Monday, November 24, 2008
Matéria de novela
A vida, às vezes, não parece coisa corriqueira, e sim extraordinária, cheia de sentido e de mistérios. Vejam as peripécias que aconteceram comigo no sábado -- ia a uma mera festa de samba, um ensaio de escola, coisa distante porém já classificada como familiar quando me pus a conversar com uma moça, bonita, que acabava de se descobrir grávida.Minha noite de samba mudou-se em outra coisa, numa espécie de maravilhamento -- pois não era só estar grávida: aquela vida que se desenvolvia insuspeitada era o fruto de uma verdadeira odisséia. Uma criança que tinha sido abandonada ao nascer e que vingara, com pais carinhosos, longe da família de sangue e que agora lutava, com a mãe adotiva, pelo direito de ter o seu bebê. Um bebê que vai nascer, segundo a previsão dos médicos, no dia do aniversário da própria mãe que não apenas realiza sua maternidade como recupera os laços sanguíneos já que conseguiu descobrir o paradeiro da mãe de sangue e agora vai fazer um exame de DNA para descobrir o pai. Irmãos ela tem muitos -- dois da família adotiva, mais uns tantos da família da mãe e outros tantos da família do pai. Novela, parece novela, mas é vida. E mistério. Pois a história, com tantos reencontros, nos leva logo a descartar o acaso e a procurar o sentido de tudo isso. Passei a noite meio desligada, depois dessa conversa. Dancei, um pouco, mas nem conversei nem me alegrei em demasia, perdidos que ficaram meus pensamentos nestes caminhos. Coloco-me no lugar dessa moça, ansiando por saber, por conhecer, por entender. E imagino o que não representa esta gravidez, a espécie de vingança contra o destino, as propostas de amor, de devoção, de vínculos jamais partidos. Passei a noite e o dia seguinte rezando para que tudo dê certo, não só para a criança que vem como para a que está ainda guardada e temerosa no espírito dessa jovem. E que, como nas novelas, tudo acabe bem.
Saturday, November 22, 2008
divagações
Acordei, sem vontade.
Há muito tempo que sou assim, pontualmente sem vontade, abro os olhos e vejo que o mundo continua existindo, apesar de...
Isso não significa ...mas, não tenho que explicar nada. Só digo que acordei e fiquei na cama, com a TV ligada, vendo coisas bobas e belas. Notting Hill, um lugar que me lembra um passado de Beatles e de sonhos, e que, revisitado por dois bobões, se torna insípido, embora ainda agradável. Depois, uma obra prima, O Leopardo, e a cena final, de beleza absoluta, solidão pujente e extremo desânimo finalmente me fez ter vontade de sair da cama e recomeçar a rotina, embora sabendo que é preciso que tudo mude para que tudo continue a mesma coisa...
Melancolia, a bile negra que sorvi a pequenos goles cuidadosos junto com o café (acho que vou usar isso no romance, gostei da frase), me acompanhou nas lembranças da noite anterior, de festa e de amigos, gente que guardo com carinho entre os cacos de meu coração (não, essa não vou usar, it's corny, como diriam meus amigos gringos, com uma palavra muito mais simpática que cafona). Festas perigosas, essas, em que voltamos ao passado. Festas maravilhosas, essas, em que encontramos amigos de toda a vida. Saber que vivemos nas memórias de quem vive em nossas memórias é muito legal -- dá uma sensação de amparo, de aconchego. Tipo reunião de família, quando, embora com pouca vivência em comum, reconhecemos nosso DNA. Claro que ali não havia o DNA químico, mas sobrava o afetivo. A gente reconhece os gostos em comum, as lembranças e ditos, ri com piadas que podiam ter sido ditas por nós mesmos, abraça crianças que não são as nossas, mas que poderiam ser, pois as vimos nascer, antes mesmo de serem.
Um abraço, um sorriso, uma notícia, tudo isso nos faz sentir a felicidade do clã. Um rosto cansado, uma fala arrastada, uma cicatriz, tudo isso nos deixa apreensivos e medrosos do amanhã. Junto a tudo, a lembrança daqueles que já não estão. A falta que nos fazem. A partida prematura. Foi no meio desses pensamentos que me chegou o e-mail do mano André, avisando que tinha sido detonado no Idéias. Ora mano, seu resenhista reconhece o essencial -- seu talento. E, se ele não gosta do texto, das histórias, isso é gosto pessoal Não invalida o escrito.
Volto às minhas resenhas, que quero aprontar antes de partir para Maceió. Junto aos dois livrinhos (novos, não houve pulinho nem promessa que me resgatasse os dois volumes perdidos) me aguardam o livro do Galera e o do Amós Oz. Estou curtindo o Cordilheira, pois estou revisitando Buenos Aires através das páginas do Galera. Sei que vou adorar o do Oz, a quem devo, aliás, o título de Linha de sombra, tirado de uma das páginas de seu livro de memórias.
Então vou terminando por aqui, deixando registrado os parabéns para a Cecília, uma das mais maravilhosas mulheres que conheço. Me orgulho de ser sua amiga, de estar em sua lembrança e de ter feito parte da espetacular República das Tabajaras. Um espaço de crescimento e de alegria, que me formou.
Há muito tempo que sou assim, pontualmente sem vontade, abro os olhos e vejo que o mundo continua existindo, apesar de...
Isso não significa ...mas, não tenho que explicar nada. Só digo que acordei e fiquei na cama, com a TV ligada, vendo coisas bobas e belas. Notting Hill, um lugar que me lembra um passado de Beatles e de sonhos, e que, revisitado por dois bobões, se torna insípido, embora ainda agradável. Depois, uma obra prima, O Leopardo, e a cena final, de beleza absoluta, solidão pujente e extremo desânimo finalmente me fez ter vontade de sair da cama e recomeçar a rotina, embora sabendo que é preciso que tudo mude para que tudo continue a mesma coisa...
Melancolia, a bile negra que sorvi a pequenos goles cuidadosos junto com o café (acho que vou usar isso no romance, gostei da frase), me acompanhou nas lembranças da noite anterior, de festa e de amigos, gente que guardo com carinho entre os cacos de meu coração (não, essa não vou usar, it's corny, como diriam meus amigos gringos, com uma palavra muito mais simpática que cafona). Festas perigosas, essas, em que voltamos ao passado. Festas maravilhosas, essas, em que encontramos amigos de toda a vida. Saber que vivemos nas memórias de quem vive em nossas memórias é muito legal -- dá uma sensação de amparo, de aconchego. Tipo reunião de família, quando, embora com pouca vivência em comum, reconhecemos nosso DNA. Claro que ali não havia o DNA químico, mas sobrava o afetivo. A gente reconhece os gostos em comum, as lembranças e ditos, ri com piadas que podiam ter sido ditas por nós mesmos, abraça crianças que não são as nossas, mas que poderiam ser, pois as vimos nascer, antes mesmo de serem.
Um abraço, um sorriso, uma notícia, tudo isso nos faz sentir a felicidade do clã. Um rosto cansado, uma fala arrastada, uma cicatriz, tudo isso nos deixa apreensivos e medrosos do amanhã. Junto a tudo, a lembrança daqueles que já não estão. A falta que nos fazem. A partida prematura. Foi no meio desses pensamentos que me chegou o e-mail do mano André, avisando que tinha sido detonado no Idéias. Ora mano, seu resenhista reconhece o essencial -- seu talento. E, se ele não gosta do texto, das histórias, isso é gosto pessoal Não invalida o escrito.
Volto às minhas resenhas, que quero aprontar antes de partir para Maceió. Junto aos dois livrinhos (novos, não houve pulinho nem promessa que me resgatasse os dois volumes perdidos) me aguardam o livro do Galera e o do Amós Oz. Estou curtindo o Cordilheira, pois estou revisitando Buenos Aires através das páginas do Galera. Sei que vou adorar o do Oz, a quem devo, aliás, o título de Linha de sombra, tirado de uma das páginas de seu livro de memórias.
Então vou terminando por aqui, deixando registrado os parabéns para a Cecília, uma das mais maravilhosas mulheres que conheço. Me orgulho de ser sua amiga, de estar em sua lembrança e de ter feito parte da espetacular República das Tabajaras. Um espaço de crescimento e de alegria, que me formou.
Thursday, November 20, 2008
Meu livro
Feriado e consciência
Feriado, daqueles saborosos, que caem numa quinta e permitem vadiar até a próxima segunda, dia amanhecendo ensolarado, sem calor -- é coisa que não se pode desprezar. O problema é o título do feriado que inclui consciência e apela para a minha enraigada noção de dever. Droga! Tenho tanto trabalho, que não posso vadiar, nem um pouquinho, só o necessário para escrever algumas linhas aqui no blog, essa minha cachacinha gostosa, que tomo aos golinhos, saboreando a embriaguês. Gosto de vir aqui derramar os pensamentos, pois penso melhor por escrito. Acho que preciso do tempo gasto em escrever para sedimentar as idéias, permitir que elas se combinem entre si, se organizem e organizem meu mundo. Os trabalhos me aguardam e o dia da consciência (negra) me recomenda que volte a eles e esqueça a caminhada pela praia e a água de coco. Vou, então, fazer o que devo. Mas, em sinal de protesto, com roupa de ginástica e chapéu de palha na cabeça!
Tuesday, November 18, 2008
Arte e Literatura
De volta ao Rio, depois do temporal...
Em São Paulo, amigos e literatura e um pouco de arte... Começo pela pouca arte exposta na Bienal, que me lembrou a música dos tempos de criança: eu sou pobre, pobre, pobre, de marré, marré, marré... Um andar vazio -- inteiramente vazio --, onde saí valsando a bela adormecida, que cantarolei prá mim mesma até chegar ao tobogã, lá ao fundo do salão. Recebi as instruções necessárias, acomodei-me no "tapete" voador e mergulhei, veloz, um míssil em direção ao futuro, mesmo se o futuro distasse apenas um segundo. Cheguei e fui saudada por um coro de risos adolescentes, admirados de verem alguém tão distante no tempo, tão próxima no prazer e na coragem. Rimos todos, mas sem desprezos nem zombarias, de pura admiração uns pelos outros, nos assegurando que é possível rir em tempos de crise, de vazio e de estranheza. Recebi a chave da Bienal, depois de trapacear um pouquinho e oferecer em troca uma chave que não é de casa, mas é do coração. Vi fotos, assisti uns filmes divididos em três telas, pequenos documentários se eternizando em múltiplas telas de TV. Procurei os locais de diálogo, de silêncio e de monólogo. Olhei, com olhos indiferentes, outras manifestações que me pareceram tediosas. Depois fui visitar a aranha ali ao lado, no MAM. Mas, a coisa de que mais gostei na Bienal foi ter encontrado meu "livro", bem ali na entrada, antes mesmo do chaveiro. Meu livro desconstruído, as letras esparramadas pelo chão, amontoadas numa pilha onde tudo o que eu precisava fazer era ir recuperando sua ordem lógica. Era o meu livro e também o livro de cada um de nós. Livro que só nós podemos organizar, a partir do caos, o nada que é tudo, como Pessoa definiu o mito. E, já que estamos falando em mitos e em poetas, acho que este é o melhor momento para assinalar a presença do Dr. Mindlin no lançamento do André. Levado por um amigo e vizinho, ele enfrentou uma hora e meia de trânsito para chegar lá e conversar, com a delicadeza que lhe é habitual, com os convivas. A mim me informou que está relendo Proust, com ar de beatitude. Eu, que estou fazendo as resenhas dos livros que não voltei a encontrar e que tive que tornar a comprar, pensei que bastava olhar para a expressão de encantamento no rosto do Dr. Mindlin para descobrir porque ler (e reler) Borges e Dante. O Dr. Mindlin gosta que alguém leia poesia em voz alta para ele -- confissão já repetida muitas vezes por ele, em revistas e paralelos. Dr. Mindlin, que mais uma vez me convidou para visitar sua biblioteca de Babel... Irei, desta vez irei. Será meu presente de Natal a mim mesma...
André estava radiante com seu livro novo, com os amigos à volta, com a entrevista que tinha saído no Estadão. Nós conversamos, tomamos vinho, comemos amendoim japonês colorido e misturado a outras "loucuras", numa brincadeira com a palavra nut. Parecia que estávamos num stand da Record, mas estávamos sós, à deriva, encontrando um pouco de casas e viagens passadas, de notícias antigas, dessas coisas gratas ao coração. Fiquei conhecendo novas pessoas: Plus, encore! Encantadoras, solícitas, de corações grandes e conhecimentos imensos. Um verdadeiro Parnaso. E, já que o equivalente do Parnaso pode ser o céu, saímos da livraria e fomos homenagear o santo guerreiro -- São Jorge, padroeiro dos carnavais e das cervejas. Ele certamente rogou por nós já que além das biritas tivemos deliciosos petisos. Um bela noite. Viva, Dré, que os bons auspícios te acompanhem -- e não me desamparem!
Em São Paulo, amigos e literatura e um pouco de arte... Começo pela pouca arte exposta na Bienal, que me lembrou a música dos tempos de criança: eu sou pobre, pobre, pobre, de marré, marré, marré... Um andar vazio -- inteiramente vazio --, onde saí valsando a bela adormecida, que cantarolei prá mim mesma até chegar ao tobogã, lá ao fundo do salão. Recebi as instruções necessárias, acomodei-me no "tapete" voador e mergulhei, veloz, um míssil em direção ao futuro, mesmo se o futuro distasse apenas um segundo. Cheguei e fui saudada por um coro de risos adolescentes, admirados de verem alguém tão distante no tempo, tão próxima no prazer e na coragem. Rimos todos, mas sem desprezos nem zombarias, de pura admiração uns pelos outros, nos assegurando que é possível rir em tempos de crise, de vazio e de estranheza. Recebi a chave da Bienal, depois de trapacear um pouquinho e oferecer em troca uma chave que não é de casa, mas é do coração. Vi fotos, assisti uns filmes divididos em três telas, pequenos documentários se eternizando em múltiplas telas de TV. Procurei os locais de diálogo, de silêncio e de monólogo. Olhei, com olhos indiferentes, outras manifestações que me pareceram tediosas. Depois fui visitar a aranha ali ao lado, no MAM. Mas, a coisa de que mais gostei na Bienal foi ter encontrado meu "livro", bem ali na entrada, antes mesmo do chaveiro. Meu livro desconstruído, as letras esparramadas pelo chão, amontoadas numa pilha onde tudo o que eu precisava fazer era ir recuperando sua ordem lógica. Era o meu livro e também o livro de cada um de nós. Livro que só nós podemos organizar, a partir do caos, o nada que é tudo, como Pessoa definiu o mito. E, já que estamos falando em mitos e em poetas, acho que este é o melhor momento para assinalar a presença do Dr. Mindlin no lançamento do André. Levado por um amigo e vizinho, ele enfrentou uma hora e meia de trânsito para chegar lá e conversar, com a delicadeza que lhe é habitual, com os convivas. A mim me informou que está relendo Proust, com ar de beatitude. Eu, que estou fazendo as resenhas dos livros que não voltei a encontrar e que tive que tornar a comprar, pensei que bastava olhar para a expressão de encantamento no rosto do Dr. Mindlin para descobrir porque ler (e reler) Borges e Dante. O Dr. Mindlin gosta que alguém leia poesia em voz alta para ele -- confissão já repetida muitas vezes por ele, em revistas e paralelos. Dr. Mindlin, que mais uma vez me convidou para visitar sua biblioteca de Babel... Irei, desta vez irei. Será meu presente de Natal a mim mesma...
André estava radiante com seu livro novo, com os amigos à volta, com a entrevista que tinha saído no Estadão. Nós conversamos, tomamos vinho, comemos amendoim japonês colorido e misturado a outras "loucuras", numa brincadeira com a palavra nut. Parecia que estávamos num stand da Record, mas estávamos sós, à deriva, encontrando um pouco de casas e viagens passadas, de notícias antigas, dessas coisas gratas ao coração. Fiquei conhecendo novas pessoas: Plus, encore! Encantadoras, solícitas, de corações grandes e conhecimentos imensos. Um verdadeiro Parnaso. E, já que o equivalente do Parnaso pode ser o céu, saímos da livraria e fomos homenagear o santo guerreiro -- São Jorge, padroeiro dos carnavais e das cervejas. Ele certamente rogou por nós já que além das biritas tivemos deliciosos petisos. Um bela noite. Viva, Dré, que os bons auspícios te acompanhem -- e não me desamparem!
Monday, November 17, 2008
Sampa
Aqui estou eu, nesta minha Nova Iorque tupiniquim, me encantando com os recantos paulistas. SP é uma cidade que sempre me admira: nas leituras, a grande megalópolis. Ao vivo, a cidade que guarda a dimensão humana, que preserva casas e árvores, que tem vendedores com jeitinho de província -- uma mistura sempre renovada, sempre surpreendente. E esse ar de colcha de retalhos, com um pedacinho de seda oriental, outro de arraiolos, outro de mantilha espanhola, outro de algodão de jerusalém.. Cada bairro com seu sotaque diferente, suas memórias e códigos, seus perigos insuspeitados. Suas ladeiras, culminando na Paulista, seus vales e rios insubordinados, seu mar de carros impedindo a passagem embora se proponha a nos conduzir de uma zona a outra. Adoro SP, mesmo com o frio e a chuva que chegam sorrateiramente, depois de um dia de sol e calor, só para enganar a carioca desavisada.
Hoje é o lançamento do livro do André de Leones, e daqui a pouco estarei lá, na Livraria da Vila. Segunda feira fria e chuvosa, que vai se aquecer graças aos abraços amigos e se iluminar com o sorriso dos reencontros. Enquanto espero, leio, e converso, e telefono, e relembro.
Hoje é o lançamento do livro do André de Leones, e daqui a pouco estarei lá, na Livraria da Vila. Segunda feira fria e chuvosa, que vai se aquecer graças aos abraços amigos e se iluminar com o sorriso dos reencontros. Enquanto espero, leio, e converso, e telefono, e relembro.
Thursday, November 13, 2008
Ao pé da letra
Não me levem ao pé da letra, pois as coisas que escrevo aqui não correspondem a uma realidade "real", mas a uma realidade "percebida". Não sou deprimida, nem solitária, nem infeliz. O que não consigo é me conformar com a perda de um interlocutor privilegiado, com quem eu podia falar desde o preço do feijão até meu medo da crise, desde revista em quadrinho até Tolstói, e que, ainda por cima, fazia com que eu me sentisse mais bonita, mais inteligente, mais desenvolta com seus comentários. Tenho muitos amigos, e adoro todos eles. Mas preservo minha "solidão", pois, como disse a Virginia Woolf, é necessário ter um canto só seu para se poder escrever. Uma de minhas amigas (que são de todas as idades, e disso me orgulho muito) faz 9o anos em junho. Mora sozinha, não tem filhos, é viúva, mas dentre todas as pessoas que conheço é a que tem mais alegria de viver. Viaja todos os anos, mais de uma vez. Sempre tem programas, almoços, teatros, jogos de biriba. Às vezes ela viaja comigo, e, por uma ou outra razão, preciso sair sozinha para dar uma aula, por exemplo. Preocupo-me, convido-a para ir comigo, digo que não quero deixá-la sozinha e ela me responde: Mas eu sou ótima companhia para mim mesma! E é verdade. Ela lê, ela vê filmes, escuta música, telefona (isso eu não faço). Quando volto, ela está maravilhosamente bem, com mil coisas para falar à cerca daquilo que leu ou que viu ou que escutou. Quando estamos juntas, sempre rimos muito -- ela é engraçada, tem tiradas maravilhosas e é uma namoradeira. Seus olhos, brilhantes, estão sempre dançando pelos rostos masculinos, avaliando-os com o que eu julgo ser experiência de boa conhecedora. E ela é uma grande professora, está sempre me dando lições de vida, sem fazer sermões, só pelo exemplo e pelos comentários. Só ela mesmo para me animar a pegar o carro e atravessar a ponte na hora do rush para ir assistir um filme "imperdível" em Niterói. E quando lhe disse que eu adorava o passeio pela ponte, ela concordou entusiasmada, dizendo: Isso devia ser cobrado em dólar! Olhe para esse mar dos dois lados! Olhe para as montanhas! Só cobrando em dólar!
