Depois de tantos dias de sol, uma ameaça de dilúvio. A luz prateada, não muito intensa, os barulhinhos confortantes da chuva, quando se está abrigado, são um convite irresistível à leitura e a escrita.
Pouco a pouco vou me desemaranhando do mar de pequeninas tragédias que me acometeram -- carro quebrado, armário tomado por cupins, computador silente e emburrado--, e vou mergulhando na montanha dos livros e leituras que tenho para fazer. Um dos textos mais instigantes foi o que me foi dado pela Rachel. Ela, além de grande escritora, parece ter sido abençoada com o mais perfeito timing que se pode alcançar. Seus textos parecem que vêm preencher lacunas, responder a perguntas não formuladas. Estou com um conto chamado Estrela de Belém, que ela recuperou através do perfeito leitor e amigo. É um texto que revela um encanto juvenil com a vida, compromissado com sua capacidade de maravilhamento com as coisas mais corriqueiras. O conto não se passa no Natal, não tem nada de religioso, mas é um conto de esperança, de recomeço -- e nós, nestes nossos dias de Obama, estamos todos aptos a absorver estas aragens, a nos deixarmos amolecer de tanta fé na capacidade de regeneração humana.
Temos sobrevivido graças à esperança, não acham? E agora, esse belo jovem, alto e ereto como uma lança, cheio de boas intenções, com uma sólida formação acadêmica e uma família que parece ser verdadeiramente amada, vem com discursos que revelam um lado adorável de ingenuidade, de crença nas boas tradições, de recuperacão de valores humanos e éticos, que abandonem,ao menos por um tempo, toda a ganância, o egoísmo, o meuprimeirismo que andam nos assolando. Chegamos a acreditar que será possível mudar. Ele mesmo já mudou imperceptivelmente seu discurso -- Não mais yes, we can -indicador de possibilidade, para yes, we will - indicador de compromisso e ação.
Inclusão, pés no chão, rostos alegres e entusiasmo para o trabalho. A festa que presenciamos, não só em Washington, mas pelo mundo afora nos anima. Talvez o século XXI esteja, finalmente, começando, e comece, diferentemente do XX, não com guerras, mas com a paz. Que este seja o século que todos esperávamos: reinventando a civilização baseada no conhecimento e no amor ao próximo, em que todos tenham valor igual. Oferecendo, ao invés de tomar. Construindo juntos, ao invés de destruir. Pondo ordem em nossa casa, cuidando dos recursos naturais, alimentando filhos, contando nossas histórias uns aos outros, aceitando e admirando as diferenças...
Para terminar, uma palavrinha a respeito das roupas de Mrs. Obama -- teremos chegado ao fim das ilusões de super estrelas? Pois os trajes escolhidos por Michelle não foram nada especiais -- foram roupas de realidade, que passam uma mensagem ao povo dizendo -- a gente não vale pelo invólucro, não é o papel que faz o presente. Eu não me visto para ofuscar, estou aqui como alguém que vai a uma festa importante, mas que não empenha as jóias para alugar um vestido.
Bravo, dona primeira dama! Obrigada por ostentar as cores brasileiras -- isso talvez signifique alguma coisa. Obrigada por sorrir e acenar calorosamente quando via alguma coisa que a agradava ou alguém de quem gostava. Nada do ar blasé do passado: apetites naturais e humanos, reações sinceras e transparentes, dinamismo... Obrigada por ser, e demonstrar que é, gente como a gente.
Wednesday, January 21, 2009
Tuesday, January 20, 2009
Outros aniversários
Está muito escuro e estou escrevendo num computador estranho, daí que o post vai ser breve. É só para expressar a alegria que sinto neste mês de aniversários. Ontem foi o do André, hoje é o da Daisy, amanhã do primo Pereira! Coisa boa, três dias seguidinhos de lembranças de gente querida, que são meus amigos queridos e eu nem sei o que fiz para merecer ter gente assim especial a meu redor! Dia 23 é o da Florinha, minha florzinha encantadora, que tem sempre a palavra certa para dizer! Nem sei se esses amigos lêem meu blog, mas, se lerem, saibam que meus dias estão mais alegres graças às boas lembranças que tenho de vocês.
Sunday, January 18, 2009
Via Crucis
Essa não é do corpo, nem do cotidiano. É cibernética e está me deixando louca. Há muito tempo atrás, quando voltei dos EUA trazendo comigo um computador McIntosh repleto de escritos e arquivos importantes, o pobre coitado teve um "choque cultural" e não se adaptou ao Brasil. Ficou mudo por um bom tempo até que eu conseguisse arranjar alguém que consertasse Apple, que aqui no Brasil era coisa rara. Depois de algumas semanas encontrei uma oficina no Centro e para lá foi meu computador,com síndrome do encarceramento... Quando voltou, ele falava outra língua: todos os meus arquivos, que os técnicos deram como recuperados, estavam escritos em sinais matemáticos. Infelizmente, na época, eu não tinha um filho adolescente, que me ensinasse tratar disso. Agora, há pouco tempo atrás, precisei de uns arquivos que estavam num back-up. Como sou muito desligada, fiz os back-ups, mas não identifiquei, com precisão, o nome dos arquivos nos CD`s, daí que precisei ficar horas olhando um por um e, como sempre,no último ou no penúltimo é que encontrei o que procurava -- Não que eu não tivesse posto algum tipo de identificação, mas, na época, achei que seria muito interessante classificá-los por data: Arquivos de fevereiro a março de 2003, por exemplo. Se eu não lembro o que comi ontem, como vou lembrar o que escrevi entre fevereiro e março de 2003? Bem, não era isso o que estava tratando, falava das vantagens de ter um filho adolescente. Pois abri as pastinhas e meus arquivos estavam todos em sinais incompreensíveis, quadradinhos, tracinhos, cifrões... Passei a tarde desesperada, procurando em papéis velhos para ver se tinha alguma versão escrita da pasta que precisava. Achei alguns textos incompletos, outros repetidos, e quando meu filho chegou me encontrou irritada, cheia de alergia, na frente do computador, tentando transcrever tudo aquilo, achou que eu estava doida. Depois do diálogo de praxe, com o objetivo de demonstrar bem como as mães são seres irracionais e suas ações fruto da sua total incapacidade, ele finalmente me sorriu e, sem nem precisar sentar na frente da tela, inseriu o CD, olhou para o arquivo em questão e com um único comando transformou o incompreensível em texto outra vez. Depois de algumas súplicas ele me ensinou o que fazer, mas eu já esqueci. Acho que era mandar "save as text", uma coisa banal. Sei que era save as, mas não sei qual o formato, vou ter que perguntar de novo. Bem, agora o caso é mais grave, ou ele já está mais velho e perdendo sua capacidade cibernética: ele tentou e não conseguiu resolver o problema. Mas também desconfio. Já há alguns meses ele vem me buzinando, dizendo que eu preciso de uma "máquina" nova, que meu computador já está ultrapassado... Ah, céus! Odeio trocar minhas coisinhas tão amadas por coisas novas e desconhecidas. Quero meu carrinho de dez anos, meu computador de oito, gosto que as coisas envelheçam comigo, que só eu ainda lembre o que dizia aquele botão que, de tão premido, se apagou...Gosto do jeito que a poltrona se adaptou ao meu corpo, do controle remoto que finalmente aprendi a usar, do DVD que não congela quando quero assistir um filme novo. Outro dia saí no carro do meu filho (é, o carro também está pifado) e fiquei louca, sem conseguir desligar o rádio, nem trocar de estação. Depois de algum tempo, encontrei o botão que comandava o som, e, vitoriosa, diminui todo o volume. Não consegui desligar o rádio, mas também não fui obrigada a escutar a música que não queria....
Bem, por isso peço perdão se não estou sendo capaz de responder aos amigos, nem de atender aos pedidos. Quem tiver urgência de falar comigo, ligue para mim, sim? E não se admirem se eu ligar para vocês, como aconteceu com a Maria Helena: sou louca, mas dentro de um limite razoável, expliquei. Quando não dá para escrever, eu falo, sim senhora!
Bom domingo, que os ventos sejam portadores de boas coisas, para todos nós.
Bem, por isso peço perdão se não estou sendo capaz de responder aos amigos, nem de atender aos pedidos. Quem tiver urgência de falar comigo, ligue para mim, sim? E não se admirem se eu ligar para vocês, como aconteceu com a Maria Helena: sou louca, mas dentro de um limite razoável, expliquei. Quando não dá para escrever, eu falo, sim senhora!
Bom domingo, que os ventos sejam portadores de boas coisas, para todos nós.
Thursday, January 15, 2009
ANIVERSÁRIO
Sim, hoje é dia de aniversário na família. A filha está longe, mas comemoro em meu coração. Sempre gostei de dias de aniversário, os das pessoas queridas -- o meu não ligo muito. Mas no dia do aniversário de meus amigos e parentes fico toda feliz, pensando na maravilha das coincidências do mundo que criou aquela pessoa para ser minha amiga, ou minha filha, ou meu marido, ou até mesmo meu cantor preferido... Coisas, mas o fato é que sou assim, e me alegro, e vejo o dia, mesmo se enevoado e de mau começo, como uma promessa de felicidade. Parabéns à minha filhota distante, parabéns ao mundo por ter entre seus habitantes pessoas tão especiais como ela!
Felicidade a todos. E agora, lá vou eu, para a via crucis do cotidiano.
Felicidade a todos. E agora, lá vou eu, para a via crucis do cotidiano.
Wednesday, January 14, 2009
Fashion Passion
Ontem, mal postei o blog, minha internet caiu. Fiquei até hoje à noite sem internet nem telefone. O telefone não me incomodou -- continuo com a loucura de não querer falar ao telefone --, mas a falta da internet me causou uma grande ansiedade. Quando foi que me viciei dessa maneira? Só sei que me aproximo do computador como se estivesse visitando um oráculo capaz de me revelar o motivo de minha existência.
Se a minha existência tem motivo, deve estar ligado à literatura. Hoje, quando o Carlos Herculano, do Estado de Minas, telefonou (para o meu celular, é claro) avisando que vai sair uma notinha no caderno Pensar, fiquei toda feliz. Basta esse pouquinho para me deixar achando que "tudo vale a pena".
E é coisa semelhante o que deve animar os frequentadores do Fashion Week. Fui lá hoje, pela primeira vez, convidada pelo Márcio. Obrigada, amigo! O lugar é lindo, os cenários montados são deslumbrantes, mas eu fiquei perplexa, com tudo. Tanto trabalho, tanto investimento, e tudo para ficar em segredo, numa espécie de segredo, pelo menos. As pessoas montam stands lindos, refrigerados, mas quem vai à Marina da Glória não pode circular por todos eles. Quem vai à Vogue não vai ao Ela. Quem vai ao Fashion Business nem sempre pode ver tudo, pois alguns stands se fecham com cortinas receosas ou meramente antipáticas. Quem vai ao espaço vip do Sebrae não vai ao espaço Vip da Levis...É preciso ter convite para cada um dos espaços. E os desfiles, então, nem se fala. É preciso convite, cadastro, entrar na fila, sentar no setor indicado, e, se a pessoa se distrair um pouco, corre o risco de não assistir ao desfile, que é rápido, quase corrido...
Acho que o que mais gostei foi de ficar na porta, esperando o resgate de meu amigo, o portador dos convites. Ali naquela tribo fui confundida com alguém importante (talvez por estar toda vestida de preto, cor fetiche dos fashion victims), compartilhei cigarros e telefones, avaliei roupas e pessoas, surpreendi sonhos e desencantos. Dezenas, ou centenas de pessoas passaram por ali nos poucos minutos que esperei. Gente de todas as tribos: o povo das sandálias baixas e despojadas, o povo das sandálias baixas e complicadas; o povo do salto alto; o povo da roupa justa; o povo dos vestidos largos; o povo dos vestidos curtíssimos, o povo das bermudas; o povo do terno...Talvez o mais numeroso e ativo seja o povo das tatuagens. Logo na chegada vi uma que carregava todo um varal de roupas em suas costas. Aquilo me fascinou. Redundante, mas pertinente...
Bem, agora vou dormir, quem sabe consigo sonhar que estou desfilando?
Se a minha existência tem motivo, deve estar ligado à literatura. Hoje, quando o Carlos Herculano, do Estado de Minas, telefonou (para o meu celular, é claro) avisando que vai sair uma notinha no caderno Pensar, fiquei toda feliz. Basta esse pouquinho para me deixar achando que "tudo vale a pena".
E é coisa semelhante o que deve animar os frequentadores do Fashion Week. Fui lá hoje, pela primeira vez, convidada pelo Márcio. Obrigada, amigo! O lugar é lindo, os cenários montados são deslumbrantes, mas eu fiquei perplexa, com tudo. Tanto trabalho, tanto investimento, e tudo para ficar em segredo, numa espécie de segredo, pelo menos. As pessoas montam stands lindos, refrigerados, mas quem vai à Marina da Glória não pode circular por todos eles. Quem vai à Vogue não vai ao Ela. Quem vai ao Fashion Business nem sempre pode ver tudo, pois alguns stands se fecham com cortinas receosas ou meramente antipáticas. Quem vai ao espaço vip do Sebrae não vai ao espaço Vip da Levis...É preciso ter convite para cada um dos espaços. E os desfiles, então, nem se fala. É preciso convite, cadastro, entrar na fila, sentar no setor indicado, e, se a pessoa se distrair um pouco, corre o risco de não assistir ao desfile, que é rápido, quase corrido...
Acho que o que mais gostei foi de ficar na porta, esperando o resgate de meu amigo, o portador dos convites. Ali naquela tribo fui confundida com alguém importante (talvez por estar toda vestida de preto, cor fetiche dos fashion victims), compartilhei cigarros e telefones, avaliei roupas e pessoas, surpreendi sonhos e desencantos. Dezenas, ou centenas de pessoas passaram por ali nos poucos minutos que esperei. Gente de todas as tribos: o povo das sandálias baixas e despojadas, o povo das sandálias baixas e complicadas; o povo do salto alto; o povo da roupa justa; o povo dos vestidos largos; o povo dos vestidos curtíssimos, o povo das bermudas; o povo do terno...Talvez o mais numeroso e ativo seja o povo das tatuagens. Logo na chegada vi uma que carregava todo um varal de roupas em suas costas. Aquilo me fascinou. Redundante, mas pertinente...
Bem, agora vou dormir, quem sabe consigo sonhar que estou desfilando?
Tuesday, January 13, 2009
Releitura
Relendo o que escrevi ontem, tive uma sacada: o momento em que se começa a envelhecer é quando a gente pensa como eu -- não sou, fui. Aí, já era. Acabou-se o que era douce, como eu dizia quando era pequena... Voltando, então, ao filme, aqueles homens acabadinhos, gastos, de gestos endurecidos, olhares incertos, podem parecer velhos, mas não estão nem um pouco velhos. Eles SÃO, acreditam ser, têm apetite para ser e se entregam, sem cerimônia, ao espetáculo de viver. Pois, outra sacada, viver é um espetáculo -- vivemos para os outros, contracenando, expondo ou impondo, dissimulando, enfrentando...
Gente, estou filosófica demais. Vou ficar caladinha até passar, prometo.
Mudando de assunto, mas continuando no clima de tristeza não tem fim, a revistinha eletrônica Histórias Possíveis, fundada pelo André de Leones vai acabar. Dia 31 de janeiro é a última edição. André cansou, e como ele era a alma da HP, sem ele nós nos debandamos. É uma pena terminar assim em pleno verão: carioca começa tudo no verão, tem um gás extraordinário nesta estação. Eu, que extreei num verão -- bem numa terça-feira de Carnaval -- sou meio assim. Reclamo do calor, mas adoro os dias de verão, principalmente os de praia, e sempre me encanto com as mudanças que se operam nos cariocas (nos acidentais também) durante o verão. É época de namoro, de roupas graciosas, de cabelos molhados e rostos corados, de turma reunida tomando sorvete, ali na boca da noite, aproveitando que "refrescou". É época de olhadas surpreendidas para o relógio e de exclamações do tipo: Quêêê?! Sete e meia, jáááá? Mas ainda está tão claro.... Nem senti o tempo passar! Pois o tempo não passa, no verão. É uma estação mítica, com partidas de vôlei, bicicletas, frescobol apesar dos pesares, futevôlei e chuveirinhos.
Bem, o tempo não passa, mas o relógio não para, e eu vou ter que sair. E só volto com coisas alegres e divertidas, prometo.
Gente, estou filosófica demais. Vou ficar caladinha até passar, prometo.
Mudando de assunto, mas continuando no clima de tristeza não tem fim, a revistinha eletrônica Histórias Possíveis, fundada pelo André de Leones vai acabar. Dia 31 de janeiro é a última edição. André cansou, e como ele era a alma da HP, sem ele nós nos debandamos. É uma pena terminar assim em pleno verão: carioca começa tudo no verão, tem um gás extraordinário nesta estação. Eu, que extreei num verão -- bem numa terça-feira de Carnaval -- sou meio assim. Reclamo do calor, mas adoro os dias de verão, principalmente os de praia, e sempre me encanto com as mudanças que se operam nos cariocas (nos acidentais também) durante o verão. É época de namoro, de roupas graciosas, de cabelos molhados e rostos corados, de turma reunida tomando sorvete, ali na boca da noite, aproveitando que "refrescou". É época de olhadas surpreendidas para o relógio e de exclamações do tipo: Quêêê?! Sete e meia, jáááá? Mas ainda está tão claro.... Nem senti o tempo passar! Pois o tempo não passa, no verão. É uma estação mítica, com partidas de vôlei, bicicletas, frescobol apesar dos pesares, futevôlei e chuveirinhos.
Bem, o tempo não passa, mas o relógio não para, e eu vou ter que sair. E só volto com coisas alegres e divertidas, prometo.
