenta.

Tuesday, May 12, 2009

Beleza pura

Tanto trabalho, tantas leituras, mas não resisto: não tenho tempo para escrever, mas coloco aqui um mimo, como diriam Marco Polo, Breno, José Manoel e meus amigos de Recife:
O que eu queria mesmo era já colocar o vídeo, para vocês já irem se deliciando, mas vale o link, que é a única coisa que sei postar.
Deleitem-se. Escutem em pensem  nos amores de suas vidas. E ofereçam para quem merecer. Eu ofereço a vocês, meus leitores, com emoção.

Saturday, May 09, 2009

Facebook, dia das mães, idéias desconexas

No meu proverbial desajuste internético e computadorial, vou levando uma vidinha não de todo desconectada. Capenga e surpreendente, decerto, mas muito melhor do que a alternativa:
Escrever à mão, por exemplo, para mim é uma dificuldade: minha letra pequena (mínima, dizem alguns) e pouco caprichada se torna ininteligível até mesmo para mim. E tenho a mania de só escrever com lapiseira 0,5 mm, com mão leve, delicada, sem deixar marca no papel (me corrigiram muito para que isso acontecesse). Resultado: o pouco que consigo ler, em breve torna-se apagado e desaparece.
Escrever à máquina também não me serve. Meus dedos fracotinhos, que nunca conseguiram aprender a arte da datilografia, se intrometem entre as teclas e se ferem. Houve um tempo em que eu ostentava band-aid em quase todos os dedos da mão direita ( o polegar escapava) e no indicador e dedo médio da mão esquerda. 
Tenho um caso de amor com computadores, mas é um amor mal-correspondido. Eu o amo, tento seduzir, ofereço o que tenho de melhor, mas ele me maltrata, indiferente aos meus carinhos. No entanto, malandro, me dá sempre o suficiente para que eu não abra mão de nosso caso.
De vez em quando troco de "amante", mas eles todos são da mesma laia. Esse agora, um Apple, tem a vantagem de ser lindo. Artístico! Me dá vontade de experimentar com um monte de coisas para as quais não tenho tempo (nem talento, diga-se de passagem). Ele brinca comigo, oferece coisas que não pedi, mas que são fáceis de usar, então acabo indo na dele. Mas, na hora do trabalho, ele às vezes, me prega uns sustos, mudando de tela, num jogo de esconde-esconde. Como estou falando de Borges em seus labirintos, penso que também estou num labirinto e que ajo como uma Ariadne louca, sem amarras, mas também sem Minotauro que me apavore. Me deixo encurralar em alguns becos, mas depois, com calma, encontro o caminho a seguir…
Bem, quero comunicar a todos que entrei para o Facebook. E para o Plaxo. Legal? Não faço a menor idéia. Durante anos tive (acho que ainda tenho) um Orkut, mas não sei o que fazer com ele. Linkei o Plaxo e o Facebook. Para quê? Também não sei. Tinha essa opção, e achei que seria legal. Deixo o Facebook vigiando o Plaxo e vice-versa. Meus amigos devem achar que vou usar isso à beça. Bem que eu gostaria.
Num dos dois, já esqueci qual, aparece meu estado civil. Não havia a opção viúva, daí que apareço como solteira, com um coraçãozinho vermelho vibrante do lado. Se houvesse a opção viúva, será que apareceria um coração partido? 
Voltando ao Facebook, parece que todo o mundo se comunica por ele e pelo tal do twitter, que desconheço. Acho que estou lascada. Mandam fotos, informações, trocam juras de amor, enviam documentos, e eu mal consigo manipular meu imeio. Como é que vai ser? Onde vou arranjar tempo para ler tanta coisa, escrever, publicar, encontrar URLs, fazer uploads, inserir filmes, etc, etc? Aprendo uma coisa e já me soterram com novas necessidades.
O pior é que as necessidades do passado não desaparecem. Daí que não vou poder celebrar o dia das mães pela internet. Vamos celebrar ao vivo e a cores, em duas reuniões, sábado e domingo. Em compensação, já coloquei todas as fotos no computador, graças a um "chupa-cabra" que descobri e adquiri, feliz por não precisar mais do meu filho para isso. Gosto de autonomia. Agora só preciso descobrir como colocar as fotos do Pantanal e da Chapada no Facebook. Aí terei colocado, finalmente, meu pé no século XXI!
Para terminar, coloquei minha foto, tanto no Facebook quanto no Plaxo. Numa estou me escondendo atrás de meu livro emblemático. Noutro estou sendo atacada pela natureza em fúria, personificada pelo Chico, uma macaquinho safado, que queria roubar meus óculos de leitura. E roubou! Tive que fazer mil acrobacias e trapaças para conseguir de volta os meus olhos.
Bem, se algum de meus leitores souber como utilizar essas duas maravilhas internéticas e quiser me ensinar (sem muitas complicações) para que servem, agradeço.
Feliz dia das mães, para quem o for, para quem as tiver, para quem não está nem aí, mas quiser curtir um belo domingo.