Vimos o filme, voltamos, jantamos, fizemos planos para a próxima saída e lá foi ela de táxi para a casa, pois estávamos ao lado de minha casa e ela não permitiu que a levasse. "Eu gosto de andar de táxi, e os motoristas gostam de dirigir", justificou-se ela. E eu fico por aqui, dizendo: Eu gosto de você, minha amiga, e sei o quanto devo a sua alegria e compaixão, que me ajudaram a atravessar os dias mais tenebrosos de minhas angústias.
Tenho, ou tive, outra amiga, que se foi cedo e deixou uma grande saudade. Era médica, e sabia que não tinha muito tempo, mas eu não acreditava, pois na época ainda pensávamos que éramos todos imortais. Ela saía comigo e ia olhando as árvores, bebendo aquelas imagens, com intensidade. Eu também sou grande admiradora de árvores e, quando estas estão floridas e ostentam suas cores vibrantes contra o céu, fico deslumbrada. Minha amiga, porém, tinha outra intenção -- a mim me parecia que ela queria guardar aquelas imagens, gravá-las, apropriar-se delas para levá-las a uma outra vida. Espero que ela e Guilherme estejam nesta outra realidade, ambos com suas provisões de imagens belas. Mira com as árvores, Gui com o por do sol sobre o mar. Eu ficarei feliz se, numa outra vida, tiver a visão dos rostos deles contemplando suas belezas prediletas.
Vimos o filme, voltamos, jantamos, fizemos planos para a próxima saída e lá foi ela de táxi para a casa, pois estávamos ao lado de minha casa e ela não permitiu que a levasse. "Eu gosto de andar de táxi, e os motoristas gostam de dirigir", justificou-se ela. E eu fico por aqui, dizendo: Eu gosto de você, minha amiga, e sei o quanto devo a sua alegria e compaixão, que me ajudaram a atravessar os dias mais tenebrosos de minhas angústias.
Tenho, ou tive, outra amiga, que se foi cedo e deixou uma grande saudade. Era médica, e sabia que não tinha muito tempo, mas eu não acreditava, pois na época ainda pensávamos que éramos todos imortais. Ela saía comigo e ia olhando as árvores, bebendo aquelas imagens, com intensidade. Eu também sou grande admiradora de árvores e, quando estas estão floridas e ostentam suas cores vibrantes contra o céu, fico deslumbrada. Minha amiga, porém, tinha outra intenção -- a mim me parecia que ela queria guardar aquelas imagens, gravá-las, apropriar-se delas para levá-las a uma outra vida. Espero que ela e Guilherme estejam nesta outra realidade, ambos com suas provisões de imagens belas. Mira com as árvores, Gui com o por do sol sobre o mar. Eu ficarei feliz se, numa outra vida, tiver a visão dos rostos deles contemplando suas belezas prediletas.
Tuesday, November 11, 2008
Maluca beleza
Se não existissem a internet e os blogs eu estaria fazendo parte de uma raça que já foi conhecida como "maluco beleza" -- andaria por aí, falando sozinha, pois converso aqui com o blog, já que não tenho com quem falar. Será que isso me faz mais sã do que aqueles mendigos vociferantes? Nos velhos tempos de Posto 6 havia um mendigo, que cheirava éter, a quem minha família me proibia de dar esmola, para ele não insistir no vício. Quando virei adolescente rebelde, o mendigo, que parecia eterno, continuava por ali e eu passei a lhe dar o pouco trocado que tinha, penalizada -- se todo o prazer que aquele homem tinha se concentrava num frasquinho de éter, porque eu não o ajudaria a obter? Sei lá, posso estar moralmente errada, mas eu não conseguiria transformar aquele ser num ser humano outra vez, com dignidade. Então lhe oferecia uma contribuição para o delírio, onde ele poderia ser o que quisesse, inclusive voltar a ser humano.
Agora aqui por perto há uma mendiga, muito mal-humorada, que vive vociferando pela esquina. De vez em quando ela some, depois volta, interpelando os passantes. Eu passo pouco pelas ruas, mas já cruzei com ela algumas vezes. Ela está sempre numa espécie de comício, gesticulando. Ninguém para e conversa com ela, mas já vi muitas pessoas pararem por perto e ficarem rindo dela. Talvez bastasse alguém para ouvi-la se queixar (de quê? não consigo entender o que ela diz quando passo apressada) e esta mulher pudesse voltar a ser alguém com outros sentimentos que não a mágoa e a revolta. Mas somos todos covardes, a começar por mim, que reclamo de não ter com quem falar, mas também não desejo ser interlocutora da mendiga.
Há muitos mendigos por aqui -- um rapaz que dorme pela calçada, até tarde, talvez sentindo-se mais protegido pela luz do dia. À noite deve vaguear assustado, e de manhã dorme, indiferente à luz e aos ruídos. Talvez tenha sido ele o rapaz que me cortou o coração, no dia em que o ouvi pedindo esmola a um senhor que passava, que deve lhe dar alguma coisa costumeiramente, pois ele dizia: não quero dinheiro, quero um agasalho. Até hoje, ao contar isso, meus olhos se enchem de lágrimas (que não derramo, ser racional e experimentado que sou). Tive vontade de ir comprar para ele casacos e suéteres, meias, sapato, o que ele precisasse para mitigar o frio. Mas não fiz nada disso. Continuei o meu caminho, e hoje me consolo pensando que, por mais que eu oferecesse roupas, o frio de que ele precisava se proteger era o da indiferença social. Como é que não cuidamos de nossos vizinhos? Quando deixamos de ser habitantes de aldeias, onde todos podem compartilhar o pão e o agasalho, e podem se sentar ao redor de uma fogueira e contar suas histórias, ouvir outras, com-viver?
Ao invés disso, aqui estamos, em frente de uma tela, seja de computador ou de TV, cada vez mais solitários, menos solidários, mais malucos e menos beleza.
Agora aqui por perto há uma mendiga, muito mal-humorada, que vive vociferando pela esquina. De vez em quando ela some, depois volta, interpelando os passantes. Eu passo pouco pelas ruas, mas já cruzei com ela algumas vezes. Ela está sempre numa espécie de comício, gesticulando. Ninguém para e conversa com ela, mas já vi muitas pessoas pararem por perto e ficarem rindo dela. Talvez bastasse alguém para ouvi-la se queixar (de quê? não consigo entender o que ela diz quando passo apressada) e esta mulher pudesse voltar a ser alguém com outros sentimentos que não a mágoa e a revolta. Mas somos todos covardes, a começar por mim, que reclamo de não ter com quem falar, mas também não desejo ser interlocutora da mendiga.
Há muitos mendigos por aqui -- um rapaz que dorme pela calçada, até tarde, talvez sentindo-se mais protegido pela luz do dia. À noite deve vaguear assustado, e de manhã dorme, indiferente à luz e aos ruídos. Talvez tenha sido ele o rapaz que me cortou o coração, no dia em que o ouvi pedindo esmola a um senhor que passava, que deve lhe dar alguma coisa costumeiramente, pois ele dizia: não quero dinheiro, quero um agasalho. Até hoje, ao contar isso, meus olhos se enchem de lágrimas (que não derramo, ser racional e experimentado que sou). Tive vontade de ir comprar para ele casacos e suéteres, meias, sapato, o que ele precisasse para mitigar o frio. Mas não fiz nada disso. Continuei o meu caminho, e hoje me consolo pensando que, por mais que eu oferecesse roupas, o frio de que ele precisava se proteger era o da indiferença social. Como é que não cuidamos de nossos vizinhos? Quando deixamos de ser habitantes de aldeias, onde todos podem compartilhar o pão e o agasalho, e podem se sentar ao redor de uma fogueira e contar suas histórias, ouvir outras, com-viver?
Ao invés disso, aqui estamos, em frente de uma tela, seja de computador ou de TV, cada vez mais solitários, menos solidários, mais malucos e menos beleza.
Sunday, November 09, 2008
idade e irrealidade
Muita gente se esquece que o tempo é uma invenção -- e convenção -- humana. Essa coisa de horas, minutos, segundos que se acumulam em semanas e em anos, séculos e milênios, é tudo fruto de nossa cabeça, de nosso desejo de ordenação. Mas existir mesmo, só existem manhãs, tardes e noites, que se sucedem apenas graças ao passeio da terra em torno do sol. Um besouro em volta da chama de uma vela, esse nosso planeta.
Vejam só as horas -- dividimos o globo terrestre em fatias horárias, numa espécie de aberração -- se duas pessoas estão se beijando, sobre a linha fronteiriça de um dos fusos horários, porque um estará beijando às onze e outro ao meio-dia?
Essa questão de idade também é bem convencional. Algumas pessoas têm corpo jovem e espírito velho, cheirando à naftalina. Outras têm espírito quase infantil, imaturo, e vivem em corpos decadentes, como uma casa em ruínas. A gente tenta ir equilibrando desgaste (ou amadurecimento) mental e físico, do mesmo jeito que, no café da manhã, vamos tentando fazer nosso pão com manteiga acabar junto da xícara de café.
Mas o que me horrorizou na questão de maridos e mangas, é a transformação de gente em acessório. Eu tive um marido, com apenas mais quatro anos que eu, e nunca pensei nele como um par de sapatos. E tenho a certeza de que ele nunca pensou em mim como um carro do ano. Reajam, maridos em potencial -- Se uma mulher de mais de 38 se achegar, tentando fazer que algum de vocês se adapte a um modelo Casas Bahia ou Ferragamo, resista! Não se deixe consumir. E isso vale para as mulheres também. Se algum homem quiser que você seja modelo e manequim, ou mãe de família, fuja dele! Sejam vocês mesmos, múltiplos, individuais, surpreendentes -- seres vivos e vibrantes. Mas cheios de amor, interessados no outro, e não apenas no próprio umbigo!
Vejam só as horas -- dividimos o globo terrestre em fatias horárias, numa espécie de aberração -- se duas pessoas estão se beijando, sobre a linha fronteiriça de um dos fusos horários, porque um estará beijando às onze e outro ao meio-dia?
Essa questão de idade também é bem convencional. Algumas pessoas têm corpo jovem e espírito velho, cheirando à naftalina. Outras têm espírito quase infantil, imaturo, e vivem em corpos decadentes, como uma casa em ruínas. A gente tenta ir equilibrando desgaste (ou amadurecimento) mental e físico, do mesmo jeito que, no café da manhã, vamos tentando fazer nosso pão com manteiga acabar junto da xícara de café.
Mas o que me horrorizou na questão de maridos e mangas, é a transformação de gente em acessório. Eu tive um marido, com apenas mais quatro anos que eu, e nunca pensei nele como um par de sapatos. E tenho a certeza de que ele nunca pensou em mim como um carro do ano. Reajam, maridos em potencial -- Se uma mulher de mais de 38 se achegar, tentando fazer que algum de vocês se adapte a um modelo Casas Bahia ou Ferragamo, resista! Não se deixe consumir. E isso vale para as mulheres também. Se algum homem quiser que você seja modelo e manequim, ou mãe de família, fuja dele! Sejam vocês mesmos, múltiplos, individuais, surpreendentes -- seres vivos e vibrantes. Mas cheios de amor, interessados no outro, e não apenas no próprio umbigo!
Da vida dos objetos inanimados
Quando era pequena, certas histórias me fascinavam -- a revolta dos brinquedos, por exemplo. Adorava estas possibilidades mágicas, de que, quando não observados, os objetos pudessem existir de uma maneira independente, e que se movimentassem, pensassem, interagissem, assim como nós. Com o tempo, e a invenção das câmaras de vigilância, essa minha crença se desfez. Somente alguns objetos parecem ainda conservar seus poderes, pelo menos aqui em casa: livros e facas.
Qual será o mistério desses seres?
Alguns me abandonam para sempre -- livros que estou procurando há mais de ano, e que ou foram emprestados e não devolvidos, ou sumiram graças a alguma arrumação apressada, motivada por absoluta falta de espaço em cima das poltronas ou de minha própria cama. Sim, durmo com livros, numa licenciosidade absoluta. Quantos autores e autoras já não passaram pela minha cama? Perdi a conta. Alguns dormiram o sono de pedra dos jamais abertos... poucos. Geralmente convido aqueles de que mais gosto.
Quando estou doente -- coisa rara, minhas mazelas são do espírito, não do corpo -- eles se reúnem no meu leito, como médicos numa junta. Ora um me sussurra um pensamento, ora outro me faz rir com uma piada, outro, ainda, me rapta e me faz esquecer a dor, ou a febre, ou seja lá o que for, e me leva para paraísos perdidos, ou tenebrosos esconderijos. E converso com as personagens que se acomodam a meu lado, sem precisar dizer palavra, apenas através dos pensamentos, rápidos, instantâneos, quase incompreensíveis.
Mas, no mundo acordado, os livros me pregam peças. Começo a ler um livro, e, se porventura preciso parar, alguns, mais dóceis, me aguardam com o marcador porto no lugar, sem protesto. Outros, voluntariosos, se encantam e somem. E lá fico eu, procurando-os por dias e meses a fio, até que, apaziguados, eles se mostram outra vez, e se deixam terminar de ler. Um dos livros que tem brincado de esconder comigo é Memórias de la niña mala, do Vargas Llosa. Comprei-o em espanhol, antes de sair aqui no Brasil, e comecei a ler lá mesmo na Argentina. Depois, volúvel, comecei a leitura de outro, e o livro, suscetível, até hoje ainda não se deixou ler: de vez em quando o encontro, mas ele volta a se esconder com habilidade de espião.
Agora estou a procura dos dois Por que ler -- Dante e Borges. Tenho que resenhá-los e os marotos não se deixam encontrar. Por favor, apareçam. Não sei se se assustaram com a inundação aqui em casa, no mês passado, o fato é que já olhei por toda a parte e os danadinhos não apareceram. Também não vi o do Vargas Llosa. Quem sabe estão compartilhando o esconderijo?
Lá vou eu, mais uma vez, em seu encalço.
Qual será o mistério desses seres?
Alguns me abandonam para sempre -- livros que estou procurando há mais de ano, e que ou foram emprestados e não devolvidos, ou sumiram graças a alguma arrumação apressada, motivada por absoluta falta de espaço em cima das poltronas ou de minha própria cama. Sim, durmo com livros, numa licenciosidade absoluta. Quantos autores e autoras já não passaram pela minha cama? Perdi a conta. Alguns dormiram o sono de pedra dos jamais abertos... poucos. Geralmente convido aqueles de que mais gosto.
Quando estou doente -- coisa rara, minhas mazelas são do espírito, não do corpo -- eles se reúnem no meu leito, como médicos numa junta. Ora um me sussurra um pensamento, ora outro me faz rir com uma piada, outro, ainda, me rapta e me faz esquecer a dor, ou a febre, ou seja lá o que for, e me leva para paraísos perdidos, ou tenebrosos esconderijos. E converso com as personagens que se acomodam a meu lado, sem precisar dizer palavra, apenas através dos pensamentos, rápidos, instantâneos, quase incompreensíveis.
Mas, no mundo acordado, os livros me pregam peças. Começo a ler um livro, e, se porventura preciso parar, alguns, mais dóceis, me aguardam com o marcador porto no lugar, sem protesto. Outros, voluntariosos, se encantam e somem. E lá fico eu, procurando-os por dias e meses a fio, até que, apaziguados, eles se mostram outra vez, e se deixam terminar de ler. Um dos livros que tem brincado de esconder comigo é Memórias de la niña mala, do Vargas Llosa. Comprei-o em espanhol, antes de sair aqui no Brasil, e comecei a ler lá mesmo na Argentina. Depois, volúvel, comecei a leitura de outro, e o livro, suscetível, até hoje ainda não se deixou ler: de vez em quando o encontro, mas ele volta a se esconder com habilidade de espião.
Agora estou a procura dos dois Por que ler -- Dante e Borges. Tenho que resenhá-los e os marotos não se deixam encontrar. Por favor, apareçam. Não sei se se assustaram com a inundação aqui em casa, no mês passado, o fato é que já olhei por toda a parte e os danadinhos não apareceram. Também não vi o do Vargas Llosa. Quem sabe estão compartilhando o esconderijo?
Lá vou eu, mais uma vez, em seu encalço.
Saturday, November 08, 2008
Você pensa que marido é manga....
Deu no jornal, hoje: depois dos 38 toda mulher tem que ter um marido e um vestido com manga.
A princípio eu achei que tinha entendido mal. Reli o trecho do Caderno Ela e confirmei. Pobres homens. Viraram item de consumo... Imagine a festa de aniversário da perua, as amigas fazendo uma vaquinha para comprar ... um vestido de manga, óbvio, que nenhuma ia ser tola de comprar um marido para outra. Imagine, os maridos estão tão escassos, há notícia de gente que está na fila para comprar um modelo Louis Vuitton, no mínimo seis meses de espera. Dizem que em NY estão vendendo uns maridos fake, made in China, mas que dão muito defeito nas partes essenciais. Bem, eu já passei dos 38, já tenho um vestido de manga, agora me falta um marido. Mas será que qualquer modelo serve? Será que a gente tem que ficar trocando, igual computador? Modelo 6.0, modelo 4.5, modelo 3.7? O vestido de manga vem explicado, não serve manga sino. Mas o que será manga sino? Com marido e sem sino, isso só pode querer dizer uma coisa: a mulher, depois dos 38, não pode mais badalar...Será?
Vou passar um fim de semana cheio de questões para resolver. Ainda mais depois que fui assistir ao novo filme do Woody Allen - Vicky Christina Barcelona - Imperdível. Só mesmo o Woody Allen para ter coragem de fazer um filme quase que todo narrado. Escandaloso! E, na minha opinião, adorável. E a fábula mais que humana que ele conta, essa nossa impossibilidade de nos contentarmos com o amor, é fantástica. E moderna, engraçada e muito louca. Mas, se quiserem saber o que achei melhor de tudo no filme, foi o "pai", o fabuloso poeta que nunca escreveu nada para não macular as palavras... Que idéia! Outra coisa, que cenários! e que elenco! Woody Allen, agora que estou com mais de 38, quem sabe você quer casar comigo? -- Suspeito, porém, que em alguma revista masculina, tenha sido decretado que todo homem, com mais de 50 anos, deve ter uma mulher de 22, e uma camiseta sem manga....
