Monday, August 18, 2008

Praia e música cubana

Apesar de dever ficar legalmente "casada" com Coetzee e terminar meu trabalho, traí-o e me entreguei à leitura de outro romance. Quando terminei, tinha perdido/ganhado o sábado e, como já era domingo e o dia era de sol, acabei indo à praia. Afinal, todo mundo sabe que é pecado trabalhar aos domingos! Praia do Leblon, dia de sol, época de campanha política: a gente sabe que tudo pode acontecer... Mas nada ocorreu de especial. A água estava limpinha e numa temperatura razoável, mas muito agitada. Mesmo assim, tentei vários mergulhos, tropecei em crianças com pranchas, escapei por pouco de boladas que uns quatro ou cinco marmanjos sem noção resolveram chutar em rodinha bem na beira d'água, tomei um balde de mate com limão, de torneirinha (gosto de viver perigosamente) e cheguei em casa a tempo de tomar banho e me arrumar para o Cello Encounter das 8h. Filas e conversas inacreditáveis. Uma pessoa, que mal conheço, resolveu me contar de seu ''hidrocólon", mas vou poupar meus eventuais leitores. Eu sempre me admiro com os assuntos que puxam comigo. Já escutei descrições de tumores latejantes, de cirurgias plásticas atemorizantes, já ouvi os detalhes de operações financeiras que deixaram meu cérebro dormente. Já sorri incontáveis vezes com as mesmas piadas contadas pelas mesmas pessoas, embora a piada não tivesse graça nem na primeira vez que foi contada. E já tive que achar muito engraçada a história que eu havia contado numa festa anterior, quando a escutei, como coisa sua, contada pelo meu interlocutor, numa festa posterior. Antes, tinha os olhares cúmplices do Guilherme. A gente não trocava olhares irônicos, só se olhava, com amor, soprava um beijo e seguia em nossas órbitas, separadas, mas gravitando apaixonadamente em torno um do outro. Agora aqui estou eu, falando com esta máquina, talvez na triste esperança de que ele me possa ler...
Que ele leia então o final feliz de meu domingo: música boa, música pelo prazer da música, músicos numa "orgia" de entrega e admiração, se aplaudindo mutuamente, trocando instrumentos, fazendo duos, revelando seus "eus" antes da profissionalização, em despudorado exercício de paixão. E tudo isso grátis! Como não ser apaixonada pelo Rio? E pelo SESC?

Saturday, August 16, 2008

Quem é o fotógrafo dela?

Todas as manhãs o Globo se reparte em crimes e medalhas em meu hall de entrada. Eu folheio as páginas, quase sempre entediada, mas uma ou outra coisa chama minha atenção. Desta vez, foi o retrato da Marta Suplicy: duas imagens, a do cartaz da campanha política e a da política em campanha. Quem tirou aquele retrato da campanha? Quando? Ou aquilo se deve ao fotoshop?
Parabéns, dona Marta. Não contrate outro. O que ele fez foi melhor que a plástica.
Lembrei agora de uma outra obcecada por imagem: a Sissi. Minha amiga me contou a quem ela deve seu nome -- à Imperatriz! Uma menininha foi incumbida de entregar um ramo de rosas à bela esposa de Francisco José. Era a bisavó de minha amiga, que iniciou a tradição de dar, às primogênitas, o nome da Sissi. Olhando a bela Beth, julguei ver duas rosas daquelas entregues por sua bisavó, brilhando em sua face. Avalio a enorme impressão que a Sissi terá causado numa menininha na longínqua Alemanha, a ponto de, quase dois séculos mais tarde, reviver assim numa historinha contada com olhos brilhando e rubor no rosto aqui no Rio de Janeiro. Quantos nomes não são homenagens assim, sinceras e duradouras? Mesmo em minha família os nomes se repetem, homenageando antepassados. Eu devo meu nome ao meu tio avô, que o devia a seu pai, que por sua vez, o terá recebido em honra de algum parente, ou de amigo de seus pais, ou de alguma personagem de novela que estivesse sendo lida pela mãe. Nomes, finitos, que se tornam heranças quando as faces, retocadas ou não pelo fotoshop, já desapareceram.
Outra foto chamou minha atenção no Globo, a de um amigo, que acaba de publicar seu segundo romance, que estou lendo. Um painel de vidas pequenas que habitaram nosso país, mas que contam sua história mais verdadeira. Logo nas primeiras páginas, o que me chamou a atenção foram as belas descrições do Rio, descrições de quem é apaixonado pela cidade. Tenho, às vezes, inveja de quem não nasceu no Rio e pode sentir o deslumbramento da primeira chegada na cidade. Outro dia recebi uma coleção de slides feitas a partir das fotos de um fotógrafo alemão que veio ao Rio espionar e mandou a Alemanha às favas, apaixonado pela cidade e seus recantos. Cada um faz as declarações de amor que pode -- com palavras, com imagens, com gestos... Só não entendo como alguns fazem gestos de desamor que não são impedidos pelos cariocas mais fiéis. Como é que estamos sofrendo golpes constantes que destroem belezas, acabam com as vistas, destroçam vidas? Ia citar Shakespeare, mas esse post já está longo demais. Remeto vocês a Hamlet, ao velho "to be or not to be" -- e digo, com ele, que, se nos opusermos, faremos que o destino adverso cesse. E encerro, cantarolando a Marselhesa!