Sunday, January 11, 2009
Decrepitude
Fui ver um filme, nessa tarde gostosa de domingo, depois de pegar uma praia (sem livros!) Haviam me dito que Juventude era ótimo e eu, como sempre fui fã das peças do Domingos de Oliveira, deixei de lado O menino do pijama listrado e embarquei nesse outro filme, mas um pouco receosa. Bastou olhar à minha volta na platéia: eu era decididamente a mais jovem. Muito mais jovem que todas as outras mulheres que ali estavam. Pensei que isso se devesse à sessão, ainda cedo que era, mas, mal o filme se iniciou que percebi que as pessoas que estavam ali queriam era se contemplar envelhecendo... É uma meditação muito interessante, tentar dignificar esse descompasso entre o corpo e a libido. Um corpo que vai se limitando, se anquilosando, adquirindo marcas e cheiros, e uma libido que, num cérebro que se mantém vivo e ativo, também se mantém viva, pulsante. A única coisa que me incomodou foi a dicção, as palavras emitidas com dificuldades variadas, num filme onde o mais importante são exatamente as palavras. Mas houve momentos de pura beleza, como a cena do Paulo José, vestido de cardeal, de costas, braços abertos, imponente. E as comoventes declarações de amor ao teatro, à vida, ao próprio amor. Por que renunciar ao amor? Como amar sem sexo? O amor salva? O amor destrói? O amor acaba? E a juventude, aprecia o amor?
Já não tenho mais meu parceiro amoroso, e muitas vezes me pergunto se é justa essa separação. Num momento, o personagem do Domingos de Oliveira conta de sua separação da mulher de sua vida, Pinky, e revela que, no rompimento, confessa a ela que não sabe se vai continuar vivendo, ao que ela lhe responde para não se preocupar pois, se ele morresse, ela também morreria. Sempre achei que eu morreria também, e não me conformo de estar entre os vivos. Mas "viva" mesmo eu não sei se estou. Sei que meu organismo funciona, mas não me reconheço mais como uma pessoa inteira. Sinto-me cindida, dividida: uma metade de mim, morta e inerte, contempla essa que se mexe, que ingere, que vai à praia, que escreve, que sorri, que se deixa fotografar e sabe que está vendo uma impostora. Mas chega de confissões desnecessárias. Para quê? Para quem? Vivo. Respiro. Bebo água. Transpiro. Leio. Escrevo. Mas não sou. Fui.
Já não tenho mais meu parceiro amoroso, e muitas vezes me pergunto se é justa essa separação. Num momento, o personagem do Domingos de Oliveira conta de sua separação da mulher de sua vida, Pinky, e revela que, no rompimento, confessa a ela que não sabe se vai continuar vivendo, ao que ela lhe responde para não se preocupar pois, se ele morresse, ela também morreria. Sempre achei que eu morreria também, e não me conformo de estar entre os vivos. Mas "viva" mesmo eu não sei se estou. Sei que meu organismo funciona, mas não me reconheço mais como uma pessoa inteira. Sinto-me cindida, dividida: uma metade de mim, morta e inerte, contempla essa que se mexe, que ingere, que vai à praia, que escreve, que sorri, que se deixa fotografar e sabe que está vendo uma impostora. Mas chega de confissões desnecessárias. Para quê? Para quem? Vivo. Respiro. Bebo água. Transpiro. Leio. Escrevo. Mas não sou. Fui.
Friday, January 09, 2009
Começar o ano
Parece que meu ano demora a começar... Com a viagem, fiquei meio desorientada e volto para um verão já em andamento, com amigos programados, outros viajando, outros simplesmente mudados. Levo susto ao tentar organizar os e-mails e a vida. Quem é esse que se anuncia de partida, tão diferente do amigo que deixei ao sair daqui? E aquela, brigando por uma causa, apaixonadamente furiosa, ameaçando e vituperando? Onde foi minha amiga viajante, a quem contava encontrar quando chegasse?
Desfaço malas e planos... Vejo, nas malas, o quanto mudei:-- para mim só comprei óculos de leitura, e livros. Nada das novidades que me encantavam, das maquiagens que me seduziam com suas paletas de cores, de roupas e bijoux. Livros, e óculos, para alguém cujas fantasias já não são mais tão fáceis, e cujos olhos já não são mais tão eficientes. Imagino se na próxima estarei trazendo aparelhos de surdez e produtos para os dentes, ou bengalas... Bem, espero não demorar tanto assim. Mas, no momento, estou sofrendo de um enjoo de viagem. Penso em nunca mais sair de casa. Nem mesmo para ir até a esquina! Só que, quando olho para fora, vejo o mar azul me chamando, sedutor. Quem sabe quanto tempo ficarei com essa resolução drástica...E, sem nem mesmo me aperceber, vejo que a agenda vai começando a ostentar compromissos. Domingo, segunda, quarta... Um pássaro chega voando aqui em minha janela, com uma saudação apressada. Outro chega logo em seguida, e eles partem, num voo tão simples e fácil que parece arte, e não vida. Porque a vida é complicada, é trabalhosa, e ininterrupta. Me pergunto como resolver as coisas que se problematizam sem necessidade, os prazos que nos são impostos sem que o desejemos, me vejo no meio de um vórtice. Para onde me leva esse ano que começa assim abrupto? Um solavanco, um empurrão, e eu fujo. Quero abrir as páginas de meus livros, me deixar ficar no mundo encantado para onde o tapete mágico das lentes artificiais ainda consegue me levar...
Ah, quanto a pedidos de fotos, sinto desapontar a todos. Não levei máquina para a viagem. Estou numa nova fase, egoísta: quero as vistas só para mim, para minhas lembranças. Na verdade, essa tal de máquina digital, que me inunda com fotos desnecessárias e redundantes, tem me deixado um pouco cansada. Não levei. Mas pousei dócil para quem desejou me fotografar, e foram poucos os que o quiseram. E eu sorri, como me pediram. Disse o que me pediram para dizer, me coloquei nas posições indicadas... Se receber alguma dessas fotos, publico, obediente. Enquanto isso, acreditem no que digo, que é muito mais do que o que posso revelar com uma lente digital... Lá vou eu aos livros...
Desfaço malas e planos... Vejo, nas malas, o quanto mudei:-- para mim só comprei óculos de leitura, e livros. Nada das novidades que me encantavam, das maquiagens que me seduziam com suas paletas de cores, de roupas e bijoux. Livros, e óculos, para alguém cujas fantasias já não são mais tão fáceis, e cujos olhos já não são mais tão eficientes. Imagino se na próxima estarei trazendo aparelhos de surdez e produtos para os dentes, ou bengalas... Bem, espero não demorar tanto assim. Mas, no momento, estou sofrendo de um enjoo de viagem. Penso em nunca mais sair de casa. Nem mesmo para ir até a esquina! Só que, quando olho para fora, vejo o mar azul me chamando, sedutor. Quem sabe quanto tempo ficarei com essa resolução drástica...E, sem nem mesmo me aperceber, vejo que a agenda vai começando a ostentar compromissos. Domingo, segunda, quarta... Um pássaro chega voando aqui em minha janela, com uma saudação apressada. Outro chega logo em seguida, e eles partem, num voo tão simples e fácil que parece arte, e não vida. Porque a vida é complicada, é trabalhosa, e ininterrupta. Me pergunto como resolver as coisas que se problematizam sem necessidade, os prazos que nos são impostos sem que o desejemos, me vejo no meio de um vórtice. Para onde me leva esse ano que começa assim abrupto? Um solavanco, um empurrão, e eu fujo. Quero abrir as páginas de meus livros, me deixar ficar no mundo encantado para onde o tapete mágico das lentes artificiais ainda consegue me levar...
Ah, quanto a pedidos de fotos, sinto desapontar a todos. Não levei máquina para a viagem. Estou numa nova fase, egoísta: quero as vistas só para mim, para minhas lembranças. Na verdade, essa tal de máquina digital, que me inunda com fotos desnecessárias e redundantes, tem me deixado um pouco cansada. Não levei. Mas pousei dócil para quem desejou me fotografar, e foram poucos os que o quiseram. E eu sorri, como me pediram. Disse o que me pediram para dizer, me coloquei nas posições indicadas... Se receber alguma dessas fotos, publico, obediente. Enquanto isso, acreditem no que digo, que é muito mais do que o que posso revelar com uma lente digital... Lá vou eu aos livros...
Wednesday, January 07, 2009
Despedidas
A neve veio tímida, uma pequena poeirinha que deixou os carros esbranquiçados. Depois a chuva congelou os arbustos e transformou-os em esculturas de cristais. Acho isso lindo, o problema é que é perigoso à beça para dirigir. Hoje as escolas foram canceladas, ninguém saiu de casa ainda pois aconteceram inúmeros acidentes nas estradas... Mas o tempo vai melhorar mais para tarde, o que é bom para mim, já que tenho um longo caminho até o aeroporto. Já está bem melhor, a neve dos parabrisas, e o gelo acumulado já começa a derreter. Então, aproveito para conversar um pouco mais com minha amiga, curtir seus filhos e marido que estão em casa, minhas últimas horas de visita...
Tuesday, January 06, 2009
Mais visitas ao passado
Hoje fiz de novo um flashback, mas, desta vez, ao invés da vida acadêmica, foi a vida de dona de casa: lá fui eu às compras de ingredientes, para preparar um jantar de dia de Reis, de despedida, de aniversário de casamento... Minha amiga estava com saudades da comida brasileira, e aí lá fui eu atrás de uma lojinha de portugueses, escondidinha em Bridgeport, onde costumava encontrar todos os produtos brasileiros, de guaraná a pão de queijo. Só que os brasileiros se foram, só restam por aqui os portugueses, a dona me falou. E comprei, então, especialidades de Portugal. Uma Rosca de Rei, ou Bolo Rei, para o dia de hoje. Pastéis de nata, para a sobremesa. Farinheira e outras especialidades para um cozido, que vai ser à brasileira, pois encontrei farinha de mandioca, para fazer o pirão. Pães e queijo completam nossa festa. Ah, e guaraná, marca Brasília. Outra coisa que agora é popular por aqui é o açaí. Um rapaz que visitou o Rio se encantou com o açaí tomado à beira da praia e passou a importá-lo e vender aqui. Encontrei em todos os aeroportos pelos quais passei, uma maquininha vendendo açaí, "a fruta milagrosa do Brazil". Mas esse não comprei. Nemaí eu tomo açaí... Mas comprei bacalhau, que vou ensinar a minha amiga como preparar. E agora, ao trabalho, pois tenho muito que cozinhar. Só para terminar, estou aqui à espera de neve, prometida para hoje. Até agora não chegou. Ia cair às 4, depois mudou para as 8. Vamos ver o que vai acontecer.
Monday, January 05, 2009
Down Memory Lane
Hoje foi um dia de volta ao passado: depois de tanto tempo, resolvi ir até Yale, e conferir as lembranças com a realidade. As velhas torres, a enorme biblioteca, as construções antigas e fingindo ser ainda mais antigas do que são. E as modernizações, muitas, muitas diferenças que tornam a Universidade mais agradável de se viver/estudar, mas que a transformam numa coisa mais "pasteurizada", que faz com que ela perca sua individualidade. Bem sei que Yale tem a fama de ser um dos Campi mais feios dos Eua. Dizem que o de Cornell é muito bonito, mas minha amiga discorda, dizendo que o inverno lá dura 9 meses por ano, e que nenhum lugar assim pode ser considerado bonito... O de Princeton é muito lindo, Stamford é bonito, também, imitando uma Hacienda mexicana... Há quem goste. Gosto muito de Harvard, mas isso é porque gosto da cidade de Boston (na verdade, Harvard fica em Cambridge, mas tenho dificuldades em separar Cambridge de Boston. Para mim Cambridge é apenas um bairro de Boston, ali do outro lado do Rio Charles). Mas adoro Yale, com todas as suas falhas e defeitos. É parte de minha vida, e sinto que deixei um pouco de minha alma colada naquelas pedras... Quase caí dura quando soube que o último filme de Indiana Jones foi filmado na "minha" biblioteca, meu templo sagrado, presidido pela imagem da deusa da sabedoria, por Nossa Senhora da Cultura, para quem fiz tantos sacrifícios... E agora ela virou back-ground para as correrias de moto do senhor Jones. Bem, muito pior que isso é saber que os estudantes não vão mais às bibliotecas da Universidade, pois tudo foi digitalizado e eles fazem download dos livros em seus laptops, que carregam para as salas de aula. Tudo é muito diferente. Acabaram-se as colunas Morris, com os avisos das atividades no campus. Agora, quem quiser anunciar alguma atividade, e conseguir presença dos alunos, tem que fazê-lo no Facebook, que é uma espécie de Orkut daqui.
Entre ontem e hoje comprei "apenas" dez livros. Um sobre Proust, três sobre "comida" e literatura: um oferece uma "história da literatura mundial em 14 receitas" meio que de mentirinha, pois todas as histórias foram escritas pelo mesmo autor, Mark Crick; outro é de artistas falando sobre comida e o terceiro esqueci, mas também é assim desse jeito. Espero que sirvam para minha tese. Comprei o Firmin, o White Tiger, um de Virginia Woolf falando sobre seus passeios em Londres, Ah, nem sei mais. Ganhei um de presente, um romance histórico sobre Maria Antonieta, escrito pela mulher do Harold Pinter, Antonia Fraser, acho que é esse o nome. Comprei o Shadow Line, do Conrad. Chega de listas. Para terminar, uma pequena memória de Las Vegas, o show das fontes do Bellagio. A cada vez que assisti o show, as músicas eram diferentes, a coreografia maravilhosa, o encantamento geral. É uma das mais interessantes coisas para se fazer em Vegas, e nunca nos cansamos de assistir o espetáculo. Em compensação, o show "A queda de Atlântida"no Caesar's Palace é um horror. Uns robots horrorozinhos, interpretando Zeus e mais outros dois deuses, que disputavam a cidade a fogo e água... O mais interessante era ver a fonte se transformando neste teatro, as estátuas sumindo e em seu lugar subindo os bonecos animados. Outro show bonito, mas nem tão interessante, era o do Mirage, com o seu vulcão em erupção. Não assisti ao show dos piratas, mas, pelo que me falaram, não perdi muita coisa -- é que adoro o show da Disney, e não quis atrapalhar minhas lembranças com esse outro superpovoado e que molha todo mundo...
Até mais, então.
Entre ontem e hoje comprei "apenas" dez livros. Um sobre Proust, três sobre "comida" e literatura: um oferece uma "história da literatura mundial em 14 receitas" meio que de mentirinha, pois todas as histórias foram escritas pelo mesmo autor, Mark Crick; outro é de artistas falando sobre comida e o terceiro esqueci, mas também é assim desse jeito. Espero que sirvam para minha tese. Comprei o Firmin, o White Tiger, um de Virginia Woolf falando sobre seus passeios em Londres, Ah, nem sei mais. Ganhei um de presente, um romance histórico sobre Maria Antonieta, escrito pela mulher do Harold Pinter, Antonia Fraser, acho que é esse o nome. Comprei o Shadow Line, do Conrad. Chega de listas. Para terminar, uma pequena memória de Las Vegas, o show das fontes do Bellagio. A cada vez que assisti o show, as músicas eram diferentes, a coreografia maravilhosa, o encantamento geral. É uma das mais interessantes coisas para se fazer em Vegas, e nunca nos cansamos de assistir o espetáculo. Em compensação, o show "A queda de Atlântida"no Caesar's Palace é um horror. Uns robots horrorozinhos, interpretando Zeus e mais outros dois deuses, que disputavam a cidade a fogo e água... O mais interessante era ver a fonte se transformando neste teatro, as estátuas sumindo e em seu lugar subindo os bonecos animados. Outro show bonito, mas nem tão interessante, era o do Mirage, com o seu vulcão em erupção. Não assisti ao show dos piratas, mas, pelo que me falaram, não perdi muita coisa -- é que adoro o show da Disney, e não quis atrapalhar minhas lembranças com esse outro superpovoado e que molha todo mundo...
Até mais, então.
Sunday, January 04, 2009
Colecionando conchas...
Em Connecticut, à beira do Long Island Sound, num frio de rachar lábios e dedos, lá vou eu, acompanhando meus amigos, numa caçada às conchas.Estou na casa de uma sereia, fascinada pelo mar, com conchas, vidros e marinhas por toda a parte. Assim se tem a ilusão de que estamos um pouquinho mais quentes, um pouquinho mais tropicais. Mas, na verdade, calor aqui só o humano. Passamos ontem o dia colocando os assuntos em dia, e a maior parte de nossos assuntos são os livros que lemos. Trocamos informações e entusiasmos, depois fomos jantar em um restaurante japonês numa mesa de Habashi. Por incrível que pareça, nunca tinha feito isso na vida: assistir a performance do chef samurai, com suas facas e garfos ameaçadores, quebrando ovos e depositando as cascas no oco do chapéu, atirando pedaços de comida em nossas bocas, nos fazendo rir com suas brincadeiras, ou assustando-nos com seus flamejantes espetáculos. E, o mais importante, nos deliciando com a comida muito gostosa. Hoje foi mais um dia de conversa, fruit-kebobs preparados com carinho para o café da manhã, mais livros, em conversa e em compras: livros para todos! Uma alegria!
Tinha começado a escrever um post sobre a jogatina em Las Vegas, mas acho muito melhor ficar aqui nesta conversa tranquila, e sair para apreciar o por-do-sol, esplendido, com todos os tons de vermelho, e pinceladas escuras atravessando o céu, enorme, sempre tão amplo, os famosos "Spacious skies" da canção America, the beautiful. Realmente, este nosso novo mundo é muito lindo, e variado. Lembro agora do passeio ao Grand Canyon, com paisagens de tirar o fôlego. As rochas desenhadas e pintadas de cores vivas, formando verdadeiras esculturas naturais -- aqui uma águia no vôo (que agora é sem acento, meu Deus!). Ali uma tartaruga, logo abaixo uma cabeça de leão da montanha, mais atrás um perfil de índio... Bosques de Joshua's trees, deserto de Mojave, tudo isso me maravilhou no caminho até o canyon que, enorme, me fez ficar achando que o Rio Colorado parece um riachinho... Bem sei que não se trata disso, é tudo uma questão de proporção, mas a imagem visual que guardo do rio é a de uma estreita faixa serpenteando lá embaixo, de cor pardacenta, imóvel, sem nem ao menos reverberar o sol, que não chegava a alcançá-lo. Lá de cima, a gente fica olhando um horizonte longínquo, tão distante como os sonhos daqueles desbravadores que atravessaram montanhas geladas e desertos inclementes à procura de uma "terra prometida" que se revelou uma espécie de inferno agitado -- a Califórnia e seu ouro. Não termino sem antes falar da represa que criou o enorme lago Mead com as águas do Colorado. Diferentemente de Itaipu que se estende, esta se eleva entre as montanhas que formam um desfiladeiro estreito. E se enfeita com o capricho arquitetônico próprio dos anos 30, com detalhes de art-déco nas construções. Mas, o mais espetacular no momento é apreciar a construção da nova ponte, uma ponte suspensa, daquelas que, depois de prontas, parecem tão leves e delicadas, mas que no estágio de construção em que está revela todo o prodígio de força e o cálculo necessário para sua realização. É de ficar fazendo Uhhhs e Ohhhs, ponderando sobre cada centímetro já avançado... Depois conto mais coisas.