A princípio eu achei que tinha entendido mal. Reli o trecho do Caderno Ela e confirmei. Pobres homens. Viraram item de consumo... Imagine a festa de aniversário da perua, as amigas fazendo uma vaquinha para comprar ... um vestido de manga, óbvio, que nenhuma ia ser tola de comprar um marido para outra. Imagine, os maridos estão tão escassos, há notícia de gente que está na fila para comprar um modelo Louis Vuitton, no mínimo seis meses de espera. Dizem que em NY estão vendendo uns maridos fake, made in China, mas que dão muito defeito nas partes essenciais. Bem, eu já passei dos 38, já tenho um vestido de manga, agora me falta um marido. Mas será que qualquer modelo serve? Será que a gente tem que ficar trocando, igual computador? Modelo 6.0, modelo 4.5, modelo 3.7? O vestido de manga vem explicado, não serve manga sino. Mas o que será manga sino? Com marido e sem sino, isso só pode querer dizer uma coisa: a mulher, depois dos 38, não pode mais badalar...Será?
Vou passar um fim de semana cheio de questões para resolver. Ainda mais depois que fui assistir ao novo filme do Woody Allen - Vicky Christina Barcelona - Imperdível. Só mesmo o Woody Allen para ter coragem de fazer um filme quase que todo narrado. Escandaloso! E, na minha opinião, adorável. E a fábula mais que humana que ele conta, essa nossa impossibilidade de nos contentarmos com o amor, é fantástica. E moderna, engraçada e muito louca. Mas, se quiserem saber o que achei melhor de tudo no filme, foi o "pai", o fabuloso poeta que nunca escreveu nada para não macular as palavras... Que idéia! Outra coisa, que cenários! e que elenco! Woody Allen, agora que estou com mais de 38, quem sabe você quer casar comigo? -- Suspeito, porém, que em alguma revista masculina, tenha sido decretado que todo homem, com mais de 50 anos, deve ter uma mulher de 22, e uma camiseta sem manga....
Thursday, November 06, 2008
Realidade paralela
Hoje fui ao cabeleireiro -- programa que faço com alguma parcimônia, mas com constância suficiente para que me recebam bem e me ofereçam cafezinho e revista. Geralmente aceito o café e passo a revista, mas, desta vez, fiz o contrário. E me vi com uma revista no colo, com fotos de gente que nunca vi e de outras que já vi, mas que não reconheceria se não fossem as legendas. As manchetes eram .... como direi? ... irrelevantes. Lázaro e Thais juntos outra vez. Ah, bom. Não quis saber onde, pois já olhava para uma foto desfocada de Luana beijando o ex-da Ivete. Huumm. Depois o pessoal se espanta com as epidemias. Aparentemente o carinha sortudo já andou beijando meio mundo. Me fez lembrar de um sujeito -- hoje fora das manchetes -- que serviu de pai para quase todos os bebês de atrizes de TV. Esqueci o nome dele. Mas foi pai de filho da Elba Ramalho e depois foi sendo descartado e reaproveitado por umas e outras até que, finalmente, foi esquecido. Ah, outro candidato a pai geral é o Fábio Jr. Mas, coitado, numa entressafra, ele encontrou o cirurgião plástico do Michael Jackson -- os dois estão com a mesma cara, ou deveria dizer máscara?
Mas o que mais me espantou na dita revista foi a reportagem de várias páginas com Susana Vieira na Bienal. Pensei que eu é que estava com o surto psicótico de nossa mais nova autora de sucesso, Adriana Calcanhoto, mas era verdade. Lá estava ela pousando, com as pernas abertas e braços na cintura, enfrentando resoluta uma parede cheia de obras de arte. Susana, a crítica de arte -- extraordinário! Devo estar vivendo numa das realidades paralelas de que fala o Paul Auster, citando Giordano Bruno. Como é que vim parar aqui? Acho que a culpa é minha, por falar muito no celular...
De volta a casa, folheio o maravilhoso Sermão de Quarta-Feira de Cinza, pregado por Vieira no ano de 1672: Memento homo quia pulvis es, et in pulverem reverteris... És pó, e ao pó retornarás. Mas acho que os editores da revista andam abusando desse pó....
Mas o que mais me espantou na dita revista foi a reportagem de várias páginas com Susana Vieira na Bienal. Pensei que eu é que estava com o surto psicótico de nossa mais nova autora de sucesso, Adriana Calcanhoto, mas era verdade. Lá estava ela pousando, com as pernas abertas e braços na cintura, enfrentando resoluta uma parede cheia de obras de arte. Susana, a crítica de arte -- extraordinário! Devo estar vivendo numa das realidades paralelas de que fala o Paul Auster, citando Giordano Bruno. Como é que vim parar aqui? Acho que a culpa é minha, por falar muito no celular...
De volta a casa, folheio o maravilhoso Sermão de Quarta-Feira de Cinza, pregado por Vieira no ano de 1672: Memento homo quia pulvis es, et in pulverem reverteris... És pó, e ao pó retornarás. Mas acho que os editores da revista andam abusando desse pó....
Wednesday, November 05, 2008
Era de aquário, peixes ou áries?
Procurando um título para meu post de hoje, me lembrei do filme falando sobre os anos 60, quando todos nós sonhávamos com Paz e Amor. Os cariocas elegeram Paes no Rio (infame trocadilho), teriam os americanos eleito Amor nos EUA? Alguma forma de amor, sem dúvida, de alguém que se diz construtor de pontes entre as diferenças, ele mesmo um traço de união entre um negro e uma branca, entre um estrangeiro e uma cidadã, entre o desejo e a realidade. Assisti ao seu discurso de vitória -- um belo discurso, inspirador, sem muita demagogia, lembrando dos limites rompidos. Discurso de um bom escritor. Pensei em como o mundo vem suplicando por mudanças: as eleições de Lula, Chavez, Morales e Obama são sintomáticas -- ninguém quer mais do mesmo, todos estão apostando suas fichas na mudança. E, com isso, ninguém se preocupa muito com programas de governo, com propostas realistas -- o que se deseja é o ideal, às favas com o real que está nos levando à destruição. E querem as mudanças já, para ontem. Querem o símbolo e a velocidade. Querem a juventude para frear a caducidade deste nosso fim de império. Me comparei à velhinha emblemática citada por Obama -- quantas coisas ela presenciou -- quantas coisas eu presenciei... Costumo brincar com meus alunos que pertenço à pré-história da humanidade, pois durante minha vida, passei de telefone fixo e sempre mudo a celulares inoportunos; de mapas a GPS; de raio X a raio laser... Homem na Lua, Muro de Berlim, Glasnost, nada disso me é estranho. Vi o herói de Marlboro virar vítima do câncer, o coquetel de Martini se transformar em coquetel anti-aids. Meninos, eu vi -- já dizia o poema.
Esperançosa por profissão (afinal, sou brasileira), assisto essa nova era se aproximando. Ainda dá tempo? Deve dar. E tudo vai dar certo, no final. Porque -- quem se lembra? -- já nos ameaçaram com tudo, de bomba H, bomba de nêutrons, à "maré vermelha"; agora é o aquecimento global, o fim do capitalismo, essas coisas. Os filósofos nos falam da modernidade líquida -- mudanças, fluidez, insegurança -- mas eu digo que sempre fui fã do caminho das águas. Confrontada com um obstáculo, a água se desvia, procura, encontra uma passagem. Passemos, então, da era de aquário para a era de peixes -- aprendamos a nadar livres, sem as barreiras impostas pelo vidro. Mas que a era de áries não chegue já -- que os cabeças duras se afastem! Que de áries só nos cheguem os carneiros, com sua maciez e aconchego.
Esperançosa por profissão (afinal, sou brasileira), assisto essa nova era se aproximando. Ainda dá tempo? Deve dar. E tudo vai dar certo, no final. Porque -- quem se lembra? -- já nos ameaçaram com tudo, de bomba H, bomba de nêutrons, à "maré vermelha"; agora é o aquecimento global, o fim do capitalismo, essas coisas. Os filósofos nos falam da modernidade líquida -- mudanças, fluidez, insegurança -- mas eu digo que sempre fui fã do caminho das águas. Confrontada com um obstáculo, a água se desvia, procura, encontra uma passagem. Passemos, então, da era de aquário para a era de peixes -- aprendamos a nadar livres, sem as barreiras impostas pelo vidro. Mas que a era de áries não chegue já -- que os cabeças duras se afastem! Que de áries só nos cheguem os carneiros, com sua maciez e aconchego.
Tuesday, November 04, 2008
Mais filmes
Bem, depois de um longo jejum de filmes, agora parece que estou indo sempre. Hoje recebi um convite irresistível -- lá fui eu levar alguém muito especial para ver High School Musical 3. Confesso que gostei: adoro musicais, mesmo os ruinzinhos. E este não é mau. Consegui até me divertir, tentando adivinhar para qual universidade o Troy ia. Me decepcionei, mas devia ter percebido, desde o início, que ele era too sweet para não ficar em cima do muro. Boboca. Principalmente porque a Gabriela, depois que obtiver seu diploma de advogada, não vai querer mais nada com ele. Aliás, só ele não percebeu que está em segundo plano na vida dela. Mas, pensando bem, talvez ela também esteja em segundo plano e o negócio dele seja com o Chad... Bem, chega de falar nesse filme. Só mais uma coisa: o que são aquelas onipresentes xícaras de chá que distinguem a diretora, a compositora e o coreógrafo? A seita do santo daime? Um sinal secreto para os olheiros da Julliard? Puro ridículo?
Guido, chéri! Estava com saudades. Quer dizer que você acha impossível gostar de Kombi? É, elas são mesmo desconfortáveis, mas eu passei momentos muito emocionantes em Kombis -- quando estava estudando, minha "condução" era uma Kombi que quase nos matou a todas de susto graças ao seu motorista, o Cícero, que dirigia de lado, à toda velocidade. Cada ida ou volta do colégio era mais emocionante que bungee jumping. É um milagre que tenhamos sobrevivido!
Guido, chéri! Estava com saudades. Quer dizer que você acha impossível gostar de Kombi? É, elas são mesmo desconfortáveis, mas eu passei momentos muito emocionantes em Kombis -- quando estava estudando, minha "condução" era uma Kombi que quase nos matou a todas de susto graças ao seu motorista, o Cícero, que dirigia de lado, à toda velocidade. Cada ida ou volta do colégio era mais emocionante que bungee jumping. É um milagre que tenhamos sobrevivido!
Sunday, November 02, 2008
Vejam como são as coisas...
Fui ao cinema, hoje, assim por impulso, para desanuviar a decepção que o Hamilton me provocou. O Massa me comoveu com suas lágrimas, e, por alguns instantes, odiei o Hamilton, pela sua sorte. Depois, não, ele também se esforçou para chegar até onde estava. Mereceu, mas não festejo por ele. Celebro a vitória do Massa, e espero que a Ferrari não o desaponte na próxima temporada. Daí que fui ao cinema e vi um filme divertido. Mas já me esqueci do título -- alguma coisa com meu irmão e a namorada dele. O ator tinha trabalhado no Pequena Miss Sunshine, fez o papel do Proust Scholar e meus filhos zombaram de mim, na época, pois pouco antes de assistirmos o filme, eu tinha brigado -- na brincadeira -- com eles, e dito que ia vender meu carro e comprar uma Kombi velha. Eles viram o filme e eu, logicamente, tive que escutar as piadinhas sobre minhas preferências por Proust e Kombis... Desta vez, era o filme que ia começar quando chegamos ao cinema. Não sabia de nada sobre ele, mas mal o filme começou, tive que escutar um "outra vez? parece você, né?" E tive que concordar: O ex-Proust scholar, dessa vez um escritor viúvo, acorda numa cama compartilhada por livros, como a minha. Exatamente a mesma coisa. Mas não tenho irmãs, as semelhanças param por aí.
Ao chegar em casa, percebi que havia um recado na minha secretária. Era de uma amiga, que me ligou na sexta, ou talvez na quinta, essa secretária que tenho não me diz a ocasião da ligação. Ela falava de irmos almoçar no sábado... Fiquei devastada -- passo os fins de semana sozinha, nunca tenho programa, e desperdicei uma chance de estar com uma pessoa querida! Quando será que vou aprender a verificar minhas mensagens? Quando será que vou aprender a viver? Eu teria gostado de sair com ela, mas também não fiquei aborrecida nem chateada em casa. Às vezes, no fim da noite, me sinto meio sozinha, após passar um dia inteiro sem falar com ninguém, nem sair de casa. Só que, geralmente, passei o dia lendo, ou escrevendo, e não me senti solitária.
Bem, pensei em ligar para ela para me desculpar, mas já é muito tarde. Amanhã me desculpo. Termino só contando que comecei bem o dia: Na TV Senado, o Maurício Albuquerque fez um comentário sobre meu Linha de sombra, falando que uso o "desejo, o lirismo e a violência"para ler a realidade de nossos dias, ou algo assim. Fiquei impressionada comigo mesma. No computador, havia um aviso dizendo que meu conto No divã, com Freud, tinha sido publicado numa revista virtual chamada Balaio de Notícias -- a revista é linda, vale conferir. E eu escrevi um pouco mais, avançando no romance. Espero que fique bom. Por enquanto acho que estou indo. São poucas as páginas, umas 20, ou pouco mais. Mas estou gostando delas.
Ao chegar em casa, percebi que havia um recado na minha secretária. Era de uma amiga, que me ligou na sexta, ou talvez na quinta, essa secretária que tenho não me diz a ocasião da ligação. Ela falava de irmos almoçar no sábado... Fiquei devastada -- passo os fins de semana sozinha, nunca tenho programa, e desperdicei uma chance de estar com uma pessoa querida! Quando será que vou aprender a verificar minhas mensagens? Quando será que vou aprender a viver? Eu teria gostado de sair com ela, mas também não fiquei aborrecida nem chateada em casa. Às vezes, no fim da noite, me sinto meio sozinha, após passar um dia inteiro sem falar com ninguém, nem sair de casa. Só que, geralmente, passei o dia lendo, ou escrevendo, e não me senti solitária.
Bem, pensei em ligar para ela para me desculpar, mas já é muito tarde. Amanhã me desculpo. Termino só contando que comecei bem o dia: Na TV Senado, o Maurício Albuquerque fez um comentário sobre meu Linha de sombra, falando que uso o "desejo, o lirismo e a violência"para ler a realidade de nossos dias, ou algo assim. Fiquei impressionada comigo mesma. No computador, havia um aviso dizendo que meu conto No divã, com Freud, tinha sido publicado numa revista virtual chamada Balaio de Notícias -- a revista é linda, vale conferir. E eu escrevi um pouco mais, avançando no romance. Espero que fique bom. Por enquanto acho que estou indo. São poucas as páginas, umas 20, ou pouco mais. Mas estou gostando delas.
Saturday, November 01, 2008
Conversas passadas...
Estava agora mesmo trocando e-mails com um amigo de muito tempo atrás. Sentávamos os dois na última fila, e conversávamos sobre poesia, que ambos amávamos. Ele se tornou poeta, respeitadíssimo. Nós éramos muito amigos, nos falávamos todos os dias e com aquele ardor fácil da juventude: nós admirávamos as mesmas coisas e compartilhávamos nossas descobertas, sem tentar suplantar ninguém, sem segundas intenções, apenas maravilhados com o mundo, que nos parecia ainda mais belo através das palavras dos outros. Ele me apresentou os versos de João Cabral, mas na época eu me derretia com Neruda. Depois passou, mas tive uma recaída recente, por ocasião de minha viagem ao Chile. Lá fui eu visitar a casa do poeta. A de Santiago estava fechada, tive que ir a Valparaíso para ver La Chascona -- gostei. Gostei mais ainda porque o motorista que nos levou ficou contando uma piada (que deve ser bem gasta) falando sobre os problemas amorosos de Neruda graças aos versos que ele repetia a todas as namoradas, e que começavam por algo do tipo: gosto quando ficas calada -- todas elas protestavam antes de chegar ao fim, a única que se manteve calada até o fim do poema (que, aliás, é muito lindo) foi com quem ele se casou.
Acontece que estava viajando na companhia de uma amiga dos tempos de faculdade, outra apaixonada por literatura. E, como tinha que trabalhar, estava levando meu computador. Resultado, no meio da noite, já em outra cidade, lá fomos nós googlar Neruda, para ler o poema referido na piada na íntegra (nós já não lembrávamos e o motorista não sabia). Lemos, gostamos, e daí passamos a noite lembrando de poemas de que gostávamos e googlando os versos, para lermos em voz alta. Esse é mais um exemplo desse prazer desinteressado que a literatura nos traz, quando a gente fala e cita pela pura alegria de compartilhar belezas. Ninguém menciona um autor porque é "da moda", ninguém está preocupado em demonstrar que conhece mais que o outro -- o que a gente quer é que o outro sinta o mesmo arrepio descrito por Hemingway (ele dizia que sabia quando o texto era bom porque os cabelos de seu braço se arrepiavam) Infelizmente a gente vai perdendo isso. Na vida acadêmica ficamos mais preocupados com o "sucesso", com o "prestígio", com a "relevância" que com aquilo que realmente nos atraiu em primeiro lugar: o texto.
Então, para que a gente desfrute, aqui vai o poema, que aparece no google recitado na própria voz do Neruda (mas eu não gosto do jeito lento e arrastado como ele lê os próprios poemas) Me gustas cuando callas e Poema XX
Leiam vocês mesmos nas transcrições abaixo:
Me gustas cuando callas
Acontece que estava viajando na companhia de uma amiga dos tempos de faculdade, outra apaixonada por literatura. E, como tinha que trabalhar, estava levando meu computador. Resultado, no meio da noite, já em outra cidade, lá fomos nós googlar Neruda, para ler o poema referido na piada na íntegra (nós já não lembrávamos e o motorista não sabia). Lemos, gostamos, e daí passamos a noite lembrando de poemas de que gostávamos e googlando os versos, para lermos em voz alta. Esse é mais um exemplo desse prazer desinteressado que a literatura nos traz, quando a gente fala e cita pela pura alegria de compartilhar belezas. Ninguém menciona um autor porque é "da moda", ninguém está preocupado em demonstrar que conhece mais que o outro -- o que a gente quer é que o outro sinta o mesmo arrepio descrito por Hemingway (ele dizia que sabia quando o texto era bom porque os cabelos de seu braço se arrepiavam) Infelizmente a gente vai perdendo isso. Na vida acadêmica ficamos mais preocupados com o "sucesso", com o "prestígio", com a "relevância" que com aquilo que realmente nos atraiu em primeiro lugar: o texto.
Então, para que a gente desfrute, aqui vai o poema, que aparece no google recitado na própria voz do Neruda (mas eu não gosto do jeito lento e arrastado como ele lê os próprios poemas) Me gustas cuando callas e Poema XX
Leiam vocês mesmos nas transcrições abaixo:
Me gustas cuando callas
Me gustas cuando callas porque estás como ausente,
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.
.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
¡Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos!
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
¡Qué importa que mi amor no pudiera guardarla!
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Yo no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise..
Mi voz buscaba al viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.
Parece que los ojos se te hubieran volado
y parece que un beso te cerrara la boca.
.
Como todas las cosas están llenas de mi alma
emerges de las cosas, llena del alma mía.
Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,
y te pareces a la palabra melancolía.
.
Me gustas cuando callas y estás como distante.
Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.
Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:
Déjame que me calle con el silencio tuyo.
.
Déjame que te hable también con tu silencio
claro como una lámpara, simple como un anillo.
