Ainda não tive a chance de comentar as outras coisas que fiz em SP. O casamento, sim, foi por isso que fui lá. Revi amigos, de outra vida e da minha vidinha atual. Fui ao teatro: na sexta fui ao Hamlet e mais uma vez me extasiei com o texto de Shakespeare. Quanta coisa boa, quanta qualidade! Pena que o diretor não tenha entendido o que estava dito. Vejam, há uma verdadeira lição de teatro, as indicações da direção, por assim dizer, naquele famoso trecho "Speak the speech, I pray you..." Hamlet ensina que há de dizer o texto sem gritarias nem grandiloquências, com simplicidade de cenário e de gestos, economia até de voz, elegância. Está tudo lá. E nada disso estava no palco. Desta vez o Aderbal se equivocou: ao invés de usar sua experiência e ensinar teatro aos jovens (e talentosos) atores, que se aventuravam com tanto destemor a representar a peça, resolveu "assinar" a montagem e só conseguiu "assassinar" Shakespeare. Sou da opinião que, sempre que se monta um espetáculo desses aqui no Brasil, é nossa obrigação assistir, para que atores e diretores se sintam estimulados a repetir o projeto e comece a se formar uma tradição. Por isso vou, e sempre aconselho todos a ir. Fui ver Marco Antônio e Cleópatra da Maria Padilha e não me incomodaram as falhas do espetáculo. Mas em Hamlet me incomodaram muito, pois poderia ter sido muito melhor. O talento do Wagner Moura é inegável. Ele não tem é técnica, sua voz não resiste aos longos trechos, mas ele sustenta seu texto e até brilha. Mas essa técnica só pode ser adquirida com a prática, e isso não existe. Mas o que não deve ser feito é criar mais obstáculos para a entrega do ator. Um guarda-roupa comprado na Osklen, que deixou Gertrudes deslumbrada, mais preocupada com seu sapato que com seu drama, e que fez o pobre Hamlet passar toda a peça com jeito de quem precisava uma troca de fralda -- isso poderia ser evitado. As corridas desnecessárias também não precisavam estar ali. O cenário pavoroso -- canteiro de obras do metrô -- não precisava existir. A câmera, enorme, atravancando os atores ---foi...mais ou menos. Se as imagens projetadas no telão tinham relevância e se tornaram um efeito cênico bacana, a câmera era grande demais, atrapalhava. A solução para o fantasma do pai foi ótima. Bom teatro, trabalhando bem o pacto de entendimento entre palco e platéia. A cena da morte de Ofélia também foi bonita, e ali as imagens da câmera foram especialmente belas e relevantes.
Resumindo: quero ver outra peça shakespeareana, e sugiro um Othelo, com o Lázaro Ramos no papel pricipal, e o Wagner ou o Selton como Iago. Acho que convenceriam... A Desdêmona acho que podia ser a Falabela, mesmo. Mas todos eles iam precisar de doses maciças de impostação de voz.
A outra peça que vi foi uma montagem para crianças do Doente Imaginário, do Moliere. Chama-se Dr. Dodói, e tem a ver com o grupo do Nereu, outro irmão em SESC.
No domingo ainda consegui encaixar uma visita ao MAM e apreciar a exposição do Duchamps.
Bem, é só isso. Meu corpo está cansado e precisa de ir para a cama.
Saturday, September 13, 2008
Tuesday, September 09, 2008
Um mimo
Este título é tirado de meu dicionário particular. "Presente", no Recife, é "mimo", coisa muito mais carinhosa. Vejam só, a palavra usual se foca em quem dá, é uma maneira de mostrar o comparecimento à festa, de responder à lista de chamada dos amigos... Já o mimo pensa na pessoa que recebe, na alegria que ela vai ter ao receber, no gosto que o outro vai sentir. Muito mais legal, não acham? Então aqui vai o meu mimo para vocês, e eu agradeço ao Alcione Araújo, que foi quem primeiro me mandou essa preciosidade. Na verdade, esse vídeo tem muito a ver com o romance que ele acaba de lançar: Pássaros de vôo curto. Vejam que esse meu amigo tem nome de pássaro, mas só empreende altos vôos. Seu romance é quase uma epopéia, tratando de gente comum. Espero que vocês gostem tanto do vídeo como eu gostei.
Ah! aproveito para relembrar que meu livro já está nas livrarias. Vi em São Paulo e já vi no Rio, também. E o lançamento será no dia 22 de outubro, na Livraria da Travessa, no Leblon.
Ah! aproveito para relembrar que meu livro já está nas livrarias. Vi em São Paulo e já vi no Rio, também. E o lançamento será no dia 22 de outubro, na Livraria da Travessa, no Leblon.
Monday, September 08, 2008
Guardanapinho
Mil coisas para fazer, mas não resisto a um bate-papo virtual. Essas minhas reflexões por escrito já me viciaram, vou mandar fazer um adesivo dizendo I dig my blog!
Fiz uma pausa para o almoço, e peguei um jornal antigo para ler enquanto comia. Descobri esta gracinha de termo: guardanapinho -- designação de beijinho assanhadinho no canto da boca de quem recebe. Achei muito expressivo, e me encantei com o termo. Gosto de palavras, estive pensando em fazer um dicionário pessoal, só de palavras que me agradam. Para beijo, então, já tenho duas entradas, essa do guardanapinho e o cheiro nordestino, que me encantou pela enorme intimidade que cria. Nossos beijinhos cariocas, sempre múltiplos, estalados no ar, são tão superficiais... Hoje de manhã, ao me despedir de meu filho -- que só ia para o trabalho -- fiz uma coisa que costumava fazer com eles e o pai deles, numa vida anterior: peguei sua mão, dei um beijo na palma e fiz que ele fechasse os dedos dizendo: guarda, guarda! E ele ficou, com o punho cerrado, me olhando e nós dois soubemos que esses beijos não foram e não serão desperdiçados, e que o amor existe e que é um jeito muito bom de começar a semana, esse!
Fiz uma pausa para o almoço, e peguei um jornal antigo para ler enquanto comia. Descobri esta gracinha de termo: guardanapinho -- designação de beijinho assanhadinho no canto da boca de quem recebe. Achei muito expressivo, e me encantei com o termo. Gosto de palavras, estive pensando em fazer um dicionário pessoal, só de palavras que me agradam. Para beijo, então, já tenho duas entradas, essa do guardanapinho e o cheiro nordestino, que me encantou pela enorme intimidade que cria. Nossos beijinhos cariocas, sempre múltiplos, estalados no ar, são tão superficiais... Hoje de manhã, ao me despedir de meu filho -- que só ia para o trabalho -- fiz uma coisa que costumava fazer com eles e o pai deles, numa vida anterior: peguei sua mão, dei um beijo na palma e fiz que ele fechasse os dedos dizendo: guarda, guarda! E ele ficou, com o punho cerrado, me olhando e nós dois soubemos que esses beijos não foram e não serão desperdiçados, e que o amor existe e que é um jeito muito bom de começar a semana, esse!
Sunday, September 07, 2008
Casar e morrer em São Paulo
Não sou bairrista. Na verdade, sou fascinada por São Paulo, cidade rica, cheia de museus, de teatros que funcionam todos os dias da semana, de lojas que parecem museus, de parques e represas com repuxos. Mas, desta vez, estou em choque.
Não pelo casamento que fui, num lugar bonito, pois aqui no Rio temos nossas casas de festas lindas, e não ficamos devendo nada a ninguém. Em outros tempos fui a festas paulistas daquelas descritas pelas Revistas Caras e pela Veja -- Numa revista o deslumbre com o luxo, na outra o ultraje com esse mesmo luxo. Eu era a platéia que aquelas pessoas necessitavam, e estava bem contente com meu lugar excêntrico, usufruindo panis et circensis. Mesmo nestas festas continuava acreditando que os cariocas não devíamos nada a ninguém. Afinal, aqui também tinha festa dos Marinhos que, na falta de leões e tigres, colocavam os globais em belas coleiras para exibir aos convidados. E festas de banqueiros que exibiam duquesas e distribuíam pashminas, já que, em janeiro, a temperatura oficial da casa era a da França, para que os duques não derretessem ao serem transplantados para cá...
Mas agora acho que os paulistas realmente conseguiram me deixar, como diriam os americanos, flabbergasted, ou seja, completamente apalermada: Eles inauguraram a primeira casa de festa para mortos. Não estou brincando, deu na Folha. Ou talvez tenha sido no Estadão. Ou provavelmente nos dois jornais, pois uma notícia destas é realmente --- inédita e também inaudita!
Passo a citar:
"Com certeza vai voltar o glamour dos velórios. É a última festa do falecido, então porque não fazer uma despedida alegre?"
Quem disse isso foi a dona da casa de festas macabras, que trajava uma mortalha azul da Daslu. Segundo ela, era muito melhor ir para sua casa de festa do que para o Cemitério do Araçá, onde há ratos e os convidados nunca sabem se entraram no velório certo.
Gente, não estou inventando! A casa de festas funéreas tem quatro ambientes: São Paulo, Roma, Paris e New York. Neste último há uma saída para uma varanda com elevador, por onde passa "o caixão para que ninguém o veja." Donde se conclui que o morto é apenas um detalhe. E isso se confirma pela existência de "sala do teretetê, porque a pessoa não vai ficar o tempo todo em cima do falecido". Na opinião dos vivos, aliás, dos vivíssimos, "o morto ficará feliz de ver todo esse conforto". Pudera! Pois se, já que ninguém vai ficar em cima do falecido, para não incomodá-lo, faz parte do mobiliário uma TV de plasma, de muitas polegadas, onde o morto poderá rever os melhores momentos de sua própria vida, ou, se preferir, um show da Madona, ou até mesmo do Elvis, aquele que não morreu.
Com isso tudo, não há dúvidas que dona Milena "Mortícia" Romano "vai mudar o conceito de morte em SP, vai deixar o velório uma coisa fashion".
É isso aí, dona Funérea! Desejo que seus clientes morram logo. E acho que, se ao invés de distribuir "bem-velados", a senhora der uma tacinha de cicuta bem gelada aos seus convidados, sua casa de festas vai bombar!
Outra hora falo do Hamlet e do Dr. Dodói, as peças que assisti. Agora deixo vocês, morrendo de rir.
Não pelo casamento que fui, num lugar bonito, pois aqui no Rio temos nossas casas de festas lindas, e não ficamos devendo nada a ninguém. Em outros tempos fui a festas paulistas daquelas descritas pelas Revistas Caras e pela Veja -- Numa revista o deslumbre com o luxo, na outra o ultraje com esse mesmo luxo. Eu era a platéia que aquelas pessoas necessitavam, e estava bem contente com meu lugar excêntrico, usufruindo panis et circensis. Mesmo nestas festas continuava acreditando que os cariocas não devíamos nada a ninguém. Afinal, aqui também tinha festa dos Marinhos que, na falta de leões e tigres, colocavam os globais em belas coleiras para exibir aos convidados. E festas de banqueiros que exibiam duquesas e distribuíam pashminas, já que, em janeiro, a temperatura oficial da casa era a da França, para que os duques não derretessem ao serem transplantados para cá...
Mas agora acho que os paulistas realmente conseguiram me deixar, como diriam os americanos, flabbergasted, ou seja, completamente apalermada: Eles inauguraram a primeira casa de festa para mortos. Não estou brincando, deu na Folha. Ou talvez tenha sido no Estadão. Ou provavelmente nos dois jornais, pois uma notícia destas é realmente --- inédita e também inaudita!
Passo a citar:
"Com certeza vai voltar o glamour dos velórios. É a última festa do falecido, então porque não fazer uma despedida alegre?"
Quem disse isso foi a dona da casa de festas macabras, que trajava uma mortalha azul da Daslu. Segundo ela, era muito melhor ir para sua casa de festa do que para o Cemitério do Araçá, onde há ratos e os convidados nunca sabem se entraram no velório certo.
Gente, não estou inventando! A casa de festas funéreas tem quatro ambientes: São Paulo, Roma, Paris e New York. Neste último há uma saída para uma varanda com elevador, por onde passa "o caixão para que ninguém o veja." Donde se conclui que o morto é apenas um detalhe. E isso se confirma pela existência de "sala do teretetê, porque a pessoa não vai ficar o tempo todo em cima do falecido". Na opinião dos vivos, aliás, dos vivíssimos, "o morto ficará feliz de ver todo esse conforto". Pudera! Pois se, já que ninguém vai ficar em cima do falecido, para não incomodá-lo, faz parte do mobiliário uma TV de plasma, de muitas polegadas, onde o morto poderá rever os melhores momentos de sua própria vida, ou, se preferir, um show da Madona, ou até mesmo do Elvis, aquele que não morreu.
Com isso tudo, não há dúvidas que dona Milena "Mortícia" Romano "vai mudar o conceito de morte em SP, vai deixar o velório uma coisa fashion".
É isso aí, dona Funérea! Desejo que seus clientes morram logo. E acho que, se ao invés de distribuir "bem-velados", a senhora der uma tacinha de cicuta bem gelada aos seus convidados, sua casa de festas vai bombar!
Outra hora falo do Hamlet e do Dr. Dodói, as peças que assisti. Agora deixo vocês, morrendo de rir.
Friday, September 05, 2008
De ratos e homens
Aproveito o título do Steinbeck para comentar o post de meu amigo Guido. Proust nasceu em 1871, portanto sua mãe sofreu, durante a gravidez, essas inconveniências da guerra. Tanto que foi por isso que nosso querido escritor nasceu em Auteil, que na época era uma cidade satélite, não um bairro de Paris, como é agora. Para fugir da escassez em Paris, Mme Proust se refugiou na casa de um irmão de sua mãe. Só que Marcel sempre foi uma criança frágil e nervosa, e seus parentes diziam que o temperamento dele era consequência do clima de insegurança e perigo durante a gestação. Se este fosse mesmo o caso, nossa cidade devia ser uma habitada por pessoas frágeis e nervosas, pois estamos vivendo um clima de guerra civil há muitos anos. É que a gente vai perdendo a sensibilidade, e só se dá conta de como estamos assustados quando nos afastamos por um tempo daqui, e parece que relaxamos, nos humanizamos.
Adorei o versinho do Hugo. Mas, acho que meu favorito entre os versos de Hugo é O sonho de Booz (já não sei mais o nome direito) com uma das mais belas imagens da lua que já li. Só que, minha memória me trai, e eu já não posso citar o verso tão lindo. Leiam o poema, vale a pena procurar. É longo, descritivo, comovente. Victor Hugo nos seus melhores momentos. Eu, no entanto, sempre adorei seus romances, que li lá pelos onze ou doze , idade mesmo certa para ler 93, Os miseráveis, O corcunda de Notre Dame. Quando, depois, li O perfume, só lembrava das descrições do Pátio dos Milagres e de sua mistura de seres sub-humanos. Nesta época também li Dickens. David Copperfield, para ser mais precisa. Li mais de uma vez, esse livro, saboreando ora um ora outro personagem. Uriah Heep, Mr. Micawber, Dora... Ah, se eu tivesse um centavo pelas lágrimas que já derramei lendo... David Copperfield e Amor de Perdição devem ter sido os que mais me fizeram chorar.
Acabo de receber o presente de um escritor uruguaio que conheci outro dia, na Argumento: Diego Bracco. Ele me mandou seu romance, María de Sanabria, chefe de uma lendária expedição feminina que atravessou o Atlântico, saindo da Espanha e com destino ao Rio da Prata. Ai, a minha pilha de livros. Que loucura! Está cada dia maior. Mas vou ler, é só ter um pouco de calma. Amanhã parto para SP, para um casamento, e aproveito para ver Hamlet. No avião, escolherei um livro mais fininho. Desisti do Robbe-Grillet (muito século XVIII demais), terminei o Roth, mas tenho à minha espera Manguel, G. Bernardo, B de Carvalho, Franck, Plosk e agora Bracco e um inédito de André de Leones e outro de A. Tojal. Isso para não falar no Vieira, que está me contemplando sizudamente, com ares de reprovação pelo meu descuido. Tchau, vou ler. E fazer as malas.
Adorei o versinho do Hugo. Mas, acho que meu favorito entre os versos de Hugo é O sonho de Booz (já não sei mais o nome direito) com uma das mais belas imagens da lua que já li. Só que, minha memória me trai, e eu já não posso citar o verso tão lindo. Leiam o poema, vale a pena procurar. É longo, descritivo, comovente. Victor Hugo nos seus melhores momentos. Eu, no entanto, sempre adorei seus romances, que li lá pelos onze ou doze , idade mesmo certa para ler 93, Os miseráveis, O corcunda de Notre Dame. Quando, depois, li O perfume, só lembrava das descrições do Pátio dos Milagres e de sua mistura de seres sub-humanos. Nesta época também li Dickens. David Copperfield, para ser mais precisa. Li mais de uma vez, esse livro, saboreando ora um ora outro personagem. Uriah Heep, Mr. Micawber, Dora... Ah, se eu tivesse um centavo pelas lágrimas que já derramei lendo... David Copperfield e Amor de Perdição devem ter sido os que mais me fizeram chorar.
Acabo de receber o presente de um escritor uruguaio que conheci outro dia, na Argumento: Diego Bracco. Ele me mandou seu romance, María de Sanabria, chefe de uma lendária expedição feminina que atravessou o Atlântico, saindo da Espanha e com destino ao Rio da Prata. Ai, a minha pilha de livros. Que loucura! Está cada dia maior. Mas vou ler, é só ter um pouco de calma. Amanhã parto para SP, para um casamento, e aproveito para ver Hamlet. No avião, escolherei um livro mais fininho. Desisti do Robbe-Grillet (muito século XVIII demais), terminei o Roth, mas tenho à minha espera Manguel, G. Bernardo, B de Carvalho, Franck, Plosk e agora Bracco e um inédito de André de Leones e outro de A. Tojal. Isso para não falar no Vieira, que está me contemplando sizudamente, com ares de reprovação pelo meu descuido. Tchau, vou ler. E fazer as malas.
Wednesday, September 03, 2008
Literatura e amizade
Vera Helena, leitora e amiga, em seu último comentário tocou num ponto que sempre chamou minha atenção. Quem convive comigo sabe que, volta e meia, falo sobre isso -- a intimidade que se estabelece entre leitor e autor. Quando lemos algumas obras, entramos em tal sintonia com as palavras lidas, com os sentimentos retratados, com as opiniões externadas que passamos a "amar" ou "odiar" o autor.
Tenho alguns autores que me "tocam" como se eu fosse um instrumento -- posso gemer profundamente como um violoncelo, assobiar alegre como uma flauta, ondear em êxtase como uma harpa, sei lá, uma orquestra toda (deixo meu amado piano de fora, pois cada vez me vejo mais incapaz de produzir belos sons no teclado, embora meu incansável professor ache que vou aprender a peça de Katchaturian que ele está me ensinando).
Voltando ao assunto em questão, às vezes fecho o livro e tenho vontade de telefonar para o autor, achando que ele, ou ela, é a única pessoa no mundo que me compreende. Claro que eu não faria isso, primeiro porque sou meio maluca e cada vez uso menos o telefone. Não ligo para ninguém, é uma dificuldade quando tenho que chamar um técnico para consertar uma máquina, ou pedir uma pizza para não morrer de fome. Adoro quando me ligam, principalmente quando é uma ligação para me contar uma coisa. Por exemplo, quando falto a uma reunião, A Rachel me liga para me contar seus comentários, e aí conta coisas, do dia, da semana, dos anos quarenta... podia ficar conversando com ela a tarde toda. Porque a minha loucura é a seguinte: nunca sei se a outra pessoa pode me atender naquele momento, ou se preferia estar vendo novela, ou comendo uma torta de chocolate, ou lendo um livro... Fico atemorizada de que, do outro lado da linha, meu interlocutor fique fazendo aquelas caras de "dai-me paciência, ó Deus, é aquela chata de novo!" para alguém que esteja com ela/ele e eu esteja interrompendo. Acho que sou a única desocupada e solitária que existe no mundo... Sou mais do que maluca.
Volto mais uma vez ao assunto -- imaginem, então, o que poderia acontecer se, por um milagre, eu terminasse de ler um trecho de Proust e, por alguma tecnologia, pressionasse algumas teclas e ele me atendesse do outro lado: já começaria com um problema, pois meu francês atroz iria chocar esse autor absolutamente apaixonado por sua língua natal. E eu aqui, com sotaque, com essa minha inabilidade para falar e minha voz que continua infantil apesar de a infância ter ficado há muitas primaveras atrás, dizendo a ele que tinha adorado o trecho da múmia.