Tinha começado a escrever um post sobre a jogatina em Las Vegas, mas acho muito melhor ficar aqui nesta conversa tranquila, e sair para apreciar o por-do-sol, esplendido, com todos os tons de vermelho, e pinceladas escuras atravessando o céu, enorme, sempre tão amplo, os famosos "Spacious skies" da canção America, the beautiful. Realmente, este nosso novo mundo é muito lindo, e variado. Lembro agora do passeio ao Grand Canyon, com paisagens de tirar o fôlego. As rochas desenhadas e pintadas de cores vivas, formando verdadeiras esculturas naturais -- aqui uma águia no vôo (que agora é sem acento, meu Deus!). Ali uma tartaruga, logo abaixo uma cabeça de leão da montanha, mais atrás um perfil de índio... Bosques de Joshua's trees, deserto de Mojave, tudo isso me maravilhou no caminho até o canyon que, enorme, me fez ficar achando que o Rio Colorado parece um riachinho... Bem sei que não se trata disso, é tudo uma questão de proporção, mas a imagem visual que guardo do rio é a de uma estreita faixa serpenteando lá embaixo, de cor pardacenta, imóvel, sem nem ao menos reverberar o sol, que não chegava a alcançá-lo. Lá de cima, a gente fica olhando um horizonte longínquo, tão distante como os sonhos daqueles desbravadores que atravessaram montanhas geladas e desertos inclementes à procura de uma "terra prometida" que se revelou uma espécie de inferno agitado -- a Califórnia e seu ouro. Não termino sem antes falar da represa que criou o enorme lago Mead com as águas do Colorado. Diferentemente de Itaipu que se estende, esta se eleva entre as montanhas que formam um desfiladeiro estreito. E se enfeita com o capricho arquitetônico próprio dos anos 30, com detalhes de art-déco nas construções. Mas, o mais espetacular no momento é apreciar a construção da nova ponte, uma ponte suspensa, daquelas que, depois de prontas, parecem tão leves e delicadas, mas que no estágio de construção em que está revela todo o prodígio de força e o cálculo necessário para sua realização. É de ficar fazendo Uhhhs e Ohhhs, ponderando sobre cada centímetro já avançado... Depois conto mais coisas.
Friday, January 02, 2009
Muitas novidades e pouquíssimo tempo...
Nossa! Que falta que faz internet no hotel. Nem acreditei que, bem lá em Las Vegas, não fosse dispor de conexão fácil, mas depois percebi que, por causa dos jogos, os computadores, celulares e outros brinquedinhos eletrônicos não são bem vindos. Os telefones ficavam meio malucos,por lá.Os serviços de mensagens, tinham uma demora enorme, para evitar trapaças, eu acho.
Mas a verdade é que também tive muito pouco tempo para pensar em internet e em blog. Há muito o que fazer, muito o que ver, e o dia não é elástico. E lá tudo demora: os hotéis são quilométricos, para ir do hall de entrada para o quarto é preciso ter preparo físico. Bem, agora preciso deixar vocês, com a promessa de que volto a escrever em breve. Vou embarcar em meu vôo para NY. Passei o dia hoje em aeroportos: Las Vegas, Dallas e agora a caminho de Newark.
Até breve.
Mas a verdade é que também tive muito pouco tempo para pensar em internet e em blog. Há muito o que fazer, muito o que ver, e o dia não é elástico. E lá tudo demora: os hotéis são quilométricos, para ir do hall de entrada para o quarto é preciso ter preparo físico. Bem, agora preciso deixar vocês, com a promessa de que volto a escrever em breve. Vou embarcar em meu vôo para NY. Passei o dia hoje em aeroportos: Las Vegas, Dallas e agora a caminho de Newark.
Até breve.
Sunday, December 28, 2008
A salvação e a mala
Ora bolas, como diria Machado de Assis. Bem, acho que nunca li essa expressão em seus livros, mas ela me soa como plausível e bem antiquada... O que aconteceu foi que o tornado ficou lá por Denton mesmo, e depois de um céu plúmbeo (lindo, não?) e de uma chuva tempestuosa, de repente, tudo clareou e o céu ficou completamente limpo, azul, do azul mais puro e límpido. Incrível essas mudanças climáticas daqui. O tempo aquece de uma hora para outra, depois esfria, depois chove, depois tudo congela... Quando cheguei aqui, as três fontes que enfeitam a entrada do condomínio estavam congeladas. Agora a água flui, o sol se ilumina, e os poentes são escandalosamente belos. Hoje tive vontade de gritar, de tão belo que estava o por-do-sol. Agora tenho vontade de gritar de raiva, tentando fechar as malas para seguir viagem. Las Vegas me espera, e depois, o Grand Canyon. Deve ser lindo, depois conto aqui.
Bem, fiquem tranquilos, pois sobrevivi. Os ventos que sopram por aqui são os bons, e acho que o novo ano vai ser assim, de bons ventos e belos poentes.
Agora, às malas! Detesto ter que fazer isso, mas é necessário.
Bem, fiquem tranquilos, pois sobrevivi. Os ventos que sopram por aqui são os bons, e acho que o novo ano vai ser assim, de bons ventos e belos poentes.
Agora, às malas! Detesto ter que fazer isso, mas é necessário.
Saturday, December 27, 2008
Tornado Watch
Parece título de filme, mas é o que estamos vivendo por aqui. A poucas milhas daqui, em Denton, tem um tornado que pode hit the ground, tocar o chão, a qualquer momento. E, como os tornados são vento, e os ventos sopram por toda a parte, ele pode vir para cá. Então estamos aqui, esperando, para ver no que vai dar. Vai ser meu encontro com o mágico de Oz... E eu que pensava que me bastava o Amos Oz... Bem, por via das dúvidas, vou tirar o computador da tomada. Se tiver que sair de casa, levo-o comigo para Oz. Depois eu conto.
Friday, December 26, 2008
Deep in the heart of Texas!
Bem no coração do Texas, é onde estou, longe de NY e seus encantos e seduções... Daí que não me vai ser possível ir às livrarias cult e maravilhosas de Manhattan. Mas hoje de manhã estive na Barnes and Noble (uma das muitas que há por aqui). Se, por um lado, me encantei com a fila de gente que esperava a livraria abrir, me decepcionei com a seleção de livros... Imaginem que na seção de audio books (sempre compro pelo menos um, é uma maneira de conservar meu inglês, que vai desaparecendo) ao invés de clássicos, o que encontrei foi um The Alchimist, by um tal de Paulo Coelho... Será que alguém aí no Brasil conhece o tipo? E não tinha o livro vencedor do Booker Prize -- e, aliás, o vendedor nem sabia que de que prêmio eu estava falando. Claro que fui impertinente, e disse que era simplesmente o prêmio mais importante para literatura escrita em inglês, mas que ele não poderia saber disso... Depois fiquei com remorso: puxa, apenas um dia depois do Natal e já estou com esse espírito de bronca?! Em resumo, ia voltar para casa sem livros, mas não resisiti e comprei uns outros, que nãoestavam na minha lista, mas que chamaram a minha atenção... Um audiobook chamado The Uncommon Reader-- com uma historinha que me pareceu interessante -- um dia a Rainha da Inglaterra entra por engano numa biblioteca móvel estacionada ao lado do palácio de Buckingham, descobre os prazeres da leitura e perde a paciência para com seus deveres reais, acarretando conseqüências divertidas para o seu reino. É mais ou menos esse o resumo.Mas não vou escutá-lo agora.Aqui escuto inglês todo o tempo, vou guardá-lo para a volta. Também comprei um chamado Songs for the Missing, que estava sendo muito recomendada pelos críticos do NYTimes. Essa recomendação, na verdade, não quer dizer nada. Vale tanto quanto as críticas do Prosa ou do Idéias: depende de quem a escreve, e desconheço o autor da crítica, assim como desconheço o autor do livro. Comprei dois do Pynchon, os dois mais fininhos que encontrei, para ver se me acostumo com ele. Sei que o André o adora, mas ainda não achei grande graça naquilo que li dele.
Continuo resenhando o Concerto Barroco. Tarefa difícil, pois tenho tanta pesquisa sobre o livro que me afasto do objetivo da resenha, me perco nas conjecturações sobre o assunto de minha tese, é um problema. Mas ainda tenho tempo. Vai dar tudo certo, no final...
Adorei a interpretação que Guido fez de meus posts! Finalmente virei personagem, coisa que almejei minha vida inteira. Já contei aqui de minha alegria quando descobri que o Rubem Fonseca tinha escrito Lucia MacCartney? Achava que era para mim. Aí fui ler, e descobri que não dava para me colocar como a personagem construída por ele: uma garota de programa. E, o que é pior, uma garota de programa romântica... Brrr! O que é isso? Mas ela está armazenada no meu imaginário, e agora faz parte de meu curso "Mulheres perdidas e desencontradas na Literatura Brasileira" Começo com Lucíola, a puta cheia de escrúpulos, passo por Lúcia MacCartney e chego até a Bruna Surfistinha, a puta que virou modelo de comportamento... Que coisa, né? Como nossos valores mudaram. De ofensa a elogio, a palavra puta hoje é uma coisa banal, perdeu o valor negativo. Aliás, quem alguma vez já viu a Gabriela, da Daspu, sabe que a puta também perdeu sua imagem. A Gabriela é igualzinha a uma vizinha minha, com quem encontro sempre no supermercado e é um modelo de respeitabilidade... Uma senhora sensata e séria, sem nada a ver com os paradigmas das profissionais mais antigas do mundo... Bem, chega de putaria e vamos à vida... Ciao
Continuo resenhando o Concerto Barroco. Tarefa difícil, pois tenho tanta pesquisa sobre o livro que me afasto do objetivo da resenha, me perco nas conjecturações sobre o assunto de minha tese, é um problema. Mas ainda tenho tempo. Vai dar tudo certo, no final...
Adorei a interpretação que Guido fez de meus posts! Finalmente virei personagem, coisa que almejei minha vida inteira. Já contei aqui de minha alegria quando descobri que o Rubem Fonseca tinha escrito Lucia MacCartney? Achava que era para mim. Aí fui ler, e descobri que não dava para me colocar como a personagem construída por ele: uma garota de programa. E, o que é pior, uma garota de programa romântica... Brrr! O que é isso? Mas ela está armazenada no meu imaginário, e agora faz parte de meu curso "Mulheres perdidas e desencontradas na Literatura Brasileira" Começo com Lucíola, a puta cheia de escrúpulos, passo por Lúcia MacCartney e chego até a Bruna Surfistinha, a puta que virou modelo de comportamento... Que coisa, né? Como nossos valores mudaram. De ofensa a elogio, a palavra puta hoje é uma coisa banal, perdeu o valor negativo. Aliás, quem alguma vez já viu a Gabriela, da Daspu, sabe que a puta também perdeu sua imagem. A Gabriela é igualzinha a uma vizinha minha, com quem encontro sempre no supermercado e é um modelo de respeitabilidade... Uma senhora sensata e séria, sem nada a ver com os paradigmas das profissionais mais antigas do mundo... Bem, chega de putaria e vamos à vida... Ciao
Thursday, December 25, 2008
Mais Natal e mais TV
Preparei uma ceia muito gostosa: Bacalhau (sim, aqui tem de tudo) e rabanadas... Very yummy, como eles dizem aqui para muito gostoso. Então não fiz muito mais além disso. Ao anoitecer, saí para dar uma voltinha a pé pelo condomínio. Lá estavam os Papais Noéis, miraculosamente ressuscitados. Algumas luzes pestanejavam sonolentas em poucas casas. Uma única ostentava uma feérica iluminação, o que tornava difícil até olhar para a casa. Estava exageradamente festiva. Outra parecia a sede do PC, com uma guirlanda de luzes vermelhas em cada janela. Mas a casa estava totalmente às escuras, só aqueles círculos vermelhos apareciam na escuridão, como alvos... Uma outra confundiu as festas e seus enfeites mais pareciam de Halloween. Muito estranho. No meio da noite, insone, lá fui eu ligar a TV, para continuar a exploração dos 500 ou 600 canais. Não importa o número, é tudo muito parecido. Mas ontem encontrei coisas dignas de nota. Uma foi a tal de Book TV. Já tinha visto antes, e não se trata propriamente de um canal, mas de um programa de entrevistas. Claro que ontem a entrevista não era ao vivo, e sim uma repetição de agosto, acho, com a Maya Angelou. Assisti um pouco, mas comecei a lembrar do livro do Amos Oz, Rimas da vida e da morte, e enjoei. É que as perguntas, como ele chama a atenção, são sempre as mesmas. E cada vez mais existe uma tendência de encarar a literatura como auto-ajuda: Qual o conselho que a senhora daria para uma filha que está saindo de casa? -- era uma das perguntas. Isso porque ela é a autora de um livro que fala sobre as relações entre mãe e filha... Será que isso faz dela uma expert? O livro que estou escrevendo versa sobre o mesmo assunto. Será que isso vai me transformar numa especialista? Sinceramente, espero que não, só o que desejo é contar uma história, possível, entre duas pessoas que nunca chegam a se compreender inteiramente.
O outro canal que descobri é uma preciosidade: completamente incrível! A imagem é sempre a mesma: uma lareira. E, em off, alguém lê histórias. Imaginem isso, uma noite escura lá fora, e alguém solitário se aquecendo frente a esse fogo e escutando um amigo, ou um parente, contando uma história, se achando, finalmente, acompanhado.... Patético. No sentido de pathos, emoção, sofrimento. Como fazemos coisas para nos iludir, hein?... Então, como não quero terminar meus dias assim, lá vou eu me despedindo de vocês e rumando para o aconchego da família. Só fugi um pouquinho, viciada que sou nesse blog. E aproveito para agradecer a todos vocês, com suas cartas tão lindas, suas mensagens e seu carinho, que me mantêm o coração aquecido mesmo aqui neste frio. Ah, porque num dos canais me ameaçavam com uma enorme tempestade que está se aproximando do oeste. Deixem-me curtir o restinho de dia bonito, antes que chegue a neve, então! E mais feliz Natal para todos, outra vez, mil vezes. E que tudo o que me desejam lhes seja dado em dobro, em triplo, para que vocês continuem repartindo, com generosidade, entre os amigos.
Beijo natalino, com guisos...
O outro canal que descobri é uma preciosidade: completamente incrível! A imagem é sempre a mesma: uma lareira. E, em off, alguém lê histórias. Imaginem isso, uma noite escura lá fora, e alguém solitário se aquecendo frente a esse fogo e escutando um amigo, ou um parente, contando uma história, se achando, finalmente, acompanhado.... Patético. No sentido de pathos, emoção, sofrimento. Como fazemos coisas para nos iludir, hein?... Então, como não quero terminar meus dias assim, lá vou eu me despedindo de vocês e rumando para o aconchego da família. Só fugi um pouquinho, viciada que sou nesse blog. E aproveito para agradecer a todos vocês, com suas cartas tão lindas, suas mensagens e seu carinho, que me mantêm o coração aquecido mesmo aqui neste frio. Ah, porque num dos canais me ameaçavam com uma enorme tempestade que está se aproximando do oeste. Deixem-me curtir o restinho de dia bonito, antes que chegue a neve, então! E mais feliz Natal para todos, outra vez, mil vezes. E que tudo o que me desejam lhes seja dado em dobro, em triplo, para que vocês continuem repartindo, com generosidade, entre os amigos.
Beijo natalino, com guisos...
Wednesday, December 24, 2008
Feliz Natal!
Oba! Véspera de Natal, quantas boas lembranças... Quantas saudades, também, é verdade. Hoje o dia amanheceu lindo, e, por incrível que pareça, não tão frio. Mas eu continuo escondida em casa, friorenta, ocupada em reler livros queridos e em rever filmes antigos. Esses canais de TV aqui são uma fonte de velharias incrível! Algumas boas, outras terríveis. Quando canso dos filmes vou até o History Channel, que está passando programa após programa sobre a verdade da Bíblia. Estou admirada com a capacidade de enrolação deste canal: não provam nada, levantam mil hipóteses, falam de A a Z, e não trazem nada de novo, embora suas chamadas sejam tipo: conheça o verdadeiro local de nascimento de Cristo! Saiba tudo sobre a virgindade de Maria! Sobre esse último assunto, eles descobriram uma possibilidade de Maria ter sido estuprada por um soldado romano de nome Pantera....Daí que o filho de Deus pode ser apenas filho de uma pantera.... E Jesus pode nunca ter nascido em Belém, já que sempre foi conhecido como Jesus de Nazaré.... E ele provavelmente não nasceu no Natal.... Bem, parei de ver por aí. Porque não me importaria de ver tudo por terra, desde que me dessem alguma certeza, mas tudo o que a programação estava fazendo era levantar essas lebres, e não acertar em nenhuma. Tudo são hipóteses, e não há nenhuma fundamentação quanto a nada. Por exemplo, a história do tal Pantera é a seguinte: Os soldados romanos costumavam estuprar as mulheres palestinas. Em algum lugar na Europa há um túmulo de um soldado romano chamado Pantera que esteve servindo na Palestina na época que Maria teria, supostamente, engravidado. E só. Daí que eles levantam mil hipóteses a respeito de um possível estupro, etc, etc. E, depois, no segmento seguinte, falam sobre como a data de nascimento de Cristo é apenas uma hipótese, pois o único dado histórico é a sua morte, e as narrativas sobre o nascimento não coincidem com as datas históricas -- por exemplo: o censo da população ocorreu ou seis anos antes do nascimento de Cristo ou seis anos depois....Então, o Pantera estuprador teria que estar ativamente estuprando na Palestina por um período muito mais longo do que o comprovado na inscrição de seu túmulo.