Eres como la noche, callada y constelada.
Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.
.
Me gustas cuando callas porque estás como ausente.
Distante y dolorosa como si hubieras muerto.
Una palabra entonces, una sonrisa bastan.
Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.
POEMA XX
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos."
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.
En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.
Ella me quiso, a veces yo también la quería.
¡Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos!
Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.
¡Qué importa que mi amor no pudiera guardarla!
La noche está estrellada y ella no está conmigo.
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.
Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.
Yo no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise..
Mi voz buscaba al viento para tocar su oído.
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.
Wednesday, October 29, 2008
Boas lembranças
Amauri e Cris, que bom que é lembrar dos nossos contatos recentes. Com a correria dos últimos dias, esqueci de falar de coisas práticas e que me interessavam: Não cheguei a falar, por exemplo, do lançamento do Linha de sombra, que foi no dia 22 de outubro, na Livraria Travessa do Leblon. Quem a conhece sabe que é uma das maiores livrarias do Rio (e não apenas em tamanho) -- por isso, a escolha, que foi feita pela Editora Record, me deixou muito temerosa -- E se eu ficasse sozinha naquele salão enorme? Ia ser a coisa mais deprimente do mundo! Mas foi exatamente o contrário -- muitos amigos foram, meus filhos todos estavam lá, amigos recentes, amigos de outra vida, amigos de sempre. O Márcio Galli me apresentou ao pessoal de teatro que fez a belíssima leitura do conto Ikebana, meus queridos cineastas estavam lá, também, e os filmes foram mostrados no espetacular telão da Travessa: Que coisa mais chique aquele telão! Não entendo muito dessas tecnologias, mas a impressão é que a parede toda é uma tela, e a imagem aparece como que por milagre no centro. É e não é legal, pois muitos de meus amigos não conseguiram ver essas performances, pois o espaço não é muito grande, e não deu para todo mundo. Estou esperando que meu filho tecnológico -- o mais novo, quanto mais novos, mais tecnológicos -- me ajude para poder passar para o computador o filme que alguém fez da leitura. Eu tentei, mas só consegui reproduzir o som, sem as imagens... Faltou alguma coisa, mas é mesmo assim. Estou fazendo uma resenha do livro do Paul Auster, e descobri que ele ainda escreve à mão e depois bate os originais à máquina. Meu mano em SESC, o André de Leones, que aliás, também está lançando seu segundo livro, também gosta de escrever à mão. Eu só escrevo no computador. Até em lan house já escrevi, não tudo, mas uma parte de um conto. Mas lá vou eu de novo, pela ladeira dos assuntos fugitivos! Não quero encerrar esta postagem sem mencionar a noite deliciosa que passei com os alunos do Marcelo Moutinho. Uma turma muito legal, rimos muito, contei histórias sobre as histórias, e espero ter ajudado em alguma coisa. Obrigada, viu, gente? Escrever é uma arte danada de solitária, e encontrar com os leitores, perceber suas reações, descobrir como as histórias estão sendo lidas e como as personagens passaram a habitar outras imaginações é muito gratificante.
Vou à luta, tentando recuperar o tempo perdido. Por falar nisso, nessa quinta e sexta estarei num Seminário lá na UFF, desta vez com um pouquinho da minha produção acadêmica. Falarei sobre Madalenas, calçadas e linho...dentro do VI Seminário Nação-Invenção: Metamorfoses do Moderno. O Scliar vai fazer a abertura, e todos estão convidados.
Vou à luta, tentando recuperar o tempo perdido. Por falar nisso, nessa quinta e sexta estarei num Seminário lá na UFF, desta vez com um pouquinho da minha produção acadêmica. Falarei sobre Madalenas, calçadas e linho...dentro do VI Seminário Nação-Invenção: Metamorfoses do Moderno. O Scliar vai fazer a abertura, e todos estão convidados.
Tuesday, October 28, 2008
Meu glorioso São Judas Tadeu
Tenho uma amiga que me iniciou na devoção a São Judas. Eu nunca fui muito de devoção a santos, mas gosto da maioria deles. Quando era criança fui obrigada a me vestir de Santa Teresinha, por alguma promessa de minha mãe; gosto de ler hagiografias, principalmente quando escritas por bons autores, como Eça de Queirós, mas qualquer uma me satisfaz, como a história de uma ex-pecadora (na época era um eufemismo para prostituta) que virou santa porque nunca deixou de fazer o sinal da cruz ao passar diante de uma igreja -- quem era? quem escreveu opúsculo tão edificante? -- não sei, tudo desapareceu nas brumas da memória, só sobrou a lembrança da história, que quase me fez ficar sofrendo de L.E.R. numa tenra idade, de tanto fazer o sinal da cruz. Alguns santos me fascinam pelo seu ar tão medieval e heróico -- São Jorge e São Miguel (principalmente o Saint Michel que enfeita o boulevard que leva seu nome). Algumas santas me assombram, como Santa Luzia, por exemplo, com aqueles olhos na bandeja... A maior parte dos mártires me espanta: um São Lourenço na grelha, quer espanto maior que esse? Mas vou parar por aqui, antes que essas digressões me levem ao inferno dos assuntos perdidos. Ia falar de São Judas e de minha amiga. Pois foi essa amiga, hoje morando distante do Rio, quem me garantiu que São Judas era "o" santo. Um santo injustiçado, confundido com o traidor, um santo que se esforçava ao máximo para atender aos seus fiéis e provar que ele era digno de estima... Acho que foi aí que o santo me pegou: um santo com baixa auto-estima, querendo provar que é bonzinho, que é prestativo e que nunca traiu ninguém. Fiquei fã de São Judas. Rezo para ele, mesmo quando não tenho nenhuma causa urgente e desesperada para o obrigar a trabalhar por mim e mais uma vez provar que ele faz por merecer nossas orações. Depois que passei a prestar mais atenção nele, descobri que, ao contrário do que o santo acredita, ele é um dos santos mais populares do céu. Basta dizer que a torcida do Flamengo é devota dele -- isso já é quase uma unanimidade. Hoje a Ana Maria Brega revelou que também é devota dele -- ela mesma é um exemplo de milagre: como é que tão medíocre consegue ser uma figura de tanta importância no mundo da mídia? Só milagre do santo, mesmo. Que, para não deixá-la sozinha, deve estar fazendo milagre para outros apresentadores de TV. E também para políticos pelo mundo afora. E para escritores. Aqui vai então minha prece pública a São Judas: por favor, meu santo, proteja meu novo livro, o Linha de sombra. Faça dele um grande livro, digno de atenção e de leitura. Que ele divirta seus leitores, que faça com que alguns, mais sérios, retirem alguma lição de suas páginas; que faça que a maioria, desatenta como os leitores de Machado, se divirta com os textos mais leves, e se comova com os mais sofridos. E proteja a autora, para que ela consiga emplacar mais alguns livrinhos que ela pensa em escrever, e, se não for pedir muito, faça com que ela ganhe algum dinheiro com suas publicações -- afinal, o senhor se gaba de realizar os pedidos impossíveis. E proteja meus manos e amigos escritores, e livrai-nos a todos da subliteratura, amén!
Um beijo a todos os amigos que compareceram ao lançamento no dia 22. Foi bom encontrar com vocês lá. Me senti um sucesso! Mas, realmente, foi uma festa bonita, com os vídeos excelentes e a sensível leitura de um dos contos do livro. Obrigada a Juliana, Debora, Rodrigo, Natália et alii, os meus queridos cineastas. Obrigada ao Ruiz, Márcio, Mitzi e Priscila, atores e diretores responsáveis pela belíssima leitura. Obrigada a cada um que compareceu e me alegrou e me deu estímulo e apoio. Obrigada aos amigos da editora Record que, com sua presença, legitimaram meu "filho". E aos amigos do SESC, que me abriram as portas desse reino encantado... Isso sem esquecer o Marcelo, o Mussa, o Marco Polo e o Marcus -- um time que me acolheu com entusiasmo e que continua me dando força. São Judas, olhai por nós!
Um beijo a todos os amigos que compareceram ao lançamento no dia 22. Foi bom encontrar com vocês lá. Me senti um sucesso! Mas, realmente, foi uma festa bonita, com os vídeos excelentes e a sensível leitura de um dos contos do livro. Obrigada a Juliana, Debora, Rodrigo, Natália et alii, os meus queridos cineastas. Obrigada ao Ruiz, Márcio, Mitzi e Priscila, atores e diretores responsáveis pela belíssima leitura. Obrigada a cada um que compareceu e me alegrou e me deu estímulo e apoio. Obrigada aos amigos da editora Record que, com sua presença, legitimaram meu "filho". E aos amigos do SESC, que me abriram as portas desse reino encantado... Isso sem esquecer o Marcelo, o Mussa, o Marco Polo e o Marcus -- um time que me acolheu com entusiasmo e que continua me dando força. São Judas, olhai por nós!
Monday, October 20, 2008
Horóscopo
Confesso um vício -- ou seria uma crença? Todos os dias leio meu horóscopo. Mas não sou das mais fiéis, se não gosto do que está previsto, leio as previsões de outro signo, ou as de outro jornal, quando tenho... Hoje, porém, gostei do que li no signo de aquário, que talvez seja o meu signo real já que na semana passada acordei dentro de um aquário, nada metafórico. É que um cano rompeu e minha casa ficou inundada, desde a cozinha até os quartos. Passei mais de três horas, com os dois faxineiros do edifício, passando rodo na casa, retirando tapetes e livros -- muitos irremediavelmente perdidos, para meu desconsolo. O que passou, passou. Water under the bridge, como dizem the americans... O que interessa é que resolvi fazer o que o horóscopo manda para hoje: pensar na cor verde. Claro que imediatamente me vieram os versos de Lorca: Verde que te quiero verde...
Então, para que eu pense acompanhada no verde, aqui vai um trechinho de Romance Sonambulo (que, aliás, pode ser ouvido no YouTube, no mais lindo castellano)
Verde que te quiero verde
Verde viento. Verde rama
El barco sobre la mar
Y el caballo en la montaña
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
Verde carne. Verde pello
con ojos de fría plata
Verde que te quiero verde,
bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas
....
Ella sigue en su baranda
Verde carne, pello verde
soñando en la mar amarga.
É um lindo poema, sonoro a mais não poder. Creio que esse poema esteve nas mentes dos escritores latinoamericanos quando iniciaram seus romances... Vejam, por exemplo, o início de um que sei quase que de cor, já que é assunto de minha tese.
Concierto barroco, de Alejo Carpentier
De plata los delgados cuchillos, los finos tenedores; de plata los platos donde un árbol de plata labrada en la concavidad de sus platas recojía el jugo de los asados; de plata los platos fruteros, de tres bandejas redondas, coronadas por una granada de plata; de plata los jarros de vino amartillados por los trabajadores de la plata; de plata los platos pescaderos con su pargo de plata hinchado sobre un entrelazamiento de algas; de plata los saleros, de plata los cascanueces, de plata los cubiletes, de plata las cucharillas con adorno de iniciales....
La plata e el verde se tornam palavras encantatórias, e adquirem um significado muito mais profundo que a cor ou o material. Porque o texto ofusca com seus reflexos prateados, porque o poema vibra com o r de verde que toma conta do mundo (mar e montanha) e das pessoas (carne e cabelo)? Talvez nem importe descobrir o porquê, talvez nos baste sentir a beleza das palavras e sabermos que, enquanto elas estiverem sendo lidas, nós estamos a salvo das inquietações que, no entanto, não se distanciam nem no poema nem no romance. A sombra está presa ao cinto, o peso da prata se faz sentir sobre nossas línguas, incapacitadas de correr com tantas "explosões" consonantais. A ameaça, a violência, a dor estão ali, mas por um breve segundo o verde tremula, a prata ofuca e brilha e nós nos sentimos a salvo de tudo e de todos.
Podemos, assim, esquecer a morte que nos rodeia, e nos colocarmos, como quer o Joaquim Ferreira dos Santos, suburbanamente sentados nas calçadas, admirando o por do sol. Eu, que acredito, se não em horóscopos, no poder mágico das palavras, penso que muito dos males pelos quais passamos são provocados pela imprensa equivocada e sensacionalista. Se não noticiássemos tanto -- não digo calarmos, mas sim transformarmos em foco de atenção -- o mal, talvez ele fosse minorando. Eu morei numa cidade (do tamanho de um botão, como diziam antigamente) cujo jornal noticiava as coisas boas da comunidade. Na primeira página apareciam as vitórias do time, as melhorias da praça, o encanto das flores que voltavam, os aniversários de casamento, as reuniões cívicas. Entrevistavam a motorista do ônibus escolar, que já estava levando a terceira geração à escola. Discutiam a qualidade da merenda. Falavam do sucesso do time de soletração. Dos ensaios do musical que ia ser encenado. Do talento da costureira que tinha criado a nova bandeira dos veteranos. Existia crime, mas este estava sempre na página x, sem manchetes em negrito. Enquanto morei lá houve homicídios inexplicáveis, espancamentos até a morte, roubos, atropelamentos, assaltos, mas tudo estava lá na página x, sem negrito, e todos tínhamos a impressão de vivermos numa cidade tranquila e abençoada. Deixávamos os carros abertos nos estacionamentos, colocávamos as bolsas nos balcões das lojas enquanto olhávamos as mercadorias expostas e nos afastávamos sem medo de sermos saqueados. Ensinávamos aos nossos filhos que não deviam falar com estranhos, nem aceitar caronas ou doces de desconhecidos, mas ninguém olhava para os outros com olhos assustados, sem saber se dali viria a próxima agressão. Parávamos para prestar ajuda quando alguém estava com um pneu furado, ou se alguém caía de sua bicicleta e machucava o joelho. E, quando o fazíamos, podem estar certos de que seríamos notícia de jornal, quase heróis: A senhora fulana socorreu N, de sete anos e meio, que sofreu uma queda da bicicleta ao ir para a escola. E lá estaria a foto da sorridente senhora fulana, ao lado da carinha sofrida da vítima N. E era assim que todos queriam aparecer no jornal, heróis do bem. Ninguém se orgulhava em ser o "rei do gueto", pois este ficaria na página x, sem negrito, enquanto que a senhora F., que todos os anos plantava tulipas no canteiro de sua casa e que fazia a cidade ficar mais bonita graças a isso, não só aparecia orgulhosa, com suas ferramentas de jardinagem, como merecia medalhas da cidade por causa disso. Tinha manchete, foto e medalha. Ganhava placa com seu nome. Sua casa virava atração da cidade, as pessoas diminuíam a marcha de seus carros ao passar em frente aos canteiros radiosos de tulipas, e de outras flores que estufavam suas pétalas orgulhosamente cientes de sua beleza.
Bem, já me estendi demais, e tenho muitas coisas a fazer. Depois de amanhã é o lançamento de meu livro, minha filha chega de fora, durante alguns dias serei o centro das atenções, manchete principal do jornalzinho da cidade -- saibam que, se eu mandar notícias para lá, eles colocarão em destaque, sim : a Senhora B., antiga moradora, lançou seu segundo livro... e estampariam minha foto, para que meus antigos vizinhos pudessem me reconhecer. Se o Paul Newman ainda estivesse vivo, ele olharia as fotos e diria: sabe, acho que cruzei com ela umas duas vezes aqui na cidade... Não, não foi ela a tonta que guardou o sorvete na bolsa quando me viu no Baskin Robbins, até porque eu fui ídolo da mãe dela, e não dela. Mas ela me reconheceu e me sorriu, como uma vizinha simpática, que me ofereceria a pá para retirar a neve caso me encontrasse atolado na estrada, pá que ela, tropicalíssima, sempre carregou no porta-malas, junto de um cobertor, com medo dos invernos e de suas neves...
Nossa! Viajei! Viu no que dá ler horóscopo?
Então, para que eu pense acompanhada no verde, aqui vai um trechinho de Romance Sonambulo (que, aliás, pode ser ouvido no YouTube, no mais lindo castellano)
Verde que te quiero verde
Verde viento. Verde rama
El barco sobre la mar
Y el caballo en la montaña
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda
Verde carne. Verde pello
con ojos de fría plata
Verde que te quiero verde,
bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas
....
Ella sigue en su baranda
Verde carne, pello verde
soñando en la mar amarga.
É um lindo poema, sonoro a mais não poder. Creio que esse poema esteve nas mentes dos escritores latinoamericanos quando iniciaram seus romances... Vejam, por exemplo, o início de um que sei quase que de cor, já que é assunto de minha tese.
Concierto barroco, de Alejo Carpentier
De plata los delgados cuchillos, los finos tenedores; de plata los platos donde un árbol de plata labrada en la concavidad de sus platas recojía el jugo de los asados; de plata los platos fruteros, de tres bandejas redondas, coronadas por una granada de plata; de plata los jarros de vino amartillados por los trabajadores de la plata; de plata los platos pescaderos con su pargo de plata hinchado sobre un entrelazamiento de algas; de plata los saleros, de plata los cascanueces, de plata los cubiletes, de plata las cucharillas con adorno de iniciales....
La plata e el verde se tornam palavras encantatórias, e adquirem um significado muito mais profundo que a cor ou o material. Porque o texto ofusca com seus reflexos prateados, porque o poema vibra com o r de verde que toma conta do mundo (mar e montanha) e das pessoas (carne e cabelo)? Talvez nem importe descobrir o porquê, talvez nos baste sentir a beleza das palavras e sabermos que, enquanto elas estiverem sendo lidas, nós estamos a salvo das inquietações que, no entanto, não se distanciam nem no poema nem no romance. A sombra está presa ao cinto, o peso da prata se faz sentir sobre nossas línguas, incapacitadas de correr com tantas "explosões" consonantais. A ameaça, a violência, a dor estão ali, mas por um breve segundo o verde tremula, a prata ofuca e brilha e nós nos sentimos a salvo de tudo e de todos.
Podemos, assim, esquecer a morte que nos rodeia, e nos colocarmos, como quer o Joaquim Ferreira dos Santos, suburbanamente sentados nas calçadas, admirando o por do sol. Eu, que acredito, se não em horóscopos, no poder mágico das palavras, penso que muito dos males pelos quais passamos são provocados pela imprensa equivocada e sensacionalista. Se não noticiássemos tanto -- não digo calarmos, mas sim transformarmos em foco de atenção -- o mal, talvez ele fosse minorando. Eu morei numa cidade (do tamanho de um botão, como diziam antigamente) cujo jornal noticiava as coisas boas da comunidade. Na primeira página apareciam as vitórias do time, as melhorias da praça, o encanto das flores que voltavam, os aniversários de casamento, as reuniões cívicas. Entrevistavam a motorista do ônibus escolar, que já estava levando a terceira geração à escola. Discutiam a qualidade da merenda. Falavam do sucesso do time de soletração. Dos ensaios do musical que ia ser encenado. Do talento da costureira que tinha criado a nova bandeira dos veteranos. Existia crime, mas este estava sempre na página x, sem manchetes em negrito. Enquanto morei lá houve homicídios inexplicáveis, espancamentos até a morte, roubos, atropelamentos, assaltos, mas tudo estava lá na página x, sem negrito, e todos tínhamos a impressão de vivermos numa cidade tranquila e abençoada. Deixávamos os carros abertos nos estacionamentos, colocávamos as bolsas nos balcões das lojas enquanto olhávamos as mercadorias expostas e nos afastávamos sem medo de sermos saqueados. Ensinávamos aos nossos filhos que não deviam falar com estranhos, nem aceitar caronas ou doces de desconhecidos, mas ninguém olhava para os outros com olhos assustados, sem saber se dali viria a próxima agressão. Parávamos para prestar ajuda quando alguém estava com um pneu furado, ou se alguém caía de sua bicicleta e machucava o joelho. E, quando o fazíamos, podem estar certos de que seríamos notícia de jornal, quase heróis: A senhora fulana socorreu N, de sete anos e meio, que sofreu uma queda da bicicleta ao ir para a escola. E lá estaria a foto da sorridente senhora fulana, ao lado da carinha sofrida da vítima N. E era assim que todos queriam aparecer no jornal, heróis do bem. Ninguém se orgulhava em ser o "rei do gueto", pois este ficaria na página x, sem negrito, enquanto que a senhora F., que todos os anos plantava tulipas no canteiro de sua casa e que fazia a cidade ficar mais bonita graças a isso, não só aparecia orgulhosa, com suas ferramentas de jardinagem, como merecia medalhas da cidade por causa disso. Tinha manchete, foto e medalha. Ganhava placa com seu nome. Sua casa virava atração da cidade, as pessoas diminuíam a marcha de seus carros ao passar em frente aos canteiros radiosos de tulipas, e de outras flores que estufavam suas pétalas orgulhosamente cientes de sua beleza.