Como? O quê? Quem está falando?
E eu explicando que ele não me conhecia, que era impossível ele me conhecer pois eu estava vivendo no século XXI. Eu não era memória involuntária, era o futuro involuntário dele...
Minha voz, desmaterializada, falando coisas incompreensíveis e ele, como no episódio das telefonistas, se concentrando tanto no som de minha voz que conseguiria ver o que as pessoas com quem eu cruzo na rua não vêem: meu eu verdadeiro, com suas dores, seus temores, suas alegrias...
Ele até se compadeceria de mim, mas como poderíamos estabelecer um contato maior? Homem de outro século, de um mundo já extinto, somente sua sensibilidade e suas palavras sobrevivendo numa teia sutil que se estende de cérebro a cérebro através das idades...
Tento de novo. Desligo Proust e ligo para Mia Couto -- vivo e lindo, desta vez sou atrapalhada pela timidez que o encantamento pela figura do homem provoca. Não importa que eu quisesse agradecer por sentir que ele compreende o que vai dentro de minha alma, e que me estenda a mão e me ofereça esperança mesmo nas páginas mais tristes. Desligo antes mesmo que ele atenda o telefone, e fico sem saber se ele diria "estáaa?"(ou "estou", ou "sim?"), como sei que os portugueses de Portugal costumam fazer ao atender o telefone. Seria diferente o hábito em Moçambique? Penso em ligar para uma mulher. A Inês Pedrosa, talvez. Não -- muito dinâmica, ela não combinaria com minhas hesitações. Só nas páginas dela é que encontro os caminhos que podem nos ligar, sua tenacidade, a linha reta de seu desejo enfrentando ausências e a morte.
Então desisto dos telefones e volto ao aconchego dos livros. Penso no título de um livro de contos do Ian McEwan -- Between sheets, e na sua ambiguidade: sheets podem ser folhas de papel, mas também podem ser lençóis -- um livro é como um leito aquecido, com lençóis macios e cheirosos, onde a gente se sente abraçar por um amante, onde nosso corpo se rasga para trazer ao mundo um novo ser, onde aguardamos que a febre passe, que a dor sossegue, que a morte chegue... Fico entre lençóis e folhas de papel...
Tenho alguns autores que me "tocam" como se eu fosse um instrumento -- posso gemer profundamente como um violoncelo, assobiar alegre como uma flauta, ondear em êxtase como uma harpa, sei lá, uma orquestra toda (deixo meu amado piano de fora, pois cada vez me vejo mais incapaz de produzir belos sons no teclado, embora meu incansável professor ache que vou aprender a peça de Katchaturian que ele está me ensinando).
Voltando ao assunto em questão, às vezes fecho o livro e tenho vontade de telefonar para o autor, achando que ele, ou ela, é a única pessoa no mundo que me compreende. Claro que eu não faria isso, primeiro porque sou meio maluca e cada vez uso menos o telefone. Não ligo para ninguém, é uma dificuldade quando tenho que chamar um técnico para consertar uma máquina, ou pedir uma pizza para não morrer de fome. Adoro quando me ligam, principalmente quando é uma ligação para me contar uma coisa. Por exemplo, quando falto a uma reunião, A Rachel me liga para me contar seus comentários, e aí conta coisas, do dia, da semana, dos anos quarenta... podia ficar conversando com ela a tarde toda. Porque a minha loucura é a seguinte: nunca sei se a outra pessoa pode me atender naquele momento, ou se preferia estar vendo novela, ou comendo uma torta de chocolate, ou lendo um livro... Fico atemorizada de que, do outro lado da linha, meu interlocutor fique fazendo aquelas caras de "dai-me paciência, ó Deus, é aquela chata de novo!" para alguém que esteja com ela/ele e eu esteja interrompendo. Acho que sou a única desocupada e solitária que existe no mundo... Sou mais do que maluca.
Volto mais uma vez ao assunto -- imaginem, então, o que poderia acontecer se, por um milagre, eu terminasse de ler um trecho de Proust e, por alguma tecnologia, pressionasse algumas teclas e ele me atendesse do outro lado: já começaria com um problema, pois meu francês atroz iria chocar esse autor absolutamente apaixonado por sua língua natal. E eu aqui, com sotaque, com essa minha inabilidade para falar e minha voz que continua infantil apesar de a infância ter ficado há muitas primaveras atrás, dizendo a ele que tinha adorado o trecho da múmia.
Como? O quê? Quem está falando?
E eu explicando que ele não me conhecia, que era impossível ele me conhecer pois eu estava vivendo no século XXI. Eu não era memória involuntária, era o futuro involuntário dele...
Minha voz, desmaterializada, falando coisas incompreensíveis e ele, como no episódio das telefonistas, se concentrando tanto no som de minha voz que conseguiria ver o que as pessoas com quem eu cruzo na rua não vêem: meu eu verdadeiro, com suas dores, seus temores, suas alegrias...
Ele até se compadeceria de mim, mas como poderíamos estabelecer um contato maior? Homem de outro século, de um mundo já extinto, somente sua sensibilidade e suas palavras sobrevivendo numa teia sutil que se estende de cérebro a cérebro através das idades...
Tento de novo. Desligo Proust e ligo para Mia Couto -- vivo e lindo, desta vez sou atrapalhada pela timidez que o encantamento pela figura do homem provoca. Não importa que eu quisesse agradecer por sentir que ele compreende o que vai dentro de minha alma, e que me estenda a mão e me ofereça esperança mesmo nas páginas mais tristes. Desligo antes mesmo que ele atenda o telefone, e fico sem saber se ele diria "estáaa?"(ou "estou", ou "sim?"), como sei que os portugueses de Portugal costumam fazer ao atender o telefone. Seria diferente o hábito em Moçambique? Penso em ligar para uma mulher. A Inês Pedrosa, talvez. Não -- muito dinâmica, ela não combinaria com minhas hesitações. Só nas páginas dela é que encontro os caminhos que podem nos ligar, sua tenacidade, a linha reta de seu desejo enfrentando ausências e a morte.
Então desisto dos telefones e volto ao aconchego dos livros. Penso no título de um livro de contos do Ian McEwan -- Between sheets, e na sua ambiguidade: sheets podem ser folhas de papel, mas também podem ser lençóis -- um livro é como um leito aquecido, com lençóis macios e cheirosos, onde a gente se sente abraçar por um amante, onde nosso corpo se rasga para trazer ao mundo um novo ser, onde aguardamos que a febre passe, que a dor sossegue, que a morte chegue... Fico entre lençóis e folhas de papel...
Sunday, August 31, 2008
Recife dos meus amores!
Se existem dias perfeitos, eles são passados no Recife! Adoro essa cidade com seus mares de sereia, pois aquelas águas são da temperatura certa para criar sereias e outros seres encantadores em sua hibridez e sedução. E como são belas, as praias, que acho que os habitantes já nem se dão conta de sua beleza. Eu, com meus olhos cariocas, olhava o mar muito verde, leitoso, os recifes negros, a espuma das ondas brancas que ora formavam penachos, esguichos de fontes, ora se derramavam pelos degraus de rochas (ou corais, não sei) e pareciam imitar cachoeiras. Nas piscinas naturais, os peixes pequeninos se misturavam às crianças e a alguns adultos que, deitados na água morna, conversavam coisas preguiçosas e sonolentas, ou ficavam calados, contemplando o céu e as nuvens, abrindo e fechando os braços e pernas, num ballet do qual não tinham consciência. Eu, carioca, procurava as ondas, desafiando os cartazes que me prometiam tubarões. Pois os tubarões estavam de folga neste fim de semana, talvez afugentados pelas jangadas com propaganda eleitoral, ou pela música tocada pelos mercadores de MP3, numa orgia de canções agradecendo a Jesus, que os havia salvado de todos os males, menos o da pirataria.
O SESC continua seu trabalho ímpar, impressionante, e nestas horas eu fico feliz, e acredito que meu país tem jeito. Aquelas trinta pessoas que estavam na platéia, em busca de soluções para fazer as pessoas se interessarem por literatura, me encheram de esperança. O SESC de Santa Rita tem um espetacular "Laboratório de Autoria Ascenso Ferreira" -- e lá espero que germinem muitas sementes para a criação e a fruição da literatura. Quem frequenta esses ambientes criados pelo SESC só pode se sentir valorizado e estimulado. Não canso de elogiar, por exemplo, o fenomenal colégio que eles criaram aqui no Rio. Este projeto devia estar em todos os jornais e revistas do país, todos os olhos da nação deviam se voltar para lá, e todos nós devíamos estar torcendo para que essa iniciativa dê muito certo. Quem conhece as instalações, a equipe de professores e a dedicação de todos os envolvidos se encanta totalmente.
Mas não quero que pensem que elogio porque ganhei o prêmio SESC -- elogio porque, depois que ganhei o prêmio, é que fiquei conhecendo tudo o que eles fazem de bom. Eles precisavam de que os holofotes fossem voltados para suas iniciativas, para servirem de exemplo!
Agora que voltei, dei uma lida rápida nos comentários e agradeço com muito carinho, o carinho e a compreensão de meus leitores. E acolho com muita simpatia o Ivan, futuro pianista que vai tocar, em dueto comigo no Municipal -- a gente só não sabe é quando! Vera Helena, mesmo distante, suas palavras me deram aconchego e conforto. É bom ter amigos, mesmo virtuais. Um dia a gente se encontra.
E, por falar em encontros, encontrar os amigos de Recife foi muito bom! Fazer amigos em Recife também foi muito bom: terra de gente acolhedora e carinhosa, conheci, em Olinda, Izabela e Geruza, escritoras também. Conheci, finalmente, o Marcus Accioly, poeta de grande sensibilidade e muita erudição, mas de uma simplicidade e simpatia comoventes. Raimundo Carreiro, Marcelino Freire, também foram companheiros de conversa e boteco nestas festas literárias que agitaram a cidade. Marco Polo Guimarães, meu querido poeta das ruas do Recife, com seus versos cheios de luz e cores, foi pena que nossas atividades estivessem programadas para o mesmo horário. Mas foi bom trocar abraços e conhecer Angeli e Alana.
E que dizer da grande e tocante homenagem que Zezé e eu recebemos por parte de Breno Fittipaldi, que nos dedicou a peça encenada ontem? E da comenda que recebemos? Pois é, mais respeito pois agora sou COMENDADORA!
Fico por aqui. Voltar de viagem é sempre complicado, lidando com saudades e vazios...
O SESC continua seu trabalho ímpar, impressionante, e nestas horas eu fico feliz, e acredito que meu país tem jeito. Aquelas trinta pessoas que estavam na platéia, em busca de soluções para fazer as pessoas se interessarem por literatura, me encheram de esperança. O SESC de Santa Rita tem um espetacular "Laboratório de Autoria Ascenso Ferreira" -- e lá espero que germinem muitas sementes para a criação e a fruição da literatura. Quem frequenta esses ambientes criados pelo SESC só pode se sentir valorizado e estimulado. Não canso de elogiar, por exemplo, o fenomenal colégio que eles criaram aqui no Rio. Este projeto devia estar em todos os jornais e revistas do país, todos os olhos da nação deviam se voltar para lá, e todos nós devíamos estar torcendo para que essa iniciativa dê muito certo. Quem conhece as instalações, a equipe de professores e a dedicação de todos os envolvidos se encanta totalmente.
Mas não quero que pensem que elogio porque ganhei o prêmio SESC -- elogio porque, depois que ganhei o prêmio, é que fiquei conhecendo tudo o que eles fazem de bom. Eles precisavam de que os holofotes fossem voltados para suas iniciativas, para servirem de exemplo!
Agora que voltei, dei uma lida rápida nos comentários e agradeço com muito carinho, o carinho e a compreensão de meus leitores. E acolho com muita simpatia o Ivan, futuro pianista que vai tocar, em dueto comigo no Municipal -- a gente só não sabe é quando! Vera Helena, mesmo distante, suas palavras me deram aconchego e conforto. É bom ter amigos, mesmo virtuais. Um dia a gente se encontra.
E, por falar em encontros, encontrar os amigos de Recife foi muito bom! Fazer amigos em Recife também foi muito bom: terra de gente acolhedora e carinhosa, conheci, em Olinda, Izabela e Geruza, escritoras também. Conheci, finalmente, o Marcus Accioly, poeta de grande sensibilidade e muita erudição, mas de uma simplicidade e simpatia comoventes. Raimundo Carreiro, Marcelino Freire, também foram companheiros de conversa e boteco nestas festas literárias que agitaram a cidade. Marco Polo Guimarães, meu querido poeta das ruas do Recife, com seus versos cheios de luz e cores, foi pena que nossas atividades estivessem programadas para o mesmo horário. Mas foi bom trocar abraços e conhecer Angeli e Alana.
E que dizer da grande e tocante homenagem que Zezé e eu recebemos por parte de Breno Fittipaldi, que nos dedicou a peça encenada ontem? E da comenda que recebemos? Pois é, mais respeito pois agora sou COMENDADORA!
Fico por aqui. Voltar de viagem é sempre complicado, lidando com saudades e vazios...
Friday, August 29, 2008
Before sunrise
Antes do amanhecer, venho aqui me despedir, pelo fim de semana. Vou participar de uma palestra no SESC, em Recife. (Acho que é o de Santa Rita, escrevi em algum lugar e já não sei mais onde coloquei a anotação.)
Estou terminando de fazer a mala, que, desta vez, vai com os dez livrinhos que recebi, pois as livrarias de lá não vão receber a tempo. Bem, se alguém estiver me lendo aí no Recife, convido-o ou -a para ir até lá, no sábado, às 16 horas. André de Leones também vai estar lá, e a mediação vai ser feita pelo Marcos Accioly.
Deixo vocês com uma recomendação de leitura: A elegância do ouriço. Divertido e inteligente, é daqueles livros que a gente lê sem parar e ainda aprende coisas! Querem saber que mais estou lendo?Fantasma sai de cena, do Philip Roth e o último do Robbe-Grillet, XXXX-rated, que deve ferir a suscetibilidade de muita gente nestes tempos de sensibilidade aguçada pela pedofilia. Explico porque estou lendo dois ao mesmo tempo: Estava lendo um (Fantasma) mas esqueci em casa e, como não sei viver sem um livro na mão, e tinha um tempo enquanto esperava minha orientadora -- comprei o Robbe-Grillet e comecei a leitura. Não é muito a minha praia esse tipo de livro, mas é tão "clássico", tão "marquês de Sade", que despertou minha curiosidade. Foi o último livro que ele escreveu, e acho que já tinha passado dos 80, na época. O começo é intrigante, como se fosse uma alucinação de um moribundo. Essa pessoa que desperta numa espécie de cama de hospital, passa a ter visões, e essas visões são tão século XVIII, com a menina em poses estudadas e convencionais, como se fossem daquelas gravuras antigas. Não recomendo, esse cada um lerá se quiser. O Fantasma também não vou recomendar, embora eu goste muito do Roth. Mas também tem essa situação um pouco mórbida, com esse escritor já velho, sofrendo de incontinência urinária e de impotência após uma operação de próstata, se apaixonando por uma moça uns 50 anos mais nova... Vai ver que, ao chegar aos 80, os homens só se encantam pelas mulheres bem jovens, ou ainda impúberes, numa espécie de ansiedade para recuperar a juventude. Será que isso acontece com as mulheres também? Ou elas acreditam mais nos cremes e nas plásticas?
Estou terminando de fazer a mala, que, desta vez, vai com os dez livrinhos que recebi, pois as livrarias de lá não vão receber a tempo. Bem, se alguém estiver me lendo aí no Recife, convido-o ou -a para ir até lá, no sábado, às 16 horas. André de Leones também vai estar lá, e a mediação vai ser feita pelo Marcos Accioly.
Deixo vocês com uma recomendação de leitura: A elegância do ouriço. Divertido e inteligente, é daqueles livros que a gente lê sem parar e ainda aprende coisas! Querem saber que mais estou lendo?Fantasma sai de cena, do Philip Roth e o último do Robbe-Grillet, XXXX-rated, que deve ferir a suscetibilidade de muita gente nestes tempos de sensibilidade aguçada pela pedofilia. Explico porque estou lendo dois ao mesmo tempo: Estava lendo um (Fantasma) mas esqueci em casa e, como não sei viver sem um livro na mão, e tinha um tempo enquanto esperava minha orientadora -- comprei o Robbe-Grillet e comecei a leitura. Não é muito a minha praia esse tipo de livro, mas é tão "clássico", tão "marquês de Sade", que despertou minha curiosidade. Foi o último livro que ele escreveu, e acho que já tinha passado dos 80, na época. O começo é intrigante, como se fosse uma alucinação de um moribundo. Essa pessoa que desperta numa espécie de cama de hospital, passa a ter visões, e essas visões são tão século XVIII, com a menina em poses estudadas e convencionais, como se fossem daquelas gravuras antigas. Não recomendo, esse cada um lerá se quiser. O Fantasma também não vou recomendar, embora eu goste muito do Roth. Mas também tem essa situação um pouco mórbida, com esse escritor já velho, sofrendo de incontinência urinária e de impotência após uma operação de próstata, se apaixonando por uma moça uns 50 anos mais nova... Vai ver que, ao chegar aos 80, os homens só se encantam pelas mulheres bem jovens, ou ainda impúberes, numa espécie de ansiedade para recuperar a juventude. Será que isso acontece com as mulheres também? Ou elas acreditam mais nos cremes e nas plásticas?
Tuesday, August 26, 2008
Chegou!
De saída para entregar o trabalho na UFF, volto atrás para compartilhar a alegria: chegou meu livro, prontinho, encapado, elogiado na quarta capa pelo Mussa, e examinado com carinho pelo Moutinho, nas suas orelhinhas verdes, da cor da esperança.
Ele deve estar chegando nas livrarias. Vocês já podem procurar por ele! Se folhearem com cuidado, vão encontrar meu coração ali dentro, todo remendado, mas batendo graças ao carinho de vocês!
Ele deve estar chegando nas livrarias. Vocês já podem procurar por ele! Se folhearem com cuidado, vão encontrar meu coração ali dentro, todo remendado, mas batendo graças ao carinho de vocês!
Sunday, August 24, 2008
Feliz Aniversário
Semana de muita correria, mas tentando reservar tempo para os amigos. Assim sendo, consegui me encontrar com pessoas queridas, ir ao teatro duas vezes, ir ao encontro literário do Henrique Rodrigues para escutar o Marcelo Moutinho; ir ao CCBB para ver a exposição de Clarice com outra escritora, a Elomar Nascimento; bater papo na praia com Alcione Araujo; na Argumento com a Valéria Martins, seus filhos adoráveis e mais um escritor e historiador, o Diego; e ainda, jantar com minha filha; almoçar em família e comemorar o aniversário de 90 anos de uma amiga proustiana, a Maria Flora. Relembro assim um dos meus contos prediletos de Clarice, "Feliz aniversário", em que a velhinha se rebela contra aquela família toda cheia de segundas intenções, cujos membros esqueceram o que é o amor e a vida para lhes dar uma lição de irreverência. Estou aqui pensando num livro cuja resenha fiz recentemente, do Pierre Bayard, cujo título é mais ou menos Como falar de livros que não lemos, para corroborar o fato de que a minha leitura (feita há tanto tempo) já não me permite lembrar o enredo com clareza -- o que é mesmo que acontece em histórias todas passadas nos pensamentos das personagens? -- Cada leitura é única e pessoal, depende de nossa interpretação, de nossos sentimentos. Proust, um especialista sobre leitura, sabia que a circunstância em que lemos os livros influenciam sua leitura. Por exemplo, depois da morte do Guilherme (e, por incrível que pareça, quase três anos após o fato, ainda não consigo falar, ou pensar ou escrever estas três palavras juntas sem que meus olhos se encham de lágrimas) fiquei um tempão sem conseguir ler. Sei que tem gente que nem se importa com isso, mas, para mim, que sou movida a leitura, isso equivalia a estar morta também. Sem ler, não sou eu. E eu não lia nada. Nem jornal, nem revista, nem livros. Meus amigos me ofereciam livros, me mandavam artigos, e eu nada... Até que ganhei de uma das proustianas, o livro Fazes-me falta, da Inês Pedrosa. Esse livro rolou um tempo junto dos outros, mas o título mexia comigo e levei-o comigo para Trancoso onde a Helena, outra proustiana, tentava me fazer sobreviver aos horrores dos ritos de passagem de Natal e Ano Novo. Li o livro entre lágrimas e soluços, sentada sozinha no varandão do hotel, de tarde, enquanto Helena dormia sua sesta. Acho que sublinhei todas as frases do livro, como se fossem revelações. No entanto, nem lembro do que se tratava ali. Sei que a situação era oposta à minha, o homem sobrevive à mulher, e se correspondem, ela escreve de um lado, ele de outro. O que eles se diziam? Não sei. Só sei do título, fazes-me falta, que ecoava a única coisa que eu era capaz de pensar naqueles meses de tanta angústia e desespero. As pessoas dizem que as dores passam com o tempo, mas eu garanto que não passam. Proust me ensinou que não passam. Nós é que, sutilmente, sem nos apercebermos, deixamos de ser quem éramos, nos tornamos outras pessoas. A Lúcia amada pelo Guilherme deixou de existir. Sempre, porém, que alguma coisa dispara a lembrança involuntária, essa Lúcia ressurge por átimos de segundo, e a dor da perda a ataca sem piedade, esmaga-a, e ela então desaparece mais uma vez e deixa essa aqui, sem graça, escrevendo blogs, que se distanciam de seu objetivo principal, que é mostrar como Literatura e vida interagem, em festas de aniversário, em episódios do cotidiano, em "novas maneiras de ler".