Friday, August 15, 2008

Academia

Ontem tive um desses dias de turista em minha própria cidade. Fui almoçar com uma amiga, e me deliciei não apenas com as conversas, mas com a comida também. No quesito conversas, aprendi um aforismo alemão cujo sentido repasso: até o vinho sabe mal se tomado sem amigos.
Depois ela voltou para o trabalho, e eu gazeteei o meu e fui à exposição do CCBB: O tempo sob medida. Fiquei encantada, com esse tempo redescoberto em relógios que marcavam horas tão diferentes: as horas eróticas, como o relógio nº 17, com um incansável amante entre as pernas da amada, ilustrando os tique-taques. Ou, no relógio seguinte, marcando as horas de recolhimento e paz em frente a uma lareira doméstica. Ou horas de pompa e circunstância, em relógios assemelhados a condecorações. Ou ainda a caixinha em que o tempo se materializa belo e canoro, como um rouxinol.
Também me encantaram as ampulhetas montadas num tinteiro em âmbar e marfim, marcando o tempo de escrever. O relógio embutido na coroa da virgem e o no crucifixo, onde o mundo se apressura em girar em torno do ponto fixo do trauma cristão. Para terminar, menciono o relógio montado num turíbulo, incensando as horas da missa, sem deixar que o padre se excedesse nos sermões.
E termino por aqui, sem falar do filme, de roteiro do Luís Dolino (seria o meu amigo? ou trata-se de um homônimo? vou esclarecer com ele) nem da bela exposição Onde a terra encontra a água, de fotos de Carol Armstrong; Fernando Azevedo e Leonardo Kossoy. Calo-me sobre estas imagens porque dali fui à Academia Brasileira de Letras, escutar uma palestra sobre Vieira e seu tempo. O prof. Silvano Peloso e a profa. Sônia Salomão, ambos da Universidade de Roma La Sapienza falaram sobre este século de mudanças que foi o século XVII, quando a Terra deixou de ser o centro do Universo e passou a gravitar em torno do Sol. E hoje em dia fala-se em re-engenharia... Re-engenharia foi isso!
Brincadeirinhas a parte, o professor citou alguém, cujo nome perdi, que disse haver mais história naqueles cem anos que nos 4000 anos do mundo. Bem, entende-se o que ele quis dizer, embora, limitado pela Igreja,talvez, o mundo do falante só tivesse 4 milênios.
Vieira nasceu em 6/2/1608 viveu praticamente até o final do século, passou 50 anos de sua vida no Brasil, e os outros 40 nas cortes mais importantes da Europa. Foi dos píncaros da glória aos subterrâneos das masmorras da Inquisição. Viajou do interior da Amazônia e do Maranhão aos explendores de Lisboa, Paris, Haia, Amsterdã e Roma. Foi o "ministro das relações exteriores" do rei D. João IV, o primeiro a reinar em Portugal depois do período de unificação das coroas de Portugal e Espanha. Tentou conciliar o conhecimento do novo mundo, que servia de estopim para a explosão das luzes do século seguinte, com as escrituras de um mundo que se desequilibrava e começava a girar como uma nave.
Foi um ótimo dia. Mas, talvez, o que tenha me feito ficar rindo sozinha, ao voltar para a casa, foi a cópia, a giz, numa das paredes do Bar Academia, de uma frase de Machado de Assis:
"As melhores mulheres pertencem aos homens mais atrevidos".
Ele era de um tempo em que ainda não havia "predadoras"...