Bem, já me estendi demais, e tenho muitas coisas a fazer. Depois de amanhã é o lançamento de meu livro, minha filha chega de fora, durante alguns dias serei o centro das atenções, manchete principal do jornalzinho da cidade -- saibam que, se eu mandar notícias para lá, eles colocarão em destaque, sim : a Senhora B., antiga moradora, lançou seu segundo livro... e estampariam minha foto, para que meus antigos vizinhos pudessem me reconhecer. Se o Paul Newman ainda estivesse vivo, ele olharia as fotos e diria: sabe, acho que cruzei com ela umas duas vezes aqui na cidade... Não, não foi ela a tonta que guardou o sorvete na bolsa quando me viu no Baskin Robbins, até porque eu fui ídolo da mãe dela, e não dela. Mas ela me reconheceu e me sorriu, como uma vizinha simpática, que me ofereceria a pá para retirar a neve caso me encontrasse atolado na estrada, pá que ela, tropicalíssima, sempre carregou no porta-malas, junto de um cobertor, com medo dos invernos e de suas neves...
Nossa! Viajei! Viu no que dá ler horóscopo?
Friday, October 17, 2008
Bobagens e tendências
Começo pela bobagem: Quis colocar a capa de meu novo livro no Blog, mas não consegui. No entando, quando se clica sobre uma das capas, vai-se ter ao site onde está sendo vendido o novo livro. Quando se clica sobre outra, vai-se ao livro antigo, mas num site que já não dispõe do livro para a venda... Bem, tentei consertar um e outro, mas não consegui. Desculpem-me vocês...
Agora, as tendências:
Quem já leu o novo livro sabe que é um livro triste, falando muito sobre morte. Percebo, porém, que não sou a única a estar escrevendo sobre o assunto, no momento: parece ser uma tendência, pois tudo o que tenho lido ultimamente tem a ver com esse assunto. Li O Fantasma sai de cena, do Philip Roth; li Homem no escuro, do Paul Auster; li A elegância do ouriço, da Muriel Barbery; li o último da Inês Pedrosa, A eternidade e o desejo, falando sobre Vieira; li Le Diable Rouge, de Antoine Rault, uma peça teatral; li O animal agonizante, também do Roth. Em todos esses livros a morte se encontra entronada, uma presença que domina a cena e os pensamentos de todas as personagens. Seria porque os escritores estão mais maduros, mais velhos, mesmo? Philip Roth já está com 75, Paul Auster com 61, a Inês Pedrosa e a Barbery já passaram dos 40, só não sei a idade do Rault. A morte. Chega um momento em que percebemos que ela está sempre a nosso lado, ou talvez em nós mesmos. Companheira silenciosa de viagem, de repente ela quebra seu mutismo e começa a dialogar com nossos planos e sonhos. Especulamos sobre ela, ou imaginamos sua chegada, constatamos as pequenas mortes que sofremos a cada dia, olhamos os estragos que seu anúncio provoca no nosso físico, observamos a agonia dos outros e a nossa própria.
Descobrimos que somente duas coisas nos engrandecem: o amor e a morte. Mas, enquanto um é finito, a outra infinita -- nossa única possibilidade de eternidade é não sendo... Que ironia.
Mas não estou para muitas palavras hoje. As datas tristes me emudecem, eu me recolho e digo adeus, ou olá para quem já se foi. Sei que sou o túmulo de mim mesma, de alguém que foi tão alegre e espontânea e que hoje se encerra num labirinto de astros extintos. Aguardo, relembro, recrio.
Agora, as tendências:
Quem já leu o novo livro sabe que é um livro triste, falando muito sobre morte. Percebo, porém, que não sou a única a estar escrevendo sobre o assunto, no momento: parece ser uma tendência, pois tudo o que tenho lido ultimamente tem a ver com esse assunto. Li O Fantasma sai de cena, do Philip Roth; li Homem no escuro, do Paul Auster; li A elegância do ouriço, da Muriel Barbery; li o último da Inês Pedrosa, A eternidade e o desejo, falando sobre Vieira; li Le Diable Rouge, de Antoine Rault, uma peça teatral; li O animal agonizante, também do Roth. Em todos esses livros a morte se encontra entronada, uma presença que domina a cena e os pensamentos de todas as personagens. Seria porque os escritores estão mais maduros, mais velhos, mesmo? Philip Roth já está com 75, Paul Auster com 61, a Inês Pedrosa e a Barbery já passaram dos 40, só não sei a idade do Rault. A morte. Chega um momento em que percebemos que ela está sempre a nosso lado, ou talvez em nós mesmos. Companheira silenciosa de viagem, de repente ela quebra seu mutismo e começa a dialogar com nossos planos e sonhos. Especulamos sobre ela, ou imaginamos sua chegada, constatamos as pequenas mortes que sofremos a cada dia, olhamos os estragos que seu anúncio provoca no nosso físico, observamos a agonia dos outros e a nossa própria.
Descobrimos que somente duas coisas nos engrandecem: o amor e a morte. Mas, enquanto um é finito, a outra infinita -- nossa única possibilidade de eternidade é não sendo... Que ironia.
Mas não estou para muitas palavras hoje. As datas tristes me emudecem, eu me recolho e digo adeus, ou olá para quem já se foi. Sei que sou o túmulo de mim mesma, de alguém que foi tão alegre e espontânea e que hoje se encerra num labirinto de astros extintos. Aguardo, relembro, recrio.
Thursday, October 09, 2008
Tempora, pontifex, flumen
Três palavras latinas de uma vez... tudo isso para reclamar do tempo, que anda frio e cinzento há muitos dias. Vejam só, lá na França, peguei dias lindos, frios, mas de céu azul, alegria nos canteiros e nos rostos das pessoas. Vou ver se me lembro de como postar as fotos naquele site, como fiz com as de Budapeste, para que meus leitores possam se deleitar com as fotos que tirei em Paris e na Langogne. Modéstia à parte, desta vez tirei umas fotos lindas em Paris. Da cidade, bem entendido. Uns recantos que não são os postais tradicionais, mas que agora me encantam mais do que os velhos chavões. Que, no entanto, continuam me encantando. Qual não foi minha alegria quando descobri que, da janela de meu quarto de hotel, podia ver a Torre Eiffel? Fiquei com água na boca, pois em frente de onde nos hospedamos havia um posto das bicicletas de aluguel. Só que a Renée não sabe andar de bicicleta, daí que andamos mesmo foi de ônibus, ou a pé. Geralmente a pé, mas acabei convencendo a Renée a tomar ônibus, pois adoro andar de ônibus em Paris. Não lmbro se contei dos passeios que fizemos, de nossa ida ao teatro, de nosso pequeno museu Maillol, bem na Rue de Grenelle. Fui lá por causa da resenha da Elegância do ouriço, confesso logo de saída. Pois, se não tivesse escrito sobre a Rue de Grenelle, não teria lembrado do museu de um dos maiores escultores de todos os tempos. Vejam só como a literatura nos enriquece! By the way, o número 7 refere-se a um prédio de esquina onde está a loja-- mega, hiper -- da Prada. Nada a ver com o jardinzinho e a concierge. Esta fui encontrar no prédinho de minha amiga Eliane, na Rue de Surcouf. Ao entrar, lá estava a concierge varrendo o pátio, as flores dando um toque colorido às pedras claras do edifício. Cumprimentei, gentil, mas não passei de um: "bonjour, madame." E subi as escadas pensando em que livro ela estaria lendo escondida em casa. Na verdade, o prédio de minha amiga está dividido em minúsculos apartamentos de quarto e sala, bem distantes do fausto descrito no romance. Mas a atmosfera é a mesma, o silêncio, a polida distância entre os moradores, a elegância discreta não do ouriço, mas da burguesia do 16eme...
Hoje, vendo o jornal, descubro que os magistrados que tomavam conta das pontes sobre o Tibre chamavam-se pontífices, e daí veio o nome do título papal: Pontifex maximus. Não faz muito tempo eu estava lá em Roma, atravessando pontes. Aliás, adoro pontes. Se eu fosse romana, minha grande ambição teria sido ser pontifex. Ou, caso o sexo me impedisse, de ser a mulher de um pontifex. Adoro pontes pelo seu caráter de ligação, de união, de mãos estendidas para o outro. Gosto de colecioná-las -- tenho canções, como, por exemplo: London bridge is falling down...; tenho imagens de pontes modernas, esculturais; tenho filmes: A ponte sobre o rio Kwai; tenho fotos de pontes cobertas, de pontes ruídas, de simples pontes e de pontes simples. Pontes de tábuas, suspensas por entre as copas de árvores, pontes largas ou estreitas, longas ou curtas, simbólicas ou banais. Já passei por muitas pontes na vida. Agora uma faz parte de meus planos: a Rio - Niterói. Passo por ela para ir a UFF, que virou minha Alma Mater.
Pois é assim que termino o blog, hoje, falando na Universidade Federal Fluminense -- flumen, rio, que dá nome à minha cidade bem amada que, mesmo sob neblina e chuva, é sempre dos meus encantos. Adoro estar de volta ao meu cantinho, sentir o perfume do mar, olhar o desenho das montanhas, perceber que o verde das árvores se mantém mesmo sob a chuva que a tudo deixa acinzentado. Ontem, num passeio pelas praias na companhia de Rachel e Nelly, comentávamos sobre as belezas de um dia de chuva, e eu me lembrei de que no Rio, se não temos as quatro estações, temos as "quatro luzes". A luz de verão, impiedosa e cegante, a luz prateada da primavera, a luz cristalina do inverno e a dourada do outono, que esculpe a cidade e seu cenário de maneiras tão diferentes, a cada visita que fazem.
Agora vou ao meu romance, trabalhar, trabalhar, me aquecer com palavras.
Hoje, vendo o jornal, descubro que os magistrados que tomavam conta das pontes sobre o Tibre chamavam-se pontífices, e daí veio o nome do título papal: Pontifex maximus. Não faz muito tempo eu estava lá em Roma, atravessando pontes. Aliás, adoro pontes. Se eu fosse romana, minha grande ambição teria sido ser pontifex. Ou, caso o sexo me impedisse, de ser a mulher de um pontifex. Adoro pontes pelo seu caráter de ligação, de união, de mãos estendidas para o outro. Gosto de colecioná-las -- tenho canções, como, por exemplo: London bridge is falling down...; tenho imagens de pontes modernas, esculturais; tenho filmes: A ponte sobre o rio Kwai; tenho fotos de pontes cobertas, de pontes ruídas, de simples pontes e de pontes simples. Pontes de tábuas, suspensas por entre as copas de árvores, pontes largas ou estreitas, longas ou curtas, simbólicas ou banais. Já passei por muitas pontes na vida. Agora uma faz parte de meus planos: a Rio - Niterói. Passo por ela para ir a UFF, que virou minha Alma Mater.
Pois é assim que termino o blog, hoje, falando na Universidade Federal Fluminense -- flumen, rio, que dá nome à minha cidade bem amada que, mesmo sob neblina e chuva, é sempre dos meus encantos. Adoro estar de volta ao meu cantinho, sentir o perfume do mar, olhar o desenho das montanhas, perceber que o verde das árvores se mantém mesmo sob a chuva que a tudo deixa acinzentado. Ontem, num passeio pelas praias na companhia de Rachel e Nelly, comentávamos sobre as belezas de um dia de chuva, e eu me lembrei de que no Rio, se não temos as quatro estações, temos as "quatro luzes". A luz de verão, impiedosa e cegante, a luz prateada da primavera, a luz cristalina do inverno e a dourada do outono, que esculpe a cidade e seu cenário de maneiras tão diferentes, a cada visita que fazem.
Agora vou ao meu romance, trabalhar, trabalhar, me aquecer com palavras.
Sunday, October 05, 2008
Campanários, araucárias e carinho
Estive, no dia 3, na cidade de Guarapuava, que significa "lobo bravo". Cheguei lá de ônibus, um ônibus confortável, a bem da verdade, limpo e veloz. Paramos algumas vezes no caminho, uma das cidades chama-se Pitanga, mas não vi pitangueiras por lá. Chegamos -- sim, nós já tínhamos virado uma troupe: Rúbia Romani, Ana Ferreira e eu -- e tomamos um táxi com um motorista surdo. Gritamos nosso endereço e ele, depois de algumas confusões, conseguiu nos deixar no SESC. De lá me levaram no hotel, pois as meninas ficaram para fazer uma apresentação à tarde. Eu passei o dia criando uma apresentação em power point. Fiz duas, para platéias diferentes. Enquanto escrevia, o tempo mudava. Resultado, saímos debaixo de chuva e tivemos uma platéia não muito grande, mas interessada, de olhos atentos e respiração sustida, um prazer! Resultado, resolvemos comemorar nosso sucesso com um jantar de despedida, mas cometemos um erro: pedimos um drink antes, um tal de mogit-coco,que nos nocauteou. Pelo menos a mim, que nem sequer consegui comer meu delicioso linguini ao molho de funghi. Porque o restaurante era muito bom: Via Napoli, acho que era esse o nome, provei e estava muito gostoso, mas os dois goles que dei no meu drinque me abateram. Bem, para quem fica tonta com um molho de vinho, dois goles é uma verdadeira esbórnia!
No dia seguinte, a chuva havia se intensificado. Temporal, tão forte que não me animei a atravessar a praça, plantada de araucárias, para visitar a igrejinha de Nossa Senhora de Belém. Ela, porém, não se fez de rogada: nos acompanhou no caminho até Curitiba, numa estrada tornada perigosa por causa da chuva e da neblina. Ao chegar na cidade, não sabíamos nos orientar. As minhas companheiras, embora fossem daqui, são "pedestres", como disse o motorista que, sendo de Guarapuava, não conhecia nem sequer o caminho para o SESC da Esquina, nossa primeira parada. Depois, até a Av. Batel, conseguimos cometer todos os enganos possíveis, inclusive nos metermos na via exclusiva de ônibus. Cheguei em cima da hora, num Quintana lindo, um lugar charmoso e acolhedor, e fui recebida com carinho pelo meu editor, o Rogério Pereira, preocupado com o meu sumiço. Explico: tinha me esquecido de ligar o celular, que tinha ligações dele e de um amigo dos tempos do Guilherme, o Caldeira. Rogério me apresentou a seus amigos, à sua família, ao restaurante, à bela e encantadora Sofia, com narizinho arrebitado e boquinha pronta para o beijo. Como é linda a Sofia, com seus cachinhos dourados e bochechinhas rosadas, contando do cachorro Lúcio e do tio Borges. E lá estavam as belas rosas do Caldeira, com um bilhete encantador dele e da Maria. Depois apareceu o Amauri, meu leitor há dois anos! Obrigada, amigos. E depois ainda vieram a Cidinha e o Claudinor, e minhas companheiras de viagem, que, muito delicadas, depois de matarem as saudades de seus namorados vieram me escutar ler os contos. A Ana, inclusive, trouxe seu amado, e o da Rúbia, trabalhando, não pode comparecer, mas providenciou minha reserva no hotel e me acolheu quando cheguei, e percebi, espantada, que tinha esquecido minha bolsa no Quintana!
Bem, li os contos. Rogério me estimulou a ler A predadora -- e eu li, mais de uma vez. Na primeira, fiqui encabulada -- o conto é muito explícito, acho que chega a ser gráfico -- mas depois perdi a vergonha e, na segunda leitura, para o pessoal da cozinha, até rimos juntos. Prometi escrever um com o cenário da cozinha... Estou só imaginando as besteiras! Acho que eles também. Gabriela, a chef e uma das sócias do restô, é encantadora. Linda além de cozinhar como um anjo. Comi o melhor acarajé de minha vida, juro! E a feijoada...é perfeita. Pena que não pude provar o resto. Dei uma bicadinha no barreado, mas não é um prato que me empolgue muito, que me desculpem os paranaenses. E nem provei as sobremesas variadas, deliciosas de olhar, imagino só de comer... Também li outros contos: O ovo, O carona, Circo erótico e Noivado. E, a cada leitura, o prazer de perceber que as pessoas gostavam, se emocionavam comigo, ou riam comigo, ou se encabulavam também.
Mas meu dia não havia ainda terminado. Vim com a Rúbia para o Hotel Valentini Di Lucca, um apart hotel gracinha, a dois passos do Quintana, na R. Francisco Rocha. Bem, depois de voltar para pegar minha bolsa, pude relaxar um pouco e ficamos na conversa até tarde. A chuva não nos estimulava a sair do hotel, e ficamos vendo e mostrando fotos, conversando e vendo televisão, jantando no próprio apart, até que chegou a hora da saída de seu namorado e minha amiguinha se foi. Eu dormi logo, feliz com tanto carinho recebido num só dia. Pois, além dos meus amigos, os amigos do Rogério e sua família me cumularam de atenções e gentilezas. Adorei a sua esposa Cris, e sua mãe. Me encantei com a Liz Wood, sua filha e as suas fotografias expostas nas paredes do Quintana, retatando com muita sensibilidade e emoção a performance de bailarinos com deficiência motora. Cunhados, sobrinhos, amigos -- como deixar de falar no Odilon e sua Dorianne, que além de me testemunharem seu prazer em me escutar ainda me deram uma homenagem por escrito, feita ali na hora pelo Odilon, que se desculpou pela letra de médico?
Foi um dia maravilhoso e agradeço, de coração, a todos os que me deram tanto carinho e estímulo. Só posso repetir, mil vezes: OBRIGADA!