Wednesday, August 20, 2008
De amor e de cinzas
Histórias de amor, o que será melhor? Lê-las ou escutá-las? Decerto vivê-las! Mas, quando isso não acontece, ler um bom romance ou escutar uma amiga ou amigo contando seus encantamentos funciona como uma espécie de bálsamo.
De todas as histórias de amor que li, qual seria a que mais me marcou? Me lembro, por exemplo, de ter chorado compulsivamente ao ler Amor de Perdição. No entanto, não lembro da história. Quais foram as tragédias que aconteceram? Foram tantas... Termina, se não me engano, com o rapaz morrendo numa viagem marítima e sendo jogado ao mar. Bem, de amores infelizes, foram muitas as histórias que li. A Dama das Camélias, por exemplo. Romeu e Julieta. Grande Sertão, Veredas. O Guarani. Iracema. Anna Karenina. Mme. Bovary.... E eu ansiando por finais felizes, que encontrei num Alencar mais ameno de A pata da gazela, Tronco do Ipê, Sonhos d'Ouro. E, claro, na Moreninha, de Macedo. Depois passei a não me interessar tanto pelos finais, mas sim pelas peripécias amorosas. Na Cartuxa de Parma, o heroísmo de Fabrizio del Dongo me fascinou até que, anos mais tarde, relendo, descobri a Sanseverina e o Conde Mosca! Porque eu gosto de reler livros. Volto às histórias como quem vai visitar amigos. Nem sempre isso dá certo, os livros se modificam, hoje já não tenho mais paciência para o Pequeno Príncipe, que li, apesar de nunca ter sido miss. Sei que os livros continuam os mesmos, e que quem muda sou eu, mas, como eu continuo sendo eu, digo que são eles os modificados, para não questionar minha identidade. Pois, admitindo minha mudança, tenho que perguntar: qual a Lúcia verdadeira, a de hoje ou a que leu e gostou do Pequeno Príncipe? E, além disso, alguns livros continuam me agradando até hoje: Memórias de um sargento de milícias, por exemplo, continua adorável. Os romances e contos de Machado, permanecem tão bons como quando os li pela primeira vez. Alguns dos romances de Eça ainda me deliciam. E os contos de Cortázar, ainda me ensinam coisas. Um romance que adorei apaixonadamente, quando o li pela primeira vez, Vento Forte, de Miguel Angel Asturias, tornou-se ilegível, anos mais tarde. Outros não tenho desejo de voltar a ler. Em alguns romances, me apaixonei pelos seus personagens masculinos. Em outros, me identifiquei com as heroínas. Depois descobri que quem eu queria ser, mesmo, era o autor, ou a autora. Às vezes terminava uma leitura e chorava, frustrada, achando que nunca ia escrever nada assim tão importante como o que acabara de ler. Não era inveja, era um sentimento de que minha vida é tão pequenina, que jamais poderia gerar algo grandioso. Depois percebi que não era isso o que importava. Os livros nos tocam pelas suas "verdades". Quando logramos atingir a seiva daquilo que nos faz humanos e iguais, sendo tão diferentes, encontramos nos leitores uma resposta através dos tempos. Assim, as histórias de Leonardo, passadas no tempo do rei, que vira Sargento de Milícias e consegue, finalmente, casar com sua Luizinha ainda nos fazem rir, e pensar, e nos surpreendem com suas observações.
Termino falando de cinzas, em dois livros que adorei ler: Os sinos da agonia e O nome da rosa. Hoje já não quero reler nem um nem outro, embora os tenha relido pelo menos três vezes cada um. Tenho medo de não gostar. Os dois falam da época da Inquisição, são bem construídos, inteligentes. Só que, muitos Códigos da Vinci depois, já não me deixo seduzir pela manipulação da arte de narrar, tenho medo de achar a "matéria de carpintaria" muito aparente. (O Autran Dourado, autor de os Sinos..., escreveu depois esta obra, explicando como tinha sido a construção de seu romance, e deu este título, matéria de carpintaria). Mas volto a isso outra hora. Agora já são horas de dormir...
Antes, porém, uma palavrinha a respeito do comentário do Amauri, que me diz estar num Spa chamado Dona Urraca. Quando estudei a história de Portugal, fui apresentada a uma dama com este nome. Ela e sua irmã, Dona Tareja, me assombraram: como é que princesas recebiam esses nomes tão pouco sonoros? O pior é que o marido de uma delas, querendo livrar-se da mulher, matou um urso, costurou-a dentro da pele do animal e soltou os cachorros atrás. Quanta barbaridade, não acham? Espero que este spa não tenha nada a ver com essa história! Aguardo notícias.
De todas as histórias de amor que li, qual seria a que mais me marcou? Me lembro, por exemplo, de ter chorado compulsivamente ao ler Amor de Perdição. No entanto, não lembro da história. Quais foram as tragédias que aconteceram? Foram tantas... Termina, se não me engano, com o rapaz morrendo numa viagem marítima e sendo jogado ao mar. Bem, de amores infelizes, foram muitas as histórias que li. A Dama das Camélias, por exemplo. Romeu e Julieta. Grande Sertão, Veredas. O Guarani. Iracema. Anna Karenina. Mme. Bovary.... E eu ansiando por finais felizes, que encontrei num Alencar mais ameno de A pata da gazela, Tronco do Ipê, Sonhos d'Ouro. E, claro, na Moreninha, de Macedo. Depois passei a não me interessar tanto pelos finais, mas sim pelas peripécias amorosas. Na Cartuxa de Parma, o heroísmo de Fabrizio del Dongo me fascinou até que, anos mais tarde, relendo, descobri a Sanseverina e o Conde Mosca! Porque eu gosto de reler livros. Volto às histórias como quem vai visitar amigos. Nem sempre isso dá certo, os livros se modificam, hoje já não tenho mais paciência para o Pequeno Príncipe, que li, apesar de nunca ter sido miss. Sei que os livros continuam os mesmos, e que quem muda sou eu, mas, como eu continuo sendo eu, digo que são eles os modificados, para não questionar minha identidade. Pois, admitindo minha mudança, tenho que perguntar: qual a Lúcia verdadeira, a de hoje ou a que leu e gostou do Pequeno Príncipe? E, além disso, alguns livros continuam me agradando até hoje: Memórias de um sargento de milícias, por exemplo, continua adorável. Os romances e contos de Machado, permanecem tão bons como quando os li pela primeira vez. Alguns dos romances de Eça ainda me deliciam. E os contos de Cortázar, ainda me ensinam coisas. Um romance que adorei apaixonadamente, quando o li pela primeira vez, Vento Forte, de Miguel Angel Asturias, tornou-se ilegível, anos mais tarde. Outros não tenho desejo de voltar a ler. Em alguns romances, me apaixonei pelos seus personagens masculinos. Em outros, me identifiquei com as heroínas. Depois descobri que quem eu queria ser, mesmo, era o autor, ou a autora. Às vezes terminava uma leitura e chorava, frustrada, achando que nunca ia escrever nada assim tão importante como o que acabara de ler. Não era inveja, era um sentimento de que minha vida é tão pequenina, que jamais poderia gerar algo grandioso. Depois percebi que não era isso o que importava. Os livros nos tocam pelas suas "verdades". Quando logramos atingir a seiva daquilo que nos faz humanos e iguais, sendo tão diferentes, encontramos nos leitores uma resposta através dos tempos. Assim, as histórias de Leonardo, passadas no tempo do rei, que vira Sargento de Milícias e consegue, finalmente, casar com sua Luizinha ainda nos fazem rir, e pensar, e nos surpreendem com suas observações.
Termino falando de cinzas, em dois livros que adorei ler: Os sinos da agonia e O nome da rosa. Hoje já não quero reler nem um nem outro, embora os tenha relido pelo menos três vezes cada um. Tenho medo de não gostar. Os dois falam da época da Inquisição, são bem construídos, inteligentes. Só que, muitos Códigos da Vinci depois, já não me deixo seduzir pela manipulação da arte de narrar, tenho medo de achar a "matéria de carpintaria" muito aparente. (O Autran Dourado, autor de os Sinos..., escreveu depois esta obra, explicando como tinha sido a construção de seu romance, e deu este título, matéria de carpintaria). Mas volto a isso outra hora. Agora já são horas de dormir...
Antes, porém, uma palavrinha a respeito do comentário do Amauri, que me diz estar num Spa chamado Dona Urraca. Quando estudei a história de Portugal, fui apresentada a uma dama com este nome. Ela e sua irmã, Dona Tareja, me assombraram: como é que princesas recebiam esses nomes tão pouco sonoros? O pior é que o marido de uma delas, querendo livrar-se da mulher, matou um urso, costurou-a dentro da pele do animal e soltou os cachorros atrás. Quanta barbaridade, não acham? Espero que este spa não tenha nada a ver com essa história! Aguardo notícias.
Monday, August 18, 2008
Praia e música cubana
Apesar de dever ficar legalmente "casada" com Coetzee e terminar meu trabalho, traí-o e me entreguei à leitura de outro romance. Quando terminei, tinha perdido/ganhado o sábado e, como já era domingo e o dia era de sol, acabei indo à praia. Afinal, todo mundo sabe que é pecado trabalhar aos domingos! Praia do Leblon, dia de sol, época de campanha política: a gente sabe que tudo pode acontecer... Mas nada ocorreu de especial. A água estava limpinha e numa temperatura razoável, mas muito agitada. Mesmo assim, tentei vários mergulhos, tropecei em crianças com pranchas, escapei por pouco de boladas que uns quatro ou cinco marmanjos sem noção resolveram chutar em rodinha bem na beira d'água, tomei um balde de mate com limão, de torneirinha (gosto de viver perigosamente) e cheguei em casa a tempo de tomar banho e me arrumar para o Cello Encounter das 8h. Filas e conversas inacreditáveis. Uma pessoa, que mal conheço, resolveu me contar de seu ''hidrocólon", mas vou poupar meus eventuais leitores. Eu sempre me admiro com os assuntos que puxam comigo. Já escutei descrições de tumores latejantes, de cirurgias plásticas atemorizantes, já ouvi os detalhes de operações financeiras que deixaram meu cérebro dormente. Já sorri incontáveis vezes com as mesmas piadas contadas pelas mesmas pessoas, embora a piada não tivesse graça nem na primeira vez que foi contada. E já tive que achar muito engraçada a história que eu havia contado numa festa anterior, quando a escutei, como coisa sua, contada pelo meu interlocutor, numa festa posterior. Antes, tinha os olhares cúmplices do Guilherme. A gente não trocava olhares irônicos, só se olhava, com amor, soprava um beijo e seguia em nossas órbitas, separadas, mas gravitando apaixonadamente em torno um do outro. Agora aqui estou eu, falando com esta máquina, talvez na triste esperança de que ele me possa ler...
Que ele leia então o final feliz de meu domingo: música boa, música pelo prazer da música, músicos numa "orgia" de entrega e admiração, se aplaudindo mutuamente, trocando instrumentos, fazendo duos, revelando seus "eus" antes da profissionalização, em despudorado exercício de paixão. E tudo isso grátis! Como não ser apaixonada pelo Rio? E pelo SESC?
Que ele leia então o final feliz de meu domingo: música boa, música pelo prazer da música, músicos numa "orgia" de entrega e admiração, se aplaudindo mutuamente, trocando instrumentos, fazendo duos, revelando seus "eus" antes da profissionalização, em despudorado exercício de paixão. E tudo isso grátis! Como não ser apaixonada pelo Rio? E pelo SESC?
Saturday, August 16, 2008
Quem é o fotógrafo dela?
Todas as manhãs o Globo se reparte em crimes e medalhas em meu hall de entrada. Eu folheio as páginas, quase sempre entediada, mas uma ou outra coisa chama minha atenção. Desta vez, foi o retrato da Marta Suplicy: duas imagens, a do cartaz da campanha política e a da política em campanha. Quem tirou aquele retrato da campanha? Quando? Ou aquilo se deve ao fotoshop?
Parabéns, dona Marta. Não contrate outro. O que ele fez foi melhor que a plástica.
Lembrei agora de uma outra obcecada por imagem: a Sissi. Minha amiga me contou a quem ela deve seu nome -- à Imperatriz! Uma menininha foi incumbida de entregar um ramo de rosas à bela esposa de Francisco José. Era a bisavó de minha amiga, que iniciou a tradição de dar, às primogênitas, o nome da Sissi. Olhando a bela Beth, julguei ver duas rosas daquelas entregues por sua bisavó, brilhando em sua face. Avalio a enorme impressão que a Sissi terá causado numa menininha na longínqua Alemanha, a ponto de, quase dois séculos mais tarde, reviver assim numa historinha contada com olhos brilhando e rubor no rosto aqui no Rio de Janeiro. Quantos nomes não são homenagens assim, sinceras e duradouras? Mesmo em minha família os nomes se repetem, homenageando antepassados. Eu devo meu nome ao meu tio avô, que o devia a seu pai, que por sua vez, o terá recebido em honra de algum parente, ou de amigo de seus pais, ou de alguma personagem de novela que estivesse sendo lida pela mãe. Nomes, finitos, que se tornam heranças quando as faces, retocadas ou não pelo fotoshop, já desapareceram.
Outra foto chamou minha atenção no Globo, a de um amigo, que acaba de publicar seu segundo romance, que estou lendo. Um painel de vidas pequenas que habitaram nosso país, mas que contam sua história mais verdadeira. Logo nas primeiras páginas, o que me chamou a atenção foram as belas descrições do Rio, descrições de quem é apaixonado pela cidade. Tenho, às vezes, inveja de quem não nasceu no Rio e pode sentir o deslumbramento da primeira chegada na cidade. Outro dia recebi uma coleção de slides feitas a partir das fotos de um fotógrafo alemão que veio ao Rio espionar e mandou a Alemanha às favas, apaixonado pela cidade e seus recantos. Cada um faz as declarações de amor que pode -- com palavras, com imagens, com gestos... Só não entendo como alguns fazem gestos de desamor que não são impedidos pelos cariocas mais fiéis. Como é que estamos sofrendo golpes constantes que destroem belezas, acabam com as vistas, destroçam vidas? Ia citar Shakespeare, mas esse post já está longo demais. Remeto vocês a Hamlet, ao velho "to be or not to be" -- e digo, com ele, que, se nos opusermos, faremos que o destino adverso cesse. E encerro, cantarolando a Marselhesa!
Parabéns, dona Marta. Não contrate outro. O que ele fez foi melhor que a plástica.
Lembrei agora de uma outra obcecada por imagem: a Sissi. Minha amiga me contou a quem ela deve seu nome -- à Imperatriz! Uma menininha foi incumbida de entregar um ramo de rosas à bela esposa de Francisco José. Era a bisavó de minha amiga, que iniciou a tradição de dar, às primogênitas, o nome da Sissi. Olhando a bela Beth, julguei ver duas rosas daquelas entregues por sua bisavó, brilhando em sua face. Avalio a enorme impressão que a Sissi terá causado numa menininha na longínqua Alemanha, a ponto de, quase dois séculos mais tarde, reviver assim numa historinha contada com olhos brilhando e rubor no rosto aqui no Rio de Janeiro. Quantos nomes não são homenagens assim, sinceras e duradouras? Mesmo em minha família os nomes se repetem, homenageando antepassados. Eu devo meu nome ao meu tio avô, que o devia a seu pai, que por sua vez, o terá recebido em honra de algum parente, ou de amigo de seus pais, ou de alguma personagem de novela que estivesse sendo lida pela mãe. Nomes, finitos, que se tornam heranças quando as faces, retocadas ou não pelo fotoshop, já desapareceram.
Outra foto chamou minha atenção no Globo, a de um amigo, que acaba de publicar seu segundo romance, que estou lendo. Um painel de vidas pequenas que habitaram nosso país, mas que contam sua história mais verdadeira. Logo nas primeiras páginas, o que me chamou a atenção foram as belas descrições do Rio, descrições de quem é apaixonado pela cidade. Tenho, às vezes, inveja de quem não nasceu no Rio e pode sentir o deslumbramento da primeira chegada na cidade. Outro dia recebi uma coleção de slides feitas a partir das fotos de um fotógrafo alemão que veio ao Rio espionar e mandou a Alemanha às favas, apaixonado pela cidade e seus recantos. Cada um faz as declarações de amor que pode -- com palavras, com imagens, com gestos... Só não entendo como alguns fazem gestos de desamor que não são impedidos pelos cariocas mais fiéis. Como é que estamos sofrendo golpes constantes que destroem belezas, acabam com as vistas, destroçam vidas? Ia citar Shakespeare, mas esse post já está longo demais. Remeto vocês a Hamlet, ao velho "to be or not to be" -- e digo, com ele, que, se nos opusermos, faremos que o destino adverso cesse. E encerro, cantarolando a Marselhesa!
Friday, August 15, 2008
Academia
Ontem tive um desses dias de turista em minha própria cidade. Fui almoçar com uma amiga, e me deliciei não apenas com as conversas, mas com a comida também. No quesito conversas, aprendi um aforismo alemão cujo sentido repasso: até o vinho sabe mal se tomado sem amigos.
Depois ela voltou para o trabalho, e eu gazeteei o meu e fui à exposição do CCBB: O tempo sob medida. Fiquei encantada, com esse tempo redescoberto em relógios que marcavam horas tão diferentes: as horas eróticas, como o relógio nº 17, com um incansável amante entre as pernas da amada, ilustrando os tique-taques. Ou, no relógio seguinte, marcando as horas de recolhimento e paz em frente a uma lareira doméstica. Ou horas de pompa e circunstância, em relógios assemelhados a condecorações. Ou ainda a caixinha em que o tempo se materializa belo e canoro, como um rouxinol.
Também me encantaram as ampulhetas montadas num tinteiro em âmbar e marfim, marcando o tempo de escrever. O relógio embutido na coroa da virgem e o no crucifixo, onde o mundo se apressura em girar em torno do ponto fixo do trauma cristão. Para terminar, menciono o relógio montado num turíbulo, incensando as horas da missa, sem deixar que o padre se excedesse nos sermões.
E termino por aqui, sem falar do filme, de roteiro do Luís Dolino (seria o meu amigo? ou trata-se de um homônimo? vou esclarecer com ele) nem da bela exposição Onde a terra encontra a água, de fotos de Carol Armstrong; Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy. Calo-me sobre estas imagens porque dali fui à Academia Brasileira de Letras, escutar uma palestra sobre Vieira e seu tempo. O prof. Silvano Peloso e a profa. Sônia Salomão, ambos da Universidade de Roma La Sapienza falaram sobre este século de mudanças que foi o século XVII, quando a Terra deixou de ser o centro do Universo e passou a gravitar em torno do Sol. E hoje em dia fala-se em re-engenharia... Re-engenharia foi isso!
Brincadeirinhas a parte, o professor citou alguém, cujo nome perdi, que disse haver mais história naqueles cem anos que nos 4000 anos do mundo. Bem, entende-se o que ele quis dizer, embora, limitado pela Igreja,talvez, o mundo do falante só tivesse 4 milênios.
Vieira nasceu em 6/2/1608 viveu praticamente até o final do século, passou 50 anos de sua vida no Brasil, e os outros 40 nas cortes mais importantes da Europa. Foi dos píncaros da glória aos subterrâneos das masmorras da Inquisição. Viajou do interior da Amazônia e do Maranhão aos explendores de Lisboa, Paris, Haia, Amsterdã e Roma. Foi o "ministro das relações exteriores" do rei D. João IV, o primeiro a reinar em Portugal depois do período de unificação das coroas de Portugal e Espanha. Tentou conciliar o conhecimento do novo mundo, que servia de estopim para a explosão das luzes do século seguinte, com as escrituras de um mundo que se desequilibrava e começava a girar como uma nave.
