Monday, March 16, 2009

Voo sem paraquedas

Esse fim de semana, com alguns amigos batendo papo aqui em casa, todos ligados, de um jeito ou de outro aos afazeres literários, foi inevitável que a conversa recaísse no acordo ortográfico. A doce Natércia, saída da pureza dos versos de Camões, reclamava dos hífens: Alguém antes da reforma havia se preocupado com os hífens?, ela perguntava, e respondia em seguida: Ninguém! Mas agora todos estão preocupados com eles.
O Márcio, filho do autor de Casa da mãe Joana, educado por um pai cujos conhecimentos gramaticais excedem os dos comuns mortais, defendia os acentos e tremas, e relatava as exceções que foram suscitadas pelas novas regras ortográficas. (O computador está sublinhando de vermelho a palavra exceção. Será que errei?Não importa a combinação de letras, ele exibe esse sublinhado, e eu passo a duvidar de mim mesma: será que o próximo passo da reforma ortográfica não será abolir as palavras sobre as quais mais se tem dúvida?)
Bem, eu fico pensando que tenho um carinho especial por alguns dos acentos que usei por toda a vida, e dos quais custo a abrir mão. Talvez o que mais me custe abandonar seja o circunflexo de voo, que me servia de paraquedas toda vez que conjugava este verbo. Voar, agora, ficou muito mais perigoso. Vou entrar nos aviões sem essa garantia, abandonando o acento na alfândega, mas carregando escondido um trema que me agüente nas situações de susto: duas mãozinhas levantadas, em pedido de socorro –Valha-me Deus, já que os gramáticos me passaram a perna!
Riamos, brinquemos, enquanto não chega o decreto que acabe, também, com o subjuntivo. Boa semana a todos. E não se esqueçam de usar, amanhã, alguma coisa verde, em homenagem a São Patrício, o conservador dos acentos. Esse verdinho, segundo os irlandeses, traz boa sorte para quem o usar.  São Patrício foi um bispo do bem, provavelmente tomava cerveja, já que era irlandês, e ria muito. Rir, como muita gente sabe, é o melhor remédio. 

Sunday, March 15, 2009

Idos de março

Um pouco de história é sempre bom. Eu adoro histórias, com ou sem maiúsculas, mas, quase sempre chego à História através das histórias que leio. Os idos de março chegaram até mim pomposamente trazidos pela mão de Shakespeare, na peça Julio César, traduzida pelo Carlos Lacerda, por quem minha mãe era apaixonada. Lacerdista doente, diziam na época. Devo ao Lacerda minha passagem por uma escola pública, pois antes dele, e depois dele, só estudei em colégio particular. Já a faculdade, fui eu que escolhi, e só queria a UFRJ, onde entrei, muito bem colocada, atrás apenas de Cecília, minha amiga querida. Fui muito feliz na UFRJ. Adorava minha turma, LEA. Adorava meu grupo, que se mantem unido até hoje. Adorava meus professores, a quem admiro até hoje. Tive dois filhos estudando, já entrei com uma no colo. Me lembro de fazer a inscrição para o vestibular, gravidíssima, minha e do meu marido, que estava me esperando no carro. Quando cheguei lá com a papelada e o retrato do Gui, novo, cabelão, queimado de sol e de óculos escuros, o atendente, um senhor de meia idade olhou para mim e abanou a cabeça: Ô minha filha, você aqui e o surfista na praia?! Não faz isso com você não… Mas o "surfista" nunca subiu numa prancha de surf e nunca me deixou na mão. Ele fez a faculdade trabalhando e eu procriando. Não sei como, consegui dar conta de tudo,  e ainda lia sem parar. Minha sogra, quando me via abrir um livro, dizia: "pronto, agora ela já se fechou no seu mundo! Não adianta mais falar com ela!" Meu marido tinha ciúmes de meus livros. Mas só no início. Depois ele entendeu que para me amar, precisava amar meus livros. E ele fez questão que esses livros nunca me faltassem. Duros como éramos, o presente que ele me dava a cada natal era um crédito na livraria perto de nossa casa, onde passei muitas tardes sentada no chão (naquele tempo as livrarias não tinham essas frescurinhas de poltronas) lendo os livros que não tinha dinheiro para comprar. Escrevo essas coisas e sou varrida por uma onda de sentimentos contraditórios, alegria e tristeza, amor e saudade. Acho que meus amigos me acham uma chata, em minha obstinada viuvez, ninguém entende lá muito bem porque eu fico só. Mas … eu também não entendo muito bem, e não consigo pensar em ter outra atitude. Vou ficando do jeito que estou. Choro um pouquinho, rio um pouquinho, me escondo em casa, até me chamarem para algum programa. Viajo, gosto disso, e vou sempre que posso. Escrevo, coisa que também gosto, e que me dá um sentido, uma canoa a bordo da qual atravesso a vida. E leio, prazer enorme, vício, mesmo, pois sem ler começo ficar inquieta, impaciente, agitada.
Bem, ia falar nos idos de março, no assassinato de César, talvez no nariz de Cleópatra e, quem sabe, no Marco Antônio. Falei dos idos de minha própria vida, e agora vou correr atrás do tempo, para fazer a resenha que estou devendo ao Rascunho, os e-mails que tenho que colocar em dia, e as leituras para a UFF. 
Só para terminar, o André de Leones me mandou um convite para participar de uma comunidade de leitores chamada skoob, que está bombando. E citou a mim e ao Marcelo Moutinho, na resenha que ele fez para o JB. Fiquei muito contente! É bom ser lembrada.

Saturday, March 14, 2009

Pulei o 13

Ontem não deu. Fazendo juz a sua fama de aziaga, a sexta-feira 13 me surpreendeu com coisas inesperadas, até com uma grande tempestade, e eu fiquei caladinha, no meu canto. Hoje acordei como uma formiguinha atarefada. Já fui três vezes à rua, pretendo ir mais outra, arriscando a sorte e passando por baixo da árvore que estão cortando aqui em frente. Uma árvore que tomba, pela chuva, pela idade, pela infestação de cupins… mesmo assim, dói meu coração vê-la ser transformada em pedaços de madeira, em serragem pelo chão. A sombra que me acolhia quando eu chegava na minha rua, agora já não vai mais me refrescar. Me pergunto se algum passarinho teve que abandonar seu recanto ali no fresquinho? Me entristeço com essas pequenas bobagens. Só me alegro com a possível diminuição de cupins a me ameaçar.  E nem consigo me entusiasmar com a próxima viagem: uma ida à Colômbia – Cartagena de Indias, o porto cobiçado pelos piratas, por onde tanto ouro e tanta prata saíram do continente para enfeitar as Igrejas e Palácios da Europa. Depois, San Andrés e as sete cores de seu mar. É, parece legal, mas eu desanimo, desencanto, só penso nos galhos que se retorcem à espera de serem levados para longe daqui. Sinto o perfume que a madeira recém cortada desprende e me lembro de que, ao cheirarmos, estamos inalando moléculas, e, portanto, transportando para dentro de nós mesmos um pouco do outro. Respiro fundo e decido que está na hora de descer mais uma vez. E que não adianta lutar contra o fato consumado.
Para terminar, agradeço ao Guido o cordel que ele me mandou. Vocês podem encontrar no endereço que ele me mandou e que copio aqui: http://recantodasletras.uol.com.br/autor_textos.php?id=38858
É sobre a excomunhão da vítima… Nem abordei o assunto aqui porque ainda me sinto ferver. Minha proposta, já que o padre, ou o bispo, sei lá o que ele é, acha que estupro não é tão grave, é convidar os estupradores para atacarem o padre. Pena que o danado não engravida! Mas, citando o Milk, o negócio é continuar tentando. 
Agora, falando sério, me lembro de um romance que li quando garota, mas já não me lembro do autor nem do título. Sei que era um desses autores muito católicos e que o personagem, padre, é chamado ao hospital para decidir sobre um impasse: sua única irmã estava à morte, e sua única chance era uma operação, para retirarem o bebê que ela estava esperando. Se os médicos não terminassem a gravidez, ela ia morrer, e o bebê talvez morresse. Se os médicos interompessem a gravidez ela ia sobreviver, e talvez até pudesse ter filhos, mais tarde. Pois o raio do padre decide manter a gravidez e, assim, assina a pena de morte de sua irmã. Fechei o livro, em lágrimas, revoltadíssima! Nem sei como a história terminou. E acho que nem vou saber, pois esqueci tudo o mais. Teria sido A chave do reino? Vai ver que é do mesmo autor. 
O negócio é seguir as escrituras – dai a Deus o que é de Deus! O resto não é da alçada dele. E eu garanto que Jesus, que tanto amava as crianças, ia cuidar dessa criança atropelada pela desumanidade e violência, e se indignar contra quem a agrediu. Pois é, confesso que não gosto desse Deus que pretende que a gente aja contra as pessoas a quem podemos amar em favor de quem nem existe ainda.
Bolas! Não ia falar nada sobre o assunto, mas aqui estou eu, indignada. 

Thursday, March 12, 2009

Tempus fugit

Gente, dei uma bobeada e lá se passaram quatro dias desde a última postagem! É que essa semana é de volta às aulas, de reencontro com amigas distantes, de missa por amiga que partiu, de contratações, de um monte de encontros e partidas.
Bem, alguns já sabem, mas quero logo contar para todos e convidá-los a participar:
Em maio vou dar um curso "Labirintos de Borges", no Telezoom. Quem ainda não conhece o Telezoom, é uma cobertura gracinha, bem equipada, na Dias Ferreira 78, portinha colada com o Esch Café. Em noites de lua cheia, o terraço, com vista para o Cristo, é um encanto. Em alguns eventos noturnos eles servem um acarajé delicioso, é imperdível! E a programação é variada e interessante. Agora está havendo um curso maravilhoso, da Ana Christina Nadruz, a melhor professora de História da Arte que eu conheço. 
Mas, voltando ao meu curso: será às sextas-feiras, de dez ao meio dia, no formato de "Café da manhã com Literatura" Eles servem um café completo para o corpo e eu um prato cheio para a mente!
Confiram as atividades em www.telezoom.com.br
Eu conto mais, depois, pois hoje recomeço as aulas  e tenho mil coisas a fazer.
Volto amanhã, com trevos, ferraduras, figas e tudo o mais, para proteção – sexta-feira 13!

Sunday, March 08, 2009

Ia me esquecendo…

Ontem foi ao ar mais uma edição de nosso Histórias Possíveis.  Tenho um conto, juntamente com a Dani e o Cremasco, e o mais novo membro efetivo, o Erwin. Bem vindo, Erwin, um conto sólido e bem construído, digno de Vieira, pelo raciocínio claro, que nos pega pela mão e leva ao final inesperado.
Agora estamos com novo formato e com colaboradores que respondem, a cada semana, a um desafio. O desta semana foi a palavra VIDRO, e dois responderam com maestria. 
Agradecimentos a Dani, e a todos que contribuem para a continuação deste projeto, filho das idéias de André, inesquecível.
Então, porque ainda estão aqui? Vão lá no www.historiaspossiveis.wordpress.com e leiam, e recomendem!

DIA DA MULHER

Recebi votos carinhosos dos amigos e das amigas, pelo mundo a fora. Celia GouveiaC, artista brasileira radicada em Nice, Laura Burnier, outra artista de talento, Marcio Galli, amigo de tanto tempo, Henrique, poeta de grande talento, a Bis-Tekinha, toda energia e entusiasmo, meu distante Amauri. Mensagens e ligações para quem amanheceu em ressaca de tristeza. Mas já está passando, vou enxugando as lágrimas e abrindo o sorriso, meio irônico, pensando que, enquanto estivermos recebendo homenagens pelo "dia da mulher", significa que ainda temos muito o que batalhar… Cadê o dia do homem? Cadê o dia do branco? Cadê o dia do banqueiro?O dia do comerciante? Cadê o dia do filho/a? 
Quem está por cima da carne-seca não precisa de dia, pois todos os dias são deles… Enquanto isso vamos comemorando o dia da Mulher, o do Índio, o da Consciência Negra, o do bancário, o do comerciário, o do Papai e o dia das Mães…
A mensagem mais curiosa, que recebi hoje, foram instruções de procedimento em caso de panela pegando fogo. No dia das mulheres já não tão prendadas, um serviço de utilidade pública para que elas não ponham fogo na casa. Ao menos, não destruam, fisicamente, o Lar!

O que será que significa ser mulher hoje em dia? Os modelos são os mais conflitantes possíveis. Podemos escolher entre Mulher-Salada de frutas,  Mulher de malandro, Mulher maravilha, Mulher macho, Mulher independente, Mulher de carreira, mesmo com duplo sentido, mulher isso e mulher aquilo. Já não existem mais definições e certezas. Antes era-se mulher de família ou mulher da rua, e a gente que se enquadrasse o melhor possível nestes papéis. Daí aquelas donas de casa de Nelson Rodrigues, sonhando em serem putas –única alternativa –, mas se consumindo nos dramalhões da culpa burguesa.