Mas, chega de History Channel. Vamos falar de crise. Todo o mundo aí no Brasil me pergunta se há sinais visíveis da crise aqui. No princípio achei que não, mas agora descobri um triste sinal -- os suicídios de Papai Noel. Andando pelas cercanias, fui vendo vários bonecos de Papai Noel caídos nos gramados, como se tivessem se atirado dos telhados. Aquilo me fez um grande mal-estar, me deixou impressionada. Minha filha me tranquilizou, falando que são bonecos infláveis, como aqueles dos postos de gasolina, mas que só são ligados à noite. De dia ficam lá, estirados como cadáveres. Pode ser que isso não tenha nada a ver com a crise, mas que funciona como um aviso aos navegantes, lá isso funciona. O bom velhinho que antes eu via a cada esquina tocando um sininho e pedindo contribuições para o Natal dos pobres, desesperou-se e se atirou dos telhados, espatifando-se em quintais que já não ostentam mais as luzes festivas. Raras são as casas que estão decoradas, as flores vermelhas que costumavam bordar as escadarias e entradas, continuam nos supermercados, aguardando clientes. Mas os supermercados estão cheios de gente e de iguarias, e os olhos das crianças continuam brilhando de expectativa. Então eu aqui me despeço, com a saudação tradicional:
HO, HO, HO! Merry Christmas!
E prometo que não subo no telhado, para não me sentir tentada...
Feliz Natal a todos.
Não se esqueçam que no histórias possíveis tem muitas histórias de natal para todos vocês, inclusive uma que eu escrevi: Natal no Leblon.
Mas, chega de History Channel. Vamos falar de crise. Todo o mundo aí no Brasil me pergunta se há sinais visíveis da crise aqui. No princípio achei que não, mas agora descobri um triste sinal -- os suicídios de Papai Noel. Andando pelas cercanias, fui vendo vários bonecos de Papai Noel caídos nos gramados, como se tivessem se atirado dos telhados. Aquilo me fez um grande mal-estar, me deixou impressionada. Minha filha me tranquilizou, falando que são bonecos infláveis, como aqueles dos postos de gasolina, mas que só são ligados à noite. De dia ficam lá, estirados como cadáveres. Pode ser que isso não tenha nada a ver com a crise, mas que funciona como um aviso aos navegantes, lá isso funciona. O bom velhinho que antes eu via a cada esquina tocando um sininho e pedindo contribuições para o Natal dos pobres, desesperou-se e se atirou dos telhados, espatifando-se em quintais que já não ostentam mais as luzes festivas. Raras são as casas que estão decoradas, as flores vermelhas que costumavam bordar as escadarias e entradas, continuam nos supermercados, aguardando clientes. Mas os supermercados estão cheios de gente e de iguarias, e os olhos das crianças continuam brilhando de expectativa. Então eu aqui me despeço, com a saudação tradicional:
HO, HO, HO! Merry Christmas!
E prometo que não subo no telhado, para não me sentir tentada...
Feliz Natal a todos.
Não se esqueçam que no histórias possíveis tem muitas histórias de natal para todos vocês, inclusive uma que eu escrevi: Natal no Leblon.
Monday, December 22, 2008
Bbbrrrrr
Esse é o ruído que supostamente todos os que se aproximam de mim, desde ontem, podem escutar: meu corpo tremendo de frio...
Tinha me esquecido do impacto que faz o contraste entre a beleza do dia e o frio que se sente aqui nos EUA. No Brasil, quando o sol brilha, o calor comparece, mas aqui, o dia despejado não significa nada em ermos de temperatura. Somos realmente obrigados a olhar o termômetro antes de sair, sob pena de acontecer o que me aconteceu: instantaneamente meus lábios racharam com o frio.
Agora estou aqui, sob as cobertas, me esquentando e escrevendo, enquanto tento esquecer a dor dos meus lábios.
Passei a manhã com Carpentier, amor antigo, mas há muito não revisitado. Como ele é bom! E como foi bom ter passado um tempo longe dele, pois agora encontro coisas que não tinha visto antes, talvez até porque eu ainda não conhecesse essas coisas que agora encontro. Sua familiaridade com Proust, por exemplo, tinha me passado despercebida, e agora me atinge com o impacto de um raio. Vou ter muito o que fazer, nesse próximo semestre, reestabelecendo minhas leituras de Carpentier e Lezama, vis a vis Proust. Pois agora farei uma triangulação, várias triangulações, e a partir daí, surge uma espiral magnífica, instigante.
Mas agora preciso levantar e andar um pouco: Não posso passar o dia assim toda torta na cama, ou minha coluna não resistirá. Vou me exercitar no frio, isso depois de passar uns dois quilos de protetor lábial, de preferência com anestésico!
Depois escrevo mais...
Tinha me esquecido do impacto que faz o contraste entre a beleza do dia e o frio que se sente aqui nos EUA. No Brasil, quando o sol brilha, o calor comparece, mas aqui, o dia despejado não significa nada em ermos de temperatura. Somos realmente obrigados a olhar o termômetro antes de sair, sob pena de acontecer o que me aconteceu: instantaneamente meus lábios racharam com o frio.
Agora estou aqui, sob as cobertas, me esquentando e escrevendo, enquanto tento esquecer a dor dos meus lábios.
Passei a manhã com Carpentier, amor antigo, mas há muito não revisitado. Como ele é bom! E como foi bom ter passado um tempo longe dele, pois agora encontro coisas que não tinha visto antes, talvez até porque eu ainda não conhecesse essas coisas que agora encontro. Sua familiaridade com Proust, por exemplo, tinha me passado despercebida, e agora me atinge com o impacto de um raio. Vou ter muito o que fazer, nesse próximo semestre, reestabelecendo minhas leituras de Carpentier e Lezama, vis a vis Proust. Pois agora farei uma triangulação, várias triangulações, e a partir daí, surge uma espiral magnífica, instigante.
Mas agora preciso levantar e andar um pouco: Não posso passar o dia assim toda torta na cama, ou minha coluna não resistirá. Vou me exercitar no frio, isso depois de passar uns dois quilos de protetor lábial, de preferência com anestésico!
Depois escrevo mais...
Friday, December 19, 2008
Se se morre de amor...
Me lembro de um poema bem romântico que começava assim. Acho que estava num dos livros de J.G. de Araújo Jorge, poeta que encantava minha mãe...É, ela gostava dele. Minha avó gostava de Raimundo Correia, meu avô de Jorge de Lima. Eu gostava de ficção, mas lia muita poesia, que sempre andou pelos livros lá de casa. Mas o que me encantavam eram livros de histórias, que me transportavam a um mundo onde me sentia mais feliz. Tartarin de Tarascon; a Menina das Nuvens; O albergue do Anjo da Guarda; Histórias que a velha paineira contou; As mil e uma noites; Grimm, Andersen; Lobato. Tantos livros, tantas histórias... Juca e Chico, os dois meninos levados que são barbaramente castigados e comidos. A moura torta, que, na verdade, descobri isso depois que aprendi espanhol, devia ser A moura vesga, o torta é problema de tradução. Desses livros para os considerados "sérios", foi uma pequena passagem. Mas até hoje adoro um livro infantil, que agora são ainda mais belos que antigamente. Lá no almoço do Mussa, brinquei dizendo que pertencia à pré-história da humanidade, que tinha nascido antes do computador! Muitas pessoas protestaram, e começamos com uma sessão de recordações de como era escrever antigamente. Escrevíamos os trabalhos a mão, acreditem ou não. Alguns trabalhos eram feitos a máquina, isso quando alguém no grupo possuía uma máquina de escrever, coisa que não era tão comum assim. Eu sempre fui uma péssima datilógrafa, e vivia com os dedos cheios de bandaid, porque ficavam todos feridos por resvalarem e entrarem por entre as teclas. Na verdade, não eram todos os dedos, pois eu só usava o dedo médio e o indicador. O indicador ficava dobrado por sobre o pai de todos, para reforçá-lo, pois as teclas eram muito duras e eu nunca tive força nas mãos. Daí que esses quatro dedos se esfolavam, doíam, era um horror. Quando a IBM inventou a máquina elétrica, achei que as coisas iam melhorar para mim, mas não foi bem assim. Era preciso me readaptar, pois demorar um pouco mais com o dedo sobre a tecla significava uma linha inteira de sssss ou de ppppp, então usava a fita corretora, que apagava milagrosamente nossos erros. Só me acertei mesmo com o computador. Por isso olho com incredulidade esse pessoal que curte escrever a mão. Eu, hein? Escrever, rabiscar, fazer sinais para inserir textos ou mudar de posição frases inteiras? Deus me livre! Amo meu computador! Adoro as mágicas que ele é capaz de fazer, mesmo quando ele resolve me boicotar, apagar tudo o que escrevi, transformar letras em números, ele ainda é o melhor instrumento escrevinhador que já tive.
Bem, com essa sessão nostalgia, o tempo passou e já me sinto melhor. Porque às vezes dói tanto estar viva que mal consigo aguentar. Então, termino, dizendo que a resposta para a dúvida poética é sim, é possível que se morra de amor. Mas, para a pergunta retórica, se se morre de tristeza, afirmo que não. Eu sou a prova.
Bem, com essa sessão nostalgia, o tempo passou e já me sinto melhor. Porque às vezes dói tanto estar viva que mal consigo aguentar. Então, termino, dizendo que a resposta para a dúvida poética é sim, é possível que se morra de amor. Mas, para a pergunta retórica, se se morre de tristeza, afirmo que não. Eu sou a prova.
Rosnados e Agrados
Começo pelos agrados,ou melhor, pelos agradecimentos . Obrigada a todos vocês, pelo carinho e preocupação demonstrada. Estou bem, ainda que não totalmente 100%, já que no final de ano é difícil a gente não se exceder. Vejam: domingo estava convalescendo de minha gripe, mas, no dia seguinte, lá fui eu à festa de aniversário de um amigo querido. Coisa bacana, bem organizada, em hotel na Av. Atlântica, como ele merece. Era também a comemoração do seu aniversário de casamento, estavam lá amigos de uma vida inteira. Só sei que a mistura de remédio para gripe com champagne me deu uma disposição que me fez ficar dançando até a festa acabar. Resultado, passei o dia seguinte de cama, para poder me recuperar para a festa de fim de ano do grupo de Proust, no dia seguinte. Resumindo, estou assim: um dia agito, outro descanso, e, mal ou bem, vou dando conta de tudo. Agora faço as malas, Natal no hemisfério Norte, Reveillon em Las Vegas -- quem sabe assim enlouqueço de vez? Levo na mala o computador, e algumas idéias para desenvolver o romance, no qual quase não tenho trabalhado... E também artigos para desenvolver a tese: adoraria terminá-la este ano!
Quanto aos rosnados -- refiro-me à mania de colocarem "rsrsrs" para traduzirmos como risos. Sempre acho que estão rosnando para mim! É igual aos americanos que se despedem com "xoxoxo" que eles pretendem que signifique beijos (x) e abraços (o), mas que eu interpreto como um xingamento. Não é meio esquisito, esse negócio?
Bem, agora vou tomar as últimas providências pré-viagem.
Só que, antes de me despedir, quero mencionar algumas conversas com alunas, que me fizeram muito bem. ML me liga e conta de seu prazer com a leitura das cartas de Fradique Mendes, do Eça. E depois diz: Devo esse prazer a você, pois foi você que me ensinou a gostar de literatura.
Ah, como isso me deixou feliz! É a melhor coisa que uma professora pode escutar -- ter conseguido revelar o mundo de prazer e descobertas que nos espera em cada livro. UAU!
Já L me escreveu um e-mail, se revelando encantada com Tolstói, e falando do prazer que são os nossos encontros. E eu sempre digo a elas: O maior prazer é meu: onde mais eu teria a chance de ter uma platéia cativa, me escutando falar do que gosto? Obrigada a vocês, minhas alunas queridas, mil vezes obrigada, pois sou eu que sou devedora a vocês. O carinho e o estímulo que vocês me dão foi meu caminho de volta à vida. Que não é a mesma de antes, mas que tem, ao menos, essa doçura!
Quanto aos rosnados -- refiro-me à mania de colocarem "rsrsrs" para traduzirmos como risos. Sempre acho que estão rosnando para mim! É igual aos americanos que se despedem com "xoxoxo" que eles pretendem que signifique beijos (x) e abraços (o), mas que eu interpreto como um xingamento. Não é meio esquisito, esse negócio?
Bem, agora vou tomar as últimas providências pré-viagem.
Só que, antes de me despedir, quero mencionar algumas conversas com alunas, que me fizeram muito bem. ML me liga e conta de seu prazer com a leitura das cartas de Fradique Mendes, do Eça. E depois diz: Devo esse prazer a você, pois foi você que me ensinou a gostar de literatura.
Ah, como isso me deixou feliz! É a melhor coisa que uma professora pode escutar -- ter conseguido revelar o mundo de prazer e descobertas que nos espera em cada livro. UAU!
Já L me escreveu um e-mail, se revelando encantada com Tolstói, e falando do prazer que são os nossos encontros. E eu sempre digo a elas: O maior prazer é meu: onde mais eu teria a chance de ter uma platéia cativa, me escutando falar do que gosto? Obrigada a vocês, minhas alunas queridas, mil vezes obrigada, pois sou eu que sou devedora a vocês. O carinho e o estímulo que vocês me dão foi meu caminho de volta à vida. Que não é a mesma de antes, mas que tem, ao menos, essa doçura!
Sunday, December 14, 2008
FEBRE!
Vai assim, tudo em maiúsculas, para expressar meu protesto! Febre, daquelas altas, de dor no corpo e calafrios, há quanto tempo não sentia. E, para falar a verdade, estou até gostando dessa parada forçada, que me tira de circulação e me desobriga do espírito borbulhante da época. Agora que vivemos numa era de felicidade artificial, em que todos ostentamos no rosto sorrisos congelados, e em que banimos de nosso vocabulário as palavras de revolta e indignação, às vezes fica mais difícil conviver, cientes de tanta superficialidade. Sinto falta do tempo em que podíamos viver sob o signo de Saturno, o grande melancólico. Bem sei que se podia ser igualmente chato, mas também necessitamos de uns bons gritos de desespero e de lágrimas de dor. Há quantos anos não fazem mais um sucesso cinematográfico do tipo "Laços de família"? Choro e ranger de dentes, ver o sofrimento alheio, nos consolava de nossos infernos particulares. Agora a gente minimiza nossas dores, disfarça. Somos inundados por frases lapidares cunhadas por BBBostas (desculpem o termo) do tipo: "faz parte"; "que se há de fazer"; "não podemos nos abater"...
Pois eu, escudada pela febre que me solta a língua, digo que as coisas ruins podem fazer parte da vida, mas ninguém as quer, e por isso é normal protestar, espernear, gritar. Sofrer calado é muito pior que sofrer gritando -- até as dores físicas se tornam mais suportáveis quando gememos. É preciso acordarmos, parar com esse conformismo que nos leva a aceitar as coisas cada vez mais escabrosas que nos impingem. Precisamos reclamar, espernear, ser desagradáveis e chatos -- desde que não embarquemos só nessa e percamos nosso bom humor para sempre. Afinal, a "fossa" foi sempre uma boa fonte de inspiração para versos e canções. Chega de circo, vamos ao teatro, e ao teatro de tragédia, de lágrimas de esguicho, de pura catarse. Mas, viva Aristófanes e seu riso...
Pois eu, escudada pela febre que me solta a língua, digo que as coisas ruins podem fazer parte da vida, mas ninguém as quer, e por isso é normal protestar, espernear, gritar. Sofrer calado é muito pior que sofrer gritando -- até as dores físicas se tornam mais suportáveis quando gememos. É preciso acordarmos, parar com esse conformismo que nos leva a aceitar as coisas cada vez mais escabrosas que nos impingem. Precisamos reclamar, espernear, ser desagradáveis e chatos -- desde que não embarquemos só nessa e percamos nosso bom humor para sempre. Afinal, a "fossa" foi sempre uma boa fonte de inspiração para versos e canções. Chega de circo, vamos ao teatro, e ao teatro de tragédia, de lágrimas de esguicho, de pura catarse. Mas, viva Aristófanes e seu riso...
Friday, December 12, 2008
Fractais
Esse desenho, um fractal, é um presente do Guido, leitor aqui do Blog, que me manda suabela criação. Ele explicou o que são os fractais, desenhos geométricos etc. etc. mas meu truquezinho de copiar e colar não deu certo. Voltarei com a explicação. Mas, mesmo sem explicação, aqui vai o desenho que ele me autorizou a colocar aqui e ainda, modesto, perguntou se merecia. Pois eu respondo que eu é que não sei se meu blog é digno de tanta beleza. Reparem bem nas cores, e no movimento que tem o desenho. Não sei se graças ao nome desse amigo que não conheço ao vivo, mas que estimo com toda a simpatia virtual, achei o desenho meio evocador de Dante. Explico: Guido Cavalcante é o nome de um poeta amigo de Dante, que o colocou no purgatório, junto de outros poetas admiráveis, ao lado de Arnaut Daniel, il miglior fabbro (acho que é assim que se escreve.), ou seja, o de técnica mais apurada. Pois nestes galhos dourados de luz vejo as almas que se projetam para alcançar a beleza desse coração verde que se abre para acomodar as estrelas, ao longe.. Viajei? Não importa. O que importa é que é lindo e que meu amigo pensou em mim e me fez um carinho. Carinho que eu queria fazer para tantas pessoas distantes, que, no momento, se encontram às voltas com todos esses problemas de final de ano. Essas datas exigem muito do emocional das pessoas. Eu mesma vou fugir, procurar um cantinho distante onde me esconderei até o dia 7 de janeiro. Vou fugir das buzinas, das chuvas que esfriam nosso sempre adiado verão, das comidinhas que se repetem em torrentes de sabores e de exageros, dos humores instáveis, das pequenas grosserias, das grandes desatenções, das feridas disfarçadas em agrados, mas... pensando bem, para onde formos , essas coisas vão atrás, como satélites... Elas estão sempre à nossa volta, mas nessa época ficamos mais suscetíveis.Voltemos, pois, ao fractal do Guido: na beleza das cores e na incrível luminosidade que elas geram, senti um alento que me fez um pouco mais feliz. E me despeço, então, repartindo essa minha pequena felicidade.