Foi um ótimo dia. Mas, talvez, o que tenha me feito ficar rindo sozinha, ao voltar para a casa, foi a cópia, a giz, numa das paredes do Bar Academia, de uma frase de Machado de Assis:
"As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos".
Ele era de um tempo em que ainda não havia "predadoras"...
Depois ela voltou para o trabalho, e eu gazeteei o meu e fui à exposição do CCBB: O tempo sob medida. Fiquei encantada, com esse tempo redescoberto em relógios que marcavam horas tão diferentes: as horas eróticas, como o relógio nº 17, com um incansável amante entre as pernas da amada, ilustrando os tique-taques. Ou, no relógio seguinte, marcando as horas de recolhimento e paz em frente a uma lareira doméstica. Ou horas de pompa e circunstância, em relógios assemelhados a condecorações. Ou ainda a caixinha em que o tempo se materializa belo e canoro, como um rouxinol.
Também me encantaram as ampulhetas montadas num tinteiro em âmbar e marfim, marcando o tempo de escrever. O relógio embutido na coroa da virgem e o no crucifixo, onde o mundo se apressura em girar em torno do ponto fixo do trauma cristão. Para terminar, menciono o relógio montado num turíbulo, incensando as horas da missa, sem deixar que o padre se excedesse nos sermões.
E termino por aqui, sem falar do filme, de roteiro do Luís Dolino (seria o meu amigo? ou trata-se de um homônimo? vou esclarecer com ele) nem da bela exposição Onde a terra encontra a água, de fotos de Carol Armstrong; Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy. Calo-me sobre estas imagens porque dali fui à Academia Brasileira de Letras, escutar uma palestra sobre Vieira e seu tempo. O prof. Silvano Peloso e a profa. Sônia Salomão, ambos da Universidade de Roma La Sapienza falaram sobre este século de mudanças que foi o século XVII, quando a Terra deixou de ser o centro do Universo e passou a gravitar em torno do Sol. E hoje em dia fala-se em re-engenharia... Re-engenharia foi isso!
Brincadeirinhas a parte, o professor citou alguém, cujo nome perdi, que disse haver mais história naqueles cem anos que nos 4000 anos do mundo. Bem, entende-se o que ele quis dizer, embora, limitado pela Igreja,talvez, o mundo do falante só tivesse 4 milênios.
Vieira nasceu em 6/2/1608 viveu praticamente até o final do século, passou 50 anos de sua vida no Brasil, e os outros 40 nas cortes mais importantes da Europa. Foi dos píncaros da glória aos subterrâneos das masmorras da Inquisição. Viajou do interior da Amazônia e do Maranhão aos explendores de Lisboa, Paris, Haia, Amsterdã e Roma. Foi o "ministro das relações exteriores" do rei D. João IV, o primeiro a reinar em Portugal depois do período de unificação das coroas de Portugal e Espanha. Tentou conciliar o conhecimento do novo mundo, que servia de estopim para a explosão das luzes do século seguinte, com as escrituras de um mundo que se desequilibrava e começava a girar como uma nave.
Foi um ótimo dia. Mas, talvez, o que tenha me feito ficar rindo sozinha, ao voltar para a casa, foi a cópia, a giz, numa das paredes do Bar Academia, de uma frase de Machado de Assis:
"As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos".
Ele era de um tempo em que ainda não havia "predadoras"...
Wednesday, August 13, 2008
Por que eu gosto do Xexeo
Bem, nem sei por que tenho que explicar por que gosto de um jornalista que só conheço de texto e que não reconheceria se cruzasse com ele na rua. Digo isso porque ontem estava numa loja no Leblon e depois em outra, e notei a agitação que percorria as vendedoras. Na primeira, falavam da simpatia da pessoa e nas idiossincrasias de seu marido. Na segunda, mencionaram seu nome: Roberta Sá. Acontece que essa talentosa menina é sobrinha de uma amiga, e eu já estive até na casa dos pais dela. Já a vi algumas vezes. E, no entanto, ontem nem sequer vi que ela estava ou esteve nas mesmas lojas em que entrei. Eu tenho dessas coisas: me desligo, e vou no piloto automático, sem perceber o mundo que me rodeia. De noite, fui ao coquetel do lançamento do novo romance do Silviano Santiago. Ele nunca foi meu professor, mas foi professor de alguns amigos, e é colega de muita gente que admiro. Lá fui eu. Encontrei muitos amigos, que não via há tempos. Uma dessas pessoas é a prof. Marlene de Castro Correa. Com ela conheci Drummond, de quem ela afirmava ser uma "mistura de paixão com meticulosidade". Com ela fiz uma pequena antologia de Castro Alves, um dos exercícios mais interessantes que já me deram para desenvolver meu espírito crítico. Tive que escolher dez poemas para formar uma antologia e justificar minhas escolhas. Sofri. Tinha que escolher os representativos? Tinha que exemplificar cada faceta? Já não me lembro dos que integravam a coletânea, mas me lembro do primeiro que escolhi, e em torno do qual construi minha antologia: Adormecida
Aqui vai, de brinde para os leitores:
Adormecida
Uma noite,eu me lembro...Ela dormia
Numa rede escostada molemente...
Quase aberto o roupão...solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.
Stava aberta a janela.Um cheiro agreste
Exalava as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilavam ao tom das auras,
Iam na face trêmulos- beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
Para não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
" Ó flor!... tu és a virgem das campinas!"
"Virgem!...tu és a flor da minha vida!..."
CASTRO ALVES
S.Paulo, novembro de 1868
E agora? Por que escolhi esse poema? Talvez pela mesma razão pela qual gosto do Xexeo: a domesticidade, a capacidade de transformar nosso cotidiano em assunto, em tema de reflexão. Uma moça adormecida e seu balanço na rede, em contrapartida ao espectador insone, ou ao inveterado crítico das incongruências das novelas de TV. Um descanso das intrigas, da violência, dos desassossegos. E ainda tem mais, como não gostar de alguém chamado xexeo: um sussurro, um trinado de pássaro, um vai e vem de rede?...
Aqui vai, de brinde para os leitores:
Adormecida
Uma noite,eu me lembro...Ela dormia
Numa rede escostada molemente...
Quase aberto o roupão...solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.
Stava aberta a janela.Um cheiro agreste
Exalava as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.
De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilavam ao tom das auras,
Iam na face trêmulos- beijá-la.
Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...
Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!
E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
Para não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...
Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
" Ó flor!... tu és a virgem das campinas!"
"Virgem!...tu és a flor da minha vida!..."
CASTRO ALVES
S.Paulo, novembro de 1868
E agora? Por que escolhi esse poema? Talvez pela mesma razão pela qual gosto do Xexeo: a domesticidade, a capacidade de transformar nosso cotidiano em assunto, em tema de reflexão. Uma moça adormecida e seu balanço na rede, em contrapartida ao espectador insone, ou ao inveterado crítico das incongruências das novelas de TV. Um descanso das intrigas, da violência, dos desassossegos. E ainda tem mais, como não gostar de alguém chamado xexeo: um sussurro, um trinado de pássaro, um vai e vem de rede?...
Tuesday, August 12, 2008
O espelho
Bem, dei o meu recado. Mantive o tempo. Estou com a sensação de dever cumprido, mas, olho para o lado e vejo que muitos outros deveres se acumulam, descumpridos, exigindo de mim tempo e atenção. Queria um espelho mágico que me desdobrasse numa que escrevesse ficção, noutra que escrevesse o blog, noutra que encontrasse os amigos, noutra que fizesse os trabalhos da UFF... Ih, se eu começar a enumerar, me canso. Outra vez volto a Mário: preciso ser trezentas, ser trezentas e cinquenta!
Bem, uma dessas é que está aqui, mas já de partida, e que, antes de desaparecer, tomada por uma nova persona, deseja agradecer o comentário do Guido. Gente, e eu estava chamando de seita esse meu "processo civilizatório"! Desculpe, amigo, mas nunca me levo muito a sério, zombo sempre um pouco de mim mesma, com medo de infringir a hybris e transformar minha existência em tragédia. É claro que existe uma desesperada vontade de conservar, como sacerdotisas, a beleza, a elegância, a inteligência, se não já teríamos abandonado as reuniões há muito tempo. Mas me declaro absolutamente cética de ser capaz de mudar o mundo. Nada muda o mundo, e só vence a maldade. Mas, foi o próprio mestre do ceticismo, Machado, que nos ensinou que nos mantos de algodão há as franjas de seda. Vivamos, então, pelas franjas. E obrigada.
Bem, uma dessas é que está aqui, mas já de partida, e que, antes de desaparecer, tomada por uma nova persona, deseja agradecer o comentário do Guido. Gente, e eu estava chamando de seita esse meu "processo civilizatório"! Desculpe, amigo, mas nunca me levo muito a sério, zombo sempre um pouco de mim mesma, com medo de infringir a hybris e transformar minha existência em tragédia. É claro que existe uma desesperada vontade de conservar, como sacerdotisas, a beleza, a elegância, a inteligência, se não já teríamos abandonado as reuniões há muito tempo. Mas me declaro absolutamente cética de ser capaz de mudar o mundo. Nada muda o mundo, e só vence a maldade. Mas, foi o próprio mestre do ceticismo, Machado, que nos ensinou que nos mantos de algodão há as franjas de seda. Vivamos, então, pelas franjas. E obrigada.
Sunday, August 10, 2008
Feliz Aniversário
Como já disse, estou num clima de comemorações. Aniversários, aniversários...Hoje, dia dos pais, comemoro o aniversário de meu filho em tom menor. As faltas se impõem, e é a custa da lição de Mário que faço as figuras paternas diminuírem e subirem para o céu, brilhando em alguma constelação, como lágrimas. Acho que preciso voltar a ler Macunaíma, para me divertir um pouco e experimentar outras consciências... Quem nunca leu Macunaíma? Será que hoje em dia ainda se lê Macunaíma? Será que em algum lugar remoto um grupo se reúne, todas as semanas, para ler e reler a obra de Mário? Pergunto isso porque faço parte de uma espécie de seita, que se reúne todas as semanas, há uns dez anos, para ler e reler Proust. A Rachel Jardim é a nossa "diretora de orquestra" regendo opiniões e ritmos, muitas vezes adoravelmente desafinados. Porque existe um encanto na desafinação -- uma espécie de despertar.
Nesta enevoada manhã de domingo, pensando em figuras paternas, me descubro pensando que meus "pais" são de papel, e que um não tocaria na mesma orquestra que outro, embora até pudessem se admirar mutuamente. A Rachel gosta de fazer aproximações: Proust e Eça, Proust e Machado... Todos experimentaram o delírio da Belle Époque, que, provavelmente, só foi bela para quem era classe dominante. Dos três, Eça ficou conhecido como um combativo na área da política, sendo que Proust e Machado foram chamados de alienados -- ledo engano. Nenhum escritor deixa de falar de seu tempo, nem deixa de pensar sua sociedade. Mesmo quando liricamente contemplando seu próprio umbigo, a vida de sua época está ali representada, as classes sociais, as ideologias da época, as correntes políticas aparecem em painéis, mais ou menos explícitos, mais ou menos hábeis. Quanto mais abrangente e universal a obra, mais encontraremos no texto, porém mais poderosas hão de ser as lentes para examinar os detalhes: Pensemos, por exemplo, em Brueghel, ou em Arcimboldo, quadros que contemplei recentemente e que ainda estão gravados em minhas retinas.
Estou relendo o texto que preparei para expor no Seminário Machado de Assis, tentando ajustar o texto aos 15 minutos a que farei jus amanhã. Corto e recorto, dou uma franzidinha aqui, faço uma prega no texto acolá, e me surpreendo com a quantidade de coisas que já se falou e se escreveu sobre O Espelho. Um conto, que não é dos mais longos, e que já suscitou tanta reflexão! O tema da minha comunicação é ele, mas praticamente todos os outros trabalhos, falando sobre diferentes aspectos da obra de Machado, dentre os que tive a oportunidade de assistir, tocaram neste conto. Uma moda, talvez? Há alguns anos atrás, era Missa do Galo, o conto que não saía da pauta. Desta vez, não escutei sequer uma menção, mesmo com o re-lançamento do livro que junta diferentes versões da missa machadiana (e eu mesma cometo essa ousadia, nesse meu livro que está prestes a sair-- confiram o conto Insônia). Desta vez, são dois os contos que disputam os holofotes: O espelho e A cartomante. Fiquei até com vontade de escrever sobre as metamorfoses no espelho (alguém já deve de ter escrito isso) acompanhando a trajetória do tema passando por escritores tão diferentes quanto Guimarães, Cecília Meirelles e Clarice. E pensando, quem, dentre nós, não se deixou ficar olhando para sua própria imagem no espelho, tentando encontrar a resposta para a mais difícil questão: Ser -- como somos? o que somos? quem somos? quando somos?
A gente se olha no espelho até se "dessensibilizar", e passar a encarar aquela imagem como uma coisa corriqueira. De vez em quando, nos estranhamos, e nos detemos, examinando, criticando, surpresos de que a imagem refletida não seja correspondente à imagem mental que fazemos de nós mesmos. No entanto, as mudanças se operam lentamente, com os pequenos golpes dos cinzéis liliputianos dos segundos, ou dos micronésimos de segundos que agora somos capazes de registrar, embora não de perceber. Proust criou um espelho em sua obra e colocou um "velho" contemplando a "criança", atando as duas pontas da vida, como Casmurro tentou, e conseguiu. O que o perverso do Machado fez foi desmascarar a impossibilidade de olhar com os olhos inocentes: toda narrativa é crítica e tendenciosa. Acorde "leitora ignorantona" -- narrar é manipular, e eu estou aqui te mostrando isso, mas você é muito "burrinha"e se prende apenas aos episódios, não vê que, ao aproximar recortes, estou fazendo aquilo que o cinema e a TV fazem: manipulação, reconstrução, interpretação tendenciosa, que pretende levar a sua interpretação à minha opinião. Machado entendeu como ninguém o que era literatura. Proust também, mas guardou seus achados para uso pessoal. Machado dissecou a mosca azul e romanceou essa dissecção. Proust chamou atenção para o seu vôo, mas não negou que ela pousava sempre no mesmo lugar, embora já não fôssemos os mesmos, modificados entre o alçar vôo e o pouso. Ambos, em algum momento, são acusados de prazeres sádicos. E eu termino, em clima sermonesco (claro, estou relendo o Padre Antônio Vieira), dizendo: bem aventurados os sádicos, pois são eles os capazes de narrar, eximindo-nos da culpa de viver. Se a vida pode ser uma obra de arte quando narrada, nossa canalhice, nossas baixezas, nossa insignificância se hão de redimir e serão justificadas, nas narrativas. Machado deseja revelar o processo que aplaca nossa consciência, Proust deseja mostrar que nossa consciência mascara o processo. Os dois compreendem o processo e o usam com finalidades diversas, mas eficazes. Os autores são mestres, e nunca periféricos. Os leitores são ignorantões, mas poderão, guiados, chegar a pequenas epifanias, pequenos orgasmos, ou seja, diminutas mortes. E é só da perspectiva dessa morte que se narra o mundo... O aleph, que engendra o beth, que engendra gama e todo o alfabeto da escrita. Faz sentido? Se não faz, ficou bonito, para finalizar o texto.
Nesta enevoada manhã de domingo, pensando em figuras paternas, me descubro pensando que meus "pais" são de papel, e que um não tocaria na mesma orquestra que outro, embora até pudessem se admirar mutuamente. A Rachel gosta de fazer aproximações: Proust e Eça, Proust e Machado... Todos experimentaram o delírio da Belle Époque, que, provavelmente, só foi bela para quem era classe dominante. Dos três, Eça ficou conhecido como um combativo na área da política, sendo que Proust e Machado foram chamados de alienados -- ledo engano. Nenhum escritor deixa de falar de seu tempo, nem deixa de pensar sua sociedade. Mesmo quando liricamente contemplando seu próprio umbigo, a vida de sua época está ali representada, as classes sociais, as ideologias da época, as correntes políticas aparecem em painéis, mais ou menos explícitos, mais ou menos hábeis. Quanto mais abrangente e universal a obra, mais encontraremos no texto, porém mais poderosas hão de ser as lentes para examinar os detalhes: Pensemos, por exemplo, em Brueghel, ou em Arcimboldo, quadros que contemplei recentemente e que ainda estão gravados em minhas retinas.
Estou relendo o texto que preparei para expor no Seminário Machado de Assis, tentando ajustar o texto aos 15 minutos a que farei jus amanhã. Corto e recorto, dou uma franzidinha aqui, faço uma prega no texto acolá, e me surpreendo com a quantidade de coisas que já se falou e se escreveu sobre O Espelho. Um conto, que não é dos mais longos, e que já suscitou tanta reflexão! O tema da minha comunicação é ele, mas praticamente todos os outros trabalhos, falando sobre diferentes aspectos da obra de Machado, dentre os que tive a oportunidade de assistir, tocaram neste conto. Uma moda, talvez? Há alguns anos atrás, era Missa do Galo, o conto que não saía da pauta. Desta vez, não escutei sequer uma menção, mesmo com o re-lançamento do livro que junta diferentes versões da missa machadiana (e eu mesma cometo essa ousadia, nesse meu livro que está prestes a sair-- confiram o conto Insônia). Desta vez, são dois os contos que disputam os holofotes: O espelho e A cartomante. Fiquei até com vontade de escrever sobre as metamorfoses no espelho (alguém já deve de ter escrito isso) acompanhando a trajetória do tema passando por escritores tão diferentes quanto Guimarães, Cecília Meirelles e Clarice. E pensando, quem, dentre nós, não se deixou ficar olhando para sua própria imagem no espelho, tentando encontrar a resposta para a mais difícil questão: Ser -- como somos? o que somos? quem somos? quando somos?
A gente se olha no espelho até se "dessensibilizar", e passar a encarar aquela imagem como uma coisa corriqueira. De vez em quando, nos estranhamos, e nos detemos, examinando, criticando, surpresos de que a imagem refletida não seja correspondente à imagem mental que fazemos de nós mesmos. No entanto, as mudanças se operam lentamente, com os pequenos golpes dos cinzéis liliputianos dos segundos, ou dos micronésimos de segundos que agora somos capazes de registrar, embora não de perceber. Proust criou um espelho em sua obra e colocou um "velho" contemplando a "criança", atando as duas pontas da vida, como Casmurro tentou, e conseguiu. O que o perverso do Machado fez foi desmascarar a impossibilidade de olhar com os olhos inocentes: toda narrativa é crítica e tendenciosa. Acorde "leitora ignorantona" -- narrar é manipular, e eu estou aqui te mostrando isso, mas você é muito "burrinha"e se prende apenas aos episódios, não vê que, ao aproximar recortes, estou fazendo aquilo que o cinema e a TV fazem: manipulação, reconstrução, interpretação tendenciosa, que pretende levar a sua interpretação à minha opinião. Machado entendeu como ninguém o que era literatura. Proust também, mas guardou seus achados para uso pessoal. Machado dissecou a mosca azul e romanceou essa dissecção. Proust chamou atenção para o seu vôo, mas não negou que ela pousava sempre no mesmo lugar, embora já não fôssemos os mesmos, modificados entre o alçar vôo e o pouso. Ambos, em algum momento, são acusados de prazeres sádicos. E eu termino, em clima sermonesco (claro, estou relendo o Padre Antônio Vieira), dizendo: bem aventurados os sádicos, pois são eles os capazes de narrar, eximindo-nos da culpa de viver. Se a vida pode ser uma obra de arte quando narrada, nossa canalhice, nossas baixezas, nossa insignificância se hão de redimir e serão justificadas, nas narrativas. Machado deseja revelar o processo que aplaca nossa consciência, Proust deseja mostrar que nossa consciência mascara o processo. Os dois compreendem o processo e o usam com finalidades diversas, mas eficazes. Os autores são mestres, e nunca periféricos. Os leitores são ignorantões, mas poderão, guiados, chegar a pequenas epifanias, pequenos orgasmos, ou seja, diminutas mortes. E é só da perspectiva dessa morte que se narra o mundo... O aleph, que engendra o beth, que engendra gama e todo o alfabeto da escrita. Faz sentido? Se não faz, ficou bonito, para finalizar o texto.