Apago todo um parágrafo, eu mesma me canso de minhas desvairadas filosofias. 
Feliz dia das Mulheres, para todos os modelos, até mesmo para as cri-cris e relutantes como eu! E basta!

Friday, March 06, 2009

Carta dos leitores.

A Cora Rónai escreveu uma coluna maravilhosa falando sobre as livrarias ameaçadas de extinção. Aquilo me entusiasmou, e eu acabei mandando um e-mail para ela. Geralmente não sou de mandar e-mails, nem cartas para a redação. Conto nos dedos as que já enviei até hoje. A primeira, ainda nos tempos do "snail mail", foi para protestar contra uma reportagem do Ela, que dizia que quanto maior a escolaridade feminina menos chance as mulheres tinham de arrumar um namorado. E aí entrevistavam jogadores de futebol, cantores sertanejos, e modelos/manequins. Acho que entrevistaram duas intelectuais, que se colocaram na defensiva, assustadas com a cobrança. Falavam que, com mais de doze anos de estudos, a chance de a mulher arrumar um parceiro sexual era praticamente nula. Gente, doze anos de estudos não te leva nem a terminar uma faculdade! Lá mandei eu uma carta desaforada e meio gozadora, lamentando muito que a repórter – que eu supunha ter completado seus estudos de jornalismo ou de comunicação, seja lá como isso se chame hoje em dia – estivesse impossibilitada de tirar seu atraso. Claro que não me responderam.
A segunda vez foi uma cartinha ao Xexéo, a quem assisti numa palestra dizendo o quanto os jornalistas apreciavam essa facilidade dos e-mails, que estimulavam os leitores a reagirem a suas colunas e davam um feedback precioso, que era muito estimulante. Lógico que, boa moça que sou, logo na coluna seguinte do Xexéo mandei uma mensagem bem educada e incentivadora. Ele deve ter apreciado e se sentido muito estimulado, mas não me disse nada, e eu nunca mais insisti. Só que, recentemente, a Fernanda Torres publicou uma coluna falando sobre Proust, de quem sou ardorosa devota. Tenho a imagem dele junto a meu computador, na esperança de que o santo me transforme numa escritora de qualidade. Impulsivamente mandei um e-mail dando os parabéns pela coluna, falando de como o exemplo dela poderia estimular a leitura de uma obra que, pela sua extensão, assusta um pouco, mas que, uma vez iniciada, se transforma num vício, difícil de largar. Descobri que ela publicou na Revista de Domingo! Achei o máximo. Agora, estimulada por esse assunto que me apavora – como poderei viver sem frequentar livrarias? –, escrevi um e-mail para a Cora e ela me respondeu!  Juro! Escreveu prá mim, dizendo que tinha adorado o e-mail (bem, talvez ela tenha dito gostado, ou apreciado, mas foi como eu entendi) e que tinha tomado a liberdade de colocar lá no blog que ela mantém. Lá fui eu ver o blog, que adorei. Cheio de retratos de gatinhos bonitinhos, e com um vídeo tirado do YouTube, nota dez – pena que, em minha ignorância, eu não saiba quem é o cara que está falando. Vou pesquisar. Aconselho, então, a todos os meus leitores : visitem o blog da Cora, que é imperdível. Para facilitar, aqui vai o link:
E aqui está a resposta que recebi dela, para vocês verem como ela é simpática:
Salve, Lucia!

Adorei o seu email – e tomei a liberdade de levá-lo lá para o blog, onde a coluna tem uma sobrevivência de mais alguns dias e a turma pode discutir o assunto. Apareça por lá: cora.blogspot.com. A casa é sua. Curiosamente, você vai ver que, lá, também falei na questão dos acentos.

Um abração,
Cora

Thursday, March 05, 2009

Batatas fritas…

OK, vocês venceram!
Peço desculpas por ficar tanto tempo sem escrever, e explico: estou na fossa. Termo tão antigo que já perdeu seu charme e agora tem um caráter meio repugnante. Mas é isso mesmo. Não posso falar em depressão, coisa muito forte para o que estou sentindo. Estou mais para melancólica, devido, acho eu, à época do ano. Afinal, sábado que vem era meu dia predileto do ano. Dia 7 de março. Agora é mais um dia que tenho que atravessar.
Mas, para meu bem, ou meu mal, sou uma deprimida de bom humor. Estou sempre de bom humor, acho que isso deve ser doença! Meu humor só se modifica em filas – de banco, de supermercado, de inscrição. Não entendo, mudo mesmo, parece que algo dispara e eu fico insuportável. Mas, mal chega a minha vez de ser atendida, the bitch disappears, e volto a ser a doce Lucinha de sempre. 
Além das filas, outra coisa que revela meu lado Ms. Hyde é meu prazer em assistir ao pior seriado da TV – House. Digo pior porque o seriado pretende nos fazer acreditar que o House é um gênio dos diagnósticos, mas só nos mostra todos os erros que ele vai fazendo. Assim até eu sou boa de diagnóstico, na base do erro e acerto:
 – É câncer, façam uma sonografia.
 – A sonografia está normal, Dra. Lúcia. 
– Então é uma infecção, façam uma punção lombar. 
– Não há sinal de infecção, Dra. Lúcia. 
– Ah, então é porque é uma bactéria desconhecida, vamos envenenar o paciente pois assim a bactéria morre! 
– Mas, Dra., se fizermos isso o paciente também morre… 
– Ahá! Mas morre curado, e isso é o mais importante. Eu preciso acertar o diagnóstico, mas não estou nem aí para o que acontece com o paciente!
Digam-me com sinceridade, eu não poderia ser uma roteirista de House e estar ficando milionária em Hollywood? Ou estar trabalhando para a Globo, passando férias na Ilha de Caras, conversando platitudes com alguma atriz que mudou o visual de loura para morena, já que ela (nenhuma delas) sabe representar e que para incorporar o personagem precisa mudar o cabelo, para que os espectadores entendam que agora ela já não é mais a outra… Ou talvez a razão dessa mudança de coloração seja porque o encarregado de escalar as atrizes seja daltônico, ou mesmo cego.  No roteiro, todas as cenas de amor falam de como a pele branquinha e os cabelos louros da moça deixam o herói louco de amor . O cara escala a Giovana Antonelli, pois é cego e não sabe que ela é morena,  e a saída do contra-regra é pintar o cabelo da moça e passar maquiagem para clarear a pele dela, já que o roteista se recusou a reescrever toda a história para acomodar a escalação.
Bem, voltei. Não zanguem comigo. Na verdade, adorei os puxões de orelha! Desculpem. Amanhã tem mais.

Wednesday, February 25, 2009

Teimosia

Então, como não consegui ver o filme, li o livro de Vikas Swarup que deu origem ao filme. Gostei, engenhoso, bem construído. Não se trata de grande literatura, mas é um livrinho gostável, de consumo rápido e divertido. Agora acho que vou dar um tempo nessa tal de Índia. Estou ficando cansada de Rams,  Shivas,  Gulab Jamuns, Masterjis e Bollywood. De miséria e excrementos, então, nem se fala. Cansei. Até minha amiga vai para a Índia, passar 20 dias. E nem vai visitar o Taj Mahal, que seria a única razão que me levaria até lá (além de um contrato para tradução e lançamento de meus livros por lá, é claro!)  Neste livro que acabo de ler, o protagonista trabalha uns tempos como guia informal do Taj Mahal, e nos descreve o monumento com tanto enleio que me deixou com água na boca. Mas no momento nada de exotismo. Sonho com Paris, mais uma vez – até do Boulevard Pereire tenho saudades! E sonho com a Itália, uma caixinha de jóias que não me canso de examinar. Mas acordo com Niterói, para onde vou estudar, e não reclamo: passar pela ponte é sempre um privilégio! Em que outro país podemos ficar engarrafados olhando para paisagens tão lindas? E lá vou eu, pelo Aterro, ou pela Lagoa, atravessando a ponte, olhando de soslaio para o caminho Niemeyer, ou pedindo a bênção para o Redentor e sorrindo para as torrezinhas petulantes da Igreja da Penha. E olho o aviãozinho vermelho que complementa o dia de praia, como um sorriso no céu. Que lindo dia! Ideal para ler...

Em tempo:
Saí e voltei carregada de livros.  Acabei sucumbindo à indicação da Cora Rónai e comprei o Hotel Yoga, com o barrigudinho do Ganesh para me trazer boa sorte. E comprei A arte da vida, do Bauman e um Guia Visual da História da Bíblia, que é uma gracinha, cheio de ilustrações e de esclarecimentos rápidos, como uma árvore genealógica de Adão a Davi, por exemplo. E também não resisti ao Conversas com o Woody Allen, que é que posso fazer? Sou fã dele! Para terminar, ainda comprei a Piauí. Daí que me desculpem, mas tenho muito que ler. E, se não aparecer para escrever aqui nos próximos dias, vocês já sabem a razão.

Tuesday, February 24, 2009

Dos Cinemas no Carnaval

Mudaram os Carnavais ou mudei eu? Antigamente, nos poucos Carnavais em que ficava no Rio, a cidade se transformava num lugar encantado: pouca gente, muitos turistas, lugares em todos os restaurantes e cinemas. Nas ruas, pouquíssimos carros. O Carnaval de rua tinha saído de moda, e só uma ou outra banda, ou um ou outro bloco mais enraizado, continuavam a tradição. Me lembro de um aqui no Leblon, de homens que se fantasiavam de mulher e jogavam futebol na praia. Não me lembro do nome, mas me lembro que todo Carnaval aquela turma saqueava os armários das mães, irmãs ou namoradas e exagerava na maquiagem, nos enchimentos, nos trejeitos. E era tudo ali, no final do Leblon, no cantinho da praia que hoje foi dedicado ao Zózimo e à Cedae. Pelas ruas, só me lembro da passagem da Banda de Ipanema. Mas não vou falar de Carnavais passados, isso já está até parecendo livro do Dickens, ou filme da Disney: cada cronista desencava o espectro dos carnavais passados, e o espírito dos carnavais futuros, para nos tocar a sensibilidade. Eu só quero mesmo é reclamar dos cinemas cheios, ou dos abusos dos administradores das salas, que alegam falta de ar condicionado, problemas no som, lugares esgotados para impedir que passemos uma tarde tranquila e divertida. Todas minhas tentativas cinematográficas foram frustradas ou frustrantes. Fui ao Estação Ipanema a fim de ver Quem quer ser um milionário. Enfrentamos fila, para comprar ingresso e para entrar na sala, e, depois de instalados em nossos lugares, fomos expulsos por um " problema no som". Fui ao IMS ver um documentário: tivemos que assistir o filme sem ar condicionado… Fui duas vezes ao Kinoplex Leblon – ingressos esgotados. Voltei ao estação Ipanema, nada de ingressos para o Quem quer ser um milionário, e acabei assistindo o casamento de Rachel. Desisti dos filmes, também, me dedico à praia e aos livros. A praia está cheia, a água está suja, mas a brisa está agradável, e os livros são amigos fiéis, não me falham. Já que não consigo ver o filme, leio o livro que originou o roteiro, presente que o Márcio me deu, envolto em colares de havaiana e em serpentina. Obrigada, Márcio! E, daqui de meu cantinho, olho as ilhas meio dissolvidas na bruma, escuto Nana Caymmi cantando, e volto para meu livro, que agita suas páginas na brisa, me chamando. Depois eu conto.