Friday, May 08, 2009

Dendrolatria


Tinha uma lista de coisas sobre as quais queria escrever, mas o tempo não estica e eu, indo de um lado para o outro no espaço, só me desloco num único sentido no tempo (isso foi tema de minha aula hoje no Espaço Telezoom: Labririntos de Borges).  Como o tempo não estica e se desloca num único vetor e eu estava no carro ou pelas calçadas do Leblon, não anotei as coisas e acabei me esquecendo delas. Uma, porém, consegui gravar, pois munida do celular e de meu inepto talento para as fotos, registrei em imagem que agora compartilho com vocês, queridos e desconhecidos leitores: 
Ao parar para atravessar uma rua en

contrei uma árvore florida, bela em sua singela oferta de cores e vida a uma rua do Leblon.
Quem saberá me esclarecer dos mistérios da internet?
Estou desde ontem tentando postar esta foto, e agora que consigo, tudo muda.
Estou escrevendo da direita para a esquerda, as letras saem numa cor que não escolhi, acho melhor parar e continuar em outro post.
Bye.

Thursday, May 07, 2009

Lady Frankenstein

Vejo uma imagem e as idéias me assaltam. Estamos presenciando a criação de Mary Shelley nos vídeos do mundo afora. Costurar, colar, unir pedaços de gente que já se foi, e pedaços de gente que por aqui ainda anda. E essas colchas de retalhos falam, nos emocionam, nos assustam e nos empolgam. Mary, será que ao lermos tua história hoje em dia ainda nos assustaremos? Ainda sentiremos algum arrepio na nuca? 
Penso numa época em que a esfera era sinônimo da perfeição. Como tal, era sagrada. Falar do círculo ou da esfera era falar de Deus. Com o tempo, o divino foi perdendo sua substância, até que Aristófanes, o engraçadinho grego, fez piada com isso, cortou-os ao meio, combinou-os por gêneros, explicou amor e homossexualidade com essas imperfeições marcadas pela sua cicatriz.
Agora explicamos a vida toda através da cicatriz. O monstruoso torna-se assombroso, e nem mesmo isso: engenhoso, apenas. Olhamos por alguns segundos, e já pensamos em outras coisas, em enchentes, em secas, em aviões que caem, em países que desmoronam. Nem lembramos do nome do criador nem da criatura. Mary, acho que já ninguém compreenderá o susto que tua história gerou. Hoje tua criação é pasto para possiveis engraçadinhos pós-modernos. Mas a pós-modernidade não sabe rir de si mesma. Leva-se muito a sério, sem sonhos nem delírios. Exibe a realidade e a fragmenta, como criança entediada que após construir a torre de Lego a desfaz, procurando uma nova distração. Em algum lugar de minha lembrança, tão fugaz, grava-se a lembrança desta Lady Frankenstein. Dizem que ela sorri, testemunham sua fala e seu júbilo. Eu não vi nada disso. Vi a cicatriz. Olhei os olhos de um ser solitário, criado pela mão humana, após ter sido destruído por mão desumana. Vi uma solidão. Que se multiplica em outros assombros, em mais antigas engenhosidades. Pergunto-me: para quem Mary Shelley contaria sua história nos dias de hoje?