Friday, August 08, 2008
Portal de Orion
08/08/08
Não podia deixar de aproveitar essa data tão redondinha, e, esperando para ver a abertura das olimpíadas, desejar a todos uma "feliz abertura do portal de Orion". Vocês estranham?Eu também, mas, depois daquele filme Stargate, acho que as estrelas todas adotaram "portais".
Aqui está um desenho que representa a constelação que contém algumas das mais famosas estrelas do céu, a saber: Betelgeuse a estrela vermelha em seu ombro e Rigel, brilhante e azulada, em seu tornozelo.Bem, para quem não conhece Orion, ele era um gigante, excelente caçador, que, dizem, foi amado por Ártemis. Numa das versões, a deusa, ao surpreendê-lo correndo atrás das Plêiades (as sete irmãs Sterope, Merope, Electra, Maia, Taigete, Celeno e Alcione que passeiam pelos céus acompanhadas de seus pais Atlas e Pleione), teve um acesso de ciúme e enviou um escorpião que o matou. Depois, arrependida, ela suplicou a Zeus que o colocasse no céu, juntamente com seus dois cães de caça, o Cão Maior, Sírius, e o Menor, Procyon, e que lhe desse animais para caçar: o Touro e a Lebre. Zeus realizou o desejo da filha, criando todas essas constelações, mas, para que ela não esquecesse das ciladas que o ciúme prepara, criou também a constelação do Escorpião, e, sempre que esta aparece no céu, Orion se esconde no mar.
Adoro essas histórias, aliás, adoro qualquer história, e me encanta poder lê-las no céu, no mar, nas montanhas, nas páginas dos livros.
Desejo a todos boas Olimpíadas, com ou sem portal de Orion, e aviso que vou estar na UERJ, este fim de semana, participando e expondo em um Seminário em Homenagem a Machado de Assis.
Falarei na segunda-feira, sobre O Espelho, conto excepcional de Papéis Avulsos.
Thursday, August 07, 2008
Chega de fossa!
Não vou mais falar de dor de cotovelo, até porque não sinto nenhuma dor de cotovelo. E hoje é dia do aniversário de uma amiga, e quero desejar a ela MUUIIIIITAASSS FELICIDADES!
Feliz aniversário Renée. E já aproveito para ir cumprimentando os aniversariantes dos dias seguintes: Feliz aniversário Marlene! Feliz aniversário Maria Flora! Feliz aniversário Ivan! Feliz aniversário Rosana! Ufa, cansei. Adoro todos vocês. Com todos esses leãozinhos (foi a correção automática que mudou, eu tinha feito o plural primeiro, depois o diminutivo + s) à minha volta, acho que me sinto bem protegida...
Feliz aniversário Renée. E já aproveito para ir cumprimentando os aniversariantes dos dias seguintes: Feliz aniversário Marlene! Feliz aniversário Maria Flora! Feliz aniversário Ivan! Feliz aniversário Rosana! Ufa, cansei. Adoro todos vocês. Com todos esses leãozinhos (foi a correção automática que mudou, eu tinha feito o plural primeiro, depois o diminutivo + s) à minha volta, acho que me sinto bem protegida...
Wednesday, August 06, 2008
Mais interpretações excepcionais
Elis Regina - Atras da Porta - ao vivo
Me entusiasmei com o vídeo da Maysa, e fui procurar outras músicas que acho essenciais. Queria colocar o vídeo aqui, mas recebi uma mensagem de erro. Assim, fica o link, e quem quiser vai lá no YouTube ver.
Já falei com vocês sobre minha depressão pós-férias, e estou preferindo as canções do "fino da fossa", o supra-sumo do abandono. Mas até dá gosto sentir um pouco de dor de cotovelo, escutando essas canções...
Claro que, obsessiva como sou, escutei ne me quitte pas em todas as versões publicadas no You Tube. Acho que nenhuma interpretação é superior à da Maysa. Porém a Mireille Mathieu fez um mix com uma outra canção que intensificou o poder da letra. Ah, e acho que a versão em inglês, cantada pela Shirley Bassey, tem os versos mais lindos. Se você for embora, num dia de verão, pode levar o sol, e os pássaros ... Sem amor, pergunto eu, de que serve a vida? Prá adorar pelo avesso o outro que se foi, responde o Chico. Aliás, ele, tão novinho, aparece cantando junto do Tom Jobim uma outra música dos meus amores: Eu te amo. Como é que um menino conseguiu escrever versos tão doloridos? Está lá no YouTube, também. Vale a pena ver as duas versões do Chico, uma quase criança, outra, homem maduro. A primeira versão é mais emocionante. Acho que ele ainda acreditava no amor...
Amanhã continuo.
Me entusiasmei com o vídeo da Maysa, e fui procurar outras músicas que acho essenciais. Queria colocar o vídeo aqui, mas recebi uma mensagem de erro. Assim, fica o link, e quem quiser vai lá no YouTube ver.
Já falei com vocês sobre minha depressão pós-férias, e estou preferindo as canções do "fino da fossa", o supra-sumo do abandono. Mas até dá gosto sentir um pouco de dor de cotovelo, escutando essas canções...
Claro que, obsessiva como sou, escutei ne me quitte pas em todas as versões publicadas no You Tube. Acho que nenhuma interpretação é superior à da Maysa. Porém a Mireille Mathieu fez um mix com uma outra canção que intensificou o poder da letra. Ah, e acho que a versão em inglês, cantada pela Shirley Bassey, tem os versos mais lindos. Se você for embora, num dia de verão, pode levar o sol, e os pássaros ... Sem amor, pergunto eu, de que serve a vida? Prá adorar pelo avesso o outro que se foi, responde o Chico. Aliás, ele, tão novinho, aparece cantando junto do Tom Jobim uma outra música dos meus amores: Eu te amo. Como é que um menino conseguiu escrever versos tão doloridos? Está lá no YouTube, também. Vale a pena ver as duas versões do Chico, uma quase criança, outra, homem maduro. A primeira versão é mais emocionante. Acho que ele ainda acreditava no amor...
Amanhã continuo.
Tuesday, August 05, 2008
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas, cantado por Maysa. Não só a música é linda, como a interpretação é fabulosa!
Aproveitem, deliciem-se, e chorem rios, se for o caso...
Eu quase me afogo, mas não deixo de escutar.
Aproveitem, deliciem-se, e chorem rios, se for o caso...
Eu quase me afogo, mas não deixo de escutar.
Monday, August 04, 2008
O prazer de dar aulas
Acabei de dar minha aula semanal, e vim conversando com uma das alunas, cuja filha começa agora sua carreira como professora universitária. Ela me falava da alegria e do entusiasmo da Joana, e eu concordava, pensando como é bom dar aula. Porque é muito boa essa sensação de compartilhar paixões. Eu adoro dar aula, mas das coisas que me entusiasmam. Falar de literatura sempre me deixa cheia de ânimo, de olhos brilhando, e feliz. Principalmente porque percebo que vou deixando os alunos com o mesmo encanto que eu sinto, e isso me gratifica muito.
Hoje lemos dois capítulos do Quixote, e minhas alunas estavam visivelmente deleitadas com o desenrolar da história. Uma chegou atrasada, e perguntou quem era a Doroteia, e eu nem precisei falar nada, elas disputaram a chance de falar sobre a personagem que as tinha comovido. Eu fiquei toda boba, alegre com elas e por elas, orgulhosa de vê-las tão seguras e "donas" da história. Há tempos atrás elas eram tímidas, não ousavam falar, não davam opiniões. Agora elas retrucam, concordam, lembram de coisas, visivelmente seguras de que estão entendendo o assunto. E nossos projetos se multiplicam. Depois de Cervantes, vamos a Vieira, sim o Pe. Antônio Vieira, dos belos e inteligentíssimo sermões. Vamos curtir muito, acompanhando seus raciocínios e estudando figuras de linguagem. Já estou antegozando o prazer dessas futuras aulas. Vai ser minha chance de reler um autor muito querido.
Hoje lemos dois capítulos do Quixote, e minhas alunas estavam visivelmente deleitadas com o desenrolar da história. Uma chegou atrasada, e perguntou quem era a Doroteia, e eu nem precisei falar nada, elas disputaram a chance de falar sobre a personagem que as tinha comovido. Eu fiquei toda boba, alegre com elas e por elas, orgulhosa de vê-las tão seguras e "donas" da história. Há tempos atrás elas eram tímidas, não ousavam falar, não davam opiniões. Agora elas retrucam, concordam, lembram de coisas, visivelmente seguras de que estão entendendo o assunto. E nossos projetos se multiplicam. Depois de Cervantes, vamos a Vieira, sim o Pe. Antônio Vieira, dos belos e inteligentíssimo sermões. Vamos curtir muito, acompanhando seus raciocínios e estudando figuras de linguagem. Já estou antegozando o prazer dessas futuras aulas. Vai ser minha chance de reler um autor muito querido.
Sunday, August 03, 2008
Fotos, será que consigo?
Coluna do Xexeo
Acabo de ler o diagnóstico do Xexeo, sobre o amor pelo teatro. Vim correndo escrever, confessar meu amor pelo teatro, que não se deve à TV, pois não me era permitido assisti-la. Coisa de criança criada pelos avós. Só assistíamos a um programa durante a semana, escolha de minha avó, Os Intocáveis. Em compensação, escutei muito rádio, escondida no quarto da empregada que era apaixonada pelo Jerônimo, o herói do sertão. Eu também amava aquele herói e morria de ciúmes da Aninha. Sabia que o Moleque Saci ia preferir que seu grande amigo ficasse comigo, pois, afinal, eu não era uma mocinha doce e comportada: era aventureira: subia nos móveis, me escondia para escutar rádio e lia livros proibidos... Na maioria das vezes, fiquei sem saber como terminavam as aventuras, mas isso nunca me perturbou, pois eu mesma criava finais, que eram sempre idênticos: na hora do aperto, eu conseguia descobrir um jeito de ajudar o Jerônimo e ....acabávamos vivendo felizes para sempre, cantando aquela cançãozinha " Filho de Maria Rita(?) nasceu, Serro Bravo foi seu berço natal..." Incrível como as paixões se desvanecem no ar. Já nem lembro mais a canção...
Me pergunto, então, por que é que gosto de teatro? Primeiro porque via meus parentes indo ao teatro: era um grande programa! As pessoas se arrumavam, se vestiam, se perfumavam, usavam saltos altos ou terno e gravata. Me lembro de ir acompanhando minha mãe e uma amiga para comprar entradas para uma peça no Copacabana Palace. Mamãe falava das poltronas de veludo, das cortinas. Ela e suas amigas comentavam as peças aos cochichos, com risinhos excitados de adolescentes que já não eram, mas ainda pareciam. Acompanhei-as também às bilheterias do Teatro Glória, e de um outro no Centro, numa ruazinha esquisita que foi criada só para abrigar este prédio, ali perto da São José.
Teatros havia por toda a parte aqui no Rio. Ainda não tinha muita idade quando comecei a frequentar os espetáculos teatrais. Acho que, naquela época, cinema tinha censura, mas teatro não. A gente só ia ao teatro acompanhada pelos pais e ou responsáveis, acho que era isso. Sei que, ainda pequena, fui assistir a uma peça do Teatro dos Sete (? seria esse mesmo o nome?) Acho que era um Martins Penna. Assisti a uma montagem maravilhosa de A Moreninha, no João Caetano. Ainda me lembro das roupas maravilhosas e de uma canção: Cafuné, cafuné, é de São, São Tomé, vem de lá, de Luanda..." Neste mesmo João Caetano, anos depois, assisti Macunaíma e fiquei deslumbrada.
Mas havia outras salas teatrais, muito mais próximas de minha casa. Ali na praça Gal Osório (nos tempos de ditadura, era muito "ousado" dizer Gal, ao invés de General) assisti Roda-Viva. Ah, o que os meus olhos viram e meu coração sentiu! E, em Botafogo, assisti a Dois perdidos numa noite suja e também Navalha na carne. Grande Plínio Marcos, maldito na época, mas fazendo um teatro tão bom que nos deixava quase sem ar. Continuando com esses espetáculos inesquecíveis, assisti a uma montagem de Notre Dame des Fleurs, perto do Largo do Machado. Acho que isso foi muito depois, pois já estava casada. Na verdade, para quem se casou tão cedo como eu, pode não ter sido tão depois. Também vi, no Ginástico, Morte e Vida Severina, sem cenários, os próprios atores se transformavam em janela, em pedra, no que fosse necessário. Que revelação! Mas perdi coisas maravilhosas e a que mais sinto ter perdido foi O Rei da Vela. Logo eu, tão fã do Oswald...Não sei por que não fui. Talvez falta de grana.
Então, por que será que gosto de teatro? Porque antigamente, consideravam teatro um programa bacana. Porque as peças de teatro eram boas. Porque as montagens eram sensacionais. Porque não se ia ao teatro para fazer culto das personalidades. A gente ia ao teatro pelo espetáculo, não para ver a cara do Fulano ou a nudez do Sicrano.
Para terminar, não posso deixar de mencionar os Paulos, Gracindo e Autran. A gente ia ao teatro ver esses monstros sagrados. Mas, quando chegava lá, não encontrava nenhum dos dois. Dava de cara com Édipo, ou Shylock, ou seja lá quem fosse que eles estivessem representando. E era bom. Era inesquecível.
Me pergunto, então, por que é que gosto de teatro? Primeiro porque via meus parentes indo ao teatro: era um grande programa! As pessoas se arrumavam, se vestiam, se perfumavam, usavam saltos altos ou terno e gravata. Me lembro de ir acompanhando minha mãe e uma amiga para comprar entradas para uma peça no Copacabana Palace. Mamãe falava das poltronas de veludo, das cortinas. Ela e suas amigas comentavam as peças aos cochichos, com risinhos excitados de adolescentes que já não eram, mas ainda pareciam. Acompanhei-as também às bilheterias do Teatro Glória, e de um outro no Centro, numa ruazinha esquisita que foi criada só para abrigar este prédio, ali perto da São José.
Teatros havia por toda a parte aqui no Rio. Ainda não tinha muita idade quando comecei a frequentar os espetáculos teatrais. Acho que, naquela época, cinema tinha censura, mas teatro não. A gente só ia ao teatro acompanhada pelos pais e ou responsáveis, acho que era isso. Sei que, ainda pequena, fui assistir a uma peça do Teatro dos Sete (? seria esse mesmo o nome?) Acho que era um Martins Penna. Assisti a uma montagem maravilhosa de A Moreninha, no João Caetano. Ainda me lembro das roupas maravilhosas e de uma canção: Cafuné, cafuné, é de São, São Tomé, vem de lá, de Luanda..." Neste mesmo João Caetano, anos depois, assisti Macunaíma e fiquei deslumbrada.
Mas havia outras salas teatrais, muito mais próximas de minha casa. Ali na praça Gal Osório (nos tempos de ditadura, era muito "ousado" dizer Gal, ao invés de General) assisti Roda-Viva. Ah, o que os meus olhos viram e meu coração sentiu! E, em Botafogo, assisti a Dois perdidos numa noite suja e também Navalha na carne. Grande Plínio Marcos, maldito na época, mas fazendo um teatro tão bom que nos deixava quase sem ar. Continuando com esses espetáculos inesquecíveis, assisti a uma montagem de Notre Dame des Fleurs, perto do Largo do Machado. Acho que isso foi muito depois, pois já estava casada. Na verdade, para quem se casou tão cedo como eu, pode não ter sido tão depois. Também vi, no Ginástico, Morte e Vida Severina, sem cenários, os próprios atores se transformavam em janela, em pedra, no que fosse necessário. Que revelação! Mas perdi coisas maravilhosas e a que mais sinto ter perdido foi O Rei da Vela. Logo eu, tão fã do Oswald...Não sei por que não fui. Talvez falta de grana.
Então, por que será que gosto de teatro? Porque antigamente, consideravam teatro um programa bacana. Porque as peças de teatro eram boas. Porque as montagens eram sensacionais. Porque não se ia ao teatro para fazer culto das personalidades. A gente ia ao teatro pelo espetáculo, não para ver a cara do Fulano ou a nudez do Sicrano.
Para terminar, não posso deixar de mencionar os Paulos, Gracindo e Autran. A gente ia ao teatro ver esses monstros sagrados. Mas, quando chegava lá, não encontrava nenhum dos dois. Dava de cara com Édipo, ou Shylock, ou seja lá quem fosse que eles estivessem representando. E era bom. Era inesquecível.
Saturday, August 02, 2008
RomamoR
Gosto de Roma. Aliás, gosto de toda a Itália, cada lugarzinho me encanta de uma maneira diferente, com um charme distinto. Não há como comparar as cidades italianas, não encontro um parâmetro com que comparar Roma, Veneza, Portofino e Florença, por exemplo. Mas, nesta viagem, ficamos apenas em Roma, passeando de 116, nosso ônibus elétrico, pequenininho e onipresente, que passava em todos os lugares para onde queríamos ir. Vila Borghese? 116. Panteon? 116. Piazza Navona? 116. Vaticano? 116. Lungotevere? 116... Já conhecíamos os motoristas, alguns nos saudavam, simpáticos, outros demonstravam seu desprazer com as turistas encaloradas que tomavam o ônibus para fazer viagens longas, aproveitando para descansar de tantas andanças. Gostávamos de tomá-lo na direção da Vila Borghese, para nos aproveitarmos do parque, lindo e fresco, com suas sombras e muitas fontes. Acho que fomos até lá todos os dias. Outras vezes, tomávamos ônibus de números diferentes, e íamos até redutos mais afastados da cidade. Foi assim quando quisemos passear pelas termas de Caracala, ou quando tomamos um ônibus de trajeto longo, até a vila olímpica. Íamos para o Termini ou para a Piazza San Silvestre, ou para a torre Argentina e dali seguíamos outros destinos, planejados de olhos no mapa.
Minha grande descoberta desta vez foi a Domus Áurea, a casa de Nero, seu palácio de verão, deslumbrante, totalmente soterrado por um de seus sucessores, num meticuloso trabalho de preenchimento e de aniquilação que fez meu coração se confranger. O que teria levado esse outro imperador, cujo nome já esqueci, a desejar apagar tão completamente os traços de seu predecessor? Ele nem foi o sucessor direto, o palácio ainda foi usado por pelo menos mais um César, que fez algumas modificações no projeto inicial. Mas depois foi deliberadamente obliterado por esse outro, num processo custoso e demorado. Houve que reforçar paredes, fechar vãos, preencher de terra milhares de metros cúbicos. Mas, eis que um belo dia, descobrem uma das aberturas que tinha sido feita exatamente para destruir. Uma espécie de poço, por onde um curioso desceu e descobriu o teto, magnificamente decorado, de um dos salões. Até Michelangelo desceu por uma dessas aberturas (logo em seguida descobriram outras) para ver as maravilhas das pinturas e daí nasceu o estilo grotesco -- ou seja, de grotto, essas grutas em que o palácio se havia transformado. Fizemos uma visita arqueológica, com capacetes e tudo o mais, guiadas por uma arqueóloga apaixonada por seu trabalho. Era um grupo pequeno, de pessoas persistentes: para conseguir os ingressos é preciso entrar na fila do Colosseo, passar pela segurança, ir até o guichê específico da Domus Áurea e depois voltar todo o caminho debaixo de um sol que torna as ruínas quase que incandescentes. Foi bom. Fizemos a visita logo no primeiro dia e aprendemos lições que nos permitiram olhar para as outras ruínas com olhos mais experimentados. Víamos em tudo aquilo o que lá não está, como nos ensinou Pessoa. Aprendemos a descobrir onde estariam antigas pinturas, onde as fachadas teriam sido cobertas de mármores, ou de mosaicos, em alguns momentos, sonhadoras, creio que conseguíamos imaginar a Roma de muitos séculos atrás.
Passamos vezes sem conta pela Fontana de Trevi -- nosso hotel estava bem ali ao lado. Era nosso caminho. Íamos ali como quem vai ao quintal. E, não importa a hora em que fôssemos, a multidão se comprimia, disputando um espaço para se deixar fotografar. Bebi água da Fontana, bem ali no bebedouro ao lado, que existe para esse fim, mesmo. Bebi água no Panteon. Bebi água em todas as fontes que encontrei pelo caminho, desejosa de incorporar, de alguma forma, tanta beleza e encanto. Entrei em igrejas, cada qual mais bela. As duas ao lado do hotel, já minhas velhas conhecidas, outras velhas conhecidas, na piazza Navona, no largo de Sta Susana, no trastevere, no alto da Piazza de Spagna. Outras ao sabor do acaso, provavelmente já visitadas antes, mas esquecidas, como a de Sta Maria Madalena. No Vaticano, enfrentamos uma longa fila para entrar na Basílica -- segurança, a mãe de todas as filas. Lá dentro, o encanto. E uma enorme emoção: ter mandado rezar uma missa pelo Guilherme. Essa missa será rezada entre o dia 5 e o dia 11 de agosto. Ter conseguido isso me emocionou até às lágrimas.