Monday, February 23, 2009

Por que não irei ao Caminho de Santiago

Não. O Caminho não é para mim, que me canso só de seguir uma banda por uns poucos quarteirões. Essa é minha grande descoberta de Carnaval – minhas limitações. Gosto de caminhar na praia, de andar para cima e para baixo pelas ruas do Leblon, achava que podia fazer uma aventura como essa de seguir a pé para alcançar um objetivo. Afinal, já desfilei na Sapucaí, tanto no primeiro grupo como no grupo de acesso, já enfrentei trilha na mata atlântica para chegar a cachoeiras, já subi e desci os Champs Elysées, de salto alto! Mas, neste Carnaval descobri que não tenho resistência para acompanhar grupos que são movidos pelo fervor de alguma coisa que pode ser chamada de religião. Não sei se foi a combinação de praia, aniversário e Carnaval, o certo é que fui derrotada por um bloco que nem é dos mais famosos, o Empurra que Pega. Já tinha me concentrado antes, no bloco mais estranho do Leblon: um que sai mas não concentra. O bloco foi embora e deixou todo mundo atrás, conversando e bebendo na Dias Ferreira. O social estava tão bom, a noite tão fresca, as cervejas tão geladinhas, acho que ninguém reparou que o carro de som tinha ido embora. Ou até achou melhor quando o carro de som partiu, pois conversar ficou muito mais tranquilo. 
Sábado lá fui eu para prestar minhas homenagens ao Empurra. Cheguei na hora, fantasiada de alguma coisa que foi interpretada como cigana (várias pessoas me pediram que lesse suas mãos, e eu não me fiz de rogada: cigana do bem, só lia coisas boas nas linhas que me apresentaram. Para uns, era a fortuna; para outros amores incontáveis e ardentes; para alguns, saúde e longa vida; para outros bons empregos; para mim mesma, uma festa – tinha encontrado o que ler até mesmo num bloco!) O problema foi que, quando o bloco começou a andar e eu a segui-lo, descobri que ali não era meu lugar. Aquele ritmo lento, o para aqui que eu vou ali, a troca de fluidos corporais e de cheiros nos inevitáveis encontrões, essas coisas só mesmo com muita devoção. Segui o bloco até o meu limite: a minha rua. Quando cheguei na minha esquina, parecia que tinha chegado às portas do paraíso! 
Resultado, no domingo, acordei cedo, mas não fui ao famoso Cordão do Boitatá, simplesmente porque ele não ia passar na minha esquina e eu não ia conseguir me libertar assim com essa facilidade. Pois tem aquela coisa dos amigos, e da longa volta para casa sozinha, e eu no fundo, no fundo, sou uma pessoa assustada, tímida e meio desanimada: animal de sangue frio, que necessita do calor do grupo para se aquecer… mas que se esgota rápido, como fogo de artifício.
O Caminho, e o Carnaval, são para aquelas pessoas que têm, dentro de si, um braseiro ardendo devagar, por muito tempo. Fico aqui, então, declarando encerrado o meu Carnaval. Vou aos filmes, aos livros, aos sonhos.

Friday, February 20, 2009

Obrigada a todos

Foi ontem, e foi bem comemorado. Aliás, ainda está sendo, hoje ainda tenho um almoço e uma ida ao Rio Cenário com os amigos. Por um lado, fazer aniversário no Carnaval, atrapalha, mas por outro, é muito bom, pois todo o mundo está em clima de alegria e comemoração. E eu topo tudo. Me perguntam: vamos à praia?, e lá estou eu de maiô e chapéu, livrinho debaixo do braço, é claro! Me convidam: vamos almoçar no restaurante super-chique e elegante?, e eu capricho no visual, dou um trato no cabelo, passo um baton e escondo o livrinho na bolsa, é claro! Me chamam: vamos bater papo no bar?, e lá vou eu de sandália e sorriso a postos, com o livrinho na mão, tomando cuidado para não sujar. Só não carrego o livro para os convites para bloco de Carnaval e festas à fantasia. Mas acho que vou inventar uma fantasia de Bibliotecária de Babel, para poder ir com meus amigos para toda parte.
Agradeço a Cris, ao Ernane, ao Amauri –tão distante, você mudou para a Rep. Dom.? – a Teka, a todos os que deixaram suas mensagens carinhosas aqui neste nosso universo de palavras. Depois escrevo mais. Hoje estou dispersa, ainda muito agitada com os festejos. E não tenho ficado satisfeita com nada o que ando escrevendo, tanto que não postei as coisas que escrevi ontem e anteontem. Talvez por estarem muito cheias de reminiscências, por serem muito pessoais, sei lá. Só sei que desisti. A falta de tempo também influiu, não gosto de escrever correndo, escrevo e leio, paro, releio, escrevo... Vou devagar, para não assustar as idéias... Ih, esqueci que ideia não tem mais acento!  Amanhã prometo que volto para escrever com mais calma, e talvez com um pouco mais de inspiração. Mas aqui ficam os agradecimentos.

Tuesday, February 17, 2009

Está chegando o dia, quase se esbarrando com o Carnaval, mas isso não pode importar a quem nasceu numa terça-feira gorda ( e como eu implico com esse nome!) Hoje estou me dando um presente. Vou cuidar de mim, para quinta-feira estar com cara de aniversariante. Mas antes, queria colocar aqui o link para o blog de um amigo -- mais um que devo a Passo Fundo e à maravilhosa Jornada Literária, o talentoso Alfredo Aquino: http://ardotempo.blogs.sapo.pt/246307.html
Ele postou os maravilhosos trabalhos que o Siron Franco fez inspirado (o horror também pode ser musa) no acidente do Césio. Olhem e pensem um instante em como a tragédia está próxima de nós. Lembrem. A arte não nos deixa esquecer, é essa sua função – eternizar e manter a nossa humanidade. Pensem. É o que nos assegura que somos humanos...

Friday, February 13, 2009

Conversas de botequim

Se pessoas tivessem um dicionário de antônimos, eu seria, certamente, o antônimo de boêmia... Nada mais distante de mim do que o desejo de ir para um bar tomar chope. Jamais aprendi a gostar de cerveja, bebidas me dão sono, já não gosto mais de comida de botequim... Então, o que me leva a aparecer ora num bar ora noutro aqui no Leblon, no Centro, ou Ipanema? Os amigos, é claro! Por uma dessas fatalidades, sou uma daquelas pessoas que, sem vocação para a boemia, acho graça no universo do Bar. Muito já se falou sobre a diferença do botequim carioca para o botequim (se é que existe) paulista, não estou dizendo nada de novo, mas acho que as diferenças começam no propósito da ida ao botequim: Ninguém vai ao botequim para beber, ou para comer. O problema é que, no verão, faz muito calor, e é preciso tomar chope para refrescar. Meus amigos me dizem que o chope é a bebida mais refrescante que existe, e eu acredito, pois sempre acredito no que meus amigos dizem, mas não me convenço...Daí que sigo na água, sem gás. Ou me aventuro na caipirinha, uma única, que pode durar toda a noite, ou voltar quase intacta para desgosto do barista (e existe isso, em botequim? talvez, em SP...) De vez em quando, tomo água tônica, até hoje não descobri por quê.
No inverno, o chope hidrata as cordas vocais, e assim vamos consumindo barris e mais barris de chope pelas noites afora. Enquanto isso, nos botequins carioca, desenrola-se o mesmo fenômeno que na praia: as pessoas se encontram, circulam, paqueram, discutem a política, o carnaval ou o futebol, comentam as leituras, reclamam da vida. Não sou tão assídua que possa fazer uma classificação dos botequins, mas já reparei que, em alguns, conversa-se mais. Em outros, paquera-se. Em outros, exibimo-nos, nós, os descolados, que conhecemos todo o mundo que é para conhecer....(ah, quem me dera...eu sou apenas platéia para os chiques e famosos) E, para cada tipo de boteco, um nível de barulho diferente. Regra geral, não se escuta música em botequim carioca, a não ser que surja, espontânea, uma roda de samba ou de violão. Mas, dia de jogo, as TV's aparecem como por milagre, e os olhos se afastam das paqueras para acompanhar os lances. Chega de nhenhenhém. Ia apenas falar da conversa de ontem à noite, com um meu "irmão em SESC", que me incentivou a continuar com meu romance, meio parado entre outros projetos. E agradecer a ele, Cremasco, pelo presente: Histórias prováveis, livro de contos que agora vou ler. Não foi com esse que ele foi premiado, foi com um romance histórico sobre a formação do estado do Paraná, uma espécie de saga familiar, chamado Santo Reis da Luz Divina. Assim mesmo, Santo no singular, pois é o nome de um personagem.
Recomendando livros para amigos, lembro aqui do A elegância do ouriço, da Muriel Barbery; dos livros de Amos Oz; dos últimos do Philip Roth. Tenho lido poucos brasileiros ultimamente, já que minhas resenhas para o Rascunho têm me levado a passear pelo mundo e pelo tempo. O último brasileiro que li foi o do Galera, Cordilheira, mas não me empolguei, embora ache que ele escreva muito bem. E que é um rapaz corajoso, tendo assumido a narração numa primeira pessoa feminina... Isso é muito século XIX, quando os homens não estavam ameaçados pelo feminismo. Hoje em dia, me admira que a crítica não tenha crucificado seu romance...

Thursday, February 12, 2009

Amigos nos jornais e revistas

Antigamente lia jornais e revistas com devoção. Mais que devoção: com atenção. Hoje leio jornal quase que com indiferença, ou inapetência, debicando um cronista aqui, uma manchete ali. A culpa não é minha, é dos jornais, dos jornalistas, ou das notícias – repetitivas, incompletas, sensacionalistas – ou talvez seja minha, que estou ficando sem graça...
Bem, apesar do progressivo desinteresse, fui criando "amigos" entre os jornalistas e cronistas. Há alguns que eu sempre leio; outros que eu leio de vez em quando e que me pergunto porque é que não sou mais assídua; outros que leio só porque o título ou a manchete me interessaram, e me pergunto porque é que ainda perco tempo lendo coisas daquele alguém...
Apesar disso, nunca ligava os nomes às pessoas, e ainda hoje tenho dificuldade em fazer isso. Como é que, a partir daquela foto de um sujeito moreno e mirrado que ilustra a coluna, vou identificar aquele senhor de óculos, mais alto do que eu – que sou alta para os padrões brasileiros, 1,70m– parecendo um professor universitário? É ele quem escreve sobre boemia? Que entende tudo de samba? 
No fim de semana passado, lá em Búzios, minha amiga me apontou: –Olha lá o Ancelmo! Ele já tinha passado, e eu fiquei olhando as costas curvadas de um senhor de sunga, queimado de sol, fazendo sua caminhada entre amigos, fascinada com essa discrepância entre imagem mental e imagem física. Depois lembrei que meus olhos não são muito confiáveis: eu me vejo no espelho de uma maneira que não corresponde em nada às fotos que tiro. Sempre me assusto ao me mostrarem minhas fotografias, e me pergunto, será que sou assim como me revelam as câmeras? Ando evitando os retratos, com medo, já que não me reconheço nas versões que elas capturam...
Digressões, digressões... Acho que tenho lido muito Proust!
Voltando aos amigos, fico feliz quando os encontro nos jornais ou nas revistas como autores ou como assunto. Outro dia foi a vez do Alberto Mussa, amigo querido, que estampou todos os cadernos de cultura de uma vez só, com seu novo e instigante livro: Meu destino é ser onça. Não é um romance, é uma recriação do mito e um estudo sobre a antropofagia, prática que tanto perturbou o imaginário europeu do século XVI (mas que já vinha atormentando os espíritos, desde sempre, e que continua a pairar ameaçadoramente nos cantos mais obscuros de nosso imaginário). Hoje, quem tem seu rosto estampado num instantâneo risonho é o Alcione Araújo, que conheci lá em Passo Fundo e que, por ser meu vizinho, já vi muitas vezes passando pela praia nas suas caminhadas matinais. Isso na página da frente do Segundo Caderno. Na de trás, a Cora Rónai, dessas "amigas de papel", apaixonada em defesa dos animais, com uma eficiência invejável em todos os gadgets moderninhos, falando (escrevendo) sobre uma coisa que me deixa sempre espantada: escapamos! Nossa cidade, antes tão princesinha, agora é traiçoeira. Nunca sabemos porque ou quando seremos o alvo da vez. Ela, com seu equipamento, escapou, embora no mesmo dia, no mesmo local, a Carol Castro tivesse sido depenada, sem que ninguém nem percebesse que algo de anormal estava acontecendo. Talvez porque roubos não sejam mais anormais. E isso na mesma edição que mostra, no mesmo local, os bandidos de classe média (média? são é classe alta!)sendo levados para os camburões, que nem chamavam a atenção parados ali em frente ao prédio de luxo.
Bem, por enquanto, fico feliz ao ver meus amigos nos jornais e revistas, pois eles ilustram coisas que julgo positivas. Um estuda nossa cultura, outro batalha pelo espaço, mais que merecido, no teatro, outra luta pela nossa casa e seus habitantes –oikoslogia. Vejo o nome de Marcelo Moutinho assinando a revista do Império Serrano, defendendo uma nossa tradição de alegria e cultura. Vejo o texto do Secchin no Rascunho, um conto inteligente, onde ele mistura Alencar e Machado com a facilidade de quem é íntimo dos dois. Leio as críticas publicadas sobre livros de amigos, ou as que os amigos escrevem sobre obras que ainda não li, leio as crônicas que me explicam novelas e emoções, fico contente de que, mesmo sentadinha aqui no meu canto, olhando minha nesguinha de mar, possa me sentir tão ligada às pessoas que admiro, em sintonia com tanta gente boa!