No dia seguinte, a chuva havia se intensificado. Temporal, tão forte que não me animei a atravessar a praça, plantada de araucárias, para visitar a igrejinha de Nossa Senhora de Belém. Ela, porém, não se fez de rogada: nos acompanhou no caminho até Curitiba, numa estrada tornada perigosa por causa da chuva e da neblina. Ao chegar na cidade, não sabíamos nos orientar. As minhas companheiras, embora fossem daqui, são "pedestres", como disse o motorista que, sendo de Guarapuava, não conhecia nem sequer o caminho para o SESC da Esquina, nossa primeira parada. Depois, até a Av. Batel, conseguimos cometer todos os enganos possíveis, inclusive nos metermos na via exclusiva de ônibus. Cheguei em cima da hora, num Quintana lindo, um lugar charmoso e acolhedor, e fui recebida com carinho pelo meu editor, o Rogério Pereira, preocupado com o meu sumiço. Explico: tinha me esquecido de ligar o celular, que tinha ligações dele e de um amigo dos tempos do Guilherme, o Caldeira. Rogério me apresentou a seus amigos, à sua família, ao restaurante, à bela e encantadora Sofia, com narizinho arrebitado e boquinha pronta para o beijo. Como é linda a Sofia, com seus cachinhos dourados e bochechinhas rosadas, contando do cachorro Lúcio e do tio Borges. E lá estavam as belas rosas do Caldeira, com um bilhete encantador dele e da Maria. Depois apareceu o Amauri, meu leitor há dois anos! Obrigada, amigos. E depois ainda vieram a Cidinha e o Claudinor, e minhas companheiras de viagem, que, muito delicadas, depois de matarem as saudades de seus namorados vieram me escutar ler os contos. A Ana, inclusive, trouxe seu amado, e o da Rúbia, trabalhando, não pode comparecer, mas providenciou minha reserva no hotel e me acolheu quando cheguei, e percebi, espantada, que tinha esquecido minha bolsa no Quintana!
Bem, li os contos. Rogério me estimulou a ler A predadora -- e eu li, mais de uma vez. Na primeira, fiqui encabulada -- o conto é muito explícito, acho que chega a ser gráfico -- mas depois perdi a vergonha e, na segunda leitura, para o pessoal da cozinha, até rimos juntos. Prometi escrever um com o cenário da cozinha... Estou só imaginando as besteiras! Acho que eles também. Gabriela, a chef e uma das sócias do restô, é encantadora. Linda além de cozinhar como um anjo. Comi o melhor acarajé de minha vida, juro! E a feijoada...é perfeita. Pena que não pude provar o resto. Dei uma bicadinha no barreado, mas não é um prato que me empolgue muito, que me desculpem os paranaenses. E nem provei as sobremesas variadas, deliciosas de olhar, imagino só de comer... Também li outros contos: O ovo, O carona, Circo erótico e Noivado. E, a cada leitura, o prazer de perceber que as pessoas gostavam, se emocionavam comigo, ou riam comigo, ou se encabulavam também.
Mas meu dia não havia ainda terminado. Vim com a Rúbia para o Hotel Valentini Di Lucca, um apart hotel gracinha, a dois passos do Quintana, na R. Francisco Rocha. Bem, depois de voltar para pegar minha bolsa, pude relaxar um pouco e ficamos na conversa até tarde. A chuva não nos estimulava a sair do hotel, e ficamos vendo e mostrando fotos, conversando e vendo televisão, jantando no próprio apart, até que chegou a hora da saída de seu namorado e minha amiguinha se foi. Eu dormi logo, feliz com tanto carinho recebido num só dia. Pois, além dos meus amigos, os amigos do Rogério e sua família me cumularam de atenções e gentilezas. Adorei a sua esposa Cris, e sua mãe. Me encantei com a Liz Wood, sua filha e as suas fotografias expostas nas paredes do Quintana, retatando com muita sensibilidade e emoção a performance de bailarinos com deficiência motora. Cunhados, sobrinhos, amigos -- como deixar de falar no Odilon e sua Dorianne, que além de me testemunharem seu prazer em me escutar ainda me deram uma homenagem por escrito, feita ali na hora pelo Odilon, que se desculpou pela letra de médico?
Foi um dia maravilhoso e agradeço, de coração, a todos os que me deram tanto carinho e estímulo. Só posso repetir, mil vezes: OBRIGADA!
Thursday, October 02, 2008
Umuarama
Hoje de manhã, quando a Mauriza estava vindo nos trazer até aqui, fiquei sabendo que Umuarama quer dizer: lugar quente onde os amigos se reúnem, e que a cidade se auto-intitula capital da amizade. Bem, só posso dizer que Umuarama deu uma refrescada para me receber. Já falei da chuva e dos trovões e, como esperava, o plano B da Gislaine funcionou perfeitamente e tivemos um evento sem susto, mas com muito menos público do que o aguardado. Culpa do tempo, que hoje, aqui em Campo Mourão, já desanuviou e está quentinho, com sol aberto. Dei uma passeada pelo centro da cidade, mas estou muito preguiçosa, nem tirei retrato. Há uma enorme igreja, com duas torres, numa grande praça; bastante comércio -- a cidade é grande e próspera--, e belas casas, alguns edifícios, tudo com boa aparência. Meu hotel, embora com Palace no nome, é xinfrim. Mas meu quarto tem ar condicionado e, à frente da janela, uma árvore hospeda um passarinho que deve ser lá de Umuarama -- ele está deliciado com a minha visita e já veio na minha janela um monte de vezes, cantar para mim.
Os jacarandás e as sapipucaias providenciaram um tapete de flores roxas e amarelas daqui até o SESC, para eu passar. No caminho, encontramos o XAXIXÃO : lanche é isso, o resto é sanduíche! Refiz toda a palestra (não consigo repetir todos os dias a mesma coisa), fui ao cabeleireiro, andei bastante, para descontar os últimos dias em que só tenho ficado sentada em carros, trens, aviões, aeroportos, e mais carros e saguões de hotel. Esse é o resumo de minhas atividades. Encontrei com a Daniela do SESC, lindinha, com duas covinhas enfeitando seu sorriso, e um enorme entusiasmo pela primeira feira de livros que ela está organizando. Tuso me pareceu tão bem, que achei que ela era veterana!
Mas, o que mais tem me encantado é a coleção de histórias de amor que tenho escutado. Coisa mais deliciosa, estar no meio de gente que ama e é amada! Olho para os sorrisos, os olhos sonhadores, escuto os suspiros e as histórias, e sinto um grande encantamento. Gislaine, e Mauriza, de histórias tão diferentes, mas igualmente felizes. Ana e Rúbia, uma de casamento marcado, a outra no primeiro mês de namoro. Bira, avô de pouquinho tempo, netinho recém -nascido na distante Maputo, reclamando dos braços vazios, mas com o coração transbordando! E eu falando da morte de Machado de Assis, informando a uns e outros que as últimas palavras de Machado foram (provavelmente) A vida é boa! Tenho que concordar com esse meu velho e querido mestre. Machado, meu querido Machado, engraçado, inteligente, instigante...Receio que não esteja fazendo jus a você! Queria tanto que todos os que me ouvissem saíssem de minhas palaestras com um desejo louco de te conhecer! É só o que desejo, não procuro glórias para mim, mas gostaria de facilitar o encontro das pessoas com a sua obra. Fico contando os enredos dos romances, provocando, seduzindo, fazendo meu papel de serpente às avessas, acreditando piamente que quem morde o fruto que ofereço encontra o caminho do paraíso. Mas nem todos mordem. Percebo, quando falo, que algumas pessoas nunca escutam as outras. Sinto minhas palavras escorrerem e cairem no chão, desaproveitadas. Mas, aí, olho em outra direção, e vejo que minhas frases estão sendo absorvidas como água de chuva.
E agora paro por aqui. Meu vizinho passarinho está de novo em frente à minha janela, me fazendo uma serenata de um dos galhos. Um coro de bentevis faz contracanto, mas fora de minhas vistas. Vou escutar meu concerto, e assistir o balé das folhas, animadas pelo vento que começa a soprar.
Os jacarandás e as sapipucaias providenciaram um tapete de flores roxas e amarelas daqui até o SESC, para eu passar. No caminho, encontramos o XAXIXÃO : lanche é isso, o resto é sanduíche! Refiz toda a palestra (não consigo repetir todos os dias a mesma coisa), fui ao cabeleireiro, andei bastante, para descontar os últimos dias em que só tenho ficado sentada em carros, trens, aviões, aeroportos, e mais carros e saguões de hotel. Esse é o resumo de minhas atividades. Encontrei com a Daniela do SESC, lindinha, com duas covinhas enfeitando seu sorriso, e um enorme entusiasmo pela primeira feira de livros que ela está organizando. Tuso me pareceu tão bem, que achei que ela era veterana!
Mas, o que mais tem me encantado é a coleção de histórias de amor que tenho escutado. Coisa mais deliciosa, estar no meio de gente que ama e é amada! Olho para os sorrisos, os olhos sonhadores, escuto os suspiros e as histórias, e sinto um grande encantamento. Gislaine, e Mauriza, de histórias tão diferentes, mas igualmente felizes. Ana e Rúbia, uma de casamento marcado, a outra no primeiro mês de namoro. Bira, avô de pouquinho tempo, netinho recém -nascido na distante Maputo, reclamando dos braços vazios, mas com o coração transbordando! E eu falando da morte de Machado de Assis, informando a uns e outros que as últimas palavras de Machado foram (provavelmente) A vida é boa! Tenho que concordar com esse meu velho e querido mestre. Machado, meu querido Machado, engraçado, inteligente, instigante...Receio que não esteja fazendo jus a você! Queria tanto que todos os que me ouvissem saíssem de minhas palaestras com um desejo louco de te conhecer! É só o que desejo, não procuro glórias para mim, mas gostaria de facilitar o encontro das pessoas com a sua obra. Fico contando os enredos dos romances, provocando, seduzindo, fazendo meu papel de serpente às avessas, acreditando piamente que quem morde o fruto que ofereço encontra o caminho do paraíso. Mas nem todos mordem. Percebo, quando falo, que algumas pessoas nunca escutam as outras. Sinto minhas palavras escorrerem e cairem no chão, desaproveitadas. Mas, aí, olho em outra direção, e vejo que minhas frases estão sendo absorvidas como água de chuva.
E agora paro por aqui. Meu vizinho passarinho está de novo em frente à minha janela, me fazendo uma serenata de um dos galhos. Um coro de bentevis faz contracanto, mas fora de minhas vistas. Vou escutar meu concerto, e assistir o balé das folhas, animadas pelo vento que começa a soprar.
Wednesday, October 01, 2008
Ventos, raios e trovões
Umuarama, a terra dos ventos uivantes. O sol dos últimos dias transformou-se numa grande tempestade, que se anunciou com um trovão que mais parecia uma bomba explodindo. Nossa. A bela paisagem que eu podia descortinar da janela do hotel, o Caiuá, desapareceu, numa nuvem cinzenta. Até agora recebi a hospitalidade da Laíde, em Maringá, da Marina e do Bira, em Paranavaí e aqui fui recebida pela Gislaine. Gislaine vai casar no mês que vem, no dia 29 de novembro. Cheia de planos e de entusiasmo, ela vai vir nos buscar daqui a pouco, para nos levar à sede do SESC, que tem magníficas instalações aqui na cidade. Tenho a certeza de que, mesmo com toda essa chuva, tudo vai dar certo, pois poucas vezes encontrei uma pessoa tão "administradora"como ela. Sei que até a chuva vai obedecer a sua organização. O SESC de Maringá também é grande e bem instalado. Já o de Paranavaí é pequenino, e as atividades da feira do livro estão ocorrendo na Casa de Cultura. Lá fizemos nossa palestra/espetáculo num teatro com palco, iluminação, mesa de som, todos os trique-triques. É palestra espetáculo porque estou programada junto de duas atrizes, jovens e belas, que estão fazendo uma interpretação artística de Capitu e de O cortiço. Antes de mim apresenta-se a Ana Ferreira, uma Capitu com jeitinho de Ofélia e suas flores... Aí eu falo e terminamos com um balé-cortiço, interpretado pela Rubia Romani e seus slides.
O tema da feira de livros é Literatura e Tecnologia, e até que combinou bem esse nosso coquetel, improvisado, de aula e teatro.
Bem, agora vou me vestir, para ir ao encontro da platéia de Umuarama. Até amanhã.
O tema da feira de livros é Literatura e Tecnologia, e até que combinou bem esse nosso coquetel, improvisado, de aula e teatro.
Bem, agora vou me vestir, para ir ao encontro da platéia de Umuarama. Até amanhã.
Tuesday, September 30, 2008
Novidades
Estou de volta ao Brasil, mas ainda não ao Rio. Estou no belo Paraná, visitando cidades aqui no noroeste do estado. Passei por Curitiba, rapidamente, onde fazia frio, e fui para Maringá. Isso foi ontem, hoje já estou aqui em Paranavaí. Termino o périplo lá em Curitiba, onde serei recebida pelo editor do Jornal Rascunho, no Quintana, "restaurante cultural" que estou ansiosa para conhecer. Só pode ser legal, pois o cardápio, que recebo por e-mail, me faz ficar com água na boca. E os donos são simplesmente o máximo! Meus leitores do Paraná, por favor, apareçam no sábado às duas horas, para a leitura de contos de meu novo livro, sim? Não acham legal, este conceito de restaurante que alimenta o corpo e o espírito ao mesmo tempo?
Bem, fiz ontem uma palestra muito legal para o pessoal do SESC de Maringá. Foi uma conversa sobre Machado, e, como soube que muitas pessoas do EJA (educação de jovens e adultos) estariam presentes, resolvi procurar um texto de Machado que anda meio esquecido,mas que me encantava quando eu era pequena: Um apólogo. Quem lembra da história da discussão entre uma linha e uma agulha, para decidirem quem era mais importante? Foi lega, a reação das pessoas, que descobriram que Machado não era só aquele escritor importante das homenagens, mas um cara que podia escrever coisas simples, que falassem a todos os espíritos. Esse é o problema com os escritores de muita fama, as pessoas ficam achando que, como são grandes nomes, seus textos são difíceis e complicados. Nem sempre isso é verdade. Geralmente, trata-se do contrário, um texto simples, mas de muitos níveis de leitura, e sempre de portas abertas para acolher leitores que venham apenas para se distrair um pouco... e que sempre saem um pouco mais ricos.
Bem, hoje vou dar mais uma trabalhadinha no texto que vou apresentar de noite. Depois conto como foi a apalestra. Ah, a novidade é que os vídeos de Linha de sombra estão no YouTube.
Aqui estão os links, vocês podem ir até lá e votar, classificar, sei lá. E podem contar para os amigos irem lá, dar uma olhada. São os mesmos que vocês já viram aqui, mas assistam de novo, dêem sua opinião, tá bem? http://br.youtube.com/watch?v=nOEmw96dAiE
http://br.youtube.com/watch?v=pFYDodBEyZA
Ah, ia esquecendo: Hoje é dia de ano novo judeu. Então, feliz Rosh Hashaná! Também é Dia da Secretária! Felicidades e beijos a todas, as que conheço e que sempre ajudaram tanto o Guilherme, e todas as outras. E também é dia de Santa Terezinha, aquela freirinha das rosas, tão meiguinha, que desejava passar ao Céu fazendo o bem na Terra ...
Bem, a novidade é que estou escrevendo um romance. Por enquanto, chama-se "Mariana não vive mais aqui". Vai ter umas cartas de amor muito lindas (bem, eu acho) ou muito ridículas, como diria o Fernando Pessoa. Vai ter briga e ciúme entre mãe e filha. Vai ter um pouco de risos, um pouco de lágrimas, essas coisas... E, claro, vai ter um fundinho de literatura. Afinal, tudo o que escrevo, tem uma espécie de homenagem a textos amados que fui lendo pela vida afora.
Bem, agora vou trabalhar no texto da palestra.
Até amanhã, em Umuarama.
Bem, fiz ontem uma palestra muito legal para o pessoal do SESC de Maringá. Foi uma conversa sobre Machado, e, como soube que muitas pessoas do EJA (educação de jovens e adultos) estariam presentes, resolvi procurar um texto de Machado que anda meio esquecido,mas que me encantava quando eu era pequena: Um apólogo. Quem lembra da história da discussão entre uma linha e uma agulha, para decidirem quem era mais importante? Foi lega, a reação das pessoas, que descobriram que Machado não era só aquele escritor importante das homenagens, mas um cara que podia escrever coisas simples, que falassem a todos os espíritos. Esse é o problema com os escritores de muita fama, as pessoas ficam achando que, como são grandes nomes, seus textos são difíceis e complicados. Nem sempre isso é verdade. Geralmente, trata-se do contrário, um texto simples, mas de muitos níveis de leitura, e sempre de portas abertas para acolher leitores que venham apenas para se distrair um pouco... e que sempre saem um pouco mais ricos.
Bem, hoje vou dar mais uma trabalhadinha no texto que vou apresentar de noite. Depois conto como foi a apalestra. Ah, a novidade é que os vídeos de Linha de sombra estão no YouTube.
Aqui estão os links, vocês podem ir até lá e votar, classificar, sei lá. E podem contar para os amigos irem lá, dar uma olhada. São os mesmos que vocês já viram aqui, mas assistam de novo, dêem sua opinião, tá bem? http://br.youtube.com/watch?v=nOEmw96dAiE
http://br.youtube.com/watch?v=pFYDodBEyZA
Ah, ia esquecendo: Hoje é dia de ano novo judeu. Então, feliz Rosh Hashaná! Também é Dia da Secretária! Felicidades e beijos a todas, as que conheço e que sempre ajudaram tanto o Guilherme, e todas as outras. E também é dia de Santa Terezinha, aquela freirinha das rosas, tão meiguinha, que desejava passar ao Céu fazendo o bem na Terra ...
Bem, a novidade é que estou escrevendo um romance. Por enquanto, chama-se "Mariana não vive mais aqui". Vai ter umas cartas de amor muito lindas (bem, eu acho) ou muito ridículas, como diria o Fernando Pessoa. Vai ter briga e ciúme entre mãe e filha. Vai ter um pouco de risos, um pouco de lágrimas, essas coisas... E, claro, vai ter um fundinho de literatura. Afinal, tudo o que escrevo, tem uma espécie de homenagem a textos amados que fui lendo pela vida afora.
Bem, agora vou trabalhar no texto da palestra.
Até amanhã, em Umuarama.
Saturday, September 27, 2008
Douce France
O Aznavour tem uma canção célebre que fala de como Veneza é triste. Eu gostaria de conhecer uma canção que dissesse como Paris é alegre. Em dias de sol, a cidade parece uma festa (Hemingway já disse isso), mas uma festa popular, onde todos saem para passear e sorriem, só pela beleza do dia. A cidade está linda, a Notre Dame, acho que pela primeira vez em minha vida, sem nenhum andaime, toda limpinha, bela, quase que juvenil. Os cavalos do Grand Palais, que foram removidos para limpeza e recolocados no mais brilhante dourado, voltaram à sua pátina verde, o que me alegrou. Estava tão acostumada com esse seu caráter, digamos, marinho, que seu disfarce solar me incomodava... Fui ao teatro, em Montmartre, assistir a uma peça histórica, sobre Mazarin: Le diable rouge. Adorei! Ah, um bom teatro, de verdade, com tudo a que se tem direito, desde cenário deslumbrante a figurino espetacular e, o mais imporante, atores impressionantes! Coisa boa! Na minha última noite, fui assistir a um concerto de cantos gregorianos na Notre Dame. A-do-rei! Várias canções e ainda um bônus: uma das cantigas de Santa Maria, do bom e querido Alfonso X, cantada em galego-português, falando sobre o compositor das canções, Adam de St. Victor. Era a historinha de uma das canções, que foi cantada a seguir, fechando a noite. Um encanto. Nas outras duas noites, nenhuma programação especial. A primeira foi uma noite de descanso, depois de uma longa e desconfortável viagem -- todas as vezes juro que será a última, mas, assim que desembarco, já começo a pensar na próxima, achando que Paris bem vale uma noite sem dormir... Na outra, visitas, trabalho, um pouquinho de cada. Valeu, pois estou com a agenda quase que tranquila.