Era o fim da viagem. Depois disso, um almoço memorável no Brunello da Via Veneto. Uma caminhada até o hotel, onde aguardamos pelo transfer até o aeroporto, e... num vôo sem maiores problemas, S.P. parada obrigatória, antes de nosso Rio tão querido, tão humilhado pelos novos valores...
Minha grande descoberta desta vez foi a Domus Áurea, a casa de Nero, seu palácio de verão, deslumbrante, totalmente soterrado por um de seus sucessores, num meticuloso trabalho de preenchimento e de aniquilação que fez meu coração se confranger. O que teria levado esse outro imperador, cujo nome já esqueci, a desejar apagar tão completamente os traços de seu predecessor? Ele nem foi o sucessor direto, o palácio ainda foi usado por pelo menos mais um César, que fez algumas modificações no projeto inicial. Mas depois foi deliberadamente obliterado por esse outro, num processo custoso e demorado. Houve que reforçar paredes, fechar vãos, preencher de terra milhares de metros cúbicos. Mas, eis que um belo dia, descobrem uma das aberturas que tinha sido feita exatamente para destruir. Uma espécie de poço, por onde um curioso desceu e descobriu o teto, magnificamente decorado, de um dos salões. Até Michelangelo desceu por uma dessas aberturas (logo em seguida descobriram outras) para ver as maravilhas das pinturas e daí nasceu o estilo grotesco -- ou seja, de grotto, essas grutas em que o palácio se havia transformado. Fizemos uma visita arqueológica, com capacetes e tudo o mais, guiadas por uma arqueóloga apaixonada por seu trabalho. Era um grupo pequeno, de pessoas persistentes: para conseguir os ingressos é preciso entrar na fila do Colosseo, passar pela segurança, ir até o guichê específico da Domus Áurea e depois voltar todo o caminho debaixo de um sol que torna as ruínas quase que incandescentes. Foi bom. Fizemos a visita logo no primeiro dia e aprendemos lições que nos permitiram olhar para as outras ruínas com olhos mais experimentados. Víamos em tudo aquilo o que lá não está, como nos ensinou Pessoa. Aprendemos a descobrir onde estariam antigas pinturas, onde as fachadas teriam sido cobertas de mármores, ou de mosaicos, em alguns momentos, sonhadoras, creio que conseguíamos imaginar a Roma de muitos séculos atrás.
Passamos vezes sem conta pela Fontana de Trevi -- nosso hotel estava bem ali ao lado. Era nosso caminho. Íamos ali como quem vai ao quintal. E, não importa a hora em que fôssemos, a multidão se comprimia, disputando um espaço para se deixar fotografar. Bebi água da Fontana, bem ali no bebedouro ao lado, que existe para esse fim, mesmo. Bebi água no Panteon. Bebi água em todas as fontes que encontrei pelo caminho, desejosa de incorporar, de alguma forma, tanta beleza e encanto. Entrei em igrejas, cada qual mais bela. As duas ao lado do hotel, já minhas velhas conhecidas, outras velhas conhecidas, na piazza Navona, no largo de Sta Susana, no trastevere, no alto da Piazza de Spagna. Outras ao sabor do acaso, provavelmente já visitadas antes, mas esquecidas, como a de Sta Maria Madalena. No Vaticano, enfrentamos uma longa fila para entrar na Basílica -- segurança, a mãe de todas as filas. Lá dentro, o encanto. E uma enorme emoção: ter mandado rezar uma missa pelo Guilherme. Essa missa será rezada entre o dia 5 e o dia 11 de agosto. Ter conseguido isso me emocionou até às lágrimas.
Era o fim da viagem. Depois disso, um almoço memorável no Brunello da Via Veneto. Uma caminhada até o hotel, onde aguardamos pelo transfer até o aeroporto, e... num vôo sem maiores problemas, S.P. parada obrigatória, antes de nosso Rio tão querido, tão humilhado pelos novos valores...
Friday, August 01, 2008
Com sol e com esperança
Na Alemanha fomos recebidos com sol. Era a última etapa da excursão, já estávamos mais experientes, mas, ao invés de um pouco mais folgados, graças à despedida de uma parte do grupo, ficamos foi mais apertadinhos, num novo ônibus ainda mais desconfortável que o anterior e com novas pessoas de um hotel ainda mais distante do que o nosso. Pois os hotéis eram de duas categorias: distantes, mas de boas acomodações ou próximos, mas horrorosinhos. Em Praga estávamos num no final de uma das linhas do metro. Não era mal, só a comida é que era terrível. Fugimos de nossas refeições de internato e comemos no centro da cidade, sempre. E, no café da manhã, depois da primeira decepção, passamos a trazer nossa própria comida e só aproveitávamos o café...
Mas a Alemanha foi generosa: sol, bom hotel, boa comida e localização perfeita -- Alexanderplatz, a um pequeno passeio de Nikolaiviertel, do Museumsinsel, do Berliner Dom. Com condução para todos os lados da cidade e uma profusão de bons restaurantes que nos deixavam sem saber para qual ir. Antes de Berlim, porém, uma pequena parada em Dresden para o nosso deslumbramento. Que milagre, a reconstrução desta cidade, bombardeada desnecessariamente, e com tanta violência que os incêndios provocaram uma espécie de turbilhão de fogo que sugava as pessoas para seu âmago. Não há sinais disso, agora. A cidade se revela em toda sua beleza, em alegria de viver. Custava-me acreditar na sua prévia destruição. E passeei por ali com gosto, embora quase sem tempo, tendo que abandonar as vistas e os prédios, e seguir adiante, para conseguir alcançar o ônibus que já estava pronto para partir.
Em Berlin, passeamos. Não deu para ir a nenhum concerto, pois a orquestra estava de férias. Nem deu para perambular por nenhuma rua, sem destino, descompromissados. Havia que visitar o Pergamon, havia que pagar nossos respeitos à Nefertiti, havia que levar os amigos à Kadewe, passar pela Unter dem Linden, pelo Adlon, pelos monumentos famosos e museus extraordinários. E eu ainda queria ir até Potsdam, para ver o palácio do rei filósofo, e conhecer o quarto que hospedou Voltaire, por três anos, dar uma olhada na biblioteca, ciosamente vedada a estranhos, olhar os jardins e o túmulo de quem preferiu ser enterrado à noite, junto a seus cachorros, num túmulo sem pompa, mas de enorme dignidade, onde alguns admiradores depositavam batatas, cuja cultura ele tanto se esforçou para introduzir em seu reino.
Depois, as despedidas. O grupo se desfez. Amigos recentes indo para Portugal e Galiza, eu e N. embarcando para a Roma alegre e quente, cheia de canções de outros festivais...
Mas a Alemanha foi generosa: sol, bom hotel, boa comida e localização perfeita -- Alexanderplatz, a um pequeno passeio de Nikolaiviertel, do Museumsinsel, do Berliner Dom. Com condução para todos os lados da cidade e uma profusão de bons restaurantes que nos deixavam sem saber para qual ir. Antes de Berlim, porém, uma pequena parada em Dresden para o nosso deslumbramento. Que milagre, a reconstrução desta cidade, bombardeada desnecessariamente, e com tanta violência que os incêndios provocaram uma espécie de turbilhão de fogo que sugava as pessoas para seu âmago. Não há sinais disso, agora. A cidade se revela em toda sua beleza, em alegria de viver. Custava-me acreditar na sua prévia destruição. E passeei por ali com gosto, embora quase sem tempo, tendo que abandonar as vistas e os prédios, e seguir adiante, para conseguir alcançar o ônibus que já estava pronto para partir.
Em Berlin, passeamos. Não deu para ir a nenhum concerto, pois a orquestra estava de férias. Nem deu para perambular por nenhuma rua, sem destino, descompromissados. Havia que visitar o Pergamon, havia que pagar nossos respeitos à Nefertiti, havia que levar os amigos à Kadewe, passar pela Unter dem Linden, pelo Adlon, pelos monumentos famosos e museus extraordinários. E eu ainda queria ir até Potsdam, para ver o palácio do rei filósofo, e conhecer o quarto que hospedou Voltaire, por três anos, dar uma olhada na biblioteca, ciosamente vedada a estranhos, olhar os jardins e o túmulo de quem preferiu ser enterrado à noite, junto a seus cachorros, num túmulo sem pompa, mas de enorme dignidade, onde alguns admiradores depositavam batatas, cuja cultura ele tanto se esforçou para introduzir em seu reino.
Depois, as despedidas. O grupo se desfez. Amigos recentes indo para Portugal e Galiza, eu e N. embarcando para a Roma alegre e quente, cheia de canções de outros festivais...
Thursday, July 31, 2008
Praguejando
Passei a manhã tentando me entender com as fotos. Pelo menos, consegui retirá-las de dentro da máquina e passá-las para o computador. Acho que vou ter de ligar para Celina que, em sua gentileza, se propõe a me ajudar. Agradeço às mensagens dos amigos, que voltam e me alegram com suas mensagens de boas-vindas.
São muitas as fotos, umas trezentas e cinquenta, como o poema de Mário
Eu sou trezentos, eu sou trezentos e cinquenta... Só que eu não estou em quase nenhuma das fotos. Mas apareço, aqui e ali, quando minha companheira de viagem acertava fazer a misteriosa câmara funcionar. Como vocês podem ver, o equipamento é complicado, não sou assim tão ruim quanto minhas reclamações me fazem parecer. Coisas de filhos, que acham que suas mães têm a mesma habilidade que eles com esses novos equipamentos!
A maquininha não impediu minha fruição. Nem mesmo a chuva. Estive olhando algumas das fotos que tirei de dentro do ônibus em movimento e ficaram parecendo uns quadros impressionistas. Não revelam os lugares, mas demonstram bem o clima, acho que até os arrepios de frio que nos tiravam a vontade de saltar e visitar as inúmeras belezas que víamos. Isso até ajudou a não nos revoltarmos contra o regime cruel da excursão, que nos mostrava as coisas de longe, sem se deter. Sossegamos, nos encolhemos, friorentos, e olhamos a cidade das pontes e dos recantos românticos, com olhos próximos da sensibilidade simbolista.
Mas andamos para lá e para cá, a pé e de metrô, seguindo mapinhas turísticos e atravessando tantas pontes quanto nossa fantasia e disponibilidade permitiu. Ousamos ônibus que nos levaram para longe dos caminhos usuais. Retornamos de metrô, sempre por ali por perto da ponte Carlos, e dos recantos sagrados onde encostávamos as mãos suplicando graças a um santo de língua cortada e guardada em belo relicário. Vestidos como turístas friorentos jantamos num dos restaurantes mais elegantes de Praga. Vestidos como príncipes, comemos em restaurante de segunda. Carregados de embrulhos, assistimos a uma ópera -- Don Giovanni -- montada com cenários antigos, lindos, num teatro tão bonito que nos deixou felizes só por estar ali. Assistimos o bailado dos apóstolos, desfilando no relógio astronômico, escondidos em sua janelinha, enquanto a morte se requebrava, avisando que está sempre presente, a cada hora do dia. Servimos de testemunhas a diversos casamentos: Como as pessoas se casam! Era um entra e sai contínuo, uma corrente humana que se metamorfoseava em noivas ricas e pobres, elegantes e vulgares, populares ou não. O casal que mais me comoveu foi o que compareceu tão solitário para o casamento que não puderam ter uma foto dos dois juntos. Um tirou a foto do outro, e aquilo fez sangrar meu coração. Quis me oferecer para ajudar, mas, na multidão, não consegui chegar a tempo de fazer minha mímica, pois não teria conseguido dizer nada em tcheco. Mas fiquei assombrada por aqueles dois, tão sozinhos no meio da multidão, esperando que eles se acompanhem para sempre, que nunca mais se sintam tão sós. Tomamos café, escutamos mais música, pelas ruas, e depois, lá fomos nós para o ônibus, que nos levou para a Alemanha, onde, finalmente, reencontramos o sol.
São muitas as fotos, umas trezentas e cinquenta, como o poema de Mário
Eu sou trezentos, eu sou trezentos e cinquenta... Só que eu não estou em quase nenhuma das fotos. Mas apareço, aqui e ali, quando minha companheira de viagem acertava fazer a misteriosa câmara funcionar. Como vocês podem ver, o equipamento é complicado, não sou assim tão ruim quanto minhas reclamações me fazem parecer. Coisas de filhos, que acham que suas mães têm a mesma habilidade que eles com esses novos equipamentos!
A maquininha não impediu minha fruição. Nem mesmo a chuva. Estive olhando algumas das fotos que tirei de dentro do ônibus em movimento e ficaram parecendo uns quadros impressionistas. Não revelam os lugares, mas demonstram bem o clima, acho que até os arrepios de frio que nos tiravam a vontade de saltar e visitar as inúmeras belezas que víamos. Isso até ajudou a não nos revoltarmos contra o regime cruel da excursão, que nos mostrava as coisas de longe, sem se deter. Sossegamos, nos encolhemos, friorentos, e olhamos a cidade das pontes e dos recantos românticos, com olhos próximos da sensibilidade simbolista.
Mas andamos para lá e para cá, a pé e de metrô, seguindo mapinhas turísticos e atravessando tantas pontes quanto nossa fantasia e disponibilidade permitiu. Ousamos ônibus que nos levaram para longe dos caminhos usuais. Retornamos de metrô, sempre por ali por perto da ponte Carlos, e dos recantos sagrados onde encostávamos as mãos suplicando graças a um santo de língua cortada e guardada em belo relicário. Vestidos como turístas friorentos jantamos num dos restaurantes mais elegantes de Praga. Vestidos como príncipes, comemos em restaurante de segunda. Carregados de embrulhos, assistimos a uma ópera -- Don Giovanni -- montada com cenários antigos, lindos, num teatro tão bonito que nos deixou felizes só por estar ali. Assistimos o bailado dos apóstolos, desfilando no relógio astronômico, escondidos em sua janelinha, enquanto a morte se requebrava, avisando que está sempre presente, a cada hora do dia. Servimos de testemunhas a diversos casamentos: Como as pessoas se casam! Era um entra e sai contínuo, uma corrente humana que se metamorfoseava em noivas ricas e pobres, elegantes e vulgares, populares ou não. O casal que mais me comoveu foi o que compareceu tão solitário para o casamento que não puderam ter uma foto dos dois juntos. Um tirou a foto do outro, e aquilo fez sangrar meu coração. Quis me oferecer para ajudar, mas, na multidão, não consegui chegar a tempo de fazer minha mímica, pois não teria conseguido dizer nada em tcheco. Mas fiquei assombrada por aqueles dois, tão sozinhos no meio da multidão, esperando que eles se acompanhem para sempre, que nunca mais se sintam tão sós. Tomamos café, escutamos mais música, pelas ruas, e depois, lá fomos nós para o ônibus, que nos levou para a Alemanha, onde, finalmente, reencontramos o sol.
Wednesday, July 30, 2008
Una bambola
Não me atrevo aqui a citar a letra da canção italiana antiguinha, que mais ou menos queria dizer (pelo menos é o que eu entendia) que a amada fazia o namorado girar como una bambola e depois o deixava de lado, brinquedo esquecido. Essa bambola, para mim, era o bambolê, rodinha hoje em desuso, mas da qual eu era uma grande atleta! Comandava o bambolê com perícia, e o aro volteava ao redor do meu pescoço, descia, orbitava em volta de minha cintura, coxas, joelhos, e depois, com pequenas alterações no movimento do corpo, subia tudo de novo, e eu conseguia, de vez em quando, retirá-lo para um único braço, proeza muito admirada pelos meus grandes fãs: meus avós.
Eles me deram bambolês de diversas cores e eu usava mais de um ao mesmo tempo, mas isso às vezes desandava. Minha avó estava convencida de que o "exercício" afinaria minha cintura, mas ela estava enganada. Nunca tive o corpinho de violão que ela desejava para mim. Talvez por isso eu tenha abandonado meu esporte, e hoje (juro que tentei recentemente) não consigo mais manter o bambolê girando. Só no braço, e, assim mesmo, com alguma dificuldade, perigando de ver o aro fugitivo se escapar e causar algum acidente. Na verdade, nunca fui muito atlética, nem muito preocupada com o corpo. Talvez por isso tenha sido tão crítica com relação à Sissi, imperatriz tão preocupada com sua beleza e sua silhueta que me impressionou, quando menina, de uma maneira positiva graças aos filmes da suave e sorridente Rommy Schneider. Ela estava sempre sorrindo, nas fotos e nas cenas dos filmes, e descobri que a verdadeira nunca sorria, envergonhada pelos dentes escuros que enfeiavam sua boca.
Quando cheguei a Viena, pela primeira vez, comprei todos os livros que encontrei sobre sua vida e descobri sua provável anorexia, sua complicada relação com os cabelos, que lhe provocavam dores enormes de cabeça visto pesarem muito, e necessitarem de suporte para serem penteados. Um parêntese: ela não admitia que caíssem fios de cabelo ao ser penteada, e espancava as cabeleireiras.
Entendo que a Sofia não fosse fácil, mas acho que a Sissi era ainda mais difícil que sua sogra...
Visitando a Áustria, a gente sempre se maravilha com a beleza do lugar. Pequenina, a cidade de Viena é tão acolhedora para os turistas que chega a parecer uma espécie de Disneyland: todas as atrações estão a curta distância, e um bondinho interliga todas elas, e nos permite descansar as pernas cansadas de percorrer quilômetros de galerias de palácios e museus. Como já tinha estado ali antes, esnobei algumas visitas e fiz outras, não planejadas pela excursão. Não fui ao palácio de inverno mas voltei ao museu de nome difícil (Kunsthistorischesmuseum). Fui lá rever meus amigos Arcimboldo e Brueggel, e tomar um cafezinho sob a rotunda, admirando o palácio lindo, lindo, que devemos à Maria Teresa, mãe de outra austríaca famosa, a Antonieta, e, por incrível que pareça, avó do único filho de Napoleão, L'Aiglon, tão lindinho e lourinho, mas que morreu tão cedo.
Corremos toda a cidade atrás da casa de Freud, pois nos deram o endereço errado no hotel. Não foi culpa do concierge, foi a internet que estava com o endereço errado, um engano de digitação numa letra nos levou a uma casa que ostentava um cartaz bem humorado, avisando que não era ali que ele morava, lá só viviam alguns de seus pacientes -- provavelmente enlouquecidos com a romaria mal orientada. Já havíamos desistido quando um tempinho extra nos permitiu fugir até lá na manhã de nossa partida para Praga. Uma casa pequena, mas muito bem localizada, com um jardim tranquilo, poucos móveis, muitas fotos... Claro que chovia, mas nós enfrentamos a chuva felizes e até nos recompensamos com um capuccino e um strudel no Café Freud, que oportunamente se instalou ao lado da entrada da casa.
Além disso, passeamos pelo Schönnburg Hof e seus jardins, pelas ruas da cidade, correndo atrás de um guia "maratonista" que se chamava Carlos, era intensamente gay e perdeu metade do grupo na correria pelas ruas super cheias de gente. Os velhos e as crianças tiveram de ser resgatados e nós tivemos que aturar a impaciência dele que não entendia como as pessoas tinham se perdido do grupo. Fotos? Talvez eu tenha conseguido tirar uma ou outra, nalgum momento em que a marcha ficava um pouco mais lenta... Vou ver depois. Ah, se conseguir, farei um site de fotos da viagem. Por enquanto, nem consegui passar as fotos da máquina para o computador: inabilidade e incompetência.
Eles me deram bambolês de diversas cores e eu usava mais de um ao mesmo tempo, mas isso às vezes desandava. Minha avó estava convencida de que o "exercício" afinaria minha cintura, mas ela estava enganada. Nunca tive o corpinho de violão que ela desejava para mim. Talvez por isso eu tenha abandonado meu esporte, e hoje (juro que tentei recentemente) não consigo mais manter o bambolê girando. Só no braço, e, assim mesmo, com alguma dificuldade, perigando de ver o aro fugitivo se escapar e causar algum acidente. Na verdade, nunca fui muito atlética, nem muito preocupada com o corpo. Talvez por isso tenha sido tão crítica com relação à Sissi, imperatriz tão preocupada com sua beleza e sua silhueta que me impressionou, quando menina, de uma maneira positiva graças aos filmes da suave e sorridente Rommy Schneider. Ela estava sempre sorrindo, nas fotos e nas cenas dos filmes, e descobri que a verdadeira nunca sorria, envergonhada pelos dentes escuros que enfeiavam sua boca.