Tuesday, December 09, 2008
Divergências
Chego em casa e escuto música. Alguém faz uma festa aqui na rua. Fico pensando que esta pode ser uma boa maneira de terminar um dia que começou mal, com alguém batendo no meu carro dentro da garagem, e que passou por diversas decepções e desenganos. Incansável, lá vou eu atrás da boa música que leva os moradores do bairro a confraternizar, tomado espumante e comendo biscoito polvilho. Viva meu bairro, penso eu, sorrindo para quem me sorri e escutando os papos das vendedoras do predinho, falando dos estilistas e dos florais, e de todas essas coisas que sempre escuto com simpatia e incredulidade. Será que essas coisas realmente existem, me pergunto. De repente, a conhecida de uma conhecida vem arengar no meu ouvido sobre a inconveniência daquela música na calçada. Mas é uma música tão boa..., tento argumentar. E ainda é cedo, é melhor escutar as canções que os ruídos do trânsito e os motores dos caminhões de lixo que passam hoooras compactando o lixo com seu ruído monótono. Mas a cidadã está zangada, quer descansar, quer falar com a Inglaterra, quer jantar sem ouvir música. Uma outra conhecida de uma conhecida luta pelo direito da festa, e enfaticamente, pelas costas da outra, manda-a visitar a puuuuuta que pariiiuuuu. Depois sai cambaleante, com a taça de espumante nas mãos, feliz por ter lutado pelo direito de festejar, inerente a todo habitante do Leblon! Eu desisto de comprar mais um livro e volto para casa, pensando em Amos Oz, em Tolstói, em osteopatia e filmes. Termino aqui, lambendo as feridas do dia, sentindo falta de quem me garanta que tudo isso passa, que amanhã vou me sentir melhor.
Friday, December 05, 2008
Madrugadora
Acordei cedo, antecipando minha ida à ABL, para assistir o Sermão de Quarta-Feira de Cinzas interpretado pelo Pedro Paulo Rangel. Hoje, 12:30h. Grátis. Isso é bom demais. Com isso pretendo depurar meus ouvidos de algumas coisas que andei escutando ontem: um discurso, de um chefe de nação, usando termos escatológicos... Me recuso a reproduzir o que foi dito, pois assim como descobri que, quando cheiramos, estamos consumindo um pouco daquilo que cheiramos, já que o odor são átomos que penetram nosso organismo através das narinas, estou convencida de que falarmos de certas coisas suja nossa boca. As palavras, que em sua origem são arbitrárias, com o uso colaram-se de tal forma às coisas que representam que voltam, hoje, a uma função mágica. Quando falamos/escrevemos estamos presentificando aquilo que dizemos. Quase que sinto o aroma da flor quando digo "rosa", que chega, idealmente bela e viçosa, na cor que meu sentimento do momento exige, no meu papel, nas minhas retinas, em minha manhã.
Volto, assim, a Alagoas, cuja imagem agora se transforma num coração, vermelho, pulsando ali no peito nordestino do Brasil. Já repararam, que o estado tem uma forma que lembra um coração? Pois esse coração pequenino tem uma profusão de "heróis", de pessoas admiráveis, que vão de Calabar a Zumbi; de Zagallo a Marta (é, a jogadora de futebol); de Ledo Ivo a Jorge de Lima; de Hermeto Pascoal a Djavan. E não termina por aí a lista. Nosso primeiro presidente, o Marechal Deodoro, é de lá. A política está cheia de alagoanos, mas não vou continuar neste terreno. Passo ao cinema e lembro de Cacá Diegues. E, na república das Letras, termino mencionando o grande dicionarista Aurélio Buarque de Holanda e o homenajeado da vez, Graciliano Ramos. O que me faz refletir um pouco. Todos admiram o romance Vidas Secas, cujo título, neste autor tão parco de adjetivos, é o único adjetivado. Não me consta que tenham estudado isso, mas é um tema para reflexão. Eu também admiro o romance, mas confesso minha parcialidade quanto a São Bernardo. Acho que é um livro excepcional. E Paulo Honório é um filho legítimo de Bentinho, nosso Casmurro moderno. Eis aí outro tema para reflexão. Se eu estivesse orientando teses, sugeriria isso para os meus alunos, ao invés de ficar lendo essas coisas mirabolantes sobre a influência dos ditongos orais nas epifanias claricianas... Macabéia que me perdoe, mas está na hora de voltarmos a ler outra coisa na academia! Já imaginaram os orgasmos intelectuais que se pode ter nas fricções entre Paulo Honório e Bento Santiago?
Gente, a ansiedade para partir em direção à ABL está me deixando boba. Perdoem-me. Memento Homo quia pulvis es et in pulverem reverteris... Sim, lembrem-se de que somos pó e ao pó retornaremos: dessa minha mente que já virou farinha, e que um dia foi poeira de estrelas (não me canso de repetir isso!) saem as coisas mais disparatadas, mas nós, instruídos por Vieira, podemos nos desculpar e nos engrandecer, mesmo em nossa insignificância.
Vejo vocês na ABL.
Volto, assim, a Alagoas, cuja imagem agora se transforma num coração, vermelho, pulsando ali no peito nordestino do Brasil. Já repararam, que o estado tem uma forma que lembra um coração? Pois esse coração pequenino tem uma profusão de "heróis", de pessoas admiráveis, que vão de Calabar a Zumbi; de Zagallo a Marta (é, a jogadora de futebol); de Ledo Ivo a Jorge de Lima; de Hermeto Pascoal a Djavan. E não termina por aí a lista. Nosso primeiro presidente, o Marechal Deodoro, é de lá. A política está cheia de alagoanos, mas não vou continuar neste terreno. Passo ao cinema e lembro de Cacá Diegues. E, na república das Letras, termino mencionando o grande dicionarista Aurélio Buarque de Holanda e o homenajeado da vez, Graciliano Ramos. O que me faz refletir um pouco. Todos admiram o romance Vidas Secas, cujo título, neste autor tão parco de adjetivos, é o único adjetivado. Não me consta que tenham estudado isso, mas é um tema para reflexão. Eu também admiro o romance, mas confesso minha parcialidade quanto a São Bernardo. Acho que é um livro excepcional. E Paulo Honório é um filho legítimo de Bentinho, nosso Casmurro moderno. Eis aí outro tema para reflexão. Se eu estivesse orientando teses, sugeriria isso para os meus alunos, ao invés de ficar lendo essas coisas mirabolantes sobre a influência dos ditongos orais nas epifanias claricianas... Macabéia que me perdoe, mas está na hora de voltarmos a ler outra coisa na academia! Já imaginaram os orgasmos intelectuais que se pode ter nas fricções entre Paulo Honório e Bento Santiago?
Gente, a ansiedade para partir em direção à ABL está me deixando boba. Perdoem-me. Memento Homo quia pulvis es et in pulverem reverteris... Sim, lembrem-se de que somos pó e ao pó retornaremos: dessa minha mente que já virou farinha, e que um dia foi poeira de estrelas (não me canso de repetir isso!) saem as coisas mais disparatadas, mas nós, instruídos por Vieira, podemos nos desculpar e nos engrandecer, mesmo em nossa insignificância.
Vejo vocês na ABL.
Thursday, December 04, 2008
Laços...
Já é a segunda vez que começo a escrever um post e desisto, no meio do caminho. Geralmente embarco numa idéia e me distraio com ela, como quando, na praia, achamos uma conchinha, levantamos da areia e a reviramos entre os dedos, olhando seus desatinos. Cada concha, em sua precisa matemática, é um desatino -- um desvio, um subterfúgio. Desenhos e cores, arquitetura e esconderijo, firmeza e fragilidade. Não admira que a gente ainda se fascine com elas, que, cada vez mais raras, desaparecem nas praias. Quando era pequena, meus pés as temiam. Perigosas, elas cortavam, doíam, transformavam em desprazer o delírio da praia. Mais tarde elas passaram a tabus -- nada de levar conchas para casa, para não ter "azar". Mas eu gosto de conchas e de corais. Gosto de peixes e de anêmonas. Gosto de belicosos caranguejos, de lagostas criteriosas exercendo seu trabalho de edição. Uma vez passei uns tempos numa casa com um aquário. Um aquário enorme, onde nadavam tartarugas, lagostas, budiões, sargentos, garoupas. As estrelas do mar grudavam-se do lado de fora, desenhando na parede um firmamento sem firmeza. Todos os dias eu contemplava os peixes, como um deus contemplando sua criação. E, como esse deus, não fazia idéia do que se passava na cabeça dos peixes. Estariam entediados ali dentro? Ou se sentiriam felizardos, a salvo de tubarões e de redes? Nunca compreendi aquele mundo, e, depois de um tempo, findas as férias, o abandonei, sem remorsos.
Olho agora para o céu azul e me pergunto se haverá um rosto me contemplando, distraído. Olhos que olharão sem ver, curiosos, mas indiferentes. Ou será que este rosto que não vejo pertence a alguém que já se foi e nos abandonou nas mãos de algum caseiro encarregado de nos alimentar e pouco mais?
Meu avô, que acreditava em tudo, estava convencido de que não chegaríamos ao ano 2000. E dizia que a primeira destruição do mundo tinha sido pela água e a segunda seria pelo fogo. Mas acho que as águas estão tentando, mais uma vez, demonstrar sua eficácia destrutiva. Ou, pelo menos, revelar nossa absurda displicência com a vida. Será que algum autor estará preparando uma revisão da Bíblia, para acomodar tantas tragédias naturais? O livro dos déspotas, em contraponto ao Livro dos reis, onde se contariam as histórias de figuras terríveis que nos assolaram nos últimos tempos. O Cântico dos desencânticos -- terrível trocadilho -- mas que não merece título melhor já que versaria sobre o desamor. Uma versão revista e ampliada do Apocalipse, incluindo os refinamentos tecnológicos que agora nos podem atormentar... Para neutralizar tudo isso, aconselho um remédio vindo lá do século XVII: Sermões de Vieira. Hoje e amanhã o Pedro Paulo Rangel está oferecendo uma leitura na ABL, às 12:30h. Grátis. Vamos lá?
Olho agora para o céu azul e me pergunto se haverá um rosto me contemplando, distraído. Olhos que olharão sem ver, curiosos, mas indiferentes. Ou será que este rosto que não vejo pertence a alguém que já se foi e nos abandonou nas mãos de algum caseiro encarregado de nos alimentar e pouco mais?
Meu avô, que acreditava em tudo, estava convencido de que não chegaríamos ao ano 2000. E dizia que a primeira destruição do mundo tinha sido pela água e a segunda seria pelo fogo. Mas acho que as águas estão tentando, mais uma vez, demonstrar sua eficácia destrutiva. Ou, pelo menos, revelar nossa absurda displicência com a vida. Será que algum autor estará preparando uma revisão da Bíblia, para acomodar tantas tragédias naturais? O livro dos déspotas, em contraponto ao Livro dos reis, onde se contariam as histórias de figuras terríveis que nos assolaram nos últimos tempos. O Cântico dos desencânticos -- terrível trocadilho -- mas que não merece título melhor já que versaria sobre o desamor. Uma versão revista e ampliada do Apocalipse, incluindo os refinamentos tecnológicos que agora nos podem atormentar... Para neutralizar tudo isso, aconselho um remédio vindo lá do século XVII: Sermões de Vieira. Hoje e amanhã o Pedro Paulo Rangel está oferecendo uma leitura na ABL, às 12:30h. Grátis. Vamos lá?
Saturday, November 29, 2008
Liberdade
Em Maceió descubro o verdadeiro significado de liberdade. Imaginem o diálogo:
-- Onde você quer sua liberdade?
-- E liberdade tem lugar?
Isso denunciaria aos alagoanos minha identidade estrangeira, de grande desconhecedora dos caminhos da liberdade. Pois a liberdade aqui é uma linha, que se traça à direita ou à esquerda, ou até mesmo no centro. E não é uma linha imaginária que traçaríamos na cabeça, embora a liberdade aqui esteja na cabeça de todos. A liberdade se desenha com pente ou escova, reparte os cabelos, enfeita os penteados. Liberdade, liberdade.
Mas existe a outra Liberdade aqui em Alagoas, essa liberdade que se expressa nos céus azuis despejados, que aparece nos sorrisos abertos e nas vogais cantadas, que se desenha nos bordados singelos dos artesanatos. Uma liberdade de ser, de mostrar o que se é, de dizer o que se sente, de sentir sem preconceitos.
Maceió me encanta, com seu jeitinho de cidade simples, sem luxos. Com seus restaurantes japoneses que servem bolinhos de bacalhau, com as praias protegidas pelos arrecifes, que enlouquecem nas cores leitosas de azul e verde. Nos peixes que parecem flutuar no ar, de aolímpidas que são as águas; com suas lagoas múltiplas, que escurecem as noites e iluminam os dias. E como não mencionar a brisa, que sopra pontualmente todas as noites, refrescando os passeios e permitindo os amores?
Amanhã partirei, e desde já lamento. Como deixar esta terra de suavidades, se ainda nem conheci seu lado pétreo e firme, que faz a fibra das gentes?
Voltarei,Maceió. Com tempo para me banhar nestas águas macias, para caminhar sobre os caminhos de rochas, para me temperar no sol que seca e define.
-- Onde você quer sua liberdade?
-- E liberdade tem lugar?
Isso denunciaria aos alagoanos minha identidade estrangeira, de grande desconhecedora dos caminhos da liberdade. Pois a liberdade aqui é uma linha, que se traça à direita ou à esquerda, ou até mesmo no centro. E não é uma linha imaginária que traçaríamos na cabeça, embora a liberdade aqui esteja na cabeça de todos. A liberdade se desenha com pente ou escova, reparte os cabelos, enfeita os penteados. Liberdade, liberdade.
Mas existe a outra Liberdade aqui em Alagoas, essa liberdade que se expressa nos céus azuis despejados, que aparece nos sorrisos abertos e nas vogais cantadas, que se desenha nos bordados singelos dos artesanatos. Uma liberdade de ser, de mostrar o que se é, de dizer o que se sente, de sentir sem preconceitos.
Maceió me encanta, com seu jeitinho de cidade simples, sem luxos. Com seus restaurantes japoneses que servem bolinhos de bacalhau, com as praias protegidas pelos arrecifes, que enlouquecem nas cores leitosas de azul e verde. Nos peixes que parecem flutuar no ar, de aolímpidas que são as águas; com suas lagoas múltiplas, que escurecem as noites e iluminam os dias. E como não mencionar a brisa, que sopra pontualmente todas as noites, refrescando os passeios e permitindo os amores?
Amanhã partirei, e desde já lamento. Como deixar esta terra de suavidades, se ainda nem conheci seu lado pétreo e firme, que faz a fibra das gentes?
Voltarei,Maceió. Com tempo para me banhar nestas águas macias, para caminhar sobre os caminhos de rochas, para me temperar no sol que seca e define.
Monday, November 24, 2008
Matéria de novela
A vida, às vezes, não parece coisa corriqueira, e sim extraordinária, cheia de sentido e de mistérios. Vejam as peripécias que aconteceram comigo no sábado -- ia a uma mera festa de samba, um ensaio de escola, coisa distante porém já classificada como familiar quando me pus a conversar com uma moça, bonita, que acabava de se descobrir grávida.Minha noite de samba mudou-se em outra coisa, numa espécie de maravilhamento -- pois não era só estar grávida: aquela vida que se desenvolvia insuspeitada era o fruto de uma verdadeira odisséia. Uma criança que tinha sido abandonada ao nascer e que vingara, com pais carinhosos, longe da família de sangue e que agora lutava, com a mãe adotiva, pelo direito de ter o seu bebê. Um bebê que vai nascer, segundo a previsão dos médicos, no dia do aniversário da própria mãe que não apenas realiza sua maternidade como recupera os laços sanguíneos já que conseguiu descobrir o paradeiro da mãe de sangue e agora vai fazer um exame de DNA para descobrir o pai. Irmãos ela tem muitos -- dois da família adotiva, mais uns tantos da família da mãe e outros tantos da família do pai. Novela, parece novela, mas é vida. E mistério. Pois a história, com tantos reencontros, nos leva logo a descartar o acaso e a procurar o sentido de tudo isso. Passei a noite meio desligada, depois dessa conversa. Dancei, um pouco, mas nem conversei nem me alegrei em demasia, perdidos que ficaram meus pensamentos nestes caminhos. Coloco-me no lugar dessa moça, ansiando por saber, por conhecer, por entender. E imagino o que não representa esta gravidez, a espécie de vingança contra o destino, as propostas de amor, de devoção, de vínculos jamais partidos. Passei a noite e o dia seguinte rezando para que tudo dê certo, não só para a criança que vem como para a que está ainda guardada e temerosa no espírito dessa jovem. E que, como nas novelas, tudo acabe bem.
Saturday, November 22, 2008
divagações
Acordei, sem vontade.
Há muito tempo que sou assim, pontualmente sem vontade, abro os olhos e vejo que o mundo continua existindo, apesar de...
Isso não significa ...mas, não tenho que explicar nada. Só digo que acordei e fiquei na cama, com a TV ligada, vendo coisas bobas e belas. Notting Hill, um lugar que me lembra um passado de Beatles e de sonhos, e que, revisitado por dois bobões, se torna insípido, embora ainda agradável. Depois, uma obra prima, O Leopardo, e a cena final, de beleza absoluta, solidão pujente e extremo desânimo finalmente me fez ter vontade de sair da cama e recomeçar a rotina, embora sabendo que é preciso que tudo mude para que tudo continue a mesma coisa...