Wednesday, August 13, 2008

Por que eu gosto do Xexeo

Bem, nem sei por que tenho que explicar por que gosto de um jornalista que só conheço de texto e que não reconheceria se cruzasse com ele na rua. Digo isso porque ontem estava numa loja no Leblon e depois em outra, e notei a agitação que percorria as vendedoras. Na primeira, falavam da simpatia da pessoa e nas idiossincrasias de seu marido. Na segunda, mencionaram seu nome: Roberta Sá. Acontece que essa talentosa menina é sobrinha de uma amiga, e eu já estive até na casa dos pais dela. Já a vi algumas vezes. E, no entanto, ontem nem sequer vi que ela estava ou esteve nas mesmas lojas em que entrei. Eu tenho dessas coisas: me desligo, e vou no piloto automático, sem perceber o mundo que me rodeia. De noite, fui ao coquetel do lançamento do novo romance do Silviano Santiago. Ele nunca foi meu professor, mas foi professor de alguns amigos, e é colega de muita gente que admiro. Lá fui eu. Encontrei muitos amigos, que não via há tempos. Uma dessas pessoas é a prof. Marlene de Castro Correa. Com ela conheci Drummond, de quem ela afirmava ser uma "mistura de paixão com meticulosidade". Com ela fiz uma pequena antologia de Castro Alves, um dos exercícios mais interessantes que já me deram para desenvolver meu espírito crítico. Tive que escolher dez poemas para formar uma antologia e justificar minhas escolhas. Sofri. Tinha que escolher os representativos? Tinha que exemplificar cada faceta? Já não me lembro dos que integravam a coletânea, mas me lembro do primeiro que escolhi, e em torno do qual construi minha antologia: Adormecida
Aqui vai, de brinde para os leitores:

Adormecida

Uma noite,eu me lembro...Ela dormia
Numa rede escostada molemente...
Quase aberto o roupão...solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

Stava aberta a janela.Um cheiro agreste
Exalava as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilavam ao tom das auras,
Iam na face trêmulos- beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia...
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
Para não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
" Ó flor!... tu és a virgem das campinas!"
"Virgem!...tu és a flor da minha vida!..."

CASTRO ALVES
S.Paulo, novembro de 1868


E agora? Por que escolhi esse poema? Talvez pela mesma razão pela qual gosto do Xexeo: a domesticidade, a capacidade de transformar nosso cotidiano em assunto, em tema de reflexão. Uma moça adormecida e seu balanço na rede, em contrapartida ao espectador insone, ou ao inveterado crítico das incongruências das novelas de TV. Um descanso das intrigas, da violência, dos desassossegos. E ainda tem mais, como não gostar de alguém chamado xexeo: um sussurro, um trinado de pássaro, um vai e vem de rede?...

Tuesday, August 12, 2008

O espelho

Bem, dei o meu recado. Mantive o tempo. Estou com a sensação de dever cumprido, mas, olho para o lado e vejo que muitos outros deveres se acumulam, descumpridos, exigindo de mim tempo e atenção. Queria um espelho mágico que me desdobrasse numa que escrevesse ficção, noutra que escrevesse o blog, noutra que encontrasse os amigos, noutra que fizesse os trabalhos da UFF... Ih, se eu começar a enumerar, me canso. Outra vez volto a Mário: preciso ser trezentas, ser trezentas e cinquenta!
Bem, uma dessas é que está aqui, mas já de partida, e que, antes de desaparecer, tomada por uma nova persona, deseja agradecer o comentário do Guido. Gente, e eu estava chamando de seita esse meu "processo civilizatório"! Desculpe, amigo, mas nunca me levo muito a sério, zombo sempre um pouco de mim mesma, com medo de infringir a hybris e transformar minha existência em tragédia. É claro que existe uma desesperada vontade de conservar, como sacerdotisas, a beleza, a elegância, a inteligência, se não já teríamos abandonado as reuniões há muito tempo. Mas me declaro absolutamente cética de ser capaz de mudar o mundo. Nada muda o mundo, e só vence a maldade. Mas, foi o próprio mestre do ceticismo, Machado, que nos ensinou que nos mantos de algodão há as franjas de seda. Vivamos, então, pelas franjas. E obrigada.