Quando cheguei a Viena, pela primeira vez, comprei todos os livros que encontrei sobre sua vida e descobri sua provável anorexia, sua complicada relação com os cabelos, que lhe provocavam dores enormes de cabeça visto pesarem muito, e necessitarem de suporte para serem penteados. Um parêntese: ela não admitia que caíssem fios de cabelo ao ser penteada, e espancava as cabeleireiras.
Entendo que a Sofia não fosse fácil, mas acho que a Sissi era ainda mais difícil que sua sogra...
Visitando a Áustria, a gente sempre se maravilha com a beleza do lugar. Pequenina, a cidade de Viena é tão acolhedora para os turistas que chega a parecer uma espécie de Disneyland: todas as atrações estão a curta distância, e um bondinho interliga todas elas, e nos permite descansar as pernas cansadas de percorrer quilômetros de galerias de palácios e museus. Como já tinha estado ali antes, esnobei algumas visitas e fiz outras, não planejadas pela excursão. Não fui ao palácio de inverno mas voltei ao museu de nome difícil (Kunsthistorischesmuseum). Fui lá rever meus amigos Arcimboldo e Brueggel, e tomar um cafezinho sob a rotunda, admirando o palácio lindo, lindo, que devemos à Maria Teresa, mãe de outra austríaca famosa, a Antonieta, e, por incrível que pareça, avó do único filho de Napoleão, L'Aiglon, tão lindinho e lourinho, mas que morreu tão cedo.
Corremos toda a cidade atrás da casa de Freud, pois nos deram o endereço errado no hotel. Não foi culpa do concierge, foi a internet que estava com o endereço errado, um engano de digitação numa letra nos levou a uma casa que ostentava um cartaz bem humorado, avisando que não era ali que ele morava, lá só viviam alguns de seus pacientes -- provavelmente enlouquecidos com a romaria mal orientada. Já havíamos desistido quando um tempinho extra nos permitiu fugir até lá na manhã de nossa partida para Praga. Uma casa pequena, mas muito bem localizada, com um jardim tranquilo, poucos móveis, muitas fotos... Claro que chovia, mas nós enfrentamos a chuva felizes e até nos recompensamos com um capuccino e um strudel no Café Freud, que oportunamente se instalou ao lado da entrada da casa.
Além disso, passeamos pelo Schönnburg Hof e seus jardins, pelas ruas da cidade, correndo atrás de um guia "maratonista" que se chamava Carlos, era intensamente gay e perdeu metade do grupo na correria pelas ruas super cheias de gente. Os velhos e as crianças tiveram de ser resgatados e nós tivemos que aturar a impaciência dele que não entendia como as pessoas tinham se perdido do grupo. Fotos? Talvez eu tenha conseguido tirar uma ou outra, nalgum momento em que a marcha ficava um pouco mais lenta... Vou ver depois. Ah, se conseguir, farei um site de fotos da viagem. Por enquanto, nem consegui passar as fotos da máquina para o computador: inabilidade e incompetência.
Tuesday, July 29, 2008
O mundo gira, a Lusitana roda.
De vez em quando dou dessas bandeiras, relembrando um passado tão distante que me coloca quase na pré-história da humanidade! Quem se lembra do anúncio acima, é melhor não confessar, pois revela sua, digamos, eternidade. Por falar em eternidade, chego e descubro que Dercy Gonçalves morreu. E eu pensava que ela era verdadeiramente eterna... Descubro também que hoje é o "dia do orgasmo", e me pergunto: desde quando isso precisa de dia, gente? O que foi que aconteceu com os brasileiros? Chego num inverno que parece verão, regressando de um verão que mais parecia inverno. Budapeste, Viena e Praga me acolheram com muita chuva e frio. Nas pontes de Budapeste e de Praga encontrei foi muita chuva, que chegava assim de repente, e caía pesada sobre artistas e turistas incautos, sobre mendigos prostrados no chão, em súplicas infindáveis, sem mostrar seus rostos, sobre cegas que cantavam suas árias de óperas ou canções populares, indiferentes à indiferença que os passantes manifestavam. Não encontrei duplos, nem a morte, nem a vida. Nem os fantasmas de Cortázar, Borges ou Kafka. Ocupada em me desviar de pontas malignas de guarda-chuvas abertos, ou de sair da mira das câmeras fotográficas que pareciam hidras raivosas, mal conseguia olhar as esculturas e os monumentos que bordeavam o Duna, Danau ou Danúbio. Em Budapeste o rio não era mais azul, e sim verde, verde claro, largo, o chefe das muitas fontes de águas que se espalham pela cidade em piscinas e spas, em banhos turcos legítimos, em piscinas de água mineral construídas para hipopótamos, e em torrentes de chuva, gelada, que ensopavam os turistas em todos os pontos turísticos. Da correria que foi minha excursão, ficou a lembrança de uma cidade imensa, onde tudo o que nos parecia interessante estava sempre na margem oposta do rio. De pontes, extensas e muito belas, com histórias comoventes. De uma avenida larga, a Av. Andrassy, calçada com uma madeira especial para abafar o ruído dos cascos de cavalo, impedindo que o sono dos aristocratas fosse perturbado. De uma ópera que nos foi apresentada como uma caixinha de bombons -- coisas da língua espanhola, pois se fosse em português ela seria apresentada como uma caixinha de jóias -- onde imaginamos a Sissi (claro que na sua versão Rommy Schneider) se deixando admirar enquanto fingia escutar a música de que ela talvez gostasse. Outras lembranças que ficaram foi a enorme ampulheta que marca um ano inteiro, ao lado de um monumento aos heróis da resistência ao comunismo, uma bela escultura em formato de proa de nau. A grande praça com os sete guerreiros magyares que deram origem às cidades gêmeas, ao decidirem abandonar suas vidas nômades e se fixarem ali para sempre. A chuva intensa que nos deixou completamente encharcados no alto do Bastião dos pescadores, apesar do guarda-chuva aberto e do casaco que se dizia impermeável, mas que deixou a água passar pela gola e pelas mangas. A informação de que aquele tinha sido o limite do império romano. E a sensação de que as pessoas se sentiam um pouco sem sorte ali em Budapeste -- muitas invasões, escolhas erradas dos governantes quanto aos aliados nas guerras, políticos pouco escrupulosos -- mas muito orgulhosos de sua história e de sua cidade. Que é linda, mas que precisa de muito cuidado com a limpeza e recuperação das fachadas.
Não posso contar toda a viagem hoje, pois o post ficaria longo demais. Só esboço o trajeto: De Budapeste para Viena, dali para Praga, onde conheci o Castelo e a casa onde Kafka morou (não admira que ele tenha feito seu personagem virar barata: era o único ser que caberia confortavelmente dentro do espaço exíguo). Coincidentemente, ali ele escreveu um livro de contos (Um médico rural) que acabei de ler no semestre passado, visto que uma das histórias é retomada pelo Coetzee em seu livro A vida dos animais. De Praga para Dresden -- um deslumbre! E com sol, com gente pelas ruas, com uma alegria de festa. Depois Berlim, de onde fugi uma manhã para conhecer Potsdam, a da conferência de paz e do palácio Sans Souci. Finalmente, Roma a bela. Velha conhecida, ela me recebeu com carinhos de grande amiga, e mostrou lembranças e surpresas.
E de volta ao Rio. De volta ao blog. De volta aos amigos, às aulas, à família. O mundo girou, mas não saiu do lugar onde o deixei. A Lusitana não já não roda, pelo menos, nunca mais vi seus caminhões de mudança. E eu, pois mais que rode, volto sempre ao mesmo lugar.
Não posso contar toda a viagem hoje, pois o post ficaria longo demais. Só esboço o trajeto: De Budapeste para Viena, dali para Praga, onde conheci o Castelo e a casa onde Kafka morou (não admira que ele tenha feito seu personagem virar barata: era o único ser que caberia confortavelmente dentro do espaço exíguo). Coincidentemente, ali ele escreveu um livro de contos (Um médico rural) que acabei de ler no semestre passado, visto que uma das histórias é retomada pelo Coetzee em seu livro A vida dos animais. De Praga para Dresden -- um deslumbre! E com sol, com gente pelas ruas, com uma alegria de festa. Depois Berlim, de onde fugi uma manhã para conhecer Potsdam, a da conferência de paz e do palácio Sans Souci. Finalmente, Roma a bela. Velha conhecida, ela me recebeu com carinhos de grande amiga, e mostrou lembranças e surpresas.
E de volta ao Rio. De volta ao blog. De volta aos amigos, às aulas, à família. O mundo girou, mas não saiu do lugar onde o deixei. A Lusitana não já não roda, pelo menos, nunca mais vi seus caminhões de mudança. E eu, pois mais que rode, volto sempre ao mesmo lugar.
Friday, July 11, 2008
Agora só na volta.
Estou fechando as malas, já quase a caminho. Vou.
Desta vez não levo computador nem outras muletas contra a solidão. Vou acreditando que conseguirei me divertir, distrair, e que não terei momentos de reflexão, quando busco o consolo das palavras. Vou. Desdobro as asas, receosa. Há um mundo para o qual não me preparei, esperando por mim com línguas ásperas e paisagens desconhecidas. Vou. Como escudo, apenas os livros, poucos. Poucas páginas. Uma caneta. Um caderno pequeno. Tudo no diminutivo, assim como me sinto: pequena, pouca, parca.
No entanto, me garantem, o Danúbio é mais azul em Budapeste. As pontes dali nos propiciam encontros inesperados, já me avisaram Cortázar e Borges. Quem caminhará ao meu encontro numa dessas pontes míticas? Meu passado? Meu duplo? A morte?
Imagino a morte em Praga: -- medieval, solene e lenta, ela medirá minha mão. Ansiosa, tentarei enlaçar seus dedos -- teria chegado a hora? Numa viagem tão apressada, o ônibus provavelmente já estará à minha espera, para me transportar, numa valsa, até Viena. E, depois, Berlim e o Spree, com suas barcas. Barcas novas. Democráticas como a do Auto: À barca, à barca, houlá, que temos gentil maré!...
Preciso dormir, um pouco que seja. Saio de casa de madrugada, ainda escuro. Meu coração, encolhido de frio, se fingirá de morto. Mas irei. Olhos entreabertos. Sorriso sempre a postos. Um cansaço...Dou um passo. Mais outro. O caminho se delineia por entre as brumas. Ainda há muito para caminhar.
Desta vez não levo computador nem outras muletas contra a solidão. Vou acreditando que conseguirei me divertir, distrair, e que não terei momentos de reflexão, quando busco o consolo das palavras. Vou. Desdobro as asas, receosa. Há um mundo para o qual não me preparei, esperando por mim com línguas ásperas e paisagens desconhecidas. Vou. Como escudo, apenas os livros, poucos. Poucas páginas. Uma caneta. Um caderno pequeno. Tudo no diminutivo, assim como me sinto: pequena, pouca, parca.
No entanto, me garantem, o Danúbio é mais azul em Budapeste. As pontes dali nos propiciam encontros inesperados, já me avisaram Cortázar e Borges. Quem caminhará ao meu encontro numa dessas pontes míticas? Meu passado? Meu duplo? A morte?
Imagino a morte em Praga: -- medieval, solene e lenta, ela medirá minha mão. Ansiosa, tentarei enlaçar seus dedos -- teria chegado a hora? Numa viagem tão apressada, o ônibus provavelmente já estará à minha espera, para me transportar, numa valsa, até Viena. E, depois, Berlim e o Spree, com suas barcas. Barcas novas. Democráticas como a do Auto: À barca, à barca, houlá, que temos gentil maré!...
Preciso dormir, um pouco que seja. Saio de casa de madrugada, ainda escuro. Meu coração, encolhido de frio, se fingirá de morto. Mas irei. Olhos entreabertos. Sorriso sempre a postos. Um cansaço...Dou um passo. Mais outro. O caminho se delineia por entre as brumas. Ainda há muito para caminhar.
Wednesday, July 09, 2008
Conversa de Clip
Será que alguém ainda quer saber de Flip? Ou de Clip? Hoje, o artigo do Xexéo me fez lembrar do engano do Veríssimo. Mas tento me lembrar do que será que sobrou assim de mais substancial das conferências que assisti, e penso que, talvez, o melhor tenha acontecido nas programações paralelas. Ou nos restaurantes, que não se limitaram ao fabuloso Banana da Terra. Teve o Punto Divino, um italiano nota dez. Teve barzinhos modestos de comidinha caseira gostosa (e caríssima) e teve a barraquinha de pastel (pasteis de 30 cm!) e as barraquinhas de doce, tentadoras. Teve tira gostos imperdíveis. Teve a simpatia do espaço Bravo, na pousada do Sandi, com cafezinho e biscoitos maravilhosos. Muita cachaça, rios de cachaça e de batidinhas, sem problemas, porque ali ninguém dirige, mesmo. Parati não tem carros, agora tem umas charretes, mas ainda são poucas. As bicicletas são para os idealistas, que acham que conseguem se desviar das pedras absolutamente desiguais do calçamento. Em toda a cidade não há uma pedra igual a outra. É espantoso! Parati é para a gente andar a pé, devagar, olhando para o chão. É para cumprimentar os amigos de longa data que a gente reencontra na ponte, ou tentando encontrar lugar no bar apinhado. É para entabular conversa na fila, trocar opiniões sobre livros e ficar com a sensação de que essas pessoas são as mais simpáticas do mundo. É para comer um pão de mel do Café Pingado, sem acreditar que algo tão bom seja um simples pão de mel. É para ganhar uma fruta de presente, e comê-la com gosto, ali mesmo na rua, matando fome e sede ao mesmo tempo. É para escutar os poetas e os poetas chatos. É para folhear livros sem fim, com vontade de comprar todos, e comprar mais livros do que se pode, é para visitar as galerias de arte, para admirar o artesanato, para descobrir pessoas que são amigas de pássaros, que vêm visitá-las todos os dias.
Ah, tem os autores. A gente gosta de vê-los, gosta de ouvi-los, se espanta com alguns, se surpreende com outros, mas logo a gente esquece, pois, deles, o que preferimos são os livros, são as histórias que nos contam e que se tornam nossas histórias.
Eu adoro Parati, e aquele mar que se mantém discretamente escondido no final das ruas estreitas. Adoro minhas lembranças de Mamanguá, dos golfinhos brincalhões, do cheiro do mato nos acompanhando nos banhos de mar. Atravessar a ponte sobre aquele rio (Perequetê- Açu?, já não me lembro do nome...) e ver o céu refletido nas águas, exibindo nuvens gorduchas como bebês alegres. E adoro Parati cheia desse povo dos livros, dessa multidão de pessoas que, quando não gostam dos livros, vivem deles e por isso fingem que gostam. E é bom escutar os retalhos de conversa, os pedacinhos de história, os fiapos de assuntos. Chega de Flip, porém. Já é hora de pensar em meu novo caminho. La vou eu para Budapeste, e Praga, e Viena, e Berlim, e Roma! Meus sonhos já embarcaram, só eu que continuo tentando terminar trabalhos e atar as pontas das coisas por fazer.
Ah, tem os autores. A gente gosta de vê-los, gosta de ouvi-los, se espanta com alguns, se surpreende com outros, mas logo a gente esquece, pois, deles, o que preferimos são os livros, são as histórias que nos contam e que se tornam nossas histórias.
Eu adoro Parati, e aquele mar que se mantém discretamente escondido no final das ruas estreitas. Adoro minhas lembranças de Mamanguá, dos golfinhos brincalhões, do cheiro do mato nos acompanhando nos banhos de mar. Atravessar a ponte sobre aquele rio (Perequetê- Açu?, já não me lembro do nome...) e ver o céu refletido nas águas, exibindo nuvens gorduchas como bebês alegres. E adoro Parati cheia desse povo dos livros, dessa multidão de pessoas que, quando não gostam dos livros, vivem deles e por isso fingem que gostam. E é bom escutar os retalhos de conversa, os pedacinhos de história, os fiapos de assuntos. Chega de Flip, porém. Já é hora de pensar em meu novo caminho. La vou eu para Budapeste, e Praga, e Viena, e Berlim, e Roma! Meus sonhos já embarcaram, só eu que continuo tentando terminar trabalhos e atar as pontas das coisas por fazer.
Monday, July 07, 2008
Meu amigo!
Olavo, que maravilha te encontrar através deste meu blog. Veja só, se os deuses "virtuais" às vezes me maltratam, também me recompensam, me oferecendo amigos: os que eu já tinha e os que encontro através da rede. Aquela última vez que nos falamos eu estava de partida, e, desorganizada como sempre, esqueci onde anotei seu telefone. Mas agora estamos em contato! E meu celular continua sempre o mesmo. Este ano, quando for ver a Bárbara, espero conseguir te achar. Beijo.
Sunday, July 06, 2008
Traída pelo modem!
Infelizmente fracassei na minha missão de reportagem da Flip. Meu modem simplesmente parou de funcionar. Hoje, já aqui no Rio, consegui postar um pedaço incompleto do último post que escrevi lá. Vou fazer o seguinte, assim que puder, vou coligir as anotações dos últimos dias e fazer um resumo. Vou colocar as fotos, também. Só não pode ser agora, pois preciso urgentemente terminar um trabalho para entregar amanhã.
Para informar vocês, rapidamente, houve muitos desencontros nesta FLIP. Mesas com pessoas que não combinavam, mesas com autores de qualidade muito desigual. As que melhor funcionaram foram as que, com uma única "estrela", o mediador servia como um entrevistador. Na última que assisti, por exemplo, o Pierre Bayard, autor de Como falar de livros que não lemos, foi "comentado" pelo Marcelo Coelho -- um show, inteligente, articulado, bem preparado. O Contardo Calligaris estava lá como mediador, mas era dispensável a presença dele. Ele é meio estranho. Parece um marionete, meio duro, um pouco artificial.
Houve desastres, como um mediador (esqueci o nome, depois vejo nas anotações) que resolveu falar mais que os convidados, até que um deles deu um toque; "Acho que eu devia fazer as perguntas e você respondê-las." Foi aquela síndrome do microfone, que acomete as pessoas e as faz desligar o desconfiômetro.
Houve grandes momentos, mas muitas vezes esses momentos não atingiram a platéia em geral, dirigidos que eram para escritores, ou para um público mais acadêmico... Houve pouca empatia entre entrevistadores e entrevistados. Simpáticos ambos, por exemplo, o Veríssimo e o Stoppard não tinham química, e o Stoppard não conseguiu entender as gracinhas do Veríssimo -- talvez por culpa da tradução -- pois muitas vezes a impressão que se tinha era de que os estrangeiros não compreendiam as coisas que lhes perguntavam.
Desculpem, amigos. Anotei tudo e tirei retratos, mesmo proibidos. Não são grande coisa, mas vou colocar para vocês verem, mesmo assim
Uma amiga disse que achou que essa FLIP era a da escatologia. Falou-se muito palavrão, é verdade, mas discordo dela. Acho que foi uma Flip sem paixão. Os melhores momentos foram aqueles em que a alma das pessoas surgia luminosa das palavras proferidas, como foi o caso do Pepetela.
Mas agora vou trabalhar. Depois escrevo mais sobre o assunto
Para informar vocês, rapidamente, houve muitos desencontros nesta FLIP. Mesas com pessoas que não combinavam, mesas com autores de qualidade muito desigual. As que melhor funcionaram foram as que, com uma única "estrela", o mediador servia como um entrevistador. Na última que assisti, por exemplo, o Pierre Bayard, autor de Como falar de livros que não lemos, foi "comentado" pelo Marcelo Coelho -- um show, inteligente, articulado, bem preparado. O Contardo Calligaris estava lá como mediador, mas era dispensável a presença dele. Ele é meio estranho. Parece um marionete, meio duro, um pouco artificial.
Houve desastres, como um mediador (esqueci o nome, depois vejo nas anotações) que resolveu falar mais que os convidados, até que um deles deu um toque; "Acho que eu devia fazer as perguntas e você respondê-las." Foi aquela síndrome do microfone, que acomete as pessoas e as faz desligar o desconfiômetro.