Tuesday, February 10, 2009

Dúvida – Escafandro – Certezas

Certezas? 
Nunca fui muito certa de nada, só de minha própria ignorância. Desde que aprendi o sei que nada sei, fiquei fã.
Mas de uma coisa estou segura: adorei as dicas da Fla, que também está caidinha de amores pelo Mac. Fácil, a gente se deixar levar pelas seduções da editoração, por exemplo. Tantos templates maravilhosos, uma aparência moderna – a tela de meu Mac me remoçou uns 20 anos! Estou quase uma roqueira, pegando a guitarra para brincar de banda, fazendo edições de imagens muito cool ...
Em compensação, o filme O escafandro e a borboleta me assustou, tocou num de meus maiores medos – a tal síndrome do encarceramento. Fiquei imaginando a força de vontade daquele cara, piscando o olho para aquela extraordinária criatura que o acompanhou na criação de seu livro, que, segundo minha concepção, pode ser chamado de póstumo, pois que diabo de vida é essa?
Já li muita coisa boa em volta desse mesmo tema. O extraordinário Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubem (ns?)Paiva. A Balada do cárcere, não do Wilde mas do autor português de O Delfim, Joaquim Cardoso Pires, se não me engano. E uma história das Mil e uma noites, da cabeça cortada do sábio, que desejava provar ao Califa que existia vida depois da morte e que combina piscar o olho 3 vezes, para confirmar... Jean Do piscou o olho muito mais que essas três vezes, e comprovou que existe vida mesmo após essa morte do invólucro. Fiquei muito impressionada com o filme.
Ontem à noite fui assistir Dúvida – um show de interpretação numa história que, ao invés de revelar a grandiosidade humana, como é o caso do filme acima, revela o abismo da pequenez da alma humana. Também fiquei muito impressionada, mas sei que este é um filme que, com o tempo, me esquecerei. ;-) 
Me despeço com essa piscadela, sorridente, feliz por ter tantas opções para me comunicar.

Monday, February 09, 2009

Jobs or Gates

Aqui estou eu, pilotando o novo Mac, sem lembrar mais dos truques. Por exemplo: onde fica o acento agudo? Na verdade, sei onde ele se apresenta no teclado, mas nao sei usar nenhum acento, acabo de descobrir... Ficam todos fora do lugar, antes da letra. O que fazer?
So digo a voces uma coisa: Fica lindo, esse meu bloguinho tao banal, nesta tela espetacular. 
Como tenho muito que aprender e explorar, vou ficando por aqui. Outra hora eu comento os filmes que vi -- O escafandro e a borboleta, por exemplo, que tanto me impressionou. E outros.

Sunday, February 08, 2009

Búzios

Lá fui eu, passar o fim de semana em Búzios, mergulhar naquele mar transparente e caminhar na Rua das Pedras, na noite fresca e enluarada. Coisa boa. Sol, água de coco, caminhadas, conversas infindáveis e uma ou outra leitura.
Agora, de volta, as saudades e os filmes...
Quanto ao computador, acho que terminamos nossa relação de anos felizes e proveitosos, creio que em breve terei um novo amor, "sleek", gracinha, de volta aos braços da Apple. Mac foi meu primeiro amor, que, traiçoeiro, me abandonou no meio de um projeto. Mas perdoo, esqueço, e me entrego de novo, fascinada pela sua beleza e pelas gracinhas que ele já demonstrou que sabe fazer (mas, saberei eu comandar essas gracinhas?) O amor, no entanto, é cego e pouco achegado a cálculos e raciocínios. Me deixo seduzir...Vejamos onde vai dar essa nova história de amor.

Wednesday, February 04, 2009

(in)Utilidade Pública

Tudo o que eu sabia já não sei mais. Me lembro de minha avó, dizendo que, quando era menina ( e como somos arrogantes quando somos meninas!) viu uma tabuleta anunciando o preço do açúcar, escrito assim A-Ç-Ú-C-A-R, com cê cedilha (com ou sem hífen?) e acento agudo no U. Na época, a grafia correta era ASSUCAR e ela riu, zombou do pobre comerciante, que anunciava seu açúcar como ainda ontem os botequins anunciavam suas linguiças... Visionários, eles já conheciam o futuro de nossa língua e o anunciavam, enquanto nós, na embriaguês de nossa escolaridade, achávamos que éramos os donos das formas corretas.
Bem, para a gente tentar aprender alguma coisa, aqui vai uma cópia de um resumo da Reforma Ortográfica. Eu me sinto cada dia mais perdida, e dou graças a Deus pelos revisores de texto. Dedico, então, esse post a eles, e, em especial, à Fátima, da Editora Record. Obrigada por tudo, viu, querida?
Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
Alfabeto
Nova Regra
O alfabeto é agora formado por 26 letras
Regra Antiga
O ‘k’, ‘w’ e ‘y’ não eram consideradas
letras do nosso alfabeto.
Como Será
Essas letras serão usadas em siglas,
símbolos, nomes próprios, palavras
estrangeiras e seus derivados. Exemplos:
km, watt, Byron, byroniano
Trema
Nova Regra
Não existe mais o trema em língua portuguesa.
Apenas em casos de nomes próprios
e seus derivados, por exemplo: Müller,
mülleriano
Regra Antiga
agüentar, conseqüência, cinqüenta,
qüinqüênio, freqüência, freqüente, eloqüência,
eloqüente, argüição, delinqüir,
pingüim, tranqüilo, lingüiça
Como Será
aguentar, consequência, cinquenta,
quinquênio, frequência, frequente, eloquência,
eloquente, arguição, delinquir,
pinguim, tranquilo, linguiça.
Acentuação
Nova Regra
Ditongos abertos (ei, oi) não são mais
acentuados em palavras paroxítonas
Regra Antiga
assembléia, platéia, idéia, colméia,
boléia, panacéia, Coréia, hebréia,
bóia, paranóia, jibóia, apóio, heróico,
paranóico
Como Será
assembleia, plateia, ideia, colmeia,
boleia, panaceia, Coreia, hebreia,
boia, paranoia, jiboia, apoio, heroico,
paranoico
obs: nos ditongos abertos de palavras oxítonas e monossílabas o acento continua: herói, constrói, dói, anéis, papéis.
obs2: o acento no ditongo aberto ‘eu’ continua: chapéu, véu, céu, ilhéu.
Nova Regra
O hiato ‘oo’ não é mais acentuado
Regra Antiga
enjôo, vôo, corôo, perdôo, côo, môo,
abençôo, povôo
Como Será
enjoo, voo, coroo, perdoo, coo, moo,
abençoo, povoo
Nova Regra
O hiato ‘ee’ não é mais acentuado
Regra Antiga
crêem, dêem, lêem, vêem, descrêem,
relêem, revêem
Como Será
creem, deem, leem, veem, descreem,
releem, reveem
Nova Regra
Não existe mais o acento diferencial em
palavras homógrafas
Regra Antiga
pára (verbo), péla (substantivo e
verbo), pêlo (substantivo), pêra
(substantivo), péra (substantivo), pólo
(substantivo)
Como Será
para (verbo), pela (substantivo e
verbo), pelo (substantivo), pera
(substantivo), pera (substantivo), polo
(substantivo)
Obs: o acento diferencial ainda permanece no verbo ‘poder’ (3ª pessoa do Pretérito Perfeito do Indicativo - ‘pôde’) e no
verbo ‘pôr’ para diferenciar da preposição ‘por’
Nova Regra
Não se acentua mais a letra ‘u’ nas formas
verbais rizotônicas, quando precedido de ‘g’
ou ‘q’ e antes de ‘e’ ou ‘i’ (gue, que, gui, qui)
Regra Antiga
argúi, apazigúe, averigúe, enxagúe,
enxagúemos, obliqúe
Como Será
argui, apazigue,averigue, enxague,
ensaguemos, oblique
Nova regra
Não se acentua mais ‘i’ e ‘u’ tônicos em
paroxítonas quando precedidos de ditongo
Regra Antiga
baiúca, boiúna, cheiínho, saiínha, feiúra,
feiúme
Como Será
baiuca, boiuna, cheiinho, saiinha, feiura,
feiume
Hífen
Nova Regra
O hífen não é mais utilizado em palavras
formadas de prefixos (ou falsos prefixos)
terminados em vogal + palavras iniciadas
por ‘r’ ou ‘s’, sendo que essas devem ser
dobradas
Regra Antiga
ante-sala, ante-sacristia, auto-retrato,
anti-social, anti-rugas, arqui-romântico,
arqui-rivalidade, auto-regulamentação,
auto-sugestão, contra-senso, contraregra,
contra-senha, extra-regimento,
extra-sístole, extra-seco, infra-som,
ultra-sonografia, semi-real, semi-sintético,
supra-renal, supra-sensível
Como Será
antessala, antessacristia, autorretrato,
antissocial, antirrugas, arquirromântico,
arquirrivalidade, autorregulamentação,
contrassenha, extrarregimento,
extrassístole, extrasseco, infrassom,
inrarrenal, ultrarromântico, ultrassonografia,
suprarrenal, suprassensível
obs: em prefixos terminados por ‘r’, permanece o hífen se a palavra seguinte for iniciada pela mesma letra: hiper-realista, hiperrequintado,
hiper-requisitado, inter-racial, inter-regional, inter-relação, super-racional, super-realista, super-resistente etc.
Nova Regra
O hífen não é mais utilizado em palavras
formadas de prefixos (ou falsos prefixos)
terminados em vogal + palavras iniciadas
por outra vogal
Regra Antiga
auto-afirmação, auto-ajuda, autoaprendizagem,
auto-escola, auto-estrada,
auto-instrução, contra-exemplo,
contra-indicação, contra-ordem,
extra-escolar, extra-oficial, infra-estrutura,
intra-ocular, intra-uterino, neoexpressionista,
neo-imperialista, semiaberto,
semi-árido, semi-automático,
semi-embriagado, semi-obscuridade,
supra-ocular, ultra-elevado
Como Será
autoafirmação, autoajuda, autoaprendizabem,
autoescola, autoestrada, autoinstrução,
contraexemplo, contraindicação,
contraordem, extraescolar,
extraoficial, infraestrutura, intraocular,
intrauterino, neoexpressionista,
neoimperialista, semiaberto, semiautomático,
semiárido, semiembriagado,
semiobscuridade, supraocular, ultraelevado.
Obs: esta nova regra vai uniformizar algumas exceções já existentes antes: antiaéreo, antiamericano, socioeconômico etc.
Obs2: esta regra não se encaixa quando a palavra seguinte iniciar por ‘h’: anti-herói, anti-higiênico, extra-humano, semiherbáceo
etc.
Nova Regra
Agora utiliza-se hífen quando a palavra é
formada por um prefixo (ou falso prefixo)
terminado em vogal + palavra iniciada pela
mesma vogal.
Regra Antiga
antiibérico, antiinflamatório, antiinflacionário,
antiimperialista, arquiinimigo,
arquiirmandade, microondas, microônibus,
microorgânico
Como Será
anti-ibérico, anti-inflamatório, antiinflacionário,
anti-imperialista, arquiinimigo,
arqui-irmandade, micro-ondas,
micro-ônibus, micro-orgânico
obs: esta regra foi alterada por conta da regra anterior: prefixo termina com vogal + palavra inicia com vogal diferente =
não tem hífen; prefixo termina com vogal + palavra inicia com mesma vogal = com hífen
obs2: uma exceção é o prefixo ‘co’. Mesmo se a outra palavra inicia-se com a vogal ‘o’, NÃO utliza-se hífen.
Nova Regra
Não usamos mais hífen em compostos que,
pelo uso, perdeu-se a noção de composição
Regra Antiga
manda-chuva, pára-quedas, páraquedista,
pára-lama, pára-brisa, párachoque,
pára-vento
Como Será
mandachuva, paraquedas, paraquedista,
paralama, parabrisa, párachoque,
paravento
Obs: o uso do hífen permanece em palavras compostas que não contêm elemento de ligação e constiui unidade sintagmática
e semântica, mantendo o acento próprio, bem como naquelas que designam espécies botânicas e zoológicas: ano-luz,
azul-escuro, médico-cirurgião, conta-gotas, guarda-chuva, segunda-feira, tenente-coronel, beija-flor, couve-flor, erva-doce,
mal-me-quer, bem-te-vi etc.
Observações Gerais
O uso do hífen permanece
Exemplos
Em palavras formadas por prefixos ‘ex’,
‘vice’, ‘soto’
ex-marido, vice-presidente, soto-mestre
Em palavras formadas por prefixos ‘circum’ e
‘pan’ + palavras iniciadas em vogal, M ou N
pan-americano, circum-navegação
Em palavras formadas com prefixos ‘pré’,
‘pró’ e ‘pós’ + palavras que tem significado
próprio
pré-natal, pró-desarmamento, pós-graduação
Em palavras formadas pelas palavras ‘além’,
‘aquém’, ‘recém’, ‘sem’
além-mar, além-fronteiras, aquém-oceano, recém-nascidos, recém-casados,
sem-número, sem-teto
Não existe mais hífen
Em locuções de qualquer tipo (substantivas,
adjetivas, pronominais, verbais, adverbiais,
prepositivas ou conjuncionais)
Exemplos
cão de guarda, fim de semana, café
com leite, pão de mel, sala de jantar,
cartão de visita, cor de vinho, à vontade,
abaixo de, acerca de etc.
Exceções
água-de-colônia, arco-da-velha, corde-
rosa, mais-que-perfeito, pé-demeia,
ao-deus-dará, à queima-roupa

Esta tabela foi desenvolvida Diego Guerra a partir do texto recebido por email para todos aqueles que estão ficando
malucos com a reforma ortográfica. Ela pode ser livremente distribuída, copiada e impressa.
Acesse o site www.diggs.com.br.