Tuesday, May 05, 2009

Paris e a plástica

Pronto! E essa agora? Acabo de saber que estão pensando em mudar a cara de Paris… Fiquei sem saber o que pensar, e então resolvi filosofar sobre cirurgia plástica. Conheço dois tipos de mulheres muito bonitas: aquelas que estão sempre pensando em melhorar um pouquinho, submetendo-se a todo tipo de cirurgia e tratamento, e outras que dizem que não suportam a idéia de deixar que alguém corte e costure seus rostos. Achei que Paris era deste último tipo, daquelas madames que juram que não fizeram plástica mas que, nas encolhas, deram uma suspendidinha aqui, uma esticadinha ali, tudo muito discreto, com elas cheias de medo de que alguma coisa não dê certo, mas sem resisitir a tentar manter sua beleza. Agora vejo que Madame quer se submeter a uma cirurgia radical, a famosa cirurgia macacão, da qual não escapa nada.  Uma reurbanização. Isso porque, na meia idade, bem, ali pelo século XIX, Madame, na época casada com Napoleão III, não resistiu e contratou o famoso cirurgião urbano, Barão de Haussmann, para lhe fazer uma plástica radical. Suas irmãs, pelo mundo afora, seguiram seu exemplo. Aqui no Rio, o cirurgião contratado foi o Pereira Passos. Confesso, tanto Paris quanto o Rio ficaram lindas, mas Paris conservou o trabalho de seu cirurgião, enquanto o Rio danou-se de fazer modernizações e a bela Avenida Central desapareceu. Hoje, a Rio Branco, praticamente não tem mais nenhum dos prédios do início deste século. Sobrados pelas redondezas caem ou se incendeiam, ou são dilapidados pelo descuido de seus proprietários. Quando a gente vê esforços como os do pessoal da Rua do Lavradio, até se admira. 
Semana passada fui a um prazeroso encontro na R. Sá Ferreira, na Casa Vuillot (acho que é este o nome), uma casa construída por Virzi, o mesmo arquiteto da Mansão Martinelli. Confesso que, embora tenha sido moradora do posto 6 por muitos anos, não conhecia a casa, nunca tinha notado aquela construção esdrúxula, que se projeta em ângulo, como uma ponta de seta agressiva. Hoje, graças à Prefeitura, a casa foi toda reformada e virou uma biblioteca. Somente ao entrar reconheci o encanto que a construção possui. Misteriosa, submarina, com cantos e recantos em ângulos agudos ou retos, mas nem porisso menos evocadora de um útero (um útero projetado por um engenheiro, pode ser), oferecendo a possibilidade de vida, de um renascimento, que agora se concretiza ao ser transformada em biblioteca. Foi um presente que minha querida Rachel nos ofertou, mais um tesouro escondido dos muitos que ela possui, e que divide, generosa, com seu grupo.
E, no entanto, apesar de meu aparente saudosismo, também gosto de apreciar as novas construções. Toda semana, quando vou a Niterói, me maravilho com o perfil dos prédios no centro da cidade. Passando pela Perimetral (pois assim visito todas as belezas da orla), sempre me encanto com o contraste entre o moderno e o antigo, no reflexo do prédio antigo nos espelhos do arranha céu a seu lado. Olho para o mosteiro, escondido ali sobre seu pequeno monte, e imagino o que não pensam aquelas paredes que viram a cidade crescer. Parece um avozinho, maravilhado com netos altos e fortes, que já nem falam mais a mesma língua…
Não quero me estender muito mais, porém recordo um tempo em que a enseada de Botafogo e o próprio Aterro eram circundados por cartazes luminosos, que amenizavam os longos engarrafamentos dentro de ônibus calorentos. Eu lia e relia as manchetes de um jornal luminoso, precursor da internet, informando-nos das últimas novidades, exasperando-nos com a temperatura, e mostrando, implacável, a passagem do tempo. Ou me distraía olhando o balé das cores das lâmpadas que se acendiam e apagavam, ora azuis, ora vermelhas, ou verdes, ou brancas, ou amarelas, nos cartazes de tantas empresas desaparecidas.
Mas chega de saudade. Deixo de lado a lenda do palacete Martinelli, já abandonado, quando eu passava por ali. E outras memórias, mais modestas, dos mosaicos das calçadas, dos vendedores de cataventos coloridos, dos parques com fontes em que se podia matar a sede... Fico aqui no meu Leblon, que já foi só de casas, no alto de minha torre, olhando minha nesguinha de mar. Hoje água e céus estão prateados, tão diferentes do colorido de ontem que até posso acreditar em gênios que, durante a noite, transportam cidades inteiras para lugares bem distantes. Estou, talvez, às margens do Sena, na nova Paris…

Sunday, May 03, 2009

uma notícia triste

Leio no jornal sobre a morte do Boal, o criador do Teatro do Oprimido. Quantos sonhos morrem quando morre uma pessoa? Boal, creio eu, levou esperança e compreensão a tanta gente, aqui e pelo mundo. Iluminou um pouco a minha juventude, deu esperanças ao meu idealismo, `a minha vontade de fazer algo pelos nossos irmãos – só em nome, infelizmente.
Nos dias assim tão lindos a morte nos parece tão distante, que é difícil acreditar que haja gente morrendo. Principalmente Gente assim, com maiúscula, que tocou corações e mentes e que eu gostaria que nunca fosse esquecida.
Como diria Drummond, ele (e nesse pronome cabe tanta gente!) agora é apenas um retrato na parede. Mas como dói!

O tempo passou na janela...













Caraca, mano! Há quanto tempo não escrevo. Já estamos em maio, o mês mais cruel já passou (T.S. Eliot), chegamos ao mês das noivas, das mães, de Maria, e eu num silêncio beneditino, trabalhando em coisas de literatura, me preparando para as aulas da UFF que assisto sem passividade, e para as aulas que dou para meus grupos queridos.
Falei em tempo passando na janela e olhei para fora, para ver o dia lindo, espetacular, um verdadeiro dia de maio, com sua luminosidade especial. Mas, enquanto vejo coisas belas, penso nos e-mails com que meu amigo Márcio F. me presenteia todos os domingos: e-mails de arte, sempre com belas imagens e informações interessantes. Hoje, a propósito do dia, ele me mandou as gravuras que roubei para ilustrar minha postagem. Três de maio, chamam-se as pinturas acima. Um dia tão violento, que marcou a imaginação de três grandes pintores, mas que hoje se apresenta numa versão calma e suave, cheia de beleza e, me parece, aqui do alto de minha torre de concreto, de paz.
Estou sumida do mundo, mas não deixo de amar meus amigos, em silêncio. Neste post homenageio a todos os que não têm recebido uma palavrinha minha, mas que não saem de meu coração: Para umas, o caraca, mano, private joke. Para outros, as imagens, para mais algumas, o Eliot. Para o meu amor, a lembrança de outros dias de maio, cheios de menções a Baudelaire... Para meus leitores, meu coração, que bate sem esperanças, mas que não se cansa de contemplar o jardim!
Só para terminar, mais uma bela imagem de uma fotógrafa inepta, mas sortuda:

Monday, April 27, 2009

Capivaras outra vez?