Melancolia, a bile negra que sorvi a pequenos goles cuidadosos junto com o café (acho que vou usar isso no romance, gostei da frase), me acompanhou nas lembranças da noite anterior, de festa e de amigos, gente que guardo com carinho entre os cacos de meu coração (não, essa não vou usar, it's corny, como diriam meus amigos gringos, com uma palavra muito mais simpática que cafona). Festas perigosas, essas, em que voltamos ao passado. Festas maravilhosas, essas, em que encontramos amigos de toda a vida. Saber que vivemos nas memórias de quem vive em nossas memórias é muito legal -- dá uma sensação de amparo, de aconchego. Tipo reunião de família, quando, embora com pouca vivência em comum, reconhecemos nosso DNA. Claro que ali não havia o DNA químico, mas sobrava o afetivo. A gente reconhece os gostos em comum, as lembranças e ditos, ri com piadas que podiam ter sido ditas por nós mesmos, abraça crianças que não são as nossas, mas que poderiam ser, pois as vimos nascer, antes mesmo de serem.
Um abraço, um sorriso, uma notícia, tudo isso nos faz sentir a felicidade do clã. Um rosto cansado, uma fala arrastada, uma cicatriz, tudo isso nos deixa apreensivos e medrosos do amanhã. Junto a tudo, a lembrança daqueles que já não estão. A falta que nos fazem. A partida prematura. Foi no meio desses pensamentos que me chegou o e-mail do mano André, avisando que tinha sido detonado no Idéias. Ora mano, seu resenhista reconhece o essencial -- seu talento. E, se ele não gosta do texto, das histórias, isso é gosto pessoal Não invalida o escrito.
Volto às minhas resenhas, que quero aprontar antes de partir para Maceió. Junto aos dois livrinhos (novos, não houve pulinho nem promessa que me resgatasse os dois volumes perdidos) me aguardam o livro do Galera e o do Amós Oz. Estou curtindo o Cordilheira, pois estou revisitando Buenos Aires através das páginas do Galera. Sei que vou adorar o do Oz, a quem devo, aliás, o título de Linha de sombra, tirado de uma das páginas de seu livro de memórias.
Então vou terminando por aqui, deixando registrado os parabéns para a Cecília, uma das mais maravilhosas mulheres que conheço. Me orgulho de ser sua amiga, de estar em sua lembrança e de ter feito parte da espetacular República das Tabajaras. Um espaço de crescimento e de alegria, que me formou.
Há muito tempo que sou assim, pontualmente sem vontade, abro os olhos e vejo que o mundo continua existindo, apesar de...
Isso não significa ...mas, não tenho que explicar nada. Só digo que acordei e fiquei na cama, com a TV ligada, vendo coisas bobas e belas. Notting Hill, um lugar que me lembra um passado de Beatles e de sonhos, e que, revisitado por dois bobões, se torna insípido, embora ainda agradável. Depois, uma obra prima, O Leopardo, e a cena final, de beleza absoluta, solidão pujente e extremo desânimo finalmente me fez ter vontade de sair da cama e recomeçar a rotina, embora sabendo que é preciso que tudo mude para que tudo continue a mesma coisa...
Melancolia, a bile negra que sorvi a pequenos goles cuidadosos junto com o café (acho que vou usar isso no romance, gostei da frase), me acompanhou nas lembranças da noite anterior, de festa e de amigos, gente que guardo com carinho entre os cacos de meu coração (não, essa não vou usar, it's corny, como diriam meus amigos gringos, com uma palavra muito mais simpática que cafona). Festas perigosas, essas, em que voltamos ao passado. Festas maravilhosas, essas, em que encontramos amigos de toda a vida. Saber que vivemos nas memórias de quem vive em nossas memórias é muito legal -- dá uma sensação de amparo, de aconchego. Tipo reunião de família, quando, embora com pouca vivência em comum, reconhecemos nosso DNA. Claro que ali não havia o DNA químico, mas sobrava o afetivo. A gente reconhece os gostos em comum, as lembranças e ditos, ri com piadas que podiam ter sido ditas por nós mesmos, abraça crianças que não são as nossas, mas que poderiam ser, pois as vimos nascer, antes mesmo de serem.
Um abraço, um sorriso, uma notícia, tudo isso nos faz sentir a felicidade do clã. Um rosto cansado, uma fala arrastada, uma cicatriz, tudo isso nos deixa apreensivos e medrosos do amanhã. Junto a tudo, a lembrança daqueles que já não estão. A falta que nos fazem. A partida prematura. Foi no meio desses pensamentos que me chegou o e-mail do mano André, avisando que tinha sido detonado no Idéias. Ora mano, seu resenhista reconhece o essencial -- seu talento. E, se ele não gosta do texto, das histórias, isso é gosto pessoal Não invalida o escrito.
Volto às minhas resenhas, que quero aprontar antes de partir para Maceió. Junto aos dois livrinhos (novos, não houve pulinho nem promessa que me resgatasse os dois volumes perdidos) me aguardam o livro do Galera e o do Amós Oz. Estou curtindo o Cordilheira, pois estou revisitando Buenos Aires através das páginas do Galera. Sei que vou adorar o do Oz, a quem devo, aliás, o título de Linha de sombra, tirado de uma das páginas de seu livro de memórias.
Então vou terminando por aqui, deixando registrado os parabéns para a Cecília, uma das mais maravilhosas mulheres que conheço. Me orgulho de ser sua amiga, de estar em sua lembrança e de ter feito parte da espetacular República das Tabajaras. Um espaço de crescimento e de alegria, que me formou.
Thursday, November 20, 2008
Meu livro
Feriado e consciência
Feriado, daqueles saborosos, que caem numa quinta e permitem vadiar até a próxima segunda, dia amanhecendo ensolarado, sem calor -- é coisa que não se pode desprezar. O problema é o título do feriado que inclui consciência e apela para a minha enraigada noção de dever. Droga! Tenho tanto trabalho, que não posso vadiar, nem um pouquinho, só o necessário para escrever algumas linhas aqui no blog, essa minha cachacinha gostosa, que tomo aos golinhos, saboreando a embriaguês. Gosto de vir aqui derramar os pensamentos, pois penso melhor por escrito. Acho que preciso do tempo gasto em escrever para sedimentar as idéias, permitir que elas se combinem entre si, se organizem e organizem meu mundo. Os trabalhos me aguardam e o dia da consciência (negra) me recomenda que volte a eles e esqueça a caminhada pela praia e a água de coco. Vou, então, fazer o que devo. Mas, em sinal de protesto, com roupa de ginástica e chapéu de palha na cabeça!
Tuesday, November 18, 2008
Arte e Literatura
De volta ao Rio, depois do temporal...
Em São Paulo, amigos e literatura e um pouco de arte... Começo pela pouca arte exposta na Bienal, que me lembrou a música dos tempos de criança: eu sou pobre, pobre, pobre, de marré, marré, marré... Um andar vazio -- inteiramente vazio --, onde saí valsando a bela adormecida, que cantarolei prá mim mesma até chegar ao tobogã, lá ao fundo do salão. Recebi as instruções necessárias, acomodei-me no "tapete" voador e mergulhei, veloz, um míssil em direção ao futuro, mesmo se o futuro distasse apenas um segundo. Cheguei e fui saudada por um coro de risos adolescentes, admirados de verem alguém tão distante no tempo, tão próxima no prazer e na coragem. Rimos todos, mas sem desprezos nem zombarias, de pura admiração uns pelos outros, nos assegurando que é possível rir em tempos de crise, de vazio e de estranheza. Recebi a chave da Bienal, depois de trapacear um pouquinho e oferecer em troca uma chave que não é de casa, mas é do coração. Vi fotos, assisti uns filmes divididos em três telas, pequenos documentários se eternizando em múltiplas telas de TV. Procurei os locais de diálogo, de silêncio e de monólogo. Olhei, com olhos indiferentes, outras manifestações que me pareceram tediosas. Depois fui visitar a aranha ali ao lado, no MAM. Mas, a coisa de que mais gostei na Bienal foi ter encontrado meu "livro", bem ali na entrada, antes mesmo do chaveiro. Meu livro desconstruído, as letras esparramadas pelo chão, amontoadas numa pilha onde tudo o que eu precisava fazer era ir recuperando sua ordem lógica. Era o meu livro e também o livro de cada um de nós. Livro que só nós podemos organizar, a partir do caos, o nada que é tudo, como Pessoa definiu o mito. E, já que estamos falando em mitos e em poetas, acho que este é o melhor momento para assinalar a presença do Dr. Mindlin no lançamento do André. Levado por um amigo e vizinho, ele enfrentou uma hora e meia de trânsito para chegar lá e conversar, com a delicadeza que lhe é habitual, com os convivas. A mim me informou que está relendo Proust, com ar de beatitude. Eu, que estou fazendo as resenhas dos livros que não voltei a encontrar e que tive que tornar a comprar, pensei que bastava olhar para a expressão de encantamento no rosto do Dr. Mindlin para descobrir porque ler (e reler) Borges e Dante. O Dr. Mindlin gosta que alguém leia poesia em voz alta para ele -- confissão já repetida muitas vezes por ele, em revistas e paralelos. Dr. Mindlin, que mais uma vez me convidou para visitar sua biblioteca de Babel... Irei, desta vez irei. Será meu presente de Natal a mim mesma...
André estava radiante com seu livro novo, com os amigos à volta, com a entrevista que tinha saído no Estadão. Nós conversamos, tomamos vinho, comemos amendoim japonês colorido e misturado a outras "loucuras", numa brincadeira com a palavra nut. Parecia que estávamos num stand da Record, mas estávamos sós, à deriva, encontrando um pouco de casas e viagens passadas, de notícias antigas, dessas coisas gratas ao coração. Fiquei conhecendo novas pessoas: Plus, encore! Encantadoras, solícitas, de corações grandes e conhecimentos imensos. Um verdadeiro Parnaso. E, já que o equivalente do Parnaso pode ser o céu, saímos da livraria e fomos homenagear o santo guerreiro -- São Jorge, padroeiro dos carnavais e das cervejas. Ele certamente rogou por nós já que além das biritas tivemos deliciosos petisos. Um bela noite. Viva, Dré, que os bons auspícios te acompanhem -- e não me desamparem!
Em São Paulo, amigos e literatura e um pouco de arte... Começo pela pouca arte exposta na Bienal, que me lembrou a música dos tempos de criança: eu sou pobre, pobre, pobre, de marré, marré, marré... Um andar vazio -- inteiramente vazio --, onde saí valsando a bela adormecida, que cantarolei prá mim mesma até chegar ao tobogã, lá ao fundo do salão. Recebi as instruções necessárias, acomodei-me no "tapete" voador e mergulhei, veloz, um míssil em direção ao futuro, mesmo se o futuro distasse apenas um segundo. Cheguei e fui saudada por um coro de risos adolescentes, admirados de verem alguém tão distante no tempo, tão próxima no prazer e na coragem. Rimos todos, mas sem desprezos nem zombarias, de pura admiração uns pelos outros, nos assegurando que é possível rir em tempos de crise, de vazio e de estranheza. Recebi a chave da Bienal, depois de trapacear um pouquinho e oferecer em troca uma chave que não é de casa, mas é do coração. Vi fotos, assisti uns filmes divididos em três telas, pequenos documentários se eternizando em múltiplas telas de TV. Procurei os locais de diálogo, de silêncio e de monólogo. Olhei, com olhos indiferentes, outras manifestações que me pareceram tediosas. Depois fui visitar a aranha ali ao lado, no MAM. Mas, a coisa de que mais gostei na Bienal foi ter encontrado meu "livro", bem ali na entrada, antes mesmo do chaveiro. Meu livro desconstruído, as letras esparramadas pelo chão, amontoadas numa pilha onde tudo o que eu precisava fazer era ir recuperando sua ordem lógica. Era o meu livro e também o livro de cada um de nós. Livro que só nós podemos organizar, a partir do caos, o nada que é tudo, como Pessoa definiu o mito. E, já que estamos falando em mitos e em poetas, acho que este é o melhor momento para assinalar a presença do Dr. Mindlin no lançamento do André. Levado por um amigo e vizinho, ele enfrentou uma hora e meia de trânsito para chegar lá e conversar, com a delicadeza que lhe é habitual, com os convivas. A mim me informou que está relendo Proust, com ar de beatitude. Eu, que estou fazendo as resenhas dos livros que não voltei a encontrar e que tive que tornar a comprar, pensei que bastava olhar para a expressão de encantamento no rosto do Dr. Mindlin para descobrir porque ler (e reler) Borges e Dante. O Dr. Mindlin gosta que alguém leia poesia em voz alta para ele -- confissão já repetida muitas vezes por ele, em revistas e paralelos. Dr. Mindlin, que mais uma vez me convidou para visitar sua biblioteca de Babel... Irei, desta vez irei. Será meu presente de Natal a mim mesma...
André estava radiante com seu livro novo, com os amigos à volta, com a entrevista que tinha saído no Estadão. Nós conversamos, tomamos vinho, comemos amendoim japonês colorido e misturado a outras "loucuras", numa brincadeira com a palavra nut. Parecia que estávamos num stand da Record, mas estávamos sós, à deriva, encontrando um pouco de casas e viagens passadas, de notícias antigas, dessas coisas gratas ao coração. Fiquei conhecendo novas pessoas: Plus, encore! Encantadoras, solícitas, de corações grandes e conhecimentos imensos. Um verdadeiro Parnaso. E, já que o equivalente do Parnaso pode ser o céu, saímos da livraria e fomos homenagear o santo guerreiro -- São Jorge, padroeiro dos carnavais e das cervejas. Ele certamente rogou por nós já que além das biritas tivemos deliciosos petisos. Um bela noite. Viva, Dré, que os bons auspícios te acompanhem -- e não me desamparem!
Monday, November 17, 2008
Sampa
Aqui estou eu, nesta minha Nova Iorque tupiniquim, me encantando com os recantos paulistas. SP é uma cidade que sempre me admira: nas leituras, a grande megalópolis. Ao vivo, a cidade que guarda a dimensão humana, que preserva casas e árvores, que tem vendedores com jeitinho de província -- uma mistura sempre renovada, sempre surpreendente. E esse ar de colcha de retalhos, com um pedacinho de seda oriental, outro de arraiolos, outro de mantilha espanhola, outro de algodão de jerusalém.. Cada bairro com seu sotaque diferente, suas memórias e códigos, seus perigos insuspeitados. Suas ladeiras, culminando na Paulista, seus vales e rios insubordinados, seu mar de carros impedindo a passagem embora se proponha a nos conduzir de uma zona a outra. Adoro SP, mesmo com o frio e a chuva que chegam sorrateiramente, depois de um dia de sol e calor, só para enganar a carioca desavisada.
Hoje é o lançamento do livro do André de Leones, e daqui a pouco estarei lá, na Livraria da Vila. Segunda feira fria e chuvosa, que vai se aquecer graças aos abraços amigos e se iluminar com o sorriso dos reencontros. Enquanto espero, leio, e converso, e telefono, e relembro.
Hoje é o lançamento do livro do André de Leones, e daqui a pouco estarei lá, na Livraria da Vila. Segunda feira fria e chuvosa, que vai se aquecer graças aos abraços amigos e se iluminar com o sorriso dos reencontros. Enquanto espero, leio, e converso, e telefono, e relembro.
Thursday, November 13, 2008
Ao pé da letra
Não me levem ao pé da letra, pois as coisas que escrevo aqui não correspondem a uma realidade "real", mas a uma realidade "percebida". Não sou deprimida, nem solitária, nem infeliz. O que não consigo é me conformar com a perda de um interlocutor privilegiado, com quem eu podia falar desde o preço do feijão até meu medo da crise, desde revista em quadrinho até Tolstói, e que, ainda por cima, fazia com que eu me sentisse mais bonita, mais inteligente, mais desenvolta com seus comentários. Tenho muitos amigos, e adoro todos eles. Mas preservo minha "solidão", pois, como disse a Virginia Woolf, é necessário ter um canto só seu para se poder escrever. Uma de minhas amigas (que são de todas as idades, e disso me orgulho muito) faz 9o anos em junho. Mora sozinha, não tem filhos, é viúva, mas dentre todas as pessoas que conheço é a que tem mais alegria de viver. Viaja todos os anos, mais de uma vez. Sempre tem programas, almoços, teatros, jogos de biriba. Às vezes ela viaja comigo, e, por uma ou outra razão, preciso sair sozinha para dar uma aula, por exemplo. Preocupo-me, convido-a para ir comigo, digo que não quero deixá-la sozinha e ela me responde: Mas eu sou ótima companhia para mim mesma! E é verdade. Ela lê, ela vê filmes, escuta música, telefona (isso eu não faço). Quando volto, ela está maravilhosamente bem, com mil coisas para falar à cerca daquilo que leu ou que viu ou que escutou. Quando estamos juntas, sempre rimos muito -- ela é engraçada, tem tiradas maravilhosas e é uma namoradeira. Seus olhos, brilhantes, estão sempre dançando pelos rostos masculinos, avaliando-os com o que eu julgo ser experiência de boa conhecedora. E ela é uma grande professora, está sempre me dando lições de vida, sem fazer sermões, só pelo exemplo e pelos comentários. Só ela mesmo para me animar a pegar o carro e atravessar a ponte na hora do rush para ir assistir um filme "imperdível" em Niterói. E quando lhe disse que eu adorava o passeio pela ponte, ela concordou entusiasmada, dizendo: Isso devia ser cobrado em dólar! Olhe para esse mar dos dois lados! Olhe para as montanhas! Só cobrando em dólar!
Vimos o filme, voltamos, jantamos, fizemos planos para a próxima saída e lá foi ela de táxi para a casa, pois estávamos ao lado de minha casa e ela não permitiu que a levasse. "Eu gosto de andar de táxi, e os motoristas gostam de dirigir", justificou-se ela. E eu fico por aqui, dizendo: Eu gosto de você, minha amiga, e sei o quanto devo a sua alegria e compaixão, que me ajudaram a atravessar os dias mais tenebrosos de minhas angústias.
Tenho, ou tive, outra amiga, que se foi cedo e deixou uma grande saudade. Era médica, e sabia que não tinha muito tempo, mas eu não acreditava, pois na época ainda pensávamos que éramos todos imortais. Ela saía comigo e ia olhando as árvores, bebendo aquelas imagens, com intensidade. Eu também sou grande admiradora de árvores e, quando estas estão floridas e ostentam suas cores vibrantes contra o céu, fico deslumbrada. Minha amiga, porém, tinha outra intenção -- a mim me parecia que ela queria guardar aquelas imagens, gravá-las, apropriar-se delas para levá-las a uma outra vida. Espero que ela e Guilherme estejam nesta outra realidade, ambos com suas provisões de imagens belas. Mira com as árvores, Gui com o por do sol sobre o mar. Eu ficarei feliz se, numa outra vida, tiver a visão dos rostos deles contemplando suas belezas prediletas.