Sunday, August 10, 2008

Feliz Aniversário

Como já disse, estou num clima de comemorações. Aniversários, aniversários...Hoje, dia dos pais, comemoro o aniversário de meu filho em tom menor. As faltas se impõem, e é a custa da lição de Mário que faço as figuras paternas diminuírem e subirem para o céu, brilhando em alguma constelação, como lágrimas. Acho que preciso voltar a ler Macunaíma, para me divertir um pouco e experimentar outras consciências... Quem nunca leu Macunaíma? Será que hoje em dia ainda se lê Macunaíma? Será que em algum lugar remoto um grupo se reúne, todas as semanas, para ler e reler a obra de Mário? Pergunto isso porque faço parte de uma espécie de seita, que se reúne todas as semanas, há uns dez anos, para ler e reler Proust. A Rachel Jardim é a nossa "diretora de orquestra" regendo opiniões e ritmos, muitas vezes adoravelmente desafinados. Porque existe um encanto na desafinação -- uma espécie de despertar.
Nesta enevoada manhã de domingo, pensando em figuras paternas, me descubro pensando que meus "pais" são de papel, e que um não tocaria na mesma orquestra que outro, embora até pudessem se admirar mutuamente. A Rachel gosta de fazer aproximações: Proust e Eça, Proust e Machado... Todos experimentaram o delírio da Belle Époque, que, provavelmente, só foi bela para quem era classe dominante. Dos três, Eça ficou conhecido como um combativo na área da política, sendo que Proust e Machado foram chamados de alienados -- ledo engano. Nenhum escritor deixa de falar de seu tempo, nem deixa de pensar sua sociedade. Mesmo quando liricamente contemplando seu próprio umbigo, a vida de sua época está ali representada, as classes sociais, as ideologias da época, as correntes políticas aparecem em painéis, mais ou menos explícitos, mais ou menos hábeis. Quanto mais abrangente e universal a obra, mais encontraremos no texto, porém mais poderosas hão de ser as lentes para examinar os detalhes: Pensemos, por exemplo, em Brueghel, ou em Arcimboldo, quadros que contemplei recentemente e que ainda estão gravados em minhas retinas.
Estou relendo o texto que preparei para expor no Seminário Machado de Assis, tentando ajustar o texto aos 15 minutos a que farei jus amanhã. Corto e recorto, dou uma franzidinha aqui, faço uma prega no texto acolá, e me surpreendo com a quantidade de coisas que já se falou e se escreveu sobre O Espelho. Um conto, que não é dos mais longos, e que já suscitou tanta reflexão! O tema da minha comunicação é ele, mas praticamente todos os outros trabalhos, falando sobre diferentes aspectos da obra de Machado, dentre os que tive a oportunidade de assistir, tocaram neste conto. Uma moda, talvez? Há alguns anos atrás, era Missa do Galo, o conto que não saía da pauta. Desta vez, não escutei sequer uma menção, mesmo com o re-lançamento do livro que junta diferentes versões da missa machadiana (e eu mesma cometo essa ousadia, nesse meu livro que está prestes a sair-- confiram o conto Insônia). Desta vez, são dois os contos que disputam os holofotes: O espelho e A cartomante. Fiquei até com vontade de escrever sobre as metamorfoses no espelho (alguém já deve de ter escrito isso) acompanhando a trajetória do tema passando por escritores tão diferentes quanto Guimarães, Cecília Meirelles e Clarice. E pensando, quem, dentre nós, não se deixou ficar olhando para sua própria imagem no espelho, tentando encontrar a resposta para a mais difícil questão: Ser -- como somos? o que somos? quem somos? quando somos?
A gente se olha no espelho até se "dessensibilizar", e passar a encarar aquela imagem como uma coisa corriqueira. De vez em quando, nos estranhamos, e nos detemos, examinando, criticando, surpresos de que a imagem refletida não seja correspondente à imagem mental que fazemos de nós mesmos. No entanto, as mudanças se operam lentamente, com os pequenos golpes dos cinzéis liliputianos dos segundos, ou dos micronésimos de segundos que agora somos capazes de registrar, embora não de perceber. Proust criou um espelho em sua obra e colocou um "velho" contemplando a "criança", atando as duas pontas da vida, como Casmurro tentou, e conseguiu. O que o perverso do Machado fez foi desmascarar a impossibilidade de olhar com os olhos inocentes: toda narrativa é crítica e tendenciosa. Acorde "leitora ignorantona" -- narrar é manipular, e eu estou aqui te mostrando isso, mas você é muito "burrinha"e se prende apenas aos episódios, não vê que, ao aproximar recortes, estou fazendo aquilo que o cinema e a TV fazem: manipulação, reconstrução, interpretação tendenciosa, que pretende levar a sua interpretação à minha opinião. Machado entendeu como ninguém o que era literatura. Proust também, mas guardou seus achados para uso pessoal. Machado dissecou a mosca azul e romanceou essa dissecção. Proust chamou atenção para o seu vôo, mas não negou que ela pousava sempre no mesmo lugar, embora já não fôssemos os mesmos, modificados entre o alçar vôo e o pouso. Ambos, em algum momento, são acusados de prazeres sádicos. E eu termino, em clima sermonesco (claro, estou relendo o Padre Antônio Vieira), dizendo: bem aventurados os sádicos, pois são eles os capazes de narrar, eximindo-nos da culpa de viver. Se a vida pode ser uma obra de arte quando narrada, nossa canalhice, nossas baixezas, nossa insignificância se hão de redimir e serão justificadas, nas narrativas. Machado deseja revelar o processo que aplaca nossa consciência, Proust deseja mostrar que nossa consciência mascara o processo. Os dois compreendem o processo e o usam com finalidades diversas, mas eficazes. Os autores são mestres, e nunca periféricos. Os leitores são ignorantões, mas poderão, guiados, chegar a pequenas epifanias, pequenos orgasmos, ou seja, diminutas mortes. E é só da perspectiva dessa morte que se narra o mundo... O aleph, que engendra o beth, que engendra gama e todo o alfabeto da escrita. Faz sentido? Se não faz, ficou bonito, para finalizar o texto.