Nem todas as capivaras são iguais. E eu não pretendo me transformar numa nova Cora Rónai, escrevendo artigos em defesa do estilo de vida destes animais.  Mas, de volta ao Rio, com muitas fotos de capivara, já que elas estavam por toda a parte no Pantanal, e as aves e outros animais que eu pretendia fotografar eram apressados e deixavam o cenário antes que minha câmera inábil as clicasse, me vi com um acervo que faria inveja a qualquer estudioso dessa espécie. Estou viajando na companhia de uma amiga, americana, cujo filho de 12 anos lhe informou, ao ser contemplado com uma das suas também incontáveis fotos capivarescas, que "capybaras are my favorite rodent". Em português: são o roedor favorito deste menino da Nova Inglaterra!

A mãe dele e eu nos admiramos muito, mas o rapazinho é estudioso, está num dos melhores colégios da região,  é um ávido leitor – achamos que isso era coisa de sua educação primorosa. No entanto, ao chegar ao Rio, descobrimos que as capivaras são as favoritas das crianças aqui também. Sem que ninguém desse por isso, as bichinhas entraram na moda! Talvez já estejam até ameaçando o reinado longevo do Rato. Será?

Mas, com essas fotos que coloquei aqui cheguei à conclusão de que nem todas as capivaras são iguais: pode-se perceber um tipo de personalidade em cada um dos exemplares destas fotos. A primeira capivara é tímida, tenta se esconder atrás de um anteparo. Se capivaras fossem alfabetizadas, ela estaria com um livro, enquanto as outras brincavam de pegar entre uma e outra poça. Já a capivara da foto acima é uma sonhadora, que imagina aventuras para além da cerca, ou sonha com algum amor distante. Talvez sinta saudades de um primo que resolveu mudar-se para o Rio, e levar uma vida mais agitada e glamurosa, estampando as páginas de um  jornal.

Este amiguinho aqui em cima é resignado, pensa em se recolher para descansar depois de um árduo dia de mastigação. Como sou uma fotógrafa de muito pouca qualidade não podemos ver seu sexo, que as capivaras macho ostentam sobre o nariz. Bem, não exatamente aquilo, mas os machos têm uma glândula grande e preta no focinho e dividem seu tempo entre pastar, tomar intermináveis banhos de beleza na lama, namorar (rapidinho, prá não cansar) e esfregar o nariz por toda a parte, com evidente volúpia, marcando seu território. 
Então, meus caros capybara lovers, apreciem as fotos e essas gotas de sabedoria de sua amiga zoóloga de ocasião.

Saturday, April 25, 2009

Ontem não deu...

Pois é. Ontem tive um dia cheio. Estou oferecendo uma oficina de contos aqui no SESC Arsenal, em Cuiabá. Mas ontem tive, além da oficina, uma mesa redonda, que não foi assim tão redonda já que era composta apenas de duas pessoas -- uma poeta local, Luciene Carvalho, cujo último livro, Insânia, trata de sua experiência num manicômio onde esteve internada, pelo que eu entendi, por problemas de drogas e bipolaridade, e eu. Claro que eu não podia ter nada que fosse tão interessante quanto a loucura, eu, que sou apenas eu, embora me sinta trezentas, ou trezentas e cinquenta, como na poesia de Mário. Mas vivo no limite dessa Lucia que construí a duras penas, e que vou colando com palavras e lembranças, para não desmoronar. Quem me dera ter uma persona, como revelou a Luciene, que se pode despir à noite para ir dormir. Eu tenho que ir dormir com a cabeça cheia de idéias, frustrações, apreensões, cansaço, nem sempre descanso bem, acordo meio amarfanhada e vou à luta, esticando um pouco daqui, puxando um pouco dali, para fazer frente ao que surge.
Mas Luciene encantou a audiência com sua exuberância, sua palavra fácil e suas confidências. Afinal, ela é uma atriz, interpreta suas próprias poesias nos palcos que encontra. E tem tanta competência que vai abiscoitando os incentivos fiscais e culturais que encontra, o que permite que ela confesse, orgulhosa, que vive de literatura. Ela me faz lembrar a Elisa Lucinda, outra performática, que se expõe corajosamente, com seus versos. Não cheguei a conhecer os versos da Luciene, não aprecio o gênero de versos da Elisa Lucinda, mas isso não me impede de admirar as duas, pela garra que têm pela vida.

Thursday, April 23, 2009

Cuiabá



Dizem que Cuiabá é a cidade mais quente do Brasil. Para mim, que estou vindo do Pantanal, até que não estou achando tão má assim. Vejam: no Pantanal acho que faz o mesmo calor, mas a gente se vê obrigada a andar de mangas compridas, calças compridas enfiadas para dentro das meias, chapéu, sapato fechado ( e o que eu não daria por uma galocha, na hora de andar a cavalo pelos campos alagados!)
É bem verdade que o pessoal daqui vai para a região do Pantanal para ficarem mergulhados nos corixos, que, pelo que eu entendi, são terrenos vizinhos aos rios, que estão permanentemente alagados, embora variem de extensão conforme a época do ano.

Na verdade, a primeira espécie animal que pudemos identificar no Pantanal foi a da foto que aqui vai. Confiram!