Houve grandes momentos, mas muitas vezes esses momentos não atingiram a platéia em geral, dirigidos que eram para escritores, ou para um público mais acadêmico... Houve pouca empatia entre entrevistadores e entrevistados. Simpáticos ambos, por exemplo, o Veríssimo e o Stoppard não tinham química, e o Stoppard não conseguiu entender as gracinhas do Veríssimo -- talvez por culpa da tradução -- pois muitas vezes a impressão que se tinha era de que os estrangeiros não compreendiam as coisas que lhes perguntavam.
Desculpem, amigos. Anotei tudo e tirei retratos, mesmo proibidos. Não são grande coisa, mas vou colocar para vocês verem, mesmo assim
Uma amiga disse que achou que essa FLIP era a da escatologia. Falou-se muito palavrão, é verdade, mas discordo dela. Acho que foi uma Flip sem paixão. Os melhores momentos foram aqueles em que a alma das pessoas surgia luminosa das palavras proferidas, como foi o caso do Pepetela.
Mas agora vou trabalhar. Depois escrevo mais sobre o assunto
Friday, July 04, 2008
Todo mingau tem seu dia de araruta
Eu sei. Troquei de propósito, para ser engraçadinha. Mas hoje foi meu dia de troca-troca. O dia amanheceu bonito, sol e tudo o mais. Meus companheiros de viagem foram passear de barco, eu fui assistir a mais uma boa palestra: Formas breves. Moderação de Carlos Augusto Calil, participação de Ingo Schulze, Modesto Carone e Rodrigo Naves. Logo de cara já fiquei satisfeita,com o Calil fazendo o elogio do conto, e falando uma coisa que eu também acho: no nosso mundo moderno, apressado, nervoso, as formas breves são as que melhor se adequam ao ritmo que nos impomos. Já disse isso numa entrevista ao Leonardo Lichote de O Globo,quando ganhei o prêmio Josué Guimarães em Passo Fundo. O Ingo, alemão de Dresden, leu um conto seu do livro que está sendo lançado pela Cosac Naify
Perversões e pervertidos
Hoje foi o dia da Roudinesco. Que show!
A mediadora foi fantástica, orientou muito bem a palestra, apresentou sem exageros, mas demonstrando um profundo conhecimento e respeito pela obra de Mme. Roudinesco. Simpática, com cara da comadre da prima de Pindamonhangaba, uma voz aguda, mas um francês claríssimo, fácil de entender.
Falando sobre "uma" história da perversão -- a perversão no mundo ocidental, ela ensina que as perversões têm a ver com metamorfose -- modificação do corpo. As perversões foram mudando com o tempo, o homossexualismo,por exemplo, já foi considerado uma perversão, e hoje deixou de ser. Hoje, a perversão está ligada à falta de consentimento, pois se considera normal tudo o que se faz entre adultos capazes de consentir. Sobraria então a pedofilia e a zoofilia. A zoofilia é um pouco mais controversa, pois, desde que não haja sofrimento do animal, talvez não se deva falar em perversão. A pedofilia, então, com crianças pequenas, não com adolescentes, seria a última fronteira da perversão.
Ela ainda falou sobre o sadismo, sobre o nazismo, sobre Freud e a maneira de a psicanálise encarar a perversão (uma doença a ser curada). Tudo era tão interessante. Pena que há uma advertência aparecendo aqui na tela, demonstrando a instabilidade da conexão. Vou abreviar o relato, mencionando uma frase da mediadora: O sadismo concebeu o inconcebível, e o nazismo praticou o impraticável.
Mme. aproveitou essa frase para dizer que o nazismo não é uma herança de Sadeismo (para diferençar de sadismo, termo que foi cunhado pela psicanálise, mas que não corresponde exatamente, a uma lição de Sade) pois o naziemo é quando todo o estado se perverte. Além do mais, Sade tinha talento, e os nazistas todos eram medíocres.
Foi uma grande palestra. Volto a ela mais tarde.
Falando sobre as perambulações favoritas, meu lugar mais aconchegante é o espaço Bravo, na Pousada do Sandi. Ontem e hoje passei alguns momentos agradáveis por lá. Somos recebidos com simpatia, e nos oferecem café, queijinhos, frutas...e muita solicitude.
Um espaço muito agradável é a casa do Jornal do Brasil. Lá os autores vão dar umas mini palestras, o povo em pé, ao redor deles, ouvindo um bate-papo quase íntimo.
A outra palestra que assisti hoje foi concorridíssima, também: Sexo, mentiras e videotape, onde três mulheres poderosas nocautearam o português que fez a mediação. Inês Pedrosa, Zoe Heller e Cynthia Moscovitch (já está muito tarde, faz frio e eu não quero ir buscar minhas anotações para confirmar grafias e nomes) contra um escritor tatuado que fazia sua primeira mediação...Só podia dar no que deu --o rapaz sofreu. A Inês é simplesmente ótima. Fala bem, tem um texto excelente e é muuuiiito inteligente e esperta, vivaz. A Zoe é uma inglesa de voz extremamente sexy, atraente e também muito articulada, inteligente, e a que mais expunha a fraqueza do mediador, talvez porque tivesse dificuldades com a tradução. A Cynthia fala bem, se posiciona polemicamente, é engraçada, e foi simpática. Cada uma leu um pequeno trecho de suas obras e depois responderam às perguntas do mediador, que acabaram descambando para essa coisa de insistir na literatura feminina. Elas retrucaram à altura, e mostraram que existe um certo desconcerto por parte do público, que reconhece que existe uma característica "feminina" no que lêem, mas que as autoras recusam o rótulo. É como se estivessem criando uma nova divisão no reino animal, os seres humanos e as mulheres. Quando um homem escreve sobre angústia e solidão é um problema humano. Se a mulher escreve sobre isso, é um problema feminino. E, como lembrou a Inês Pedrosa, porque é que ninguém lembra de perguntar a um homem como ele concilia seu trabalho e a vida familiar, e nenhuma mulher escapa dessa pergunta?
Foi muito interessante o debate.
Depois fui jantar com Agualusa, Maitê Proença, Gisela Amaral, Helcio Pitangy e muitos outros famosos. Na verdade, em minha mesa estavam os convivas mais interessantes: os meus amigos. Mas eu devo estar lendo demais a revista Caras, porque fui capaz de identificar quase todo o mundo que entrou no restaurante. A comida estava deliciosa, a música era boa, e depois saímos e fomos ao Bar do Che, encontrar a galera da Record. Sergio França, Ana Paula Costa, Anna Maria, e aí fomos topando com o pessoal do SESC, com os poetas de plantão (desde Elisa Lucinda, a poeta sestroza que enriquece a editora, passando pelo Claufe Rodrigues e pelo Chacal), com o pessoal da Globo (Paulo Betti, que tem o dom da ubiquidade, estava em todos os lugares para onde eu olhava -- vai ver que ele foi clonado --, e um bando de atrizes cujas caras eu reconheço, mas cujos nomes não sei).
Já estou quase congelando, não escrevo mais por hoje, nem coloco as fotos que tirei. Amanhã eu volto, mais organizada, prometo.
A mediadora foi fantástica, orientou muito bem a palestra, apresentou sem exageros, mas demonstrando um profundo conhecimento e respeito pela obra de Mme. Roudinesco. Simpática, com cara da comadre da prima de Pindamonhangaba, uma voz aguda, mas um francês claríssimo, fácil de entender.
Falando sobre "uma" história da perversão -- a perversão no mundo ocidental, ela ensina que as perversões têm a ver com metamorfose -- modificação do corpo. As perversões foram mudando com o tempo, o homossexualismo,por exemplo, já foi considerado uma perversão, e hoje deixou de ser. Hoje, a perversão está ligada à falta de consentimento, pois se considera normal tudo o que se faz entre adultos capazes de consentir. Sobraria então a pedofilia e a zoofilia. A zoofilia é um pouco mais controversa, pois, desde que não haja sofrimento do animal, talvez não se deva falar em perversão. A pedofilia, então, com crianças pequenas, não com adolescentes, seria a última fronteira da perversão.
Ela ainda falou sobre o sadismo, sobre o nazismo, sobre Freud e a maneira de a psicanálise encarar a perversão (uma doença a ser curada). Tudo era tão interessante. Pena que há uma advertência aparecendo aqui na tela, demonstrando a instabilidade da conexão. Vou abreviar o relato, mencionando uma frase da mediadora: O sadismo concebeu o inconcebível, e o nazismo praticou o impraticável.
Mme. aproveitou essa frase para dizer que o nazismo não é uma herança de Sadeismo (para diferençar de sadismo, termo que foi cunhado pela psicanálise, mas que não corresponde exatamente, a uma lição de Sade) pois o naziemo é quando todo o estado se perverte. Além do mais, Sade tinha talento, e os nazistas todos eram medíocres.
Foi uma grande palestra. Volto a ela mais tarde.
Falando sobre as perambulações favoritas, meu lugar mais aconchegante é o espaço Bravo, na Pousada do Sandi. Ontem e hoje passei alguns momentos agradáveis por lá. Somos recebidos com simpatia, e nos oferecem café, queijinhos, frutas...e muita solicitude.
Um espaço muito agradável é a casa do Jornal do Brasil. Lá os autores vão dar umas mini palestras, o povo em pé, ao redor deles, ouvindo um bate-papo quase íntimo.
A outra palestra que assisti hoje foi concorridíssima, também: Sexo, mentiras e videotape, onde três mulheres poderosas nocautearam o português que fez a mediação. Inês Pedrosa, Zoe Heller e Cynthia Moscovitch (já está muito tarde, faz frio e eu não quero ir buscar minhas anotações para confirmar grafias e nomes) contra um escritor tatuado que fazia sua primeira mediação...Só podia dar no que deu --o rapaz sofreu. A Inês é simplesmente ótima. Fala bem, tem um texto excelente e é muuuiiito inteligente e esperta, vivaz. A Zoe é uma inglesa de voz extremamente sexy, atraente e também muito articulada, inteligente, e a que mais expunha a fraqueza do mediador, talvez porque tivesse dificuldades com a tradução. A Cynthia fala bem, se posiciona polemicamente, é engraçada, e foi simpática. Cada uma leu um pequeno trecho de suas obras e depois responderam às perguntas do mediador, que acabaram descambando para essa coisa de insistir na literatura feminina. Elas retrucaram à altura, e mostraram que existe um certo desconcerto por parte do público, que reconhece que existe uma característica "feminina" no que lêem, mas que as autoras recusam o rótulo. É como se estivessem criando uma nova divisão no reino animal, os seres humanos e as mulheres. Quando um homem escreve sobre angústia e solidão é um problema humano. Se a mulher escreve sobre isso, é um problema feminino. E, como lembrou a Inês Pedrosa, porque é que ninguém lembra de perguntar a um homem como ele concilia seu trabalho e a vida familiar, e nenhuma mulher escapa dessa pergunta?
Foi muito interessante o debate.
Depois fui jantar com Agualusa, Maitê Proença, Gisela Amaral, Helcio Pitangy e muitos outros famosos. Na verdade, em minha mesa estavam os convivas mais interessantes: os meus amigos. Mas eu devo estar lendo demais a revista Caras, porque fui capaz de identificar quase todo o mundo que entrou no restaurante. A comida estava deliciosa, a música era boa, e depois saímos e fomos ao Bar do Che, encontrar a galera da Record. Sergio França, Ana Paula Costa, Anna Maria, e aí fomos topando com o pessoal do SESC, com os poetas de plantão (desde Elisa Lucinda, a poeta sestroza que enriquece a editora, passando pelo Claufe Rodrigues e pelo Chacal), com o pessoal da Globo (Paulo Betti, que tem o dom da ubiquidade, estava em todos os lugares para onde eu olhava -- vai ver que ele foi clonado --, e um bando de atrizes cujas caras eu reconheço, mas cujos nomes não sei).
Já estou quase congelando, não escrevo mais por hoje, nem coloco as fotos que tirei. Amanhã eu volto, mais organizada, prometo.
Thursday, July 03, 2008
Manhã de festa

Aí ao lado está o retratinho do R.S. Como prometi impressões particulares de quem estava presente no local, aqui vão alguns detalhes: as paradas na fala. Volta e meia o professor se interrompia para beber água -- no que fazia muito bem. Sua voz límpida e clara revela cordas vocais bem cuidadas e hidratadas. Bebam água, professores! A outra paradinha era quando ele procurava um raciocínio. Ele interrompia o que estava falando e se concentrava tão profundamente, que o silêncio adquiria uma certa espessura.
Bem, estou tentando publicar este post desde cedo, mas a conexão não colaborou. Perdi o final dos meus comentários, e agora já tenho novas fotos e histórias para contar.
Wednesday, July 02, 2008
FLIP/FLOP
Cheguei! Como sempre, encantada com Parati, suas casinhas encantadoras, as ruas de calçamento imperfeito, a alegria de cada barzinho, dos músicos pela rua, das tendinhas com artesanatos, das tarólogas, que se oferecem para ler nosso futuro. Sempre me admiro com essas leitoras de obras inexistentes.
Dirigi durante horas, tinha me esquecido de como é longe este recanto. Mas, a companhia era boa, viemos conversando no carro, nem sequer escutamos música. A pousada Villagio merece nota dez. Bonitinha, pertinho de tudo, tem até piscina para nos tentar a .cair n'agua.
Jantamos e depois fui assistir a interessantíssima palestra do Roberto Schwartz, simpático, competente, claro e cheio de conteúdo, um grande professor.
Ele chamou nossa atenção para o fato de que todos os capítulos iniciais dos romances da segunda fase de Machado são verdadeiras obras primas. E, então, leu o capítulo inicial de Dom Casmurro, e demonstrou como ele anuncia o problema da paternidade com tanta singeleza e habilidade que por décadas a crítica nem se apercebeu que ele já oferecia a chave da leitura ali mesmo na abertura. Falando sobre autoria problemática, na verdade ele anunciava a questão da paternidade questionável. Depois ele enumerou as diferentes leituras do romance através do tempo, revelou como a crítica literária foi "cegada" por ideologias paternalistas, que pouco a pouco, graças a percepção de críticos americanos e ingleses, as leituras foram se modificando e aprendendo a ler os mecanismos de crítica social presentes na ironia do autor, e no uso magistral da primeira pessoa que revela sua verdadeira face nos exageros pintados pelo narrador falsamente complacente.
Adorei cada minuto. Depois, à saída, encontrei meus amigos, e desisti de ir assistir o show de Luís Melodia, preferi ir tomar uma taça de vinho na pousada do Sandi.
Filmei e fotografei, mas não acredito que saberei transferir as imagens paraq o Blog. Agora vou terminar de ver o jogo do Fluminense.
Amanhã conto mais.
Quanto ao título, é assim que são conhecidas as sandálias havaianas lá nos EUA. Nada mais distante das ruas de pedras irregulares. Toda atenção é pouca para caminhar, mas cada passo vale a pena.
Dirigi durante horas, tinha me esquecido de como é longe este recanto. Mas, a companhia era boa, viemos conversando no carro, nem sequer escutamos música. A pousada Villagio merece nota dez. Bonitinha, pertinho de tudo, tem até piscina para nos tentar a .cair n'agua.
Jantamos e depois fui assistir a interessantíssima palestra do Roberto Schwartz, simpático, competente, claro e cheio de conteúdo, um grande professor.
Ele chamou nossa atenção para o fato de que todos os capítulos iniciais dos romances da segunda fase de Machado são verdadeiras obras primas. E, então, leu o capítulo inicial de Dom Casmurro, e demonstrou como ele anuncia o problema da paternidade com tanta singeleza e habilidade que por décadas a crítica nem se apercebeu que ele já oferecia a chave da leitura ali mesmo na abertura. Falando sobre autoria problemática, na verdade ele anunciava a questão da paternidade questionável. Depois ele enumerou as diferentes leituras do romance através do tempo, revelou como a crítica literária foi "cegada" por ideologias paternalistas, que pouco a pouco, graças a percepção de críticos americanos e ingleses, as leituras foram se modificando e aprendendo a ler os mecanismos de crítica social presentes na ironia do autor, e no uso magistral da primeira pessoa que revela sua verdadeira face nos exageros pintados pelo narrador falsamente complacente.
Adorei cada minuto. Depois, à saída, encontrei meus amigos, e desisti de ir assistir o show de Luís Melodia, preferi ir tomar uma taça de vinho na pousada do Sandi.
Filmei e fotografei, mas não acredito que saberei transferir as imagens paraq o Blog. Agora vou terminar de ver o jogo do Fluminense.
Amanhã conto mais.
Quanto ao título, é assim que são conhecidas as sandálias havaianas lá nos EUA. Nada mais distante das ruas de pedras irregulares. Toda atenção é pouca para caminhar, mas cada passo vale a pena.
Tuesday, July 01, 2008
Ia me esquecendo!
Ainda está em tempo! Hoje é dia da entrega do Prêmio SESC. Parabéns aos novos vencedores. Que o sucesso de vocês seja duradouro e que seu "ano de miss" transcorra com muitas alegrias e oportunidades. Compareçam todos lá na ABL!
Encontros e desencontros
Estou arrumando as malas para a FLIP -- isso é metafórico, não me leiam literalmente, pois deixo sempre as malas para o último minuto. Tenho horror a fazer malas, só gosto de viajar. Devia existir um guarda roupa descartável, para viagens. Meu ideal é partir sem malas, sem bagagens, só velas enfunadas, nenhuma âncora. Mas eu não conseguiria abrir mão dos meus queridos e constantes companheiros de viagem: meus livrinhos. Desta vez, comprei uma série de livrinhos de 10 reais, pequenininhos, interessantes. Um é de Baudelaire, falando sobre a modernidade. Outro é de Foucault, falando sobre sexualidade. São ensaios, excertos de outros livros grandes, que não pesam na mala, mas são bastante substanciais. Outro que comprei, e que estou levando, é mais um de filosofia para festa. Só que esse comprei porque ele está organizado em Banquete, e, como minha tese é sobre o banquete...não resisti. E é divertido, embora seja muito mais sofisticado do que o dos professores de Harvard, que já recomendei aqui. Finalmente as pessoas recuperaram esse espírito filosófico, que tinha sido perdido. O prazer de pensar, substituto de tantos outros prazeres... O prazer de ler, a alegria do saber, a gaia ciência!
Bem, vou levar o computador para a FLIP, pretendo fazer um diário para os amigos que não puderam ir. Vou emprestar meus olhos e meus ouvidos. Então, a partir de amanhã, podem contar com as minhas impressões da FLIP, aqui neste mesmo bat-canal.
Vou contar para vocês, em primeira mão, como é a voz do Stoppard, qual a cor dos olhos do Pepetela, se a Roudinesco sabe combinar cores tão bem como idéias... E vou contar segredos entreouvidos pelas vielas e bares. E, se eu não surpreender ninguém, nem descobrir alguma coisa nova, inventarei tudo! Mas prometo que não deixarei vocês sem notícias, a não ser que os santos internéticos resolvam boicotar esta intrépida navegante dos teclados virtuais.
Bem, só para terminar, queria dizer que gostei de saber dessas coincidências com o Amauri -- Parabéns -- você nasceu no dia mais belo do ano!; contar que quase conheci o Ernane -- que estava com a Rachel no concerto do Eduardo Monteiro; agradecer aos comentários sempre gentis dos amigos, que me alimentam de idéias e de carinho.
Até amanhã, então, depois da festa de abertura da FLIP.
Bem, vou levar o computador para a FLIP, pretendo fazer um diário para os amigos que não puderam ir. Vou emprestar meus olhos e meus ouvidos. Então, a partir de amanhã, podem contar com as minhas impressões da FLIP, aqui neste mesmo bat-canal.
Vou contar para vocês, em primeira mão, como é a voz do Stoppard, qual a cor dos olhos do Pepetela, se a Roudinesco sabe combinar cores tão bem como idéias... E vou contar segredos entreouvidos pelas vielas e bares. E, se eu não surpreender ninguém, nem descobrir alguma coisa nova, inventarei tudo! Mas prometo que não deixarei vocês sem notícias, a não ser que os santos internéticos resolvam boicotar esta intrépida navegante dos teclados virtuais.
Bem, só para terminar, queria dizer que gostei de saber dessas coincidências com o Amauri -- Parabéns -- você nasceu no dia mais belo do ano!; contar que quase conheci o Ernane -- que estava com a Rachel no concerto do Eduardo Monteiro; agradecer aos comentários sempre gentis dos amigos, que me alimentam de idéias e de carinho.
Até amanhã, então, depois da festa de abertura da FLIP.
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