Friday, August 08, 2008

Portal de Orion

08/08/08
Não podia deixar de aproveitar essa data tão redondinha, e, esperando para ver a abertura das olimpíadas, desejar a todos uma "feliz abertura do portal de Orion". Vocês estranham?Eu também, mas, depois daquele filme Stargate, acho que as estrelas todas adotaram "portais".
Aqui está um desenho que representa a constelação que contém algumas das mais famosas estrelas do céu, a saber: Betelgeuse a estrela vermelha em seu ombro e Rigel, brilhante e azulada, em seu tornozelo.

Bem, para quem não conhece Orion, ele era um gigante, excelente caçador, que, dizem, foi amado por Ártemis. Numa das versões, a deusa, ao surpreendê-lo correndo atrás das Plêiades (as sete irmãs Sterope, Merope, Electra, Maia, Taigete, Celeno e Alcione que passeiam pelos céus acompanhadas de seus pais Atlas e Pleione), teve um acesso de ciúme e enviou um escorpião que o matou. Depois, arrependida, ela suplicou a Zeus que o colocasse no céu, juntamente com seus dois cães de caça, o Cão Maior, Sírius, e o Menor, Procyon, e que lhe desse animais para caçar: o Touro e a Lebre. Zeus realizou o desejo da filha, criando todas essas constelações, mas, para que ela não esquecesse das ciladas que o ciúme prepara, criou também a constelação do Escorpião, e, sempre que esta aparece no céu, Orion se esconde no mar.
Adoro essas histórias, aliás, adoro qualquer história, e me encanta poder lê-las no céu, no mar, nas montanhas, nas páginas dos livros.
Desejo a todos boas Olimpíadas, com ou sem portal de Orion, e aviso que vou estar na UERJ, este fim de semana, participando e expondo em um Seminário em Homenagem a Machado de Assis.
Falarei na segunda-feira, sobre O Espelho, conto excepcional de Papéis Avulsos.

Thursday, August 07, 2008

Chega de fossa!

Não vou mais falar de dor de cotovelo, até porque não sinto nenhuma dor de cotovelo. E hoje é dia do aniversário de uma amiga, e quero desejar a ela MUUIIIIITAASSS FELICIDADES!
Feliz aniversário Renée. E já aproveito para ir cumprimentando os aniversariantes dos dias seguintes: Feliz aniversário Marlene! Feliz aniversário Maria Flora! Feliz aniversário Ivan! Feliz aniversário Rosana! Ufa, cansei. Adoro todos vocês. Com todos esses leãozinhos (foi a correção automática que mudou, eu tinha feito o plural primeiro, depois o diminutivo + s) à minha volta, acho que me sinto bem protegida...