É isso mesmo!
Seres humanos, exibindo suas carnes brancas e suas latinhas de cerveja, na água muito transparente, ao lado de todas as 122 pontes da Transpantaneira. A estrada não é asfaltada e as pontes são de madeira. Ao lado de cada um dos quatro apoios da ponte, forma-se uma espécie de rampinha, onde o carro desce de marcha a ré e despeja a família ou os amigos para o refrescante banho de imersão. Ao lado, os jacarés vão lentamente se afastando, indignados com esa usurpação. Ninguém se incomoda com eles, que fogem do convívio humano. Quem também partilha das águas são as incontáveis capivaras. Rebolando, lentas, sempre mastigando, elas parecem as donas das poças e dos charcos. Sua vida parece tranquila e talvez por desfastio, uma ou outra se lembre de dar uma corrida, sempre curta, espadanando muita água. Outros casais combinam um encontro dentro d'água, e com a brevidade que que seus ímpetos preguiçosos permitem, dão uma namoradinha rápida, e depois mais outra, e mais outra... afinal, elas não têm nada melhor para fazer!

Pouco a pouco vamos compreendendo que o Pantanal é a república dos Pássaros. Primeiramente, nossos olhares desacostumasdos não conseguem perceber a grande variedade e o incontável número de aves. Nossos ouvidos, porém, vão reconhecendos cantos diferentes, e em breve passamos a perceber que as sombras não são sombras, e que o balançar das folhas das árvores e arbustos não se deve ao vento, mas à mudança de posição de aves solitarias ou em bandos estridentes.
Amanhã coloco mais fotos e outras impressões pantaneiras.

Tuesday, April 21, 2009

Enquanto as capivaras pastam...

Ilhada, mais uma vez! A internet e o celular n'ao funcionam, so consigo me conectar do computador da propria pousada, que, apesar de estarmos aqui desde domingo, somente hoje voltou a funcionar. A paisagem eh uma beleza, mas o calor nao da vontade de fazer mais do que fazem as capivaras -- pastar, chafurdar numa pocinha de agua e uma ou outra mudanca de posicao. Assim que estiver conectada com o mundo mando noticias de novo

Sunday, April 19, 2009

trapaças da sorte.




Prometi,estou cumprindo, só que com algum atraso, pois não contava com a falta de sinal para entrar na internet. Mas aqui estão algumas das belezas que experimentei na Chapada dos Guimarães. Ficamos na pousada do Parque, e as fotos são de lá: cachoeira inclusive, onde tomamos um banho que lavou corpos, corações e mentes, até mesmo as almas. Esta foto imediatamente acima é para dar uma idéia de como foi nossa caminhada no mato. Era assim mesmo, sem caminho, pisando entre folhas e galhos, engolindo um medo danado de encontrar alguma cobra. A primeira foto está classificada como "outono na Chapada" -- não acham que é apropriado? E a da formação rochosa se inttula Máquina de costura, pois é ao que se assemelha. Agora ciao!

Thursday, April 16, 2009

Lucia já vou indo

Este é o nome de uma historinha infantil, da qual não lembro nada a não ser o nome. A Lucia era uma tartaruga, ou uma lesma, alguma coisa lenta, que estava sempre atrasada. Eu já sou de outro tipo. Cumpro horários, não costumo me atrasar, mas estou sempre indo a algum lugar. Então, até amanhã, na Chapada. Não tive tempo de passar as fotos para o computador, mas garanto a vocês que vou conseguir colocar fotos da Chapada. Tenho uma estratégia, me aguardem! Até amanhã!

Wednesday, April 15, 2009

Hello, goodbye

Acabo de chegar, mas é só para assistir a uma aula e trocar de malas: já estou de partida de novo. Desta vez vou a trabalho, uma oficina de contos no SESC Arsenal, em Cuiabá. Só que não resisto ao desejo de dar uma espiadinha na Chapada e no Pantanal, por isso vou uns dias antes. É cansativo, mas acho que vale a pena. Desta vez levarei o computador, e minha intenção é postar algumas fotos de lá. Na verdade, queria postar fotos da viagem a Colômbia e ao Panamá, mas ainda estão na máquina, não sei se terei tempo para fazer isso ainda hoje.
 Mas quero que todos saibam que adorei a viagem, apesar de achar que San Andrés não vale a pena (é muito sacrifício, muita distância e temos aqui coisas tão belas ou ainda mais belas do que lá). O que chateia na viagem à Colômbia, é o infernal ritual de abrir e fechar malas. Quando chegamos, temos que abrir as malas. Quando saímos, também. Só que despachamos a mala, que vai para o avião, não temos mais acesso a ela e, ao chegarmos em nosso destino, temos que abri-la outras vez. E tudo isso acompanhado de uma infinidade de papéis a serem preenchidos em não sei quantas vias. Tudo é muito burocrático e as filas são onipresentes e looongas. Em compensação, recebi beijos e mais beijos de Augusto Xavier, vi a casa de Garcia Marques, ouvi histórias de piratas, bucaneiros, flibusteiros e corsários, andei pelas ruas floridas de Cartagena de Indias e depois nadei nas águas multicoloridas de San Andrés. Bem depois coloco as fotos de Augusto Xavier para que todos morram de inveja! E as fotos do Aquarium, e tudo o mais que conseguir desentranhar da máquina. Se der, até um filminho das eclusas do Canal do Panamá. Adorei o Panamá. Bem, não tenho intenção de voltar lá, mas gostei do povo, da comida, da cidade que está em pleno crescimento, de ver os barcos, cada qual mais maravilhoso que o outro. (Estou falando de iates e veleiros particulares deslumbrantes) Parece o Mônaco da América. Se eu estivesse começando a vida, acho que lá seria um bom lugar para ir trabalhar. Um país em pleno crescimento, dinâmico. É bem verdade que eles têm 9 meses de chuva ao ano, e pode ser que minha opinião fosse bem diferente se tivesse chegado lá em maio... Mas, com só posso falar do que vi, fica minha impressão positiva.
Hasta la vista!
Ah, Feliz Natal, para quem é de Natal, Feliz Páscoa para quem é de Páscoa e feliz aniversário para as muitas aniversariantes do mês: Angela, Maria Helena (é hoje!) Kim, Dedei, Sílvia....Nossa! Ainda tem mais, mas vou parar por aqui.