Agora estou aqui na Langogne, participando de um aniversário que tem comemorações múltiplas: Já jantamos, já passeamos, já almoçamos, e ainda temos uma ceia, hoje à noite. Amanhã, uma maratona. Vou passar o dia viajando. Primeiro, dirijo minha linda e pequenina Fiat alugada, até Lyon. De lá tomo um TGV direto para o aeroporto. Aí tomo um avião para o Rio. Desembarco e tomo outro para Curitiba. Não, ainda não cheguei ao fim. Tomo um outro avião para Maringá e lá faço uma conferência, se conseguirem me manter acordada. Acho que vou ter que tomar umas injeções de cafeína. Na veia.
No dia seguinte, vou para outra cidade no Noroeste do estado, mas esqueci a ordem da viagem: Passo por Paranavaí, por Campo Mourão, por mais outras cujo nome não lembro agora. Termino em Curitiba, onde, no dia 4, farei uma leitura de contos e sessão de autógrafos no Quintana. Convido a todos os meus amigos de Curitiba, que desejarem me ver, para dar uma passada por lá. Venham, vou adorar dar um abraço apertado em todos.
Ah, quando tiver um pouco mais de calma, colocarei aqui as fotos do chateau onde as festas estão se passando.
Agora estou aqui na Langogne, participando de um aniversário que tem comemorações múltiplas: Já jantamos, já passeamos, já almoçamos, e ainda temos uma ceia, hoje à noite. Amanhã, uma maratona. Vou passar o dia viajando. Primeiro, dirijo minha linda e pequenina Fiat alugada, até Lyon. De lá tomo um TGV direto para o aeroporto. Aí tomo um avião para o Rio. Desembarco e tomo outro para Curitiba. Não, ainda não cheguei ao fim. Tomo um outro avião para Maringá e lá faço uma conferência, se conseguirem me manter acordada. Acho que vou ter que tomar umas injeções de cafeína. Na veia.
No dia seguinte, vou para outra cidade no Noroeste do estado, mas esqueci a ordem da viagem: Passo por Paranavaí, por Campo Mourão, por mais outras cujo nome não lembro agora. Termino em Curitiba, onde, no dia 4, farei uma leitura de contos e sessão de autógrafos no Quintana. Convido a todos os meus amigos de Curitiba, que desejarem me ver, para dar uma passada por lá. Venham, vou adorar dar um abraço apertado em todos.
Ah, quando tiver um pouco mais de calma, colocarei aqui as fotos do chateau onde as festas estão se passando.
Wednesday, September 17, 2008
Ela pisava nas flores distraída...
Quando vou para a UFF sempre escolho o caminho mais bonito, margeando nossas belas praias, atravessando o lindo parque do Flamengo, suspendendo-me para ver melhor as torres das igrejas do centro e depois atravessando a ponte e embebendo meus olhos no encantador cenário escolhido pelo Rio e Niterói para se alojarem. Nunca consigo decidir se é mais bonito ir ou voltar...
Essa época do ano, entrando na primavera, me deixa ainda mais deslumbrada, com os belos ipês (sim, acho que são ipês) que, com suas flores cor-de-rosa, formam nuvens que me lembram canções de um amor passado. Ontem, por causa da chuva, as árvores me prestaram uma homenagem diferente e cobriram meu caminho com um tapete de flores, e eu me senti a mais importante pessoa do mundo! Um tapete de flores, suavemente asperjidas à sua frente, que rainha receberá mais bela homenagem?
Meus olhos, bêbados de beleza e de lembranças, só protestam quando avistam o novo cartaz sobre a Rodrigues Alves: Cerveja e futebol?! Como transformaram assim aquele honesto X que serviu de estrela para minha família durante tantos anos? Primeiro o implodiram, marcando o início de sua derrocada. Depois isso: garrafinhas e bolas, que custamos a perceber que não se trata de uma nova campanha de cerveja, e sim da matriz da Xerox! Sic transit gloria mundi! Já que não dá para beber e dirigir, quem sabe dá para beber e trabalhar? Será essa a mensagem? E bola prá frente que atrás vem gente! Os marketeiros da companhia que me desculpem, mas detestei.
Melhor terminar este post pensando nas flores e nas torres do Mosteiro de São Bento. Atentas, elas me esperam no caminho de volta, para se certificarem de tudo correu bem na travessia. As árvores ondeiam seus galhos, numa bênção, e logo estou de novo no aterro. Desta vez é a multidão de pompons amarelos das acácias mimosas que se movimenta ao me ver passar, sorridentes como adolescentes em dia de festa. Mesmo sob chuva e frio meu coração consegue permanecer aquecido com esses agrados....
Essa época do ano, entrando na primavera, me deixa ainda mais deslumbrada, com os belos ipês (sim, acho que são ipês) que, com suas flores cor-de-rosa, formam nuvens que me lembram canções de um amor passado. Ontem, por causa da chuva, as árvores me prestaram uma homenagem diferente e cobriram meu caminho com um tapete de flores, e eu me senti a mais importante pessoa do mundo! Um tapete de flores, suavemente asperjidas à sua frente, que rainha receberá mais bela homenagem?
Meus olhos, bêbados de beleza e de lembranças, só protestam quando avistam o novo cartaz sobre a Rodrigues Alves: Cerveja e futebol?! Como transformaram assim aquele honesto X que serviu de estrela para minha família durante tantos anos? Primeiro o implodiram, marcando o início de sua derrocada. Depois isso: garrafinhas e bolas, que custamos a perceber que não se trata de uma nova campanha de cerveja, e sim da matriz da Xerox! Sic transit gloria mundi! Já que não dá para beber e dirigir, quem sabe dá para beber e trabalhar? Será essa a mensagem? E bola prá frente que atrás vem gente! Os marketeiros da companhia que me desculpem, mas detestei.
Melhor terminar este post pensando nas flores e nas torres do Mosteiro de São Bento. Atentas, elas me esperam no caminho de volta, para se certificarem de tudo correu bem na travessia. As árvores ondeiam seus galhos, numa bênção, e logo estou de novo no aterro. Desta vez é a multidão de pompons amarelos das acácias mimosas que se movimenta ao me ver passar, sorridentes como adolescentes em dia de festa. Mesmo sob chuva e frio meu coração consegue permanecer aquecido com esses agrados....
Sunday, September 14, 2008
O outro vídeo
Sei que nem tudo é perfeito, mas sempre podemos melhorar. Enquanto estivermos no jogo, o importante é a gente ir relevando as falhas e aproveitando as coisas boas. Nunca sabemos o bem ou o mal que um dia de chuva pode trazer, nem o que o fraco sopro de ar contido em poucas palavras pode trazer de destruição ou de emoção. Ai, palavras, que estranha potência a vossa, sois de vento, ides no vento ... Então escrevo-as, quem sabe assim elas percam suas arestas, e não firam, só acariciem... Enquanto isso, outros encenam o sofrimento de minhas histórias: Aqui vai o outro vídeo para vocês. Trata-se de uma breve encenação de pedaços de contos tirados de meu livro novo. No vídeo que postei anteriormente, os leitores poderão reconhecer pedaços de dois contos: "Depoimento" e "Ikebana", muito bem mesclados pelos meus amigos cineastas -- segundo minha opinião.
Neste vídeo os trechos foram retirados de "Faxina" e de "O ovo". Vejam o vídeo e indiquem o site aos amigos, por favor. Leiam o livro e recomendem aos amigos, por favor. Esse é o maior agrado que vocês podem me fazer. Obrigada.
Neste vídeo os trechos foram retirados de "Faxina" e de "O ovo". Vejam o vídeo e indiquem o site aos amigos, por favor. Leiam o livro e recomendem aos amigos, por favor. Esse é o maior agrado que vocês podem me fazer. Obrigada.
Não posso mais esperar!
Estava aguardando um sinal verde de meus amigos cineastas, mas não aguento mais esperar para colocar à disposição de meus amigos de blog os trailers de Linha de Sombra. Sabe como é, filho novo, que nos obriga a mil cuidados, que provoca mil esperanças, que nos cansa e nos encanta...
Compartilhem comigo a emoção de assistir os vídeos (que divulgo aqui mesmo sem o sinal verde) e de se maravilharem com o talento da equipe que os realizou. Como uma pequena filmagem envolve gente! Desde a roteirista (Natália Klein) à diretora, ou produtora, (Debora Pessanha) -- me perco entre tantas funções e atribuições. Nos bastidores, uma multidão, mas só me lembro do nome de mais duas pessoas, o Rodrigo Brazão e a Juliana Bach. No entanto, conheci mais duas participantes da equipe e lamento muito essa minha memória cheia de furos. Imaginem: tem alguém com a câmera e mais alguém responsável pela iluminação. Alguém tem que fazer o casting, ou seja, a escolha do elenco, e ainda tem a música, a montagem, os cálculos, o transporte. Depois as pessoas me corrigem, quando digo que escrever é fácil... Fácil em termos de equipamento e técnica material, é claro. Um lápis e um papel, uma varinha e areia, e já está! Anchieta, segundo a tradição, escreveu o primeiro poema brasileiro nas areias de uma praia. Como dizem os italianos, si non è vero... Quer imagem mais linda que o primeiro poema de uma terra sendo escrito na própria terra?
Mas estou escrevendo demais, e nada de vídeo! Então, vamos às imagens, pois é uma delícia essa coisa de misturar a escrita e a imagem e a música, tudo aqui!
Compartilhem comigo a emoção de assistir os vídeos (que divulgo aqui mesmo sem o sinal verde) e de se maravilharem com o talento da equipe que os realizou. Como uma pequena filmagem envolve gente! Desde a roteirista (Natália Klein) à diretora, ou produtora, (Debora Pessanha) -- me perco entre tantas funções e atribuições. Nos bastidores, uma multidão, mas só me lembro do nome de mais duas pessoas, o Rodrigo Brazão e a Juliana Bach. No entanto, conheci mais duas participantes da equipe e lamento muito essa minha memória cheia de furos. Imaginem: tem alguém com a câmera e mais alguém responsável pela iluminação. Alguém tem que fazer o casting, ou seja, a escolha do elenco, e ainda tem a música, a montagem, os cálculos, o transporte. Depois as pessoas me corrigem, quando digo que escrever é fácil... Fácil em termos de equipamento e técnica material, é claro. Um lápis e um papel, uma varinha e areia, e já está! Anchieta, segundo a tradição, escreveu o primeiro poema brasileiro nas areias de uma praia. Como dizem os italianos, si non è vero... Quer imagem mais linda que o primeiro poema de uma terra sendo escrito na própria terra?
Mas estou escrevendo demais, e nada de vídeo! Então, vamos às imagens, pois é uma delícia essa coisa de misturar a escrita e a imagem e a música, tudo aqui!
Saturday, September 13, 2008
Outro mimo
Ainda não tive a chance de comentar as outras coisas que fiz em SP. O casamento, sim, foi por isso que fui lá. Revi amigos, de outra vida e da minha vidinha atual. Fui ao teatro: na sexta fui ao Hamlet e mais uma vez me extasiei com o texto de Shakespeare. Quanta coisa boa, quanta qualidade! Pena que o diretor não tenha entendido o que estava dito. Vejam, há uma verdadeira lição de teatro, as indicações da direção, por assim dizer, naquele famoso trecho "Speak the speech, I pray you..." Hamlet ensina que há de dizer o texto sem gritarias nem grandiloquências, com simplicidade de cenário e de gestos, economia até de voz, elegância. Está tudo lá. E nada disso estava no palco. Desta vez o Aderbal se equivocou: ao invés de usar sua experiência e ensinar teatro aos jovens (e talentosos) atores, que se aventuravam com tanto destemor a representar a peça, resolveu "assinar" a montagem e só conseguiu "assassinar" Shakespeare. Sou da opinião que, sempre que se monta um espetáculo desses aqui no Brasil, é nossa obrigação assistir, para que atores e diretores se sintam estimulados a repetir o projeto e comece a se formar uma tradição. Por isso vou, e sempre aconselho todos a ir. Fui ver Marco Antônio e Cleópatra da Maria Padilha e não me incomodaram as falhas do espetáculo. Mas em Hamlet me incomodaram muito, pois poderia ter sido muito melhor. O talento do Wagner Moura é inegável. Ele não tem é técnica, sua voz não resiste aos longos trechos, mas ele sustenta seu texto e até brilha. Mas essa técnica só pode ser adquirida com a prática, e isso não existe. Mas o que não deve ser feito é criar mais obstáculos para a entrega do ator. Um guarda-roupa comprado na Osklen, que deixou Gertrudes deslumbrada, mais preocupada com seu sapato que com seu drama, e que fez o pobre Hamlet passar toda a peça com jeito de quem precisava uma troca de fralda -- isso poderia ser evitado. As corridas desnecessárias também não precisavam estar ali. O cenário pavoroso -- canteiro de obras do metrô -- não precisava existir. A câmera, enorme, atravancando os atores ---foi...mais ou menos. Se as imagens projetadas no telão tinham relevância e se tornaram um efeito cênico bacana, a câmera era grande demais, atrapalhava. A solução para o fantasma do pai foi ótima. Bom teatro, trabalhando bem o pacto de entendimento entre palco e platéia. A cena da morte de Ofélia também foi bonita, e ali as imagens da câmera foram especialmente belas e relevantes.
Resumindo: quero ver outra peça shakespeareana, e sugiro um Othelo, com o Lázaro Ramos no papel pricipal, e o Wagner ou o Selton como Iago. Acho que convenceriam... A Desdêmona acho que podia ser a Falabela, mesmo. Mas todos eles iam precisar de doses maciças de impostação de voz.
A outra peça que vi foi uma montagem para crianças do Doente Imaginário, do Moliere. Chama-se Dr. Dodói, e tem a ver com o grupo do Nereu, outro irmão em SESC.
No domingo ainda consegui encaixar uma visita ao MAM e apreciar a exposição do Duchamps.
Bem, é só isso. Meu corpo está cansado e precisa de ir para a cama.
Resumindo: quero ver outra peça shakespeareana, e sugiro um Othelo, com o Lázaro Ramos no papel pricipal, e o Wagner ou o Selton como Iago. Acho que convenceriam... A Desdêmona acho que podia ser a Falabela, mesmo. Mas todos eles iam precisar de doses maciças de impostação de voz.
A outra peça que vi foi uma montagem para crianças do Doente Imaginário, do Moliere. Chama-se Dr. Dodói, e tem a ver com o grupo do Nereu, outro irmão em SESC.
No domingo ainda consegui encaixar uma visita ao MAM e apreciar a exposição do Duchamps.
Bem, é só isso. Meu corpo está cansado e precisa de ir para a cama.
Tuesday, September 09, 2008
Um mimo
Este título é tirado de meu dicionário particular. "Presente", no Recife, é "mimo", coisa muito mais carinhosa. Vejam só, a palavra usual se foca em quem dá, é uma maneira de mostrar o comparecimento à festa, de responder à lista de chamada dos amigos... Já o mimo pensa na pessoa que recebe, na alegria que ela vai ter ao receber, no gosto que o outro vai sentir. Muito mais legal, não acham? Então aqui vai o meu mimo para vocês, e eu agradeço ao Alcione Araújo, que foi quem primeiro me mandou essa preciosidade. Na verdade, esse vídeo tem muito a ver com o romance que ele acaba de lançar: Pássaros de vôo curto. Vejam que esse meu amigo tem nome de pássaro, mas só empreende altos vôos. Seu romance é quase uma epopéia, tratando de gente comum. Espero que vocês gostem tanto do vídeo como eu gostei.
Ah! aproveito para relembrar que meu livro já está nas livrarias. Vi em São Paulo e já vi no Rio, também. E o lançamento será no dia 22 de outubro, na Livraria da Travessa, no Leblon.
Ah! aproveito para relembrar que meu livro já está nas livrarias. Vi em São Paulo e já vi no Rio, também. E o lançamento será no dia 22 de outubro, na Livraria da Travessa, no Leblon.
Monday, September 08, 2008
Guardanapinho
Mil coisas para fazer, mas não resisto a um bate-papo virtual. Essas minhas reflexões por escrito já me viciaram, vou mandar fazer um adesivo dizendo I dig my blog!
Fiz uma pausa para o almoço, e peguei um jornal antigo para ler enquanto comia. Descobri esta gracinha de termo: guardanapinho -- designação de beijinho assanhadinho no canto da boca de quem recebe. Achei muito expressivo, e me encantei com o termo. Gosto de palavras, estive pensando em fazer um dicionário pessoal, só de palavras que me agradam. Para beijo, então, já tenho duas entradas, essa do guardanapinho e o cheiro nordestino, que me encantou pela enorme intimidade que cria. Nossos beijinhos cariocas, sempre múltiplos, estalados no ar, são tão superficiais... Hoje de manhã, ao me despedir de meu filho -- que só ia para o trabalho -- fiz uma coisa que costumava fazer com eles e o pai deles, numa vida anterior: peguei sua mão, dei um beijo na palma e fiz que ele fechasse os dedos dizendo: guarda, guarda! E ele ficou, com o punho cerrado, me olhando e nós dois soubemos que esses beijos não foram e não serão desperdiçados, e que o amor existe e que é um jeito muito bom de começar a semana, esse!
Fiz uma pausa para o almoço, e peguei um jornal antigo para ler enquanto comia. Descobri esta gracinha de termo: guardanapinho -- designação de beijinho assanhadinho no canto da boca de quem recebe. Achei muito expressivo, e me encantei com o termo. Gosto de palavras, estive pensando em fazer um dicionário pessoal, só de palavras que me agradam. Para beijo, então, já tenho duas entradas, essa do guardanapinho e o cheiro nordestino, que me encantou pela enorme intimidade que cria. Nossos beijinhos cariocas, sempre múltiplos, estalados no ar, são tão superficiais... Hoje de manhã, ao me despedir de meu filho -- que só ia para o trabalho -- fiz uma coisa que costumava fazer com eles e o pai deles, numa vida anterior: peguei sua mão, dei um beijo na palma e fiz que ele fechasse os dedos dizendo: guarda, guarda! E ele ficou, com o punho cerrado, me olhando e nós dois soubemos que esses beijos não foram e não serão desperdiçados, e que o amor existe e que é um jeito muito bom de começar a semana, esse!
Sunday, September 07, 2008
Casar e morrer em São Paulo
Não sou bairrista. Na verdade, sou fascinada por São Paulo, cidade rica, cheia de museus, de teatros que funcionam todos os dias da semana, de lojas que parecem museus, de parques e represas com repuxos. Mas, desta vez, estou em choque.
Não pelo casamento que fui, num lugar bonito, pois aqui no Rio temos nossas casas de festas lindas, e não ficamos devendo nada a ninguém. Em outros tempos fui a festas paulistas daquelas descritas pelas Revistas Caras e pela Veja -- Numa revista o deslumbre com o luxo, na outra o ultraje com esse mesmo luxo. Eu era a platéia que aquelas pessoas necessitavam, e estava bem contente com meu lugar excêntrico, usufruindo panis et circensis. Mesmo nestas festas continuava acreditando que os cariocas não devíamos nada a ninguém. Afinal, aqui também tinha festa dos Marinhos que, na falta de leões e tigres, colocavam os globais em belas coleiras para exibir aos convidados. E festas de banqueiros que exibiam duquesas e distribuíam pashminas, já que, em janeiro, a temperatura oficial da casa era a da França, para que os duques não derretessem ao serem transplantados para cá...