Wednesday, August 06, 2008

Mais interpretações excepcionais

Elis Regina - Atras da Porta - ao vivo

Me entusiasmei com o vídeo da Maysa, e fui procurar outras músicas que acho essenciais. Queria colocar o vídeo aqui, mas recebi uma mensagem de erro. Assim, fica o link, e quem quiser vai lá no YouTube ver.
Já falei com vocês sobre minha depressão pós-férias, e estou preferindo as canções do "fino da fossa", o supra-sumo do abandono. Mas até dá gosto sentir um pouco de dor de cotovelo, escutando essas canções...
Claro que, obsessiva como sou, escutei ne me quitte pas em todas as versões publicadas no You Tube. Acho que nenhuma interpretação é superior à da Maysa. Porém a Mireille Mathieu fez um mix com uma outra canção que intensificou o poder da letra. Ah, e acho que a versão em inglês, cantada pela Shirley Bassey, tem os versos mais lindos. Se você for embora, num dia de verão, pode levar o sol, e os pássaros ... Sem amor, pergunto eu, de que serve a vida? Prá adorar pelo avesso o outro que se foi, responde o Chico. Aliás, ele, tão novinho, aparece cantando junto do Tom Jobim uma outra música dos meus amores: Eu te amo. Como é que um menino conseguiu escrever versos tão doloridos? Está lá no YouTube, também. Vale a pena ver as duas versões do Chico, uma quase criança, outra, homem maduro. A primeira versão é mais emocionante. Acho que ele ainda acreditava no amor...
Amanhã continuo.

Tuesday, August 05, 2008

Ne me quitte pas

Ne me quitte pas, cantado por Maysa. Não só a música é linda, como a interpretação é fabulosa!
Aproveitem, deliciem-se, e chorem rios, se for o caso...
Eu quase me afogo, mas não deixo de escutar.

Monday, August 04, 2008

O prazer de dar aulas

Acabei de dar minha aula semanal, e vim conversando com uma das alunas, cuja filha começa agora sua carreira como professora universitária. Ela me falava da alegria e do entusiasmo da Joana, e eu concordava, pensando como é bom dar aula. Porque é muito boa essa sensação de compartilhar paixões. Eu adoro dar aula, mas das coisas que me entusiasmam. Falar de literatura sempre me deixa cheia de ânimo, de olhos brilhando, e feliz. Principalmente porque percebo que vou deixando os alunos com o mesmo encanto que eu sinto, e isso me gratifica muito.
Hoje lemos dois capítulos do Quixote, e minhas alunas estavam visivelmente deleitadas com o desenrolar da história. Uma chegou atrasada, e perguntou quem era a Doroteia, e eu nem precisei falar nada, elas disputaram a chance de falar sobre a personagem que as tinha comovido. Eu fiquei toda boba, alegre com elas e por elas, orgulhosa de vê-las tão seguras e "donas" da história. Há tempos atrás elas eram tímidas, não ousavam falar, não davam opiniões. Agora elas retrucam, concordam, lembram de coisas, visivelmente seguras de que estão entendendo o assunto. E nossos projetos se multiplicam. Depois de Cervantes, vamos a Vieira, sim o Pe. Antônio Vieira, dos belos e inteligentíssimo sermões. Vamos curtir muito, acompanhando seus raciocínios e estudando figuras de linguagem. Já estou antegozando o prazer dessas futuras aulas. Vai ser minha chance de reler um autor muito querido.

Sunday, August 03, 2008

Essas são as três únicas fotos que consegui tirar em Berlim: O Estádio Olímpico, que ainda não conhecia, e duas fotos do "dente cariado", que é como os alemães se referem à catedral bombardeada da Kufurstedam. Nem estão grande coisa...

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Álbuns da web do Picasa - Lucia - BUDAPESTE

Álbuns da web do Picasa - Lucia - BUDAPESTE

Álbuns da web do Picasa - Lucia - Viena

Álbuns da web do Picasa - Lucia - Viena

Fotos, será que consigo?


Minha primeira foto de Budapeste.
Coloquei as fotos no picasa, mas não descobri ainda como fazer um link para que os leitores possam chegar até elas. Vou continuar tentando.