Vimos o filme, voltamos, jantamos, fizemos planos para a próxima saída e lá foi ela de táxi para a casa, pois estávamos ao lado de minha casa e ela não permitiu que a levasse. "Eu gosto de andar de táxi, e os motoristas gostam de dirigir", justificou-se ela. E eu fico por aqui, dizendo: Eu gosto de você, minha amiga, e sei o quanto devo a sua alegria e compaixão, que me ajudaram a atravessar os dias mais tenebrosos de minhas angústias.
Tenho, ou tive, outra amiga, que se foi cedo e deixou uma grande saudade. Era médica, e sabia que não tinha muito tempo, mas eu não acreditava, pois na época ainda pensávamos que éramos todos imortais. Ela saía comigo e ia olhando as árvores, bebendo aquelas imagens, com intensidade. Eu também sou grande admiradora de árvores e, quando estas estão floridas e ostentam suas cores vibrantes contra o céu, fico deslumbrada. Minha amiga, porém, tinha outra intenção -- a mim me parecia que ela queria guardar aquelas imagens, gravá-las, apropriar-se delas para levá-las a uma outra vida. Espero que ela e Guilherme estejam nesta outra realidade, ambos com suas provisões de imagens belas. Mira com as árvores, Gui com o por do sol sobre o mar. Eu ficarei feliz se, numa outra vida, tiver a visão dos rostos deles contemplando suas belezas prediletas.
Tuesday, November 11, 2008
Maluca beleza
Se não existissem a internet e os blogs eu estaria fazendo parte de uma raça que já foi conhecida como "maluco beleza" -- andaria por aí, falando sozinha, pois converso aqui com o blog, já que não tenho com quem falar. Será que isso me faz mais sã do que aqueles mendigos vociferantes? Nos velhos tempos de Posto 6 havia um mendigo, que cheirava éter, a quem minha família me proibia de dar esmola, para ele não insistir no vício. Quando virei adolescente rebelde, o mendigo, que parecia eterno, continuava por ali e eu passei a lhe dar o pouco trocado que tinha, penalizada -- se todo o prazer que aquele homem tinha se concentrava num frasquinho de éter, porque eu não o ajudaria a obter? Sei lá, posso estar moralmente errada, mas eu não conseguiria transformar aquele ser num ser humano outra vez, com dignidade. Então lhe oferecia uma contribuição para o delírio, onde ele poderia ser o que quisesse, inclusive voltar a ser humano.
Agora aqui por perto há uma mendiga, muito mal-humorada, que vive vociferando pela esquina. De vez em quando ela some, depois volta, interpelando os passantes. Eu passo pouco pelas ruas, mas já cruzei com ela algumas vezes. Ela está sempre numa espécie de comício, gesticulando. Ninguém para e conversa com ela, mas já vi muitas pessoas pararem por perto e ficarem rindo dela. Talvez bastasse alguém para ouvi-la se queixar (de quê? não consigo entender o que ela diz quando passo apressada) e esta mulher pudesse voltar a ser alguém com outros sentimentos que não a mágoa e a revolta. Mas somos todos covardes, a começar por mim, que reclamo de não ter com quem falar, mas também não desejo ser interlocutora da mendiga.
Há muitos mendigos por aqui -- um rapaz que dorme pela calçada, até tarde, talvez sentindo-se mais protegido pela luz do dia. À noite deve vaguear assustado, e de manhã dorme, indiferente à luz e aos ruídos. Talvez tenha sido ele o rapaz que me cortou o coração, no dia em que o ouvi pedindo esmola a um senhor que passava, que deve lhe dar alguma coisa costumeiramente, pois ele dizia: não quero dinheiro, quero um agasalho. Até hoje, ao contar isso, meus olhos se enchem de lágrimas (que não derramo, ser racional e experimentado que sou). Tive vontade de ir comprar para ele casacos e suéteres, meias, sapato, o que ele precisasse para mitigar o frio. Mas não fiz nada disso. Continuei o meu caminho, e hoje me consolo pensando que, por mais que eu oferecesse roupas, o frio de que ele precisava se proteger era o da indiferença social. Como é que não cuidamos de nossos vizinhos? Quando deixamos de ser habitantes de aldeias, onde todos podem compartilhar o pão e o agasalho, e podem se sentar ao redor de uma fogueira e contar suas histórias, ouvir outras, com-viver?
Ao invés disso, aqui estamos, em frente de uma tela, seja de computador ou de TV, cada vez mais solitários, menos solidários, mais malucos e menos beleza.
Agora aqui por perto há uma mendiga, muito mal-humorada, que vive vociferando pela esquina. De vez em quando ela some, depois volta, interpelando os passantes. Eu passo pouco pelas ruas, mas já cruzei com ela algumas vezes. Ela está sempre numa espécie de comício, gesticulando. Ninguém para e conversa com ela, mas já vi muitas pessoas pararem por perto e ficarem rindo dela. Talvez bastasse alguém para ouvi-la se queixar (de quê? não consigo entender o que ela diz quando passo apressada) e esta mulher pudesse voltar a ser alguém com outros sentimentos que não a mágoa e a revolta. Mas somos todos covardes, a começar por mim, que reclamo de não ter com quem falar, mas também não desejo ser interlocutora da mendiga.
Há muitos mendigos por aqui -- um rapaz que dorme pela calçada, até tarde, talvez sentindo-se mais protegido pela luz do dia. À noite deve vaguear assustado, e de manhã dorme, indiferente à luz e aos ruídos. Talvez tenha sido ele o rapaz que me cortou o coração, no dia em que o ouvi pedindo esmola a um senhor que passava, que deve lhe dar alguma coisa costumeiramente, pois ele dizia: não quero dinheiro, quero um agasalho. Até hoje, ao contar isso, meus olhos se enchem de lágrimas (que não derramo, ser racional e experimentado que sou). Tive vontade de ir comprar para ele casacos e suéteres, meias, sapato, o que ele precisasse para mitigar o frio. Mas não fiz nada disso. Continuei o meu caminho, e hoje me consolo pensando que, por mais que eu oferecesse roupas, o frio de que ele precisava se proteger era o da indiferença social. Como é que não cuidamos de nossos vizinhos? Quando deixamos de ser habitantes de aldeias, onde todos podem compartilhar o pão e o agasalho, e podem se sentar ao redor de uma fogueira e contar suas histórias, ouvir outras, com-viver?
Ao invés disso, aqui estamos, em frente de uma tela, seja de computador ou de TV, cada vez mais solitários, menos solidários, mais malucos e menos beleza.
Sunday, November 09, 2008
idade e irrealidade
Muita gente se esquece que o tempo é uma invenção -- e convenção -- humana. Essa coisa de horas, minutos, segundos que se acumulam em semanas e em anos, séculos e milênios, é tudo fruto de nossa cabeça, de nosso desejo de ordenação. Mas existir mesmo, só existem manhãs, tardes e noites, que se sucedem apenas graças ao passeio da terra em torno do sol. Um besouro em volta da chama de uma vela, esse nosso planeta.
Vejam só as horas -- dividimos o globo terrestre em fatias horárias, numa espécie de aberração -- se duas pessoas estão se beijando, sobre a linha fronteiriça de um dos fusos horários, porque um estará beijando às onze e outro ao meio-dia?
Essa questão de idade também é bem convencional. Algumas pessoas têm corpo jovem e espírito velho, cheirando à naftalina. Outras têm espírito quase infantil, imaturo, e vivem em corpos decadentes, como uma casa em ruínas. A gente tenta ir equilibrando desgaste (ou amadurecimento) mental e físico, do mesmo jeito que, no café da manhã, vamos tentando fazer nosso pão com manteiga acabar junto da xícara de café.
Mas o que me horrorizou na questão de maridos e mangas, é a transformação de gente em acessório. Eu tive um marido, com apenas mais quatro anos que eu, e nunca pensei nele como um par de sapatos. E tenho a certeza de que ele nunca pensou em mim como um carro do ano. Reajam, maridos em potencial -- Se uma mulher de mais de 38 se achegar, tentando fazer que algum de vocês se adapte a um modelo Casas Bahia ou Ferragamo, resista! Não se deixe consumir. E isso vale para as mulheres também. Se algum homem quiser que você seja modelo e manequim, ou mãe de família, fuja dele! Sejam vocês mesmos, múltiplos, individuais, surpreendentes -- seres vivos e vibrantes. Mas cheios de amor, interessados no outro, e não apenas no próprio umbigo!
Vejam só as horas -- dividimos o globo terrestre em fatias horárias, numa espécie de aberração -- se duas pessoas estão se beijando, sobre a linha fronteiriça de um dos fusos horários, porque um estará beijando às onze e outro ao meio-dia?
Essa questão de idade também é bem convencional. Algumas pessoas têm corpo jovem e espírito velho, cheirando à naftalina. Outras têm espírito quase infantil, imaturo, e vivem em corpos decadentes, como uma casa em ruínas. A gente tenta ir equilibrando desgaste (ou amadurecimento) mental e físico, do mesmo jeito que, no café da manhã, vamos tentando fazer nosso pão com manteiga acabar junto da xícara de café.
Mas o que me horrorizou na questão de maridos e mangas, é a transformação de gente em acessório. Eu tive um marido, com apenas mais quatro anos que eu, e nunca pensei nele como um par de sapatos. E tenho a certeza de que ele nunca pensou em mim como um carro do ano. Reajam, maridos em potencial -- Se uma mulher de mais de 38 se achegar, tentando fazer que algum de vocês se adapte a um modelo Casas Bahia ou Ferragamo, resista! Não se deixe consumir. E isso vale para as mulheres também. Se algum homem quiser que você seja modelo e manequim, ou mãe de família, fuja dele! Sejam vocês mesmos, múltiplos, individuais, surpreendentes -- seres vivos e vibrantes. Mas cheios de amor, interessados no outro, e não apenas no próprio umbigo!
Da vida dos objetos inanimados
Quando era pequena, certas histórias me fascinavam -- a revolta dos brinquedos, por exemplo. Adorava estas possibilidades mágicas, de que, quando não observados, os objetos pudessem existir de uma maneira independente, e que se movimentassem, pensassem, interagissem, assim como nós. Com o tempo, e a invenção das câmaras de vigilância, essa minha crença se desfez. Somente alguns objetos parecem ainda conservar seus poderes, pelo menos aqui em casa: livros e facas.
Qual será o mistério desses seres?
Alguns me abandonam para sempre -- livros que estou procurando há mais de ano, e que ou foram emprestados e não devolvidos, ou sumiram graças a alguma arrumação apressada, motivada por absoluta falta de espaço em cima das poltronas ou de minha própria cama. Sim, durmo com livros, numa licenciosidade absoluta. Quantos autores e autoras já não passaram pela minha cama? Perdi a conta. Alguns dormiram o sono de pedra dos jamais abertos... poucos. Geralmente convido aqueles de que mais gosto.
Quando estou doente -- coisa rara, minhas mazelas são do espírito, não do corpo -- eles se reúnem no meu leito, como médicos numa junta. Ora um me sussurra um pensamento, ora outro me faz rir com uma piada, outro, ainda, me rapta e me faz esquecer a dor, ou a febre, ou seja lá o que for, e me leva para paraísos perdidos, ou tenebrosos esconderijos. E converso com as personagens que se acomodam a meu lado, sem precisar dizer palavra, apenas através dos pensamentos, rápidos, instantâneos, quase incompreensíveis.
Mas, no mundo acordado, os livros me pregam peças. Começo a ler um livro, e, se porventura preciso parar, alguns, mais dóceis, me aguardam com o marcador porto no lugar, sem protesto. Outros, voluntariosos, se encantam e somem. E lá fico eu, procurando-os por dias e meses a fio, até que, apaziguados, eles se mostram outra vez, e se deixam terminar de ler. Um dos livros que tem brincado de esconder comigo é Memórias de la niña mala, do Vargas Llosa. Comprei-o em espanhol, antes de sair aqui no Brasil, e comecei a ler lá mesmo na Argentina. Depois, volúvel, comecei a leitura de outro, e o livro, suscetível, até hoje ainda não se deixou ler: de vez em quando o encontro, mas ele volta a se esconder com habilidade de espião.
Agora estou a procura dos dois Por que ler -- Dante e Borges. Tenho que resenhá-los e os marotos não se deixam encontrar. Por favor, apareçam. Não sei se se assustaram com a inundação aqui em casa, no mês passado, o fato é que já olhei por toda a parte e os danadinhos não apareceram. Também não vi o do Vargas Llosa. Quem sabe estão compartilhando o esconderijo?
Lá vou eu, mais uma vez, em seu encalço.
Qual será o mistério desses seres?
Alguns me abandonam para sempre -- livros que estou procurando há mais de ano, e que ou foram emprestados e não devolvidos, ou sumiram graças a alguma arrumação apressada, motivada por absoluta falta de espaço em cima das poltronas ou de minha própria cama. Sim, durmo com livros, numa licenciosidade absoluta. Quantos autores e autoras já não passaram pela minha cama? Perdi a conta. Alguns dormiram o sono de pedra dos jamais abertos... poucos. Geralmente convido aqueles de que mais gosto.
Quando estou doente -- coisa rara, minhas mazelas são do espírito, não do corpo -- eles se reúnem no meu leito, como médicos numa junta. Ora um me sussurra um pensamento, ora outro me faz rir com uma piada, outro, ainda, me rapta e me faz esquecer a dor, ou a febre, ou seja lá o que for, e me leva para paraísos perdidos, ou tenebrosos esconderijos. E converso com as personagens que se acomodam a meu lado, sem precisar dizer palavra, apenas através dos pensamentos, rápidos, instantâneos, quase incompreensíveis.
Mas, no mundo acordado, os livros me pregam peças. Começo a ler um livro, e, se porventura preciso parar, alguns, mais dóceis, me aguardam com o marcador porto no lugar, sem protesto. Outros, voluntariosos, se encantam e somem. E lá fico eu, procurando-os por dias e meses a fio, até que, apaziguados, eles se mostram outra vez, e se deixam terminar de ler. Um dos livros que tem brincado de esconder comigo é Memórias de la niña mala, do Vargas Llosa. Comprei-o em espanhol, antes de sair aqui no Brasil, e comecei a ler lá mesmo na Argentina. Depois, volúvel, comecei a leitura de outro, e o livro, suscetível, até hoje ainda não se deixou ler: de vez em quando o encontro, mas ele volta a se esconder com habilidade de espião.
Agora estou a procura dos dois Por que ler -- Dante e Borges. Tenho que resenhá-los e os marotos não se deixam encontrar. Por favor, apareçam. Não sei se se assustaram com a inundação aqui em casa, no mês passado, o fato é que já olhei por toda a parte e os danadinhos não apareceram. Também não vi o do Vargas Llosa. Quem sabe estão compartilhando o esconderijo?
Lá vou eu, mais uma vez, em seu encalço.
Saturday, November 08, 2008
Você pensa que marido é manga....
Deu no jornal, hoje: depois dos 38 toda mulher tem que ter um marido e um vestido com manga.
A princípio eu achei que tinha entendido mal. Reli o trecho do Caderno Ela e confirmei. Pobres homens. Viraram item de consumo... Imagine a festa de aniversário da perua, as amigas fazendo uma vaquinha para comprar ... um vestido de manga, óbvio, que nenhuma ia ser tola de comprar um marido para outra. Imagine, os maridos estão tão escassos, há notícia de gente que está na fila para comprar um modelo Louis Vuitton, no mínimo seis meses de espera. Dizem que em NY estão vendendo uns maridos fake, made in China, mas que dão muito defeito nas partes essenciais. Bem, eu já passei dos 38, já tenho um vestido de manga, agora me falta um marido. Mas será que qualquer modelo serve? Será que a gente tem que ficar trocando, igual computador? Modelo 6.0, modelo 4.5, modelo 3.7? O vestido de manga vem explicado, não serve manga sino. Mas o que será manga sino? Com marido e sem sino, isso só pode querer dizer uma coisa: a mulher, depois dos 38, não pode mais badalar...Será?
Vou passar um fim de semana cheio de questões para resolver. Ainda mais depois que fui assistir ao novo filme do Woody Allen - Vicky Christina Barcelona - Imperdível. Só mesmo o Woody Allen para ter coragem de fazer um filme quase que todo narrado. Escandaloso! E, na minha opinião, adorável. E a fábula mais que humana que ele conta, essa nossa impossibilidade de nos contentarmos com o amor, é fantástica. E moderna, engraçada e muito louca. Mas, se quiserem saber o que achei melhor de tudo no filme, foi o "pai", o fabuloso poeta que nunca escreveu nada para não macular as palavras... Que idéia! Outra coisa, que cenários! e que elenco! Woody Allen, agora que estou com mais de 38, quem sabe você quer casar comigo? -- Suspeito, porém, que em alguma revista masculina, tenha sido decretado que todo homem, com mais de 50 anos, deve ter uma mulher de 22, e uma camiseta sem manga....
A princípio eu achei que tinha entendido mal. Reli o trecho do Caderno Ela e confirmei. Pobres homens. Viraram item de consumo... Imagine a festa de aniversário da perua, as amigas fazendo uma vaquinha para comprar ... um vestido de manga, óbvio, que nenhuma ia ser tola de comprar um marido para outra. Imagine, os maridos estão tão escassos, há notícia de gente que está na fila para comprar um modelo Louis Vuitton, no mínimo seis meses de espera. Dizem que em NY estão vendendo uns maridos fake, made in China, mas que dão muito defeito nas partes essenciais. Bem, eu já passei dos 38, já tenho um vestido de manga, agora me falta um marido. Mas será que qualquer modelo serve? Será que a gente tem que ficar trocando, igual computador? Modelo 6.0, modelo 4.5, modelo 3.7? O vestido de manga vem explicado, não serve manga sino. Mas o que será manga sino? Com marido e sem sino, isso só pode querer dizer uma coisa: a mulher, depois dos 38, não pode mais badalar...Será?