Saturday, April 11, 2009

Sabado de sol em San Andres

Amigos
estou longe de casa, na Colombia, num computador estranho e sem acentos. Desculpem a falta de noticias, mas depois faco um resumo da viagem para todos. Estive em Cartagena de Indias, agora estou en San Andres e antes de ir para casa, passo pelo Panama, onde espero poder visitar o canal.
Se nao der para conectar amanha, desejo a todos uma feliz Pascoa. Por favor, coloquem os acentos e as cedilhas e a pontuacao necessaria. E obrigada por me lerem, viram. Esse e meu maior presente.

Sunday, April 05, 2009

Mais um domingo de sol no Rio…

É impossível não amar esta cidade num dia como o de hoje. A temperatura amena e os tons do céu e do mar parecem um convite à alegria e ao bom humor. Sorrio, portanto, com o carinho da Cris: obrigada, amiga! Tomara que dê certo. É verdade que ali na enorme lista dos inscritos tem muita gente boa. Flavinho alça sua "cabeça baixa", entre os romances, e eu, por um lapso, esqueci de colocá-lo no post passado. Ele é amigo querido, claro que estou torcendo por ele, também. Mas não vou mencionar todos os amigos, nem falar mais nesse assunto. Volto ao meu bom humor domingueiro, mesmo com o estresse da véspera da partida, e o atraso dos trabalhos. Mas lembro do filme que assisti ontem: Simplesmente feliz. Concluo que o bom humor constante de algumas pessoas pode ser muito irritante para outras. Que saco! O mundo se acabando e a fulana ou o fulano rindo como uma imbecil, ou um drogado. 
Me lembro de uma consulta médica que muito me ofendeu – o médico, um mal-humorado crônico, achou que eu era burra como uma porta, só porque eu sorria, tentando ser simpática. E transformou a consulta numa sessão de tortura, tentando desaparafusar o sorriso do meu rosto. Eu, por teimosia, insistia no sorriso, mas por dentro tinha vontade de dar-lhe um tabefe. E assim ficamos, por toda aquela longa meia-hora, medindo forças, até que ele me dispensou e eu saí dali aliviada, para nunca mais voltar! Mas fiquei indignada, por ter de pagar por isso! O que vale é que a minha memória é seletiva: lembro do caso, mas não há maneira de me lembrar do médico. Vai ver que isso nem aconteceu comigo, mas alguém me contou a história da qual me apropriei, por me colocar no lugar da pessoa. Tenho memórias que são desse tipo – produzidas pelos outros.  Há coisas que me contam a meu respeito e que eu acredito que tenham se passado, mas das quais não tenho a menor recordação própria. Só que, de tanto a pessoa insistir, assumo aquilo como uma memória possível, e passo a guardar a versão da pessoa sobre o meu passado. Este episódio difere ligeiramente. Talvez eu tenha elegido essa versão de alguém como própria – afinal, combina comigo, sou uma sorridente contumaz, e ouvinte atenta. Nas conferências, sinto, muitas vezes, que sirvo de ponto de referência para o falante. Olho atenta, sorrio, concordo, balançando a cabeça. Se discordo, aperto os lábios, numa mímica de dúvida ( ia dizer num esgar de dúvida, mas achei a palavra muito pedante). E tenho grande amor por boas histórias. Me lembro que a editora, por ocasião de meu primeiro livro, me pediu uma "biografia" para colocar na orelha do livro. Aquilo me deixou absolutamente perplexa: quem poderia estar interessado na vida que levo? Não tinha nada para contar: nasci, fui para o colégio, aprendi a ler e escrever, casei, tive filhos, enviuvei… Escrevi, então, uma biografia possível e disse que era neurocirurgiã, amante do Salman Rushdie, o que tinha me obrigado a levar uma vida clandestina. Por isso mesmo, por ocasião do ferimento que havia abatido Osama Bin Laden, eu tinha sido levada – por pessoas não identificadas – para as cavernas do Afeganistão, onde tinha efetuado uma operação de emergência salvando a vida do terrorista mais procurado do mundo. Conseguira escapar do sequestro atravessando o deserto sem bússola, fazendo um pacto semelhante ao do Paulo Coelho, mas havia errado a fórmula cabalística e ao invés de invocar o senhor do Mal, tinha invocado um ex-malandro da Lapa que, forçado a trabalhar graças à minha invocação, havia me castigado transportando-me para uma vida sem novas emoções. Isso, ou algo no gênero.  Eles preferiram a versão tradicional: carioca, formada em Letras, pesquisando as diferenças da colocação do pronome demonstrativo entre os romances cubanos e brasileiros etc, etc.  É de morrer de tédio, não?
E o que é que eu faço, então, com o meu bom humor e o meu sorriso?
Enfio em mais alguma outra "vida possível" e conto que sou o leite que o Chico derramou, por não conseguir prestar atenção na minha fervura… Vou sonhando, vou viajando, numa busca incessante de motivos que justifiquem o sorriso que me crucifica o rosto. Vou vivendo.
E aí termino dizendo para o Guido: tenha um pouco mais de paciência com os escritores em geral, e com o Chico e o Proust em particular. Principalmente com o Proust, cuja obra, difamada como coisa de uma "bichinha fútil, fazendo crônica social" é um dos melhores estudos da alma humana que já tive a oportunidade de ler. E peço um pouco de respeito para quem, a fim de escrever, desistiu de viver. Pois mesmo essa minha vidinha sem graça, sem emoções, sem atividades, como é a única que tenho, me é cara. É muito difícil abdicar de sair para passear, de ir ao teatro, de ir viajar, de encontrar com os amigos, para se dedicar, exclusivamente, a escrever. E mesmo quando a gente diz que quer morrer, que só pensa em morrer, talvez o que a gente esteja mesmo querendo é se observar "completo", pois só o fim permite que se compreenda o que passou. Proust ficou uns treze anos recluso escrevendo, e reescrevendo, obsessivamente, sua obra. Viveu por escrito.