Matriculada!

Bem, já tratei da matrícula: mais um semestre, vejam só. Ainda outro dia estava pensando se retomava ou não meu projeto e agora já vou para o terceiro semestre. Já-já acabo. Tinha uma música em 1900 e antigamente que dizia que o mundo gira depressa/ e nessas voltas eu vou/ cantando a canção tão feliz/ que diz: Ai Lili, ai Lili, ai lou!
Pois é, não sei se vou cantando a canção tão feliz, até porque só tenho um fiapo de voz. Ah, que inveja de minhas amigas de vozes aveludadas e fortes, ou roucas e sexy. Minha voz é trêmula, entremeadas de risadas, insegura como a de uma criança de 4 anos. E falo baixinho, às vezes nem falo -- prefiro ficar calada quando estou no meio de estranhos. Mas, em compensação, quando estou com amigos às vezes falo demais -- até eu canso de mim mesma!
Agradeço a todos. Por favor, Guilherme, mande seu poema para historiaspossiveis@gmail.com. Já encaminhei o conto do Leo para lá. Fico muito feliz com a colaboração de vocês. Nossa nova editora, a Dani, está fazendo a seleção, mas, se não saírem nesse número, sairão em outro, não se preocupem.
Adoro todos vocês.

Tuesday, February 03, 2009

Falha no calendário

Gente, ontem é que foi o dia de Iemanjá! Não sei porque, mas eu estava vivendo um dia atrasada, achando que ainda estava no dia 1 de fevereiro. Fevereiro, mês tão curtinho, e eu ainda roubo mais um dia dele. Tadinho, meu mês não merece isso. Vamos deixar que o sol brilhe em todos os dias deste mês tão verão, tão carnaval, tão humildemente apertado entre os 31 dias do Janeiro de duas caras e os outros 31 do belicoso Março.
Obrigada, Guido, pelas dicas. Acho que minha crise é puramente postural, pois, sentada aqui com o laptop ao invés do computador, forço não só as costas como os olhos. Mas o computador está com um virus renitente; meu filho, que agora tem tido um pouco mais de tempo, continua se esforçando para limpá-lo, mas os virus estão cada vez mais ardilosos e matreiros.
Tenho boas notícias: O blog onde colaboro, Histórias Possíveis, esteve ameaçado de se acabar com a saída do André, meu mano em SESC, amigo ferido pela depressão. Agora, não só André parece um pouco melhor, mas o grupo decidiu não deixar que o trabalho dele se extinguisse. Ele tira umas férias da gente, mas nós guardaremos o lugar dele, e manteremos nossas histórias, com nova cara e com muita saudade.
Estamos convidando amigos para colaborar no site, também. E aí, Chris? E aí Guido? Vocês se animam?E aí, Eugênia sumida? Vera Helena? Vamos fazer um número "temático", Carnaval é o mote. Aceitamos de tudo -- poemas, crônicas e contos, ou ilustrações. Mandem alguma coisa, sim? Todos são benvindos.

Monday, February 02, 2009

Ogunhê!

Acabo de receber esta imagem, por e-mail, de uma amiga querida e sempre alegre. Ela me informa que este ano estamos sob a proteção de Ogum e de Iansã cujas cores são o verde e o vermelho. Ogum, o cavaleiro da esperança, Iansã, a senhora dos raios, cantada por Betânia, tudo gente boa. No calendário chinês, o ano que acaba de começar é o do Boi -- paciente e trabalhador, ele nos ajuda a plantar as boas sementes. Vejam, temos bons augúrios para nossa vidinha. Eu, por via das dúvidas, já vou fazendo minhas homenagens também a Iemanjá, cujo dia é amanhã, agradecendo as águas mansinhas e de temperatura amena do mar. Desde sexta-feira que me maravilho com os banhos nas ondas calmas e brincalhonas, só lamento um pouco a inevitável sujeira, já que choveu tanto no início da semana.
Ando ainda com problemas cibernéticos e com uma terrível crise de coluna. Não escrevo mais, essa posição é muito forçada para mim. Mas mando meu carinho para todos os que me lêem.

Tuesday, January 27, 2009

Apocalipse

Fui ao teatro, assistir à peça do Domingos de Oliveira, na Laura Alvim. Não vou fazer "entrevista", outra vez, pois todos já estamos convencidos de minha chatice -- só respondo com reticências! No entanto, sei que, dessa vez, não seria esse o caso. Fui ao teatro e adorei tudo -- desde o clima de teatro de verdade, um clima de festa, de expectativa, de alegria até a platéia, onde se destacava, como uma jóia, o Paulo José.
Pois é, ele estava lá, com um ar frágil, mas com a mesma intensidade no olhar, e com um prazer que ele demonstrava nas menores atitudes: sentado na ponta da cadeira, olhos fixos no palco, respondendo às perguntas atiradas à platéia pelos atores, batendo palmas, sorrindo.
Acho que o teatro é um meio mais generoso que o filme. Os olhares de cumplicidade que trocamos com os atores -- que provavelmente nem estão nos vendo, mas que parecem olhar só para nós, no meio de tanta gente -- nos fazem ter a impressão de que a peça depende de nossa resposta. E, na verdade, depende. É como uma aula, que depende sempre dos alunos. Um caminho de mão dupla, uma parceria no agora.
Fico imaginando os teatros de antigamente -- todo aquele povo, a cidade inteira, a bem dizer, e as atenções dispersas, como num jogo. Seria assim? Ou o caráter sagrado que o teatro tinha levaria as pessoas a se comportarem com mais cerimônia que a indisciplinada platéia elizabetana?
Nossos modelos de hoje em dia vêm do século XIX, muito mais comportado e rígido que o passado. Um povo controlado, aplaudindo nas horas certas, vaiando, também, mas só quando combinava vaiar, por causa de alguma coisa fora do próprio teatro.... Mas, uma coisa que já notei que se passa nos teatros de hoje é a confusão de teatro com comédia. Podemos estar assistindo um drama dos mais tristes e cabeludos que, invariavelmente, escutaremos alguém rir. E não é de nervoso: é de incompreensão, mesmo. O dito que deveria provocar um pequeno alívio, um sorriso irônico, assim, meio de lado, provoca é a gargalhada daqueles que querem provar que não perdem nada, que sabem escutar e que estão ali para se divertir... Mas o apocalise do Domingos era mesmo uma comédia, e queria nos fazer rir, um riso inteligente, filho daquele de Gil Vicente que dizia "ridendo castigat mores". Rimos com ele, com seus personagens, rimos dos exageros, mas, ao invés de nos afastarmos do que se passa no palco, percebemos como tudo aquilo nos diz respeito. E, felizes, saímos com nossa crença na Vida, renovada.

Sunday, January 25, 2009

Engano...

Acordo, outro dia, e vejo em meu celular uma mensagem, torpedo, como chamam, me agradecendo a noite de amor!
UAU!
Sei que não era dirigida a mim, essa mensagem carinhosa. Alguém, na emoção ainda não desfeita, digitou um número errado ( Sei que existem outras hipóteses medonhas, como um número propositadamente informado errado, mas sou otimista e romântica, afasto logo essa idéia da cabeça). E, como um presente, leio e releio essa mensagem que chega do "além" para me alegrar. Pois o amor é generoso, basta nos roçar assim de passagem para que a gente se sinta um pouco mais feliz.
Ia guardar isso em segredo, mas lembrando que meu dia ficou um pouco mais feliz, um pouco mais ensolarado, achei que devia compartilhar com vocês esse acaso, e até propor uma "ONG das palavras amenas" -- A cada dia, mandaríamos, aleatoriamente, uma mensagem carinhosa para alguém que não conhecemos, cujo número elegeríamos numa loteria, comandada pelo destino.
Claro que, pensando melhor, desisto dessa prática que pode acarretar muito mais dor que prazer:
Imaginem a namorada vendo a mensagem no celular de seu amado, e, desolada, rompendo com ele por sua infidelidade. Ou o senhor indignado que telefona para o número registrado a fim de tomar satisfações, ou, ainda, a pessoa pegajosa que pode estar só aguardando essa mensagem para depois ficar ligando até te obrigar a mudar de número!
Vamos, então, mudar um pouco nossa ONG hipotética: Mandemos, a cada dia, um torpedo para algum conhecido, mesmo, com alguma coisinha boa sobre essa pessoa.
Só que aí ficaremos tão chatos como aqueles caras que nos entopem nossa caixa de mensagem com mensagens edificantes.
Esqueçam.
Mas, se por acaso receberem um torpedo errado, agradeçam ao acaso e não briguem com seus namorados nem esposas. Riam, e saboreiem o engano, essa ficção plantada no meio de nossa realidade.

Saturday, January 24, 2009

Filmes que ando vendo

Como meus leitores habituais já sabem, não sou organizada. Admiro os blogs perfeitos de outros e outras, que têm formatos de revista, separam seus assuntos em pastas, classificam. Eu vou jogando tudo aqui, numa espécie de diário, que não impõe forma, nem assunto, nem mesmo ordem. Então, hoje, sábado, não vou colocar uma poesia, como o faria a Adriana. Indisciplinada, preguiçosa e bagunceira, vou falar de filmes que assisti, anteontem e ontem.
Benjamin Button e Austrália -- os dois no cinema Leblon. Eu mesma me entrevisto:
-- Gostou?
-- ...
Bem, as reticências já revelam que estou indecisa, que os filmes não me provocaram uma reação forte e apaixonada. Fui ver o Benjamin porque sabia que era uma adaptação de um conto do Fitzgerald, e porque, há muito tempo, ando brincando com uma história de uma mulher que pára de envelhecer, enquanto seu marido continua. Juro que não tinha lido o conto e fiquei curiosa com o assunto. Fui ver o filme e acho que alguma coisa não funcionou, e talvez seja o compromisso com a realidade que a história, fantástica, deseja criar. Do conto original, sobrou muito pouco. Pouquíssimo, na verdade. Talvez só o nome do personagem. E aí veio toda aquela leitura de o tempo andar ao contrário, para se ter de volta os filhos perdidos na guerra. E mais aquela baboseira de uma criação de maquiagem que transforma o velho num monstro, um etzinho meio simpático, meio bobo que distrai e dilui. E aí, outro grande problema, o filme transforma a história numa história de amor através das idades, e cria uma "elevação sentimental" que talvez agrade a alguns sonhadores, mas que não satisfaz como proposta -- um amor sem conflitos, ha, quero ver! E tem mais, lembrando do sucesso de O paciente inglês, criam uma maquiagem de Ninja Turtle para a pobre Kate (Blanchett?) e um livrinho gasto para substituir o Heródoto, e põem a pobre da Julia Ormond ( que bem poderia ter recebido uma maquiagem mais amena) substituindo a doce e sempre bela Juliette Binoche.
Continuo a entrevista:
-- A que você atribui as 13 indicações ao Oscar que o filme recebeu?
-- ...
Outra vez reticências? Vou mudar de entrevistada, pois eu sou muito ruim para responder. É bem verdade que meu desconhecimento técnico e teórico de cinema não me permitem criar uma teoria mirabolante. Mas, por mais que eu vire e revire as imagens do filme em minha cabeça, não imagino porque alguém quereria premiar esse filme. Para mostrar que no quesito maquiagem eles continuam fazendo a mesma coisa? Para indicar que nas histórias adaptadas ninguém liga para a história original? Para revelar que estamos vivendo num mundo em que os negros já não são mais retratados no cinema americano como seres inferiores e incapazes de cultura, mas que continuam fazendo papéis de empregados fiéis? Para impor uma visão conciliadora e romântica do mundo? Para demonstrar que a montagem do filme, ao invés de fazer um trabalho ágil, agora procura nos anestesiar com histórias que duram mais que o interesse que podem suscitar?
Não me entrevisto mais, e aproveito para dizer que esse Oscar de filme mais longo do ano tem um concorrente de peso: Austrália. Neste "épico"que vem colocar o " creamy " não mais como um ser inferior e incapaz de cultura, no entanto, relegado a papéis de empregados fiéis -- é, além do mais, me repito muito, mas não é culpa minha! -- vemos a história, sem força, se socorrendo de artifícios técnicos que já eram usados nos tempos de Vivian Leigh. Austrália também vai concorrer ao Oscar de desmaquiagem, eu acho -- tirando do herói sua condição de lobisomem e forçando-o a representar, nos relembra um título do Lara -- bonitinho, mas ordinário. O corpo perfeito, os dentes tratados, as roupas justas realçam a falta de expressão, o convencionalismo, essas coisas que antes pretendiam ser evitadas. Enquanto isso, aquele espantalho que querem nos impingir como sendo a Nicole, faz caras e bocas, pinga colírios para avermelhar os olhos, e tenta, tenta, tenta mesmo nos fazer lembrar de outros filmes. Costurando tudo, os sorrisos adoráveis do creamy, as tomadas misteriosas do King George, que nos lembram nosso saci pererê, os horrores da guerra, a cobiça, o preconceito, o ser humano intrinsecamente bom versus o ser humano intrinsecamente mau... Que enjôo! E outra vez, narração. Ora, dêem-me a narração, mas do jeito que o Woody Allen fez em V.C.B. -- Grande filme? Talvez não, mas inteligente, permitindo que a gente discuta alguns dados inerentes ao ser humano, como sua eterna insatisfação, com a vivacidade da percepção contemporânea.
Para terminar, mais uma pergunta:
-- Por que você tem que falar sobre coisas que não entende?
-- Porque não entendo, mas gosto...