Coluna do Xexeo

Acabo de ler o diagnóstico do Xexeo, sobre o amor pelo teatro. Vim correndo escrever, confessar meu amor pelo teatro, que não se deve à TV, pois não me era permitido assisti-la. Coisa de criança criada pelos avós. Só assistíamos a um programa durante a semana, escolha de minha avó, Os Intocáveis. Em compensação, escutei muito rádio, escondida no quarto da empregada que era apaixonada pelo Jerônimo, o herói do sertão. Eu também amava aquele herói e morria de ciúmes da Aninha. Sabia que o Moleque Saci ia preferir que seu grande amigo ficasse comigo, pois, afinal, eu não era uma mocinha doce e comportada: era aventureira: subia nos móveis, me escondia para escutar rádio e lia livros proibidos... Na maioria das vezes, fiquei sem saber como terminavam as aventuras, mas isso nunca me perturbou, pois eu mesma criava finais, que eram sempre idênticos: na hora do aperto, eu conseguia descobrir um jeito de ajudar o Jerônimo e ....acabávamos vivendo felizes para sempre, cantando aquela cançãozinha " Filho de Maria Rita(?) nasceu, Serro Bravo foi seu berço natal..." Incrível como as paixões se desvanecem no ar. Já nem lembro mais a canção...
Me pergunto, então, por que é que gosto de teatro? Primeiro porque via meus parentes indo ao teatro: era um grande programa! As pessoas se arrumavam, se vestiam, se perfumavam, usavam saltos altos ou terno e gravata. Me lembro de ir acompanhando minha mãe e uma amiga para comprar entradas para uma peça no Copacabana Palace. Mamãe falava das poltronas de veludo, das cortinas. Ela e suas amigas comentavam as peças aos cochichos, com risinhos excitados de adolescentes que já não eram, mas ainda pareciam. Acompanhei-as também às bilheterias do Teatro Glória, e de um outro no Centro, numa ruazinha esquisita que foi criada só para abrigar este prédio, ali perto da São José.
Teatros havia por toda a parte aqui no Rio. Ainda não tinha muita idade quando comecei a frequentar os espetáculos teatrais. Acho que, naquela época, cinema tinha censura, mas teatro não. A gente só ia ao teatro acompanhada pelos pais e ou responsáveis, acho que era isso. Sei que, ainda pequena, fui assistir a uma peça do Teatro dos Sete (? seria esse mesmo o nome?) Acho que era um Martins Penna. Assisti a uma montagem maravilhosa de A Moreninha, no João Caetano. Ainda me lembro das roupas maravilhosas e de uma canção: Cafuné, cafuné, é de São, São Tomé, vem de lá, de Luanda..." Neste mesmo João Caetano, anos depois, assisti Macunaíma e fiquei deslumbrada.
Mas havia outras salas teatrais, muito mais próximas de minha casa. Ali na praça Gal Osório (nos tempos de ditadura, era muito "ousado" dizer Gal, ao invés de General) assisti Roda-Viva. Ah, o que os meus olhos viram e meu coração sentiu! E, em Botafogo, assisti a Dois perdidos numa noite suja e também Navalha na carne. Grande Plínio Marcos, maldito na época, mas fazendo um teatro tão bom que nos deixava quase sem ar. Continuando com esses espetáculos inesquecíveis, assisti a uma montagem de Notre Dame des Fleurs, perto do Largo do Machado. Acho que isso foi muito depois, pois já estava casada. Na verdade, para quem se casou tão cedo como eu, pode não ter sido tão depois. Também vi, no Ginástico, Morte e Vida Severina, sem cenários, os próprios atores se transformavam em janela, em pedra, no que fosse necessário. Que revelação! Mas perdi coisas maravilhosas e a que mais sinto ter perdido foi O Rei da Vela. Logo eu, tão fã do Oswald...Não sei por que não fui. Talvez falta de grana.
Então, por que será que gosto de teatro? Porque antigamente, consideravam teatro um programa bacana. Porque as peças de teatro eram boas. Porque as montagens eram sensacionais. Porque não se ia ao teatro para fazer culto das personalidades. A gente ia ao teatro pelo espetáculo, não para ver a cara do Fulano ou a nudez do Sicrano.
Para terminar, não posso deixar de mencionar os Paulos, Gracindo e Autran. A gente ia ao teatro ver esses monstros sagrados. Mas, quando chegava lá, não encontrava nenhum dos dois. Dava de cara com Édipo, ou Shylock, ou seja lá quem fosse que eles estivessem representando. E era bom. Era inesquecível.