Friday, April 03, 2009

Portugal Telecom

André me avisa que estamos inscritos para o prêmio Portugal Telecom. Ah, quem me dera!... Ele e eu vamos ficar torcendo para conseguirmos ser escolhidos nesta fase inicial. Passar adiante, chegar um pouquinho mais para a frente, ganhar uma extensão para nossos sonhos. Os dois irmãos em SESC desse ano também estão inscritos. Vou dizer o nome de nossos livros: Linha de sombra, é o meu. Paz na terra entre os monstros é o do André; do Maurício é Beijando dentes, e ainda tem o Zé Mizé, do Sérgio. Caso algum de meus leitores seja jurado do Telecom, ou tenha amigos jurados do Telecom (basicamente, todos os jurados são professores universitários e jornalistas culturais) favor lembrarem desses livros. E chega de campanha!
Só um comentário pequenino, pois ando muito sem tempo: Já li o livro do Chico Buarque, que gostei e que já emprestei e até já dei de presente – não admira que o livro se esgote, é um presente que agrada, pois todo o mundo quer ler. Do livro só não gostei do nome : Leite derramado. Talvez por que me lembre de frias manhãs do passado, quando, sonolenta, ficava encarregada de tomar conta da leiteira e acabava me distraindo e deixando que o leite se derramasse pelo fogão, sujando tudo, prendendo-se, queimado, do lado de fora da leiteira, deixando minhas manhãs infelizes, e fazendo meu dia ter um cheiro meio doce, meio azedo, forte e insistente, sublinhando outros cheiros mais felizes, como a hortelã da pasta de dentes, e a alfazema dos abraços mais queridos.
Bem, mas, como contei, emprestei para alguém que conhece a família do Chico, e que reconheceu a mãe dele direto. Sabia de que casas ele falava: essa de Copacabana, disse-me ela, ele só conheceu de ouvir falar, quando ele nasceu já não existia. Contou casos de exílios, de infância, de sonhos, de doenças – e repetia, está tudo ali. Mas ela foi categórica: não é um livro machadiano, como diz a crítica, nem proustiano, como eu me atrevi a dizer. Ela não achou nada de Proust ali. Eu, no entanto, achei que o trabalho da memória e as retomadas das histórias, que se repetem, e nas repetições revelam um novo aspecto, é muito proustiano. É um livro triste, livro de velhice e tristeza, de um olhar que se recusa a envelhecer, mas de alguém cuja decrepitude impiedosamente descrita só pode levar à aniquilação. Um livro maduro, bom de ler, sem complicar a vida do leitor, e cujo fantasma do ciúme (seria por aí que a crítica fala que é machadiano?) não leva à criação de uma Capitu, pois Matilde se desfaz, se esconde, desaparece como o leite derramado. E, no entanto, é um livro difícil! Ainda bem que tirei férias do Rascunho e não vou ter que resenhá-lo esse mês.
Para terminar, esta semana peguei um texto antigo de Cortazar, onde ele fala de uma viagem à Índia. Que show! Que diferença de Caminho das Índias!
Por falar na novela, quem é que aguenta ficar uma semana inteira no enterro do falso morto? Morre, não morre, prepara o corpo, desaparece com o corpo, e tudo que a gente queria era ver o festival das luzes e as danças, e quem sabe descobrir um lugar onde servissem comida indiana, para a gente balançar nossas pulseiras e exibir os brincos da Maya, que já estão à venda no Rio?
Enquanto isso, o tempo passa e eu perco meus prazos. Então bye-bye. Vou trabalhar. Sei que é noite de sexta-feira, mas para mim os dias ficaram perigosamente iguais. Então trabalho, que é o melhor que posso fazer.