Friday, January 23, 2009

Palavras...

Uma coisinha ou outra que me encantam nos blogs.
Como leitora de alguns blogs ( que, infelizmente, ainda não consegui colocar na listinha para que possa fazer uma ponte com eles -- socorro, André, essa é sua deixa para me mandar um e-mail me ensinando!) me encanta essa sensação de intimidade e amizade que pode ser criada através das postagens. Como autora, também. É fascinante observar o crescimento de um novo tipo de amizade em que a gente nem tem noção de como seja a pessoa do outro lado do ciberespaço. Não sei onde estão essas pessoas, não conheço seus rostos, não sei como chegaram até a página, assim como não sei mais como cheguei à página de uns e outros.
Me sinto numa galáxia, pulsando ondas que desconheço, pois não sei nada dessas coisas eletrônicas. E essas ondas vão se ampliando e chegando a pontos distantes, ou próximos, e depois vão continuando, e talvez sejam recuperadas daqui a milhares de anos, como dizem que é possível recuperar fragmentos de sons emitidos por pessoas que viveram nas épocas mais distantes, em alguns pontos mágicos do nosso planeta. Imaginem, a gente andando por uma clareira de um bosque e de repente ouvindo vozes sussurrando juras de amor em provençal... Ou comandos de batalha em aragonês, ou canções de ninar em ladino... Mas aqui não é o caso dos idiomas exóticos: entramos numa clareira ciberespacial/ciberespecial e encontramos, no nosso bastante exótico português do século XXI, textos que nos emocionam, que revelam aspectos da realidade vistos através de outros olhos, pequenos fragmentos que, um dia, poderão ser percebidos como documentos históricos (obrigada, Cris!)
Já estou meio perdida em devaneios, mas quero dizer uma coisinha mais que me fascina -- é a sensação de contemporaneidade. Pois a leitura sempre me deu uma idéia de uma espécie de fila, de estar lendo o passado, mesmo quando estamos lendo um autor contemporâneo -- pois existe o tempo da escrita, o tempo da publicação, essas demoras todas... Mas o blog reduz isso. Tenho a certeza de que, daqui a algum tempo, se é que já não existe isso, poderemos estar escrevendo e publicando simultaneamente, e quem estiver plugado em nosso site irá vendo as letrinhas aparecendo uma a uma, num outro inquietante tipo de Big Brother (valeu, Adriana!)
E agora, vou cuidar de outras coisas, e procurar minha querida aniversariante do dia, e tratar de viver, pois, como me lembrei ao escrever a um amigo, esta manhã -- a vida não tem rascunho. Vamos a ela!

Thursday, January 22, 2009

Silêncios

Há muitos tipos de silêncio, já pensaram nisso? Existe o silêncio da timidez, que conheço bem, mas a que procuro resisitir. Existe o silêncio da gentileza, o da compaixão, o do amor. Existe o silêncio da indiferença, da agressividade, da ignorância. O silêncio da paz, que se opõe ao do desespero.
Quando era pequena, eu não suportava o silêncio -- descobri isso numa viagem que fiz com minha bisavó (numa família em que as mulheres casavam-se cedíssimo, não é de admirar que eu conhecesse e convivesse com a minha). Fomos para uma velha cidade, quase fantasma, que teve seus dias de glória nos tempos do café. Mas depois, até o trem, que nos levou até lá, só parava na estação quando tinha requisições, e a gente se via obrigada a pular dos vagões, que me pareciam altíssimos, no meio de uma pastagem que rodeava a pequena estação, pois a plataforma só comportava a locomotiva... Bem, essas são memórias que reconstruo com a lógica do presente. Do passado só tenho de concreta a imagem de meu avô carregando sua mãe nas costas, até depositá-la, a salvo, no chão de mato bravo. Minha bisavó, sem saber onde se segurar, tampava com as mãos os olhos do vovô, que dava passos às tontas, pedindo para a mãe tirar as mãos de seus olhos. Certamente, uma visão que não dá para ser esquecida. Quando, anos mais tarde, li as cartas de Anchieta e me deparei com a cena do jovem sacerdote carregando o Padre Nóbrega nas costas, ria sozinha, lembrando do vovô e seu desespero.
Bem, voltando ao silêncio, quando chegou a noite, a noite mais densa que já tive que enfrentar, numa cidade sem iluminação pública, num hotel iluminado a lamparinas e alimentado a fogão de lenha, quando todos se recolheram, os barulhos familiares se extinguiram e sobrou o silêncio, mas o silêncio orgânico do mato: um perpétuo ruído de insetos e animais noturnos, misturados, era o que atacava meus ouvidos com uma vibração altíssima, estranha, que me manteve acordada e chorando, reclamando que " o silêncio estava muito alto". Desnecessário dizer que meu avô teve que voltar para me resgatar daquelas férias... Nunca fui muito feliz naquelas paragens. Anos depois, num acampamento de bandeirantes -- meu primeiro acampamento -- nossa tropa escolheu um lugar errado para montar a barraca: ao lado de um laguinho, de baixo de um morrinho, tudo assim diminutivo, mas que, devido a uma tromba d'água, se transformaram em ameaças às nossas vidinhas, também diminutivas. Todas molhadas, salvando o pouco que conseguimos de suprimentos, carregando nossos pertences ensopados, enfrentamos a enxurrada ladeira acima, até chegar ao galpão abandonado onde nos instalamos para dormir. Fiquei doente, febre alta, tive que ser resgatada mais uma vez... Não sei se adoeci graças à chuva e a lama, ou pelo susto e o cansaço. Mas, antes do dilúvio, consegui guardar algumas boas lembranças da vida de acampamento -- todas altamente perigosas. Mas depois eu conto isso. São lembranças para outros posts. Voltando aos silêncios...
Guido estranha o silêncio em resposta aos meus comentários, pensa até que está cometendo um engano, que embarcou num blog de mão única. Por favor, meu amigo, escreva! Você não é meu único leitor, embora até possa parecer. Mas é o que mais constantemente me alimenta com seus comentários. Sei que tenho outros leitores que me mandam e-mails particulares, atrapalhados sem conseguir comentar no blog, ou tímidos de colocarem seus comentários para serem lidos por outros. Também, seja justo, tenho outros que comentam com regularidade, ou deixam pequenas notinhas cordiais, como cartões de visita. Eu mesma sou uma leitora silenciosa dos outros blogs, só muito de vez em quando mando mensagens ou faço comentários.
O silêncio, ou os silêncios que julgo perceber não me parecem agressivos. Mas as palavras são muito aguardadas e apreciadas. Nesse labor solitário da escrita, quando os comentários ao que escrevemos podem demorar anos para nos atingir, um blog é um instrumento precioso para percebermos as reações possíveis ao que escrevemos. Mas ainda é uma novidade, alguns ainda têm medo -- acham que todos os seus dados podem ser sugados de seus computadores caso eles entrem nos registros necessários para as respostas. E eu não posso tranquilizar ninguém quanto a isso: Que sei eu, dessas coisas? Só digo que adoro que me respondam, que dialoguem comigo, que me corrijam ou me incentivem -- eu só saio ganhando. E agradeço, muito,as palavras descobertas e as escondidas.

Wednesday, January 21, 2009

A perfect blogging day

Depois de tantos dias de sol, uma ameaça de dilúvio. A luz prateada, não muito intensa, os barulhinhos confortantes da chuva, quando se está abrigado, são um convite irresistível à leitura e a escrita.
Pouco a pouco vou me desemaranhando do mar de pequeninas tragédias que me acometeram -- carro quebrado, armário tomado por cupins, computador silente e emburrado--, e vou mergulhando na montanha dos livros e leituras que tenho para fazer. Um dos textos mais instigantes foi o que me foi dado pela Rachel. Ela, além de grande escritora, parece ter sido abençoada com o mais perfeito timing que se pode alcançar. Seus textos parecem que vêm preencher lacunas, responder a perguntas não formuladas. Estou com um conto chamado Estrela de Belém, que ela recuperou através do perfeito leitor e amigo. É um texto que revela um encanto juvenil com a vida, compromissado com sua capacidade de maravilhamento com as coisas mais corriqueiras. O conto não se passa no Natal, não tem nada de religioso, mas é um conto de esperança, de recomeço -- e nós, nestes nossos dias de Obama, estamos todos aptos a absorver estas aragens, a nos deixarmos amolecer de tanta fé na capacidade de regeneração humana.
Temos sobrevivido graças à esperança, não acham? E agora, esse belo jovem, alto e ereto como uma lança, cheio de boas intenções, com uma sólida formação acadêmica e uma família que parece ser verdadeiramente amada, vem com discursos que revelam um lado adorável de ingenuidade, de crença nas boas tradições, de recuperacão de valores humanos e éticos, que abandonem,ao menos por um tempo, toda a ganância, o egoísmo, o meuprimeirismo que andam nos assolando. Chegamos a acreditar que será possível mudar. Ele mesmo já mudou imperceptivelmente seu discurso -- Não mais yes, we can -indicador de possibilidade, para yes, we will - indicador de compromisso e ação.
Inclusão, pés no chão, rostos alegres e entusiasmo para o trabalho. A festa que presenciamos, não só em Washington, mas pelo mundo afora nos anima. Talvez o século XXI esteja, finalmente, começando, e comece, diferentemente do XX, não com guerras, mas com a paz. Que este seja o século que todos esperávamos: reinventando a civilização baseada no conhecimento e no amor ao próximo, em que todos tenham valor igual. Oferecendo, ao invés de tomar. Construindo juntos, ao invés de destruir. Pondo ordem em nossa casa, cuidando dos recursos naturais, alimentando filhos, contando nossas histórias uns aos outros, aceitando e admirando as diferenças...
Para terminar, uma palavrinha a respeito das roupas de Mrs. Obama -- teremos chegado ao fim das ilusões de super estrelas? Pois os trajes escolhidos por Michelle não foram nada especiais -- foram roupas de realidade, que passam uma mensagem ao povo dizendo -- a gente não vale pelo invólucro, não é o papel que faz o presente. Eu não me visto para ofuscar, estou aqui como alguém que vai a uma festa importante, mas que não empenha as jóias para alugar um vestido.
Bravo, dona primeira dama! Obrigada por ostentar as cores brasileiras -- isso talvez signifique alguma coisa. Obrigada por sorrir e acenar calorosamente quando via alguma coisa que a agradava ou alguém de quem gostava. Nada do ar blasé do passado: apetites naturais e humanos, reações sinceras e transparentes, dinamismo... Obrigada por ser, e demonstrar que é, gente como a gente.

Tuesday, January 20, 2009

Outros aniversários

Está muito escuro e estou escrevendo num computador estranho, daí que o post vai ser breve. É só para expressar a alegria que sinto neste mês de aniversários. Ontem foi o do André, hoje é o da Daisy, amanhã do primo Pereira! Coisa boa, três dias seguidinhos de lembranças de gente querida, que são meus amigos queridos e eu nem sei o que fiz para merecer ter gente assim especial a meu redor! Dia 23 é o da Florinha, minha florzinha encantadora, que tem sempre a palavra certa para dizer! Nem sei se esses amigos lêem meu blog, mas, se lerem, saibam que meus dias estão mais alegres graças às boas lembranças que tenho de vocês.