Mas agora acho que os paulistas realmente conseguiram me deixar, como diriam os americanos, flabbergasted, ou seja, completamente apalermada: Eles inauguraram a primeira casa de festa para mortos. Não estou brincando, deu na Folha. Ou talvez tenha sido no Estadão. Ou provavelmente nos dois jornais, pois uma notícia destas é realmente --- inédita e também inaudita!
Passo a citar:
"Com certeza vai voltar o glamour dos velórios. É a última festa do falecido, então porque não fazer uma despedida alegre?"
Quem disse isso foi a dona da casa de festas macabras, que trajava uma mortalha azul da Daslu. Segundo ela, era muito melhor ir para sua casa de festa do que para o Cemitério do Araçá, onde há ratos e os convidados nunca sabem se entraram no velório certo.
Gente, não estou inventando! A casa de festas funéreas tem quatro ambientes: São Paulo, Roma, Paris e New York. Neste último há uma saída para uma varanda com elevador, por onde passa "o caixão para que ninguém o veja." Donde se conclui que o morto é apenas um detalhe. E isso se confirma pela existência de "sala do teretetê, porque a pessoa não vai ficar o tempo todo em cima do falecido". Na opinião dos vivos, aliás, dos vivíssimos, "o morto ficará feliz de ver todo esse conforto". Pudera! Pois se, já que ninguém vai ficar em cima do falecido, para não incomodá-lo, faz parte do mobiliário uma TV de plasma, de muitas polegadas, onde o morto poderá rever os melhores momentos de sua própria vida, ou, se preferir, um show da Madona, ou até mesmo do Elvis, aquele que não morreu.
Com isso tudo, não há dúvidas que dona Milena "Mortícia" Romano "vai mudar o conceito de morte em SP, vai deixar o velório uma coisa fashion".
É isso aí, dona Funérea! Desejo que seus clientes morram logo. E acho que, se ao invés de distribuir "bem-velados", a senhora der uma tacinha de cicuta bem gelada aos seus convidados, sua casa de festas vai bombar!
Outra hora falo do Hamlet e do Dr. Dodói, as peças que assisti. Agora deixo vocês, morrendo de rir.
Não pelo casamento que fui, num lugar bonito, pois aqui no Rio temos nossas casas de festas lindas, e não ficamos devendo nada a ninguém. Em outros tempos fui a festas paulistas daquelas descritas pelas Revistas Caras e pela Veja -- Numa revista o deslumbre com o luxo, na outra o ultraje com esse mesmo luxo. Eu era a platéia que aquelas pessoas necessitavam, e estava bem contente com meu lugar excêntrico, usufruindo panis et circensis. Mesmo nestas festas continuava acreditando que os cariocas não devíamos nada a ninguém. Afinal, aqui também tinha festa dos Marinhos que, na falta de leões e tigres, colocavam os globais em belas coleiras para exibir aos convidados. E festas de banqueiros que exibiam duquesas e distribuíam pashminas, já que, em janeiro, a temperatura oficial da casa era a da França, para que os duques não derretessem ao serem transplantados para cá...
Mas agora acho que os paulistas realmente conseguiram me deixar, como diriam os americanos, flabbergasted, ou seja, completamente apalermada: Eles inauguraram a primeira casa de festa para mortos. Não estou brincando, deu na Folha. Ou talvez tenha sido no Estadão. Ou provavelmente nos dois jornais, pois uma notícia destas é realmente --- inédita e também inaudita!
Passo a citar:
"Com certeza vai voltar o glamour dos velórios. É a última festa do falecido, então porque não fazer uma despedida alegre?"
Quem disse isso foi a dona da casa de festas macabras, que trajava uma mortalha azul da Daslu. Segundo ela, era muito melhor ir para sua casa de festa do que para o Cemitério do Araçá, onde há ratos e os convidados nunca sabem se entraram no velório certo.
Gente, não estou inventando! A casa de festas funéreas tem quatro ambientes: São Paulo, Roma, Paris e New York. Neste último há uma saída para uma varanda com elevador, por onde passa "o caixão para que ninguém o veja." Donde se conclui que o morto é apenas um detalhe. E isso se confirma pela existência de "sala do teretetê, porque a pessoa não vai ficar o tempo todo em cima do falecido". Na opinião dos vivos, aliás, dos vivíssimos, "o morto ficará feliz de ver todo esse conforto". Pudera! Pois se, já que ninguém vai ficar em cima do falecido, para não incomodá-lo, faz parte do mobiliário uma TV de plasma, de muitas polegadas, onde o morto poderá rever os melhores momentos de sua própria vida, ou, se preferir, um show da Madona, ou até mesmo do Elvis, aquele que não morreu.
Com isso tudo, não há dúvidas que dona Milena "Mortícia" Romano "vai mudar o conceito de morte em SP, vai deixar o velório uma coisa fashion".
É isso aí, dona Funérea! Desejo que seus clientes morram logo. E acho que, se ao invés de distribuir "bem-velados", a senhora der uma tacinha de cicuta bem gelada aos seus convidados, sua casa de festas vai bombar!
Outra hora falo do Hamlet e do Dr. Dodói, as peças que assisti. Agora deixo vocês, morrendo de rir.
Friday, September 05, 2008
De ratos e homens
Aproveito o título do Steinbeck para comentar o post de meu amigo Guido. Proust nasceu em 1871, portanto sua mãe sofreu, durante a gravidez, essas inconveniências da guerra. Tanto que foi por isso que nosso querido escritor nasceu em Auteil, que na época era uma cidade satélite, não um bairro de Paris, como é agora. Para fugir da escassez em Paris, Mme Proust se refugiou na casa de um irmão de sua mãe. Só que Marcel sempre foi uma criança frágil e nervosa, e seus parentes diziam que o temperamento dele era consequência do clima de insegurança e perigo durante a gestação. Se este fosse mesmo o caso, nossa cidade devia ser uma habitada por pessoas frágeis e nervosas, pois estamos vivendo um clima de guerra civil há muitos anos. É que a gente vai perdendo a sensibilidade, e só se dá conta de como estamos assustados quando nos afastamos por um tempo daqui, e parece que relaxamos, nos humanizamos.
Adorei o versinho do Hugo. Mas, acho que meu favorito entre os versos de Hugo é O sonho de Booz (já não sei mais o nome direito) com uma das mais belas imagens da lua que já li. Só que, minha memória me trai, e eu já não posso citar o verso tão lindo. Leiam o poema, vale a pena procurar. É longo, descritivo, comovente. Victor Hugo nos seus melhores momentos. Eu, no entanto, sempre adorei seus romances, que li lá pelos onze ou doze , idade mesmo certa para ler 93, Os miseráveis, O corcunda de Notre Dame. Quando, depois, li O perfume, só lembrava das descrições do Pátio dos Milagres e de sua mistura de seres sub-humanos. Nesta época também li Dickens. David Copperfield, para ser mais precisa. Li mais de uma vez, esse livro, saboreando ora um ora outro personagem. Uriah Heep, Mr. Micawber, Dora... Ah, se eu tivesse um centavo pelas lágrimas que já derramei lendo... David Copperfield e Amor de Perdição devem ter sido os que mais me fizeram chorar.
Acabo de receber o presente de um escritor uruguaio que conheci outro dia, na Argumento: Diego Bracco. Ele me mandou seu romance, María de Sanabria, chefe de uma lendária expedição feminina que atravessou o Atlântico, saindo da Espanha e com destino ao Rio da Prata. Ai, a minha pilha de livros. Que loucura! Está cada dia maior. Mas vou ler, é só ter um pouco de calma. Amanhã parto para SP, para um casamento, e aproveito para ver Hamlet. No avião, escolherei um livro mais fininho. Desisti do Robbe-Grillet (muito século XVIII demais), terminei o Roth, mas tenho à minha espera Manguel, G. Bernardo, B de Carvalho, Franck, Plosk e agora Bracco e um inédito de André de Leones e outro de A. Tojal. Isso para não falar no Vieira, que está me contemplando sizudamente, com ares de reprovação pelo meu descuido. Tchau, vou ler. E fazer as malas.
Adorei o versinho do Hugo. Mas, acho que meu favorito entre os versos de Hugo é O sonho de Booz (já não sei mais o nome direito) com uma das mais belas imagens da lua que já li. Só que, minha memória me trai, e eu já não posso citar o verso tão lindo. Leiam o poema, vale a pena procurar. É longo, descritivo, comovente. Victor Hugo nos seus melhores momentos. Eu, no entanto, sempre adorei seus romances, que li lá pelos onze ou doze , idade mesmo certa para ler 93, Os miseráveis, O corcunda de Notre Dame. Quando, depois, li O perfume, só lembrava das descrições do Pátio dos Milagres e de sua mistura de seres sub-humanos. Nesta época também li Dickens. David Copperfield, para ser mais precisa. Li mais de uma vez, esse livro, saboreando ora um ora outro personagem. Uriah Heep, Mr. Micawber, Dora... Ah, se eu tivesse um centavo pelas lágrimas que já derramei lendo... David Copperfield e Amor de Perdição devem ter sido os que mais me fizeram chorar.
Acabo de receber o presente de um escritor uruguaio que conheci outro dia, na Argumento: Diego Bracco. Ele me mandou seu romance, María de Sanabria, chefe de uma lendária expedição feminina que atravessou o Atlântico, saindo da Espanha e com destino ao Rio da Prata. Ai, a minha pilha de livros. Que loucura! Está cada dia maior. Mas vou ler, é só ter um pouco de calma. Amanhã parto para SP, para um casamento, e aproveito para ver Hamlet. No avião, escolherei um livro mais fininho. Desisti do Robbe-Grillet (muito século XVIII demais), terminei o Roth, mas tenho à minha espera Manguel, G. Bernardo, B de Carvalho, Franck, Plosk e agora Bracco e um inédito de André de Leones e outro de A. Tojal. Isso para não falar no Vieira, que está me contemplando sizudamente, com ares de reprovação pelo meu descuido. Tchau, vou ler. E fazer as malas.
Wednesday, September 03, 2008
Literatura e amizade
Vera Helena, leitora e amiga, em seu último comentário tocou num ponto que sempre chamou minha atenção. Quem convive comigo sabe que, volta e meia, falo sobre isso -- a intimidade que se estabelece entre leitor e autor. Quando lemos algumas obras, entramos em tal sintonia com as palavras lidas, com os sentimentos retratados, com as opiniões externadas que passamos a "amar" ou "odiar" o autor.
Tenho alguns autores que me "tocam" como se eu fosse um instrumento -- posso gemer profundamente como um violoncelo, assobiar alegre como uma flauta, ondear em êxtase como uma harpa, sei lá, uma orquestra toda (deixo meu amado piano de fora, pois cada vez me vejo mais incapaz de produzir belos sons no teclado, embora meu incansável professor ache que vou aprender a peça de Katchaturian que ele está me ensinando).
Voltando ao assunto em questão, às vezes fecho o livro e tenho vontade de telefonar para o autor, achando que ele, ou ela, é a única pessoa no mundo que me compreende. Claro que eu não faria isso, primeiro porque sou meio maluca e cada vez uso menos o telefone. Não ligo para ninguém, é uma dificuldade quando tenho que chamar um técnico para consertar uma máquina, ou pedir uma pizza para não morrer de fome. Adoro quando me ligam, principalmente quando é uma ligação para me contar uma coisa. Por exemplo, quando falto a uma reunião, A Rachel me liga para me contar seus comentários, e aí conta coisas, do dia, da semana, dos anos quarenta... podia ficar conversando com ela a tarde toda. Porque a minha loucura é a seguinte: nunca sei se a outra pessoa pode me atender naquele momento, ou se preferia estar vendo novela, ou comendo uma torta de chocolate, ou lendo um livro... Fico atemorizada de que, do outro lado da linha, meu interlocutor fique fazendo aquelas caras de "dai-me paciência, ó Deus, é aquela chata de novo!" para alguém que esteja com ela/ele e eu esteja interrompendo. Acho que sou a única desocupada e solitária que existe no mundo... Sou mais do que maluca.
Volto mais uma vez ao assunto -- imaginem, então, o que poderia acontecer se, por um milagre, eu terminasse de ler um trecho de Proust e, por alguma tecnologia, pressionasse algumas teclas e ele me atendesse do outro lado: já começaria com um problema, pois meu francês atroz iria chocar esse autor absolutamente apaixonado por sua língua natal. E eu aqui, com sotaque, com essa minha inabilidade para falar e minha voz que continua infantil apesar de a infância ter ficado há muitas primaveras atrás, dizendo a ele que tinha adorado o trecho da múmia.
Como? O quê? Quem está falando?
E eu explicando que ele não me conhecia, que era impossível ele me conhecer pois eu estava vivendo no século XXI. Eu não era memória involuntária, era o futuro involuntário dele...
Minha voz, desmaterializada, falando coisas incompreensíveis e ele, como no episódio das telefonistas, se concentrando tanto no som de minha voz que conseguiria ver o que as pessoas com quem eu cruzo na rua não vêem: meu eu verdadeiro, com suas dores, seus temores, suas alegrias...
Ele até se compadeceria de mim, mas como poderíamos estabelecer um contato maior? Homem de outro século, de um mundo já extinto, somente sua sensibilidade e suas palavras sobrevivendo numa teia sutil que se estende de cérebro a cérebro através das idades...
Tento de novo. Desligo Proust e ligo para Mia Couto -- vivo e lindo, desta vez sou atrapalhada pela timidez que o encantamento pela figura do homem provoca. Não importa que eu quisesse agradecer por sentir que ele compreende o que vai dentro de minha alma, e que me estenda a mão e me ofereça esperança mesmo nas páginas mais tristes. Desligo antes mesmo que ele atenda o telefone, e fico sem saber se ele diria "estáaa?"(ou "estou", ou "sim?"), como sei que os portugueses de Portugal costumam fazer ao atender o telefone. Seria diferente o hábito em Moçambique? Penso em ligar para uma mulher. A Inês Pedrosa, talvez. Não -- muito dinâmica, ela não combinaria com minhas hesitações. Só nas páginas dela é que encontro os caminhos que podem nos ligar, sua tenacidade, a linha reta de seu desejo enfrentando ausências e a morte.
Então desisto dos telefones e volto ao aconchego dos livros. Penso no título de um livro de contos do Ian McEwan -- Between sheets, e na sua ambiguidade: sheets podem ser folhas de papel, mas também podem ser lençóis -- um livro é como um leito aquecido, com lençóis macios e cheirosos, onde a gente se sente abraçar por um amante, onde nosso corpo se rasga para trazer ao mundo um novo ser, onde aguardamos que a febre passe, que a dor sossegue, que a morte chegue... Fico entre lençóis e folhas de papel...
Tenho alguns autores que me "tocam" como se eu fosse um instrumento -- posso gemer profundamente como um violoncelo, assobiar alegre como uma flauta, ondear em êxtase como uma harpa, sei lá, uma orquestra toda (deixo meu amado piano de fora, pois cada vez me vejo mais incapaz de produzir belos sons no teclado, embora meu incansável professor ache que vou aprender a peça de Katchaturian que ele está me ensinando).
Voltando ao assunto em questão, às vezes fecho o livro e tenho vontade de telefonar para o autor, achando que ele, ou ela, é a única pessoa no mundo que me compreende. Claro que eu não faria isso, primeiro porque sou meio maluca e cada vez uso menos o telefone. Não ligo para ninguém, é uma dificuldade quando tenho que chamar um técnico para consertar uma máquina, ou pedir uma pizza para não morrer de fome. Adoro quando me ligam, principalmente quando é uma ligação para me contar uma coisa. Por exemplo, quando falto a uma reunião, A Rachel me liga para me contar seus comentários, e aí conta coisas, do dia, da semana, dos anos quarenta... podia ficar conversando com ela a tarde toda. Porque a minha loucura é a seguinte: nunca sei se a outra pessoa pode me atender naquele momento, ou se preferia estar vendo novela, ou comendo uma torta de chocolate, ou lendo um livro... Fico atemorizada de que, do outro lado da linha, meu interlocutor fique fazendo aquelas caras de "dai-me paciência, ó Deus, é aquela chata de novo!" para alguém que esteja com ela/ele e eu esteja interrompendo. Acho que sou a única desocupada e solitária que existe no mundo... Sou mais do que maluca.
Volto mais uma vez ao assunto -- imaginem, então, o que poderia acontecer se, por um milagre, eu terminasse de ler um trecho de Proust e, por alguma tecnologia, pressionasse algumas teclas e ele me atendesse do outro lado: já começaria com um problema, pois meu francês atroz iria chocar esse autor absolutamente apaixonado por sua língua natal. E eu aqui, com sotaque, com essa minha inabilidade para falar e minha voz que continua infantil apesar de a infância ter ficado há muitas primaveras atrás, dizendo a ele que tinha adorado o trecho da múmia.
Como? O quê? Quem está falando?
E eu explicando que ele não me conhecia, que era impossível ele me conhecer pois eu estava vivendo no século XXI. Eu não era memória involuntária, era o futuro involuntário dele...
Minha voz, desmaterializada, falando coisas incompreensíveis e ele, como no episódio das telefonistas, se concentrando tanto no som de minha voz que conseguiria ver o que as pessoas com quem eu cruzo na rua não vêem: meu eu verdadeiro, com suas dores, seus temores, suas alegrias...
Ele até se compadeceria de mim, mas como poderíamos estabelecer um contato maior? Homem de outro século, de um mundo já extinto, somente sua sensibilidade e suas palavras sobrevivendo numa teia sutil que se estende de cérebro a cérebro através das idades...
Tento de novo. Desligo Proust e ligo para Mia Couto -- vivo e lindo, desta vez sou atrapalhada pela timidez que o encantamento pela figura do homem provoca. Não importa que eu quisesse agradecer por sentir que ele compreende o que vai dentro de minha alma, e que me estenda a mão e me ofereça esperança mesmo nas páginas mais tristes. Desligo antes mesmo que ele atenda o telefone, e fico sem saber se ele diria "estáaa?"(ou "estou", ou "sim?"), como sei que os portugueses de Portugal costumam fazer ao atender o telefone. Seria diferente o hábito em Moçambique? Penso em ligar para uma mulher. A Inês Pedrosa, talvez. Não -- muito dinâmica, ela não combinaria com minhas hesitações. Só nas páginas dela é que encontro os caminhos que podem nos ligar, sua tenacidade, a linha reta de seu desejo enfrentando ausências e a morte.
Então desisto dos telefones e volto ao aconchego dos livros. Penso no título de um livro de contos do Ian McEwan -- Between sheets, e na sua ambiguidade: sheets podem ser folhas de papel, mas também podem ser lençóis -- um livro é como um leito aquecido, com lençóis macios e cheirosos, onde a gente se sente abraçar por um amante, onde nosso corpo se rasga para trazer ao mundo um novo ser, onde aguardamos que a febre passe, que a dor sossegue, que a morte chegue... Fico entre lençóis e folhas de papel...
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