Wednesday, April 01, 2009

Nobel de literatura vai para brasileira!

Finalmente! O mundo se curva ante o Brasil, e descobre nossa literatura! Infelizmente, esta é apenas uma brincadeira de primeiro de abril, embora, como toda brincadeira, com seu fundo de verdade. Parece que nossa Nélida, que não é brasileira, mas que não o deixa de ser, pois sendo galega é ligada ao Brasil pela língua, alegria e generosidade, é uma das candidatas ao prêmio deste ano. Vamos torcer por ela e fazer de nossa manchete de 1º de abril, uma manchete de 31 de março. Isso já foi feito antes, talvez alguns se lembrem ainda da "gloriosa", quem sabe?
Aproveito para relembrar meus amigos da Galiza. Quanta saudade do sorriso sempre aberto da Carmen, de sua incrível disposição para a vida, de sua capacidade de trabalho! E do poeta e fotógrafo e professor e conhecedor de café, o homem para todas as estações, Carlos Quiroga! E das peças do Quico Cadaval! E das conversas com tantos amigos e amigas nos bares e restaurantes (hmmm!), dos dias dourados em Santiago de Compostela, das ruelas onde os apaixonados se abraçavam com paixão, e enchiam meu coração de saudade!
Continuemos na literatura, vamos falar um pouco dos livros que ando lendo: Numa mistura doida, um coquetel sem método, sem motivações a não ser o mero acaso, junto ensaístas hispano americanos com Amós Oz e Chico Buarque. Já li o Leite derramado. Estou ainda lendo a Caixa Preta e salpico este preto e branco com o matiz intenso de Alfonso Reyes, Cortázar e Borges. Na fila, que sempre aumenta e nunca tem fim, estão Nélida, Nietzsche e Barthes. Me lembrei agora de Machado, que não está na lista, mas que é bem vindo a qualquer hora, dizendo que "quem mamou da teta gótica…", ou seja, quem havia se criado sob a égide romântica, não conseguia se separar dela. Pois eu fui "criada" com o leite derramado de Nietzsche e Barthes. Os outros (Derrida, Foucault, etc.) nunca me pegaram tanto como os dois primeiros, pois estes me pegaram pela emoção e os outros pela razão. Mal comparando, estes últimos seriam "amas-secas", e não de leite (viram o trocadilho? juro que foi acidental!). Daí que, ao ver um livro bonito relançado, não resisto, vou revisitá-lo. A capa do livro Wagner em Bayreuth é absolutamente sedutora!
Bem voltando ao retrato em preto e branco que vou criando a partir de Oz e Chico, enquanto um faz a rememoração de uma paixão, o outro faz reviver o desamor, que, por incrível que pareça, convive com muita facilidade com a paixão. E isto está evidente nos dois livros: ambos são histórias de amor acabado, e em ambos a gente vê que nenhum dos apaixonados jamais conheceu realmente o alvo de sua obsessão. Ambos falam de morte e solidão, de ciúme e de desencanto. Chico, sempre mais suave, terno, mesmo, valoriza as perdas e confere um encanto às falhas de memória, dando sentido à perda de sentido e ao vazio. Oz é cáustico: suas palavras doem, são letais. Falando do envelhecimento de sua ex-mulher, ele pinta um dos retratos mais aterrorizantes da velhice feminina. Nem vou copiar aqui, pois só relembrar o que ele diz me dá engulhos (será que me sinto tão ameaçada assim?). Mas não é justo falar aqui de um livro que ainda não terminei de ler. Depois comento mais. 
Quanto aos ensaístas, com que prazer vou lendo o texto inteligente e culto dos autores citados. E, com alguma surpresa, vejo que vou criando, sem maiores pretensões, meus próprios ensaios aqui na rede. Sou ensaísta! Ora, viva! Mas, brincadeiras à parte, começo a criar uma outra indagação: o gênero que os brasileiros tanto prezam, a crônica, é, no fundo, um ensaio. Vou ter que comentar isso na aula.
Para terminar: estou com um texto publicado numa outra revista eletrônica, a diversos-afins
O que chama a atenção logo à primeira vista nesta revista são as fotos. Gente, que beleza! E são da Leila que tem um fotoblog muitíssimo legal, e de um outro amigo. Fiquei entusiasmada! Parabéns, Leila! E obrigada por me chamar para fazer parte do grupo. Nesta "leva", como eles chamam, tem Maurício de Almeida, outro irmão em SESC. E muitos outros autores legais. Chamo atenção do Guilherme, meu amigo poeta lá de Maceió, pois neste site eles publicam poesia. No Histórias Possíveis ficou determinado que só prosa, poesia só quando for dos colaboradores regulares.
Bem, preciso ir. Deixo vocês na esperança que todos cliquem no endereço acima e se encantem com as coisas que encontrarem por lá.
E feliz dia da ficção! Pois a mentira, quando bem contada, é uma boa história!