Sunday, January 18, 2009

Via Crucis

Essa não é do corpo, nem do cotidiano. É cibernética e está me deixando louca. Há muito tempo atrás, quando voltei dos EUA trazendo comigo um computador McIntosh repleto de escritos e arquivos importantes, o pobre coitado teve um "choque cultural" e não se adaptou ao Brasil. Ficou mudo por um bom tempo até que eu conseguisse arranjar alguém que consertasse Apple, que aqui no Brasil era coisa rara. Depois de algumas semanas encontrei uma oficina no Centro e para lá foi meu computador,com síndrome do encarceramento... Quando voltou, ele falava outra língua: todos os meus arquivos, que os técnicos deram como recuperados, estavam escritos em sinais matemáticos. Infelizmente, na época, eu não tinha um filho adolescente, que me ensinasse tratar disso. Agora, há pouco tempo atrás, precisei de uns arquivos que estavam num back-up. Como sou muito desligada, fiz os back-ups, mas não identifiquei, com precisão, o nome dos arquivos nos CD`s, daí que precisei ficar horas olhando um por um e, como sempre,no último ou no penúltimo é que encontrei o que procurava -- Não que eu não tivesse posto algum tipo de identificação, mas, na época, achei que seria muito interessante classificá-los por data: Arquivos de fevereiro a março de 2003, por exemplo. Se eu não lembro o que comi ontem, como vou lembrar o que escrevi entre fevereiro e março de 2003? Bem, não era isso o que estava tratando, falava das vantagens de ter um filho adolescente. Pois abri as pastinhas e meus arquivos estavam todos em sinais incompreensíveis, quadradinhos, tracinhos, cifrões... Passei a tarde desesperada, procurando em papéis velhos para ver se tinha alguma versão escrita da pasta que precisava. Achei alguns textos incompletos, outros repetidos, e quando meu filho chegou me encontrou irritada, cheia de alergia, na frente do computador, tentando transcrever tudo aquilo, achou que eu estava doida. Depois do diálogo de praxe, com o objetivo de demonstrar bem como as mães são seres irracionais e suas ações fruto da sua total incapacidade, ele finalmente me sorriu e, sem nem precisar sentar na frente da tela, inseriu o CD, olhou para o arquivo em questão e com um único comando transformou o incompreensível em texto outra vez. Depois de algumas súplicas ele me ensinou o que fazer, mas eu já esqueci. Acho que era mandar "save as text", uma coisa banal. Sei que era save as, mas não sei qual o formato, vou ter que perguntar de novo. Bem, agora o caso é mais grave, ou ele já está mais velho e perdendo sua capacidade cibernética: ele tentou e não conseguiu resolver o problema. Mas também desconfio. Já há alguns meses ele vem me buzinando, dizendo que eu preciso de uma "máquina" nova, que meu computador já está ultrapassado... Ah, céus! Odeio trocar minhas coisinhas tão amadas por coisas novas e desconhecidas. Quero meu carrinho de dez anos, meu computador de oito, gosto que as coisas envelheçam comigo, que só eu ainda lembre o que dizia aquele botão que, de tão premido, se apagou...Gosto do jeito que a poltrona se adaptou ao meu corpo, do controle remoto que finalmente aprendi a usar, do DVD que não congela quando quero assistir um filme novo. Outro dia saí no carro do meu filho (é, o carro também está pifado) e fiquei louca, sem conseguir desligar o rádio, nem trocar de estação. Depois de algum tempo, encontrei o botão que comandava o som, e, vitoriosa, diminui todo o volume. Não consegui desligar o rádio, mas também não fui obrigada a escutar a música que não queria....
Bem, por isso peço perdão se não estou sendo capaz de responder aos amigos, nem de atender aos pedidos. Quem tiver urgência de falar comigo, ligue para mim, sim? E não se admirem se eu ligar para vocês, como aconteceu com a Maria Helena: sou louca, mas dentro de um limite razoável, expliquei. Quando não dá para escrever, eu falo, sim senhora!
Bom domingo, que os ventos sejam portadores de boas coisas, para todos nós.

Thursday, January 15, 2009

ANIVERSÁRIO

Sim, hoje é dia de aniversário na família. A filha está longe, mas comemoro em meu coração. Sempre gostei de dias de aniversário, os das pessoas queridas -- o meu não ligo muito. Mas no dia do aniversário de meus amigos e parentes fico toda feliz, pensando na maravilha das coincidências do mundo que criou aquela pessoa para ser minha amiga, ou minha filha, ou meu marido, ou até mesmo meu cantor preferido... Coisas, mas o fato é que sou assim, e me alegro, e vejo o dia, mesmo se enevoado e de mau começo, como uma promessa de felicidade. Parabéns à minha filhota distante, parabéns ao mundo por ter entre seus habitantes pessoas tão especiais como ela!
Felicidade a todos. E agora, lá vou eu, para a via crucis do cotidiano.

Wednesday, January 14, 2009

Fashion Passion

Ontem, mal postei o blog, minha internet caiu. Fiquei até hoje à noite sem internet nem telefone. O telefone não me incomodou -- continuo com a loucura de não querer falar ao telefone --, mas a falta da internet me causou uma grande ansiedade. Quando foi que me viciei dessa maneira? Só sei que me aproximo do computador como se estivesse visitando um oráculo capaz de me revelar o motivo de minha existência.
Se a minha existência tem motivo, deve estar ligado à literatura. Hoje, quando o Carlos Herculano, do Estado de Minas, telefonou (para o meu celular, é claro) avisando que vai sair uma notinha no caderno Pensar, fiquei toda feliz. Basta esse pouquinho para me deixar achando que "tudo vale a pena".
E é coisa semelhante o que deve animar os frequentadores do Fashion Week. Fui lá hoje, pela primeira vez, convidada pelo Márcio. Obrigada, amigo! O lugar é lindo, os cenários montados são deslumbrantes, mas eu fiquei perplexa, com tudo. Tanto trabalho, tanto investimento, e tudo para ficar em segredo, numa espécie de segredo, pelo menos. As pessoas montam stands lindos, refrigerados, mas quem vai à Marina da Glória não pode circular por todos eles. Quem vai à Vogue não vai ao Ela. Quem vai ao Fashion Business nem sempre pode ver tudo, pois alguns stands se fecham com cortinas receosas ou meramente antipáticas. Quem vai ao espaço vip do Sebrae não vai ao espaço Vip da Levis...É preciso ter convite para cada um dos espaços. E os desfiles, então, nem se fala. É preciso convite, cadastro, entrar na fila, sentar no setor indicado, e, se a pessoa se distrair um pouco, corre o risco de não assistir ao desfile, que é rápido, quase corrido...
Acho que o que mais gostei foi de ficar na porta, esperando o resgate de meu amigo, o portador dos convites. Ali naquela tribo fui confundida com alguém importante (talvez por estar toda vestida de preto, cor fetiche dos fashion victims), compartilhei cigarros e telefones, avaliei roupas e pessoas, surpreendi sonhos e desencantos. Dezenas, ou centenas de pessoas passaram por ali nos poucos minutos que esperei. Gente de todas as tribos: o povo das sandálias baixas e despojadas, o povo das sandálias baixas e complicadas; o povo do salto alto; o povo da roupa justa; o povo dos vestidos largos; o povo dos vestidos curtíssimos, o povo das bermudas; o povo do terno...Talvez o mais numeroso e ativo seja o povo das tatuagens. Logo na chegada vi uma que carregava todo um varal de roupas em suas costas. Aquilo me fascinou. Redundante, mas pertinente...
Bem, agora vou dormir, quem sabe consigo sonhar que estou desfilando?

Tuesday, January 13, 2009

Releitura

Relendo o que escrevi ontem, tive uma sacada: o momento em que se começa a envelhecer é quando a gente pensa como eu -- não sou, fui. Aí, já era. Acabou-se o que era douce, como eu dizia quando era pequena... Voltando, então, ao filme, aqueles homens acabadinhos, gastos, de gestos endurecidos, olhares incertos, podem parecer velhos, mas não estão nem um pouco velhos. Eles SÃO, acreditam ser, têm apetite para ser e se entregam, sem cerimônia, ao espetáculo de viver. Pois, outra sacada, viver é um espetáculo -- vivemos para os outros, contracenando, expondo ou impondo, dissimulando, enfrentando...
Gente, estou filosófica demais. Vou ficar caladinha até passar, prometo.
Mudando de assunto, mas continuando no clima de tristeza não tem fim, a revistinha eletrônica Histórias Possíveis, fundada pelo André de Leones vai acabar. Dia 31 de janeiro é a última edição. André cansou, e como ele era a alma da HP, sem ele nós nos debandamos. É uma pena terminar assim em pleno verão: carioca começa tudo no verão, tem um gás extraordinário nesta estação. Eu, que extreei num verão -- bem numa terça-feira de Carnaval -- sou meio assim. Reclamo do calor, mas adoro os dias de verão, principalmente os de praia, e sempre me encanto com as mudanças que se operam nos cariocas (nos acidentais também) durante o verão. É época de namoro, de roupas graciosas, de cabelos molhados e rostos corados, de turma reunida tomando sorvete, ali na boca da noite, aproveitando que "refrescou". É época de olhadas surpreendidas para o relógio e de exclamações do tipo: Quêêê?! Sete e meia, jáááá? Mas ainda está tão claro.... Nem senti o tempo passar! Pois o tempo não passa, no verão. É uma estação mítica, com partidas de vôlei, bicicletas, frescobol apesar dos pesares, futevôlei e chuveirinhos.
Bem, o tempo não passa, mas o relógio não para, e eu vou ter que sair. E só volto com coisas alegres e divertidas, prometo.

Sunday, January 11, 2009

Decrepitude

Fui ver um filme, nessa tarde gostosa de domingo, depois de pegar uma praia (sem livros!) Haviam me dito que Juventude era ótimo e eu, como sempre fui fã das peças do Domingos de Oliveira, deixei de lado O menino do pijama listrado e embarquei nesse outro filme, mas um pouco receosa. Bastou olhar à minha volta na platéia: eu era decididamente a mais jovem. Muito mais jovem que todas as outras mulheres que ali estavam. Pensei que isso se devesse à sessão, ainda cedo que era, mas, mal o filme se iniciou que percebi que as pessoas que estavam ali queriam era se contemplar envelhecendo... É uma meditação muito interessante, tentar dignificar esse descompasso entre o corpo e a libido. Um corpo que vai se limitando, se anquilosando, adquirindo marcas e cheiros, e uma libido que, num cérebro que se mantém vivo e ativo, também se mantém viva, pulsante. A única coisa que me incomodou foi a dicção, as palavras emitidas com dificuldades variadas, num filme onde o mais importante são exatamente as palavras. Mas houve momentos de pura beleza, como a cena do Paulo José, vestido de cardeal, de costas, braços abertos, imponente. E as comoventes declarações de amor ao teatro, à vida, ao próprio amor. Por que renunciar ao amor? Como amar sem sexo? O amor salva? O amor destrói? O amor acaba? E a juventude, aprecia o amor?
Já não tenho mais meu parceiro amoroso, e muitas vezes me pergunto se é justa essa separação. Num momento, o personagem do Domingos de Oliveira conta de sua separação da mulher de sua vida, Pinky, e revela que, no rompimento, confessa a ela que não sabe se vai continuar vivendo, ao que ela lhe responde para não se preocupar pois, se ele morresse, ela também morreria. Sempre achei que eu morreria também, e não me conformo de estar entre os vivos. Mas "viva" mesmo eu não sei se estou. Sei que meu organismo funciona, mas não me reconheço mais como uma pessoa inteira. Sinto-me cindida, dividida: uma metade de mim, morta e inerte, contempla essa que se mexe, que ingere, que vai à praia, que escreve, que sorri, que se deixa fotografar e sabe que está vendo uma impostora. Mas chega de confissões desnecessárias. Para quê? Para quem? Vivo. Respiro. Bebo água. Transpiro. Leio. Escrevo. Mas não sou. Fui.