Vou passar um fim de semana cheio de questões para resolver. Ainda mais depois que fui assistir ao novo filme do Woody Allen - Vicky Christina Barcelona - Imperdível. Só mesmo o Woody Allen para ter coragem de fazer um filme quase que todo narrado. Escandaloso! E, na minha opinião, adorável. E a fábula mais que humana que ele conta, essa nossa impossibilidade de nos contentarmos com o amor, é fantástica. E moderna, engraçada e muito louca. Mas, se quiserem saber o que achei melhor de tudo no filme, foi o "pai", o fabuloso poeta que nunca escreveu nada para não macular as palavras... Que idéia! Outra coisa, que cenários! e que elenco! Woody Allen, agora que estou com mais de 38, quem sabe você quer casar comigo? -- Suspeito, porém, que em alguma revista masculina, tenha sido decretado que todo homem, com mais de 50 anos, deve ter uma mulher de 22, e uma camiseta sem manga....
Thursday, November 06, 2008
Realidade paralela
Hoje fui ao cabeleireiro -- programa que faço com alguma parcimônia, mas com constância suficiente para que me recebam bem e me ofereçam cafezinho e revista. Geralmente aceito o café e passo a revista, mas, desta vez, fiz o contrário. E me vi com uma revista no colo, com fotos de gente que nunca vi e de outras que já vi, mas que não reconheceria se não fossem as legendas. As manchetes eram .... como direi? ... irrelevantes. Lázaro e Thais juntos outra vez. Ah, bom. Não quis saber onde, pois já olhava para uma foto desfocada de Luana beijando o ex-da Ivete. Huumm. Depois o pessoal se espanta com as epidemias. Aparentemente o carinha sortudo já andou beijando meio mundo. Me fez lembrar de um sujeito -- hoje fora das manchetes -- que serviu de pai para quase todos os bebês de atrizes de TV. Esqueci o nome dele. Mas foi pai de filho da Elba Ramalho e depois foi sendo descartado e reaproveitado por umas e outras até que, finalmente, foi esquecido. Ah, outro candidato a pai geral é o Fábio Jr. Mas, coitado, numa entressafra, ele encontrou o cirurgião plástico do Michael Jackson -- os dois estão com a mesma cara, ou deveria dizer máscara?
Mas o que mais me espantou na dita revista foi a reportagem de várias páginas com Susana Vieira na Bienal. Pensei que eu é que estava com o surto psicótico de nossa mais nova autora de sucesso, Adriana Calcanhoto, mas era verdade. Lá estava ela pousando, com as pernas abertas e braços na cintura, enfrentando resoluta uma parede cheia de obras de arte. Susana, a crítica de arte -- extraordinário! Devo estar vivendo numa das realidades paralelas de que fala o Paul Auster, citando Giordano Bruno. Como é que vim parar aqui? Acho que a culpa é minha, por falar muito no celular...
De volta a casa, folheio o maravilhoso Sermão de Quarta-Feira de Cinza, pregado por Vieira no ano de 1672: Memento homo quia pulvis es, et in pulverem reverteris... És pó, e ao pó retornarás. Mas acho que os editores da revista andam abusando desse pó....
Mas o que mais me espantou na dita revista foi a reportagem de várias páginas com Susana Vieira na Bienal. Pensei que eu é que estava com o surto psicótico de nossa mais nova autora de sucesso, Adriana Calcanhoto, mas era verdade. Lá estava ela pousando, com as pernas abertas e braços na cintura, enfrentando resoluta uma parede cheia de obras de arte. Susana, a crítica de arte -- extraordinário! Devo estar vivendo numa das realidades paralelas de que fala o Paul Auster, citando Giordano Bruno. Como é que vim parar aqui? Acho que a culpa é minha, por falar muito no celular...
De volta a casa, folheio o maravilhoso Sermão de Quarta-Feira de Cinza, pregado por Vieira no ano de 1672: Memento homo quia pulvis es, et in pulverem reverteris... És pó, e ao pó retornarás. Mas acho que os editores da revista andam abusando desse pó....
Wednesday, November 05, 2008
Era de aquário, peixes ou áries?
Procurando um título para meu post de hoje, me lembrei do filme falando sobre os anos 60, quando todos nós sonhávamos com Paz e Amor. Os cariocas elegeram Paes no Rio (infame trocadilho), teriam os americanos eleito Amor nos EUA? Alguma forma de amor, sem dúvida, de alguém que se diz construtor de pontes entre as diferenças, ele mesmo um traço de união entre um negro e uma branca, entre um estrangeiro e uma cidadã, entre o desejo e a realidade. Assisti ao seu discurso de vitória -- um belo discurso, inspirador, sem muita demagogia, lembrando dos limites rompidos. Discurso de um bom escritor. Pensei em como o mundo vem suplicando por mudanças: as eleições de Lula, Chavez, Morales e Obama são sintomáticas -- ninguém quer mais do mesmo, todos estão apostando suas fichas na mudança. E, com isso, ninguém se preocupa muito com programas de governo, com propostas realistas -- o que se deseja é o ideal, às favas com o real que está nos levando à destruição. E querem as mudanças já, para ontem. Querem o símbolo e a velocidade. Querem a juventude para frear a caducidade deste nosso fim de império. Me comparei à velhinha emblemática citada por Obama -- quantas coisas ela presenciou -- quantas coisas eu presenciei... Costumo brincar com meus alunos que pertenço à pré-história da humanidade, pois durante minha vida, passei de telefone fixo e sempre mudo a celulares inoportunos; de mapas a GPS; de raio X a raio laser... Homem na Lua, Muro de Berlim, Glasnost, nada disso me é estranho. Vi o herói de Marlboro virar vítima do câncer, o coquetel de Martini se transformar em coquetel anti-aids. Meninos, eu vi -- já dizia o poema.
Esperançosa por profissão (afinal, sou brasileira), assisto essa nova era se aproximando. Ainda dá tempo? Deve dar. E tudo vai dar certo, no final. Porque -- quem se lembra? -- já nos ameaçaram com tudo, de bomba H, bomba de nêutrons, à "maré vermelha"; agora é o aquecimento global, o fim do capitalismo, essas coisas. Os filósofos nos falam da modernidade líquida -- mudanças, fluidez, insegurança -- mas eu digo que sempre fui fã do caminho das águas. Confrontada com um obstáculo, a água se desvia, procura, encontra uma passagem. Passemos, então, da era de aquário para a era de peixes -- aprendamos a nadar livres, sem as barreiras impostas pelo vidro. Mas que a era de áries não chegue já -- que os cabeças duras se afastem! Que de áries só nos cheguem os carneiros, com sua maciez e aconchego.
Esperançosa por profissão (afinal, sou brasileira), assisto essa nova era se aproximando. Ainda dá tempo? Deve dar. E tudo vai dar certo, no final. Porque -- quem se lembra? -- já nos ameaçaram com tudo, de bomba H, bomba de nêutrons, à "maré vermelha"; agora é o aquecimento global, o fim do capitalismo, essas coisas. Os filósofos nos falam da modernidade líquida -- mudanças, fluidez, insegurança -- mas eu digo que sempre fui fã do caminho das águas. Confrontada com um obstáculo, a água se desvia, procura, encontra uma passagem. Passemos, então, da era de aquário para a era de peixes -- aprendamos a nadar livres, sem as barreiras impostas pelo vidro. Mas que a era de áries não chegue já -- que os cabeças duras se afastem! Que de áries só nos cheguem os carneiros, com sua maciez e aconchego.
Tuesday, November 04, 2008
Mais filmes
Bem, depois de um longo jejum de filmes, agora parece que estou indo sempre. Hoje recebi um convite irresistível -- lá fui eu levar alguém muito especial para ver High School Musical 3. Confesso que gostei: adoro musicais, mesmo os ruinzinhos. E este não é mau. Consegui até me divertir, tentando adivinhar para qual universidade o Troy ia. Me decepcionei, mas devia ter percebido, desde o início, que ele era too sweet para não ficar em cima do muro. Boboca. Principalmente porque a Gabriela, depois que obtiver seu diploma de advogada, não vai querer mais nada com ele. Aliás, só ele não percebeu que está em segundo plano na vida dela. Mas, pensando bem, talvez ela também esteja em segundo plano e o negócio dele seja com o Chad... Bem, chega de falar nesse filme. Só mais uma coisa: o que são aquelas onipresentes xícaras de chá que distinguem a diretora, a compositora e o coreógrafo? A seita do santo daime? Um sinal secreto para os olheiros da Julliard? Puro ridículo?
Guido, chéri! Estava com saudades. Quer dizer que você acha impossível gostar de Kombi? É, elas são mesmo desconfortáveis, mas eu passei momentos muito emocionantes em Kombis -- quando estava estudando, minha "condução" era uma Kombi que quase nos matou a todas de susto graças ao seu motorista, o Cícero, que dirigia de lado, à toda velocidade. Cada ida ou volta do colégio era mais emocionante que bungee jumping. É um milagre que tenhamos sobrevivido!
Guido, chéri! Estava com saudades. Quer dizer que você acha impossível gostar de Kombi? É, elas são mesmo desconfortáveis, mas eu passei momentos muito emocionantes em Kombis -- quando estava estudando, minha "condução" era uma Kombi que quase nos matou a todas de susto graças ao seu motorista, o Cícero, que dirigia de lado, à toda velocidade. Cada ida ou volta do colégio era mais emocionante que bungee jumping. É um milagre que tenhamos sobrevivido!
Sunday, November 02, 2008
Vejam como são as coisas...
Fui ao cinema, hoje, assim por impulso, para desanuviar a decepção que o Hamilton me provocou. O Massa me comoveu com suas lágrimas, e, por alguns instantes, odiei o Hamilton, pela sua sorte. Depois, não, ele também se esforçou para chegar até onde estava. Mereceu, mas não festejo por ele. Celebro a vitória do Massa, e espero que a Ferrari não o desaponte na próxima temporada. Daí que fui ao cinema e vi um filme divertido. Mas já me esqueci do título -- alguma coisa com meu irmão e a namorada dele. O ator tinha trabalhado no Pequena Miss Sunshine, fez o papel do Proust Scholar e meus filhos zombaram de mim, na época, pois pouco antes de assistirmos o filme, eu tinha brigado -- na brincadeira -- com eles, e dito que ia vender meu carro e comprar uma Kombi velha. Eles viram o filme e eu, logicamente, tive que escutar as piadinhas sobre minhas preferências por Proust e Kombis... Desta vez, era o filme que ia começar quando chegamos ao cinema. Não sabia de nada sobre ele, mas mal o filme começou, tive que escutar um "outra vez? parece você, né?" E tive que concordar: O ex-Proust scholar, dessa vez um escritor viúvo, acorda numa cama compartilhada por livros, como a minha. Exatamente a mesma coisa. Mas não tenho irmãs, as semelhanças param por aí.
Ao chegar em casa, percebi que havia um recado na minha secretária. Era de uma amiga, que me ligou na sexta, ou talvez na quinta, essa secretária que tenho não me diz a ocasião da ligação. Ela falava de irmos almoçar no sábado... Fiquei devastada -- passo os fins de semana sozinha, nunca tenho programa, e desperdicei uma chance de estar com uma pessoa querida! Quando será que vou aprender a verificar minhas mensagens? Quando será que vou aprender a viver? Eu teria gostado de sair com ela, mas também não fiquei aborrecida nem chateada em casa. Às vezes, no fim da noite, me sinto meio sozinha, após passar um dia inteiro sem falar com ninguém, nem sair de casa. Só que, geralmente, passei o dia lendo, ou escrevendo, e não me senti solitária.
Bem, pensei em ligar para ela para me desculpar, mas já é muito tarde. Amanhã me desculpo. Termino só contando que comecei bem o dia: Na TV Senado, o Maurício Albuquerque fez um comentário sobre meu Linha de sombra, falando que uso o "desejo, o lirismo e a violência"para ler a realidade de nossos dias, ou algo assim. Fiquei impressionada comigo mesma. No computador, havia um aviso dizendo que meu conto No divã, com Freud, tinha sido publicado numa revista virtual chamada Balaio de Notícias -- a revista é linda, vale conferir. E eu escrevi um pouco mais, avançando no romance. Espero que fique bom. Por enquanto acho que estou indo. São poucas as páginas, umas 20, ou pouco mais. Mas estou gostando delas.
Ao chegar em casa, percebi que havia um recado na minha secretária. Era de uma amiga, que me ligou na sexta, ou talvez na quinta, essa secretária que tenho não me diz a ocasião da ligação. Ela falava de irmos almoçar no sábado... Fiquei devastada -- passo os fins de semana sozinha, nunca tenho programa, e desperdicei uma chance de estar com uma pessoa querida! Quando será que vou aprender a verificar minhas mensagens? Quando será que vou aprender a viver? Eu teria gostado de sair com ela, mas também não fiquei aborrecida nem chateada em casa. Às vezes, no fim da noite, me sinto meio sozinha, após passar um dia inteiro sem falar com ninguém, nem sair de casa. Só que, geralmente, passei o dia lendo, ou escrevendo, e não me senti solitária.
Bem, pensei em ligar para ela para me desculpar, mas já é muito tarde. Amanhã me desculpo. Termino só contando que comecei bem o dia: Na TV Senado, o Maurício Albuquerque fez um comentário sobre meu Linha de sombra, falando que uso o "desejo, o lirismo e a violência"para ler a realidade de nossos dias, ou algo assim. Fiquei impressionada comigo mesma. No computador, havia um aviso dizendo que meu conto No divã, com Freud, tinha sido publicado numa revista virtual chamada Balaio de Notícias -- a revista é linda, vale conferir. E eu escrevi um pouco mais, avançando no romance. Espero que fique bom. Por enquanto acho que estou indo. São poucas as páginas, umas 20, ou pouco mais. Mas estou gostando delas.
Saturday, November 01, 2008
Conversas passadas...
Estava agora mesmo trocando e-mails com um amigo de muito tempo atrás. Sentávamos os dois na última fila, e conversávamos sobre poesia, que ambos amávamos. Ele se tornou poeta, respeitadíssimo. Nós éramos muito amigos, nos falávamos todos os dias e com aquele ardor fácil da juventude: nós admirávamos as mesmas coisas e compartilhávamos nossas descobertas, sem tentar suplantar ninguém, sem segundas intenções, apenas maravilhados com o mundo, que nos parecia ainda mais belo através das palavras dos outros. Ele me apresentou os versos de João Cabral, mas na época eu me derretia com Neruda. Depois passou, mas tive uma recaída recente, por ocasião de minha viagem ao Chile. Lá fui eu visitar a casa do poeta. A de Santiago estava fechada, tive que ir a Valparaíso para ver La Chascona -- gostei. Gostei mais ainda porque o motorista que nos levou ficou contando uma piada (que deve ser bem gasta) falando sobre os problemas amorosos de Neruda graças aos versos que ele repetia a todas as namoradas, e que começavam por algo do tipo: gosto quando ficas calada -- todas elas protestavam antes de chegar ao fim, a única que se manteve calada até o fim do poema (que, aliás, é muito lindo) foi com quem ele se casou.
Acontece que estava viajando na companhia de uma amiga dos tempos de faculdade, outra apaixonada por literatura. E, como tinha que trabalhar, estava levando meu computador. Resultado, no meio da noite, já em outra cidade, lá fomos nós googlar Neruda, para ler o poema referido na piada na íntegra (nós já não lembrávamos e o motorista não sabia). Lemos, gostamos, e daí passamos a noite lembrando de poemas de que gostávamos e googlando os versos, para lermos em voz alta. Esse é mais um exemplo desse prazer desinteressado que a literatura nos traz, quando a gente fala e cita pela pura alegria de compartilhar belezas. Ninguém menciona um autor porque é "da moda", ninguém está preocupado em demonstrar que conhece mais que o outro -- o que a gente quer é que o outro sinta o mesmo arrepio descrito por Hemingway (ele dizia que sabia quando o texto era bom porque os cabelos de seu braço se arrepiavam) Infelizmente a gente vai perdendo isso. Na vida acadêmica ficamos mais preocupados com o "sucesso", com o "prestígio", com a "relevância" que com aquilo que realmente nos atraiu em primeiro lugar: o texto.
Então, para que a gente desfrute, aqui vai o poema, que aparece no google recitado na própria voz do Neruda (mas eu não gosto do jeito lento e arrastado como ele lê os próprios poemas) Me gustas cuando callas e Poema XX
Leiam vocês mesmos nas transcrições abaixo:
Me gustas cuando callas
Acontece que estava viajando na companhia de uma amiga dos tempos de faculdade, outra apaixonada por literatura. E, como tinha que trabalhar, estava levando meu computador. Resultado, no meio da noite, já em outra cidade, lá fomos nós googlar Neruda, para ler o poema referido na piada na íntegra (nós já não lembrávamos e o motorista não sabia). Lemos, gostamos, e daí passamos a noite lembrando de poemas de que gostávamos e googlando os versos, para lermos em voz alta. Esse é mais um exemplo desse prazer desinteressado que a literatura nos traz, quando a gente fala e cita pela pura alegria de compartilhar belezas. Ninguém menciona um autor porque é "da moda", ninguém está preocupado em demonstrar que conhece mais que o outro -- o que a gente quer é que o outro sinta o mesmo arrepio descrito por Hemingway (ele dizia que sabia quando o texto era bom porque os cabelos de seu braço se arrepiavam) Infelizmente a gente vai perdendo isso. Na vida acadêmica ficamos mais preocupados com o "sucesso", com o "prestígio", com a "relevância" que com aquilo que realmente nos atraiu em primeiro lugar: o texto.
Então, para que a gente desfrute, aqui vai o poema, que aparece no google recitado na própria voz do Neruda (mas eu não gosto do jeito lento e arrastado como ele lê os próprios poemas) Me gustas cuando callas e Poema XX
Leiam vocês mesmos nas transcrições abaixo:
Me gustas cuando callas
Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.
.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
¡Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos!
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
¡Qué importa que mi amor no pudiera guardarla!
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Yo no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise..
Mi voz buscaba al viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.
.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
POEMA XX
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos."
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
¡Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos!
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
¡Qué importa que mi amor no pudiera guardarla!
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Yo no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise..
Mi voz buscaba al viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
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