Saturday, August 02, 2008

RomamoR

Gosto de Roma. Aliás, gosto de toda a Itália, cada lugarzinho me encanta de uma maneira diferente, com um charme distinto. Não há como comparar as cidades italianas, não encontro um parâmetro com que comparar Roma, Veneza, Portofino e Florença, por exemplo. Mas, nesta viagem, ficamos apenas em Roma, passeando de 116, nosso ônibus elétrico, pequenininho e onipresente, que passava em todos os lugares para onde queríamos ir. Vila Borghese? 116. Panteon? 116. Piazza Navona? 116. Vaticano? 116. Lungotevere? 116... Já conhecíamos os motoristas, alguns nos saudavam, simpáticos, outros demonstravam seu desprazer com as turistas encaloradas que tomavam o ônibus para fazer viagens longas, aproveitando para descansar de tantas andanças. Gostávamos de tomá-lo na direção da Vila Borghese, para nos aproveitarmos do parque, lindo e fresco, com suas sombras e muitas fontes. Acho que fomos até lá todos os dias. Outras vezes, tomávamos ônibus de números diferentes, e íamos até redutos mais afastados da cidade. Foi assim quando quisemos passear pelas termas de Caracala, ou quando tomamos um ônibus de trajeto longo, até a vila olímpica. Íamos para o Termini ou para a Piazza San Silvestre, ou para a torre Argentina e dali seguíamos outros destinos, planejados de olhos no mapa.
Minha grande descoberta desta vez foi a Domus Áurea, a casa de Nero, seu palácio de verão, deslumbrante, totalmente soterrado por um de seus sucessores, num meticuloso trabalho de preenchimento e de aniquilação que fez meu coração se confranger. O que teria levado esse outro imperador, cujo nome já esqueci, a desejar apagar tão completamente os traços de seu predecessor? Ele nem foi o sucessor direto, o palácio ainda foi usado por pelo menos mais um César, que fez algumas modificações no projeto inicial. Mas depois foi deliberadamente obliterado por esse outro, num processo custoso e demorado. Houve que reforçar paredes, fechar vãos, preencher de terra milhares de metros cúbicos. Mas, eis que um belo dia, descobrem uma das aberturas que tinha sido feita exatamente para destruir. Uma espécie de poço, por onde um curioso desceu e descobriu o teto, magnificamente decorado, de um dos salões. Até Michelangelo desceu por uma dessas aberturas (logo em seguida descobriram outras) para ver as maravilhas das pinturas e daí nasceu o estilo grotesco -- ou seja, de grotto, essas grutas em que o palácio se havia transformado. Fizemos uma visita arqueológica, com capacetes e tudo o mais, guiadas por uma arqueóloga apaixonada por seu trabalho. Era um grupo pequeno, de pessoas persistentes: para conseguir os ingressos é preciso entrar na fila do Colosseo, passar pela segurança, ir até o guichê específico da Domus Áurea e depois voltar todo o caminho debaixo de um sol que torna as ruínas quase que incandescentes. Foi bom. Fizemos a visita logo no primeiro dia e aprendemos lições que nos permitiram olhar para as outras ruínas com olhos mais experimentados. Víamos em tudo aquilo o que lá não está, como nos ensinou Pessoa. Aprendemos a descobrir onde estariam antigas pinturas, onde as fachadas teriam sido cobertas de mármores, ou de mosaicos, em alguns momentos, sonhadoras, creio que conseguíamos imaginar a Roma de muitos séculos atrás.
Passamos vezes sem conta pela Fontana de Trevi -- nosso hotel estava bem ali ao lado. Era nosso caminho. Íamos ali como quem vai ao quintal. E, não importa a hora em que fôssemos, a multidão se comprimia, disputando um espaço para se deixar fotografar. Bebi água da Fontana, bem ali no bebedouro ao lado, que existe para esse fim, mesmo. Bebi água no Panteon. Bebi água em todas as fontes que encontrei pelo caminho, desejosa de incorporar, de alguma forma, tanta beleza e encanto. Entrei em igrejas, cada qual mais bela. As duas ao lado do hotel, já minhas velhas conhecidas, outras velhas conhecidas, na piazza Navona, no largo de Sta Susana, no trastevere, no alto da Piazza de Spagna. Outras ao sabor do acaso, provavelmente já visitadas antes, mas esquecidas, como a de Sta Maria Madalena. No Vaticano, enfrentamos uma longa fila para entrar na Basílica -- segurança, a mãe de todas as filas. Lá dentro, o encanto. E uma enorme emoção: ter mandado rezar uma missa pelo Guilherme. Essa missa será rezada entre o dia 5 e o dia 11 de agosto. Ter conseguido isso me emocionou até às lágrimas.
Era o fim da viagem. Depois disso, um almoço memorável no Brunello da Via Veneto. Uma caminhada até o