Friday, January 09, 2009

Começar o ano

Parece que meu ano demora a começar... Com a viagem, fiquei meio desorientada e volto para um verão já em andamento, com amigos programados, outros viajando, outros simplesmente mudados. Levo susto ao tentar organizar os e-mails e a vida. Quem é esse que se anuncia de partida, tão diferente do amigo que deixei ao sair daqui? E aquela, brigando por uma causa, apaixonadamente furiosa, ameaçando e vituperando? Onde foi minha amiga viajante, a quem contava encontrar quando chegasse?
Desfaço malas e planos... Vejo, nas malas, o quanto mudei:-- para mim só comprei óculos de leitura, e livros. Nada das novidades que me encantavam, das maquiagens que me seduziam com suas paletas de cores, de roupas e bijoux. Livros, e óculos, para alguém cujas fantasias já não são mais tão fáceis, e cujos olhos já não são mais tão eficientes. Imagino se na próxima estarei trazendo aparelhos de surdez e produtos para os dentes, ou bengalas... Bem, espero não demorar tanto assim. Mas, no momento, estou sofrendo de um enjoo de viagem. Penso em nunca mais sair de casa. Nem mesmo para ir até a esquina! Só que, quando olho para fora, vejo o mar azul me chamando, sedutor. Quem sabe quanto tempo ficarei com essa resolução drástica...E, sem nem mesmo me aperceber, vejo que a agenda vai começando a ostentar compromissos. Domingo, segunda, quarta... Um pássaro chega voando aqui em minha janela, com uma saudação apressada. Outro chega logo em seguida, e eles partem, num voo tão simples e fácil que parece arte, e não vida. Porque a vida é complicada, é trabalhosa, e ininterrupta. Me pergunto como resolver as coisas que se problematizam sem necessidade, os prazos que nos são impostos sem que o desejemos, me vejo no meio de um vórtice. Para onde me leva esse ano que começa assim abrupto? Um solavanco, um empurrão, e eu fujo. Quero abrir as páginas de meus livros, me deixar ficar no mundo encantado para onde o tapete mágico das lentes artificiais ainda consegue me levar...
Ah, quanto a pedidos de fotos, sinto desapontar a todos. Não levei máquina para a viagem. Estou numa nova fase, egoísta: quero as vistas só para mim, para minhas lembranças. Na verdade, essa tal de máquina digital, que me inunda com fotos desnecessárias e redundantes, tem me deixado um pouco cansada. Não levei. Mas pousei dócil para quem desejou me fotografar, e foram poucos os que o quiseram. E eu sorri, como me pediram. Disse o que me pediram para dizer, me coloquei nas posições indicadas... Se receber alguma dessas fotos, publico, obediente. Enquanto isso, acreditem no que digo, que é muito mais do que o que posso revelar com uma lente digital... Lá vou eu aos livros...

Wednesday, January 07, 2009

Despedidas

A neve veio tímida, uma pequena poeirinha que deixou os carros esbranquiçados. Depois a chuva congelou os arbustos e transformou-os em esculturas de cristais. Acho isso lindo, o problema é que é perigoso à beça para dirigir. Hoje as escolas foram canceladas, ninguém saiu de casa ainda pois aconteceram inúmeros acidentes nas estradas... Mas o tempo vai melhorar mais para tarde, o que é bom para mim, já que tenho um longo caminho até o aeroporto. Já está bem melhor, a neve dos parabrisas, e o gelo acumulado já começa a derreter. Então, aproveito para conversar um pouco mais com minha amiga, curtir seus filhos e marido que estão em casa, minhas últimas horas de visita...

Tuesday, January 06, 2009

Mais visitas ao passado

Hoje fiz de novo um flashback, mas, desta vez, ao invés da vida acadêmica, foi a vida de dona de casa: lá fui eu às compras de ingredientes, para preparar um jantar de dia de Reis, de despedida, de aniversário de casamento... Minha amiga estava com saudades da comida brasileira, e aí lá fui eu atrás de uma lojinha de portugueses, escondidinha em Bridgeport, onde costumava encontrar todos os produtos brasileiros, de guaraná a pão de queijo. Só que os brasileiros se foram, só restam por aqui os portugueses, a dona me falou. E comprei, então, especialidades de Portugal. Uma Rosca de Rei, ou Bolo Rei, para o dia de hoje. Pastéis de nata, para a sobremesa. Farinheira e outras especialidades para um cozido, que vai ser à brasileira, pois encontrei farinha de mandioca, para fazer o pirão. Pães e queijo completam nossa festa. Ah, e guaraná, marca Brasília. Outra coisa que agora é popular por aqui é o açaí. Um rapaz que visitou o Rio se encantou com o açaí tomado à beira da praia e passou a importá-lo e vender aqui. Encontrei em todos os aeroportos pelos quais passei, uma maquininha vendendo açaí, "a fruta milagrosa do Brazil". Mas esse não comprei. Nemaí eu tomo açaí... Mas comprei bacalhau, que vou ensinar a minha amiga como preparar. E agora, ao trabalho, pois tenho muito que cozinhar. Só para terminar, estou aqui à espera de neve, prometida para hoje. Até agora não chegou. Ia cair às 4, depois mudou para as 8. Vamos ver o que vai acontecer.

Monday, January 05, 2009

Down Memory Lane

Hoje foi um dia de volta ao passado: depois de tanto tempo, resolvi ir até Yale, e conferir as lembranças com a realidade. As velhas torres, a enorme biblioteca, as construções antigas e fingindo ser ainda mais antigas do que são. E as modernizações, muitas, muitas diferenças que tornam a Universidade mais agradável de se viver/estudar, mas que a transformam numa coisa mais "pasteurizada", que faz com que ela perca sua individualidade. Bem sei que Yale tem a fama de ser um dos Campi mais feios dos Eua. Dizem que o de Cornell é muito bonito, mas minha amiga discorda, dizendo que o inverno lá dura 9 meses por ano, e que nenhum lugar assim pode ser considerado bonito... O de Princeton é muito lindo, Stamford é bonito, também, imitando uma Hacienda mexicana... Há quem goste. Gosto muito de Harvard, mas isso é porque gosto da cidade de Boston (na verdade, Harvard fica em Cambridge, mas tenho dificuldades em separar Cambridge de Boston. Para mim Cambridge é apenas um bairro de Boston, ali do outro lado do Rio Charles). Mas adoro Yale, com todas as suas falhas e defeitos. É parte de minha vida, e sinto que deixei um pouco de minha alma colada naquelas pedras... Quase caí dura quando soube que o último filme de Indiana Jones foi filmado na "minha" biblioteca, meu templo sagrado, presidido pela imagem da deusa da sabedoria, por Nossa Senhora da Cultura, para quem fiz tantos sacrifícios... E agora ela virou back-ground para as correrias de moto do senhor Jones. Bem, muito pior que isso é saber que os estudantes não vão mais às bibliotecas da Universidade, pois tudo foi digitalizado e eles fazem download dos livros em seus laptops, que carregam para as salas de aula. Tudo é muito diferente. Acabaram-se as colunas Morris, com os avisos das atividades no campus. Agora, quem quiser anunciar alguma atividade, e conseguir presença dos alunos, tem que fazê-lo no Facebook, que é uma espécie de Orkut daqui.
Entre ontem e hoje comprei "apenas" dez livros. Um sobre Proust, três sobre "comida" e literatura: um oferece uma "história da literatura mundial em 14 receitas" meio que de mentirinha, pois todas as histórias foram escritas pelo mesmo autor, Mark Crick; outro é de artistas falando sobre comida e o terceiro esqueci, mas também é assim desse jeito. Espero que sirvam para minha tese. Comprei o Firmin, o White Tiger, um de Virginia Woolf falando sobre seus passeios em Londres, Ah, nem sei mais. Ganhei um de presente, um romance histórico sobre Maria Antonieta, escrito pela mulher do Harold Pinter, Antonia Fraser, acho que é esse o nome. Comprei o Shadow Line, do Conrad. Chega de listas. Para terminar, uma pequena memória de Las Vegas, o show das fontes do Bellagio. A cada vez que assisti o show, as músicas eram diferentes, a coreografia maravilhosa, o encantamento geral. É uma das mais interessantes coisas para se fazer em Vegas, e nunca nos cansamos de assistir o espetáculo. Em compensação, o show "A queda de Atlântida"no Caesar's Palace é um horror. Uns robots horrorozinhos, interpretando Zeus e mais outros dois deuses, que disputavam a cidade a fogo e água... O mais interessante era ver a fonte se transformando neste teatro, as estátuas sumindo e em seu lugar subindo os bonecos animados. Outro show bonito, mas nem tão interessante, era o do Mirage, com o seu vulcão em erupção. Não assisti ao show dos piratas, mas, pelo que me falaram, não perdi muita coisa -- é que adoro o show da Disney, e não quis atrapalhar minhas lembranças com esse outro superpovoado e que molha todo mundo...
Até mais, então.

Sunday, January 04, 2009

Colecionando conchas...

Em Connecticut, à beira do Long Island Sound, num frio de rachar lábios e dedos, lá vou eu, acompanhando meus amigos, numa caçada às conchas.Estou na casa de uma sereia, fascinada pelo mar, com conchas, vidros e marinhas por toda a parte. Assim se tem a ilusão de que estamos um pouquinho mais quentes, um pouquinho mais tropicais. Mas, na verdade, calor aqui só o humano. Passamos ontem o dia colocando os assuntos em dia, e a maior parte de nossos assuntos são os livros que lemos. Trocamos informações e entusiasmos, depois fomos jantar em um restaurante japonês numa mesa de Habashi. Por incrível que pareça, nunca tinha feito isso na vida: assistir a performance do chef samurai, com suas facas e garfos ameaçadores, quebrando ovos e depositando as cascas no oco do chapéu, atirando pedaços de comida em nossas bocas, nos fazendo rir com suas brincadeiras, ou assustando-nos com seus flamejantes espetáculos. E, o mais importante, nos deliciando com a comida muito gostosa. Hoje foi mais um dia de conversa, fruit-kebobs preparados com carinho para o café da manhã, mais livros, em conversa e em compras: livros para todos! Uma alegria!
Tinha começado a escrever um post sobre a jogatina em Las Vegas, mas acho muito melhor ficar aqui nesta conversa tranquila, e sair para apreciar o por-do-sol, esplendido, com todos os tons de vermelho, e pinceladas escuras atravessando o céu, enorme, sempre tão amplo, os famosos "Spacious skies" da canção America, the beautiful. Realmente, este nosso novo mundo é muito lindo, e variado. Lembro agora do passeio ao Grand Canyon, com paisagens de tirar o fôlego. As rochas desenhadas e pintadas de cores vivas, formando verdadeiras esculturas naturais -- aqui uma águia no vôo (que agora é sem acento, meu Deus!). Ali uma tartaruga, logo abaixo uma cabeça de leão da montanha, mais atrás um perfil de índio... Bosques de Joshua's trees, deserto de Mojave, tudo isso me maravilhou no caminho até o canyon que, enorme, me fez ficar achando que o Rio Colorado parece um riachinho... Bem sei que não se trata disso, é tudo uma questão de proporção, mas a imagem visual que guardo do rio é a de uma estreita faixa serpenteando lá embaixo, de cor pardacenta, imóvel, sem nem ao menos reverberar o sol, que não chegava a alcançá-lo. Lá de cima, a gente fica olhando um horizonte longínquo, tão distante como os sonhos daqueles desbravadores que atravessaram montanhas geladas e desertos inclementes à procura de uma "terra prometida" que se revelou uma espécie de inferno agitado -- a Califórnia e seu ouro. Não termino sem antes falar da represa que criou o enorme lago Mead com as águas do Colorado. Diferentemente de Itaipu que se estende, esta se eleva entre as montanhas que formam um desfiladeiro estreito. E se enfeita com o capricho arquitetônico próprio dos anos 30, com detalhes de art-déco nas construções. Mas, o mais espetacular no momento é apreciar a construção da nova ponte, uma ponte suspensa, daquelas que, depois de prontas, parecem tão leves e delicadas, mas que no estágio de construção em que está revela todo o prodígio de força e o cálculo necessário para sua realização. É de ficar fazendo Uhhhs e Ohhhs, ponderando sobre cada centímetro já avançado... Depois conto mais coisas.

Friday, January 02, 2009

Muitas novidades e pouquíssimo tempo...

Nossa! Que falta que faz internet no hotel. Nem acreditei que, bem lá em Las Vegas, não fosse dispor de conexão fácil, mas depois percebi que, por causa dos jogos, os computadores, celulares e outros brinquedinhos eletrônicos não são bem vindos. Os telefones ficavam meio malucos,por lá.Os serviços de mensagens, tinham uma demora enorme, para evitar trapaças, eu acho.
Mas a verdade é que também tive muito pouco tempo para pensar em internet e em blog. Há muito o que fazer, muito o que ver, e o dia não é elástico. E lá tudo demora: os hotéis são quilométricos, para ir do hall de entrada para o quarto é preciso ter preparo físico. Bem, agora preciso deixar vocês, com a promessa de que volto a escrever em breve. Vou embarcar em meu vôo para NY. Passei o dia hoje em aeroportos: Las Vegas, Dallas e agora a caminho de Newark.
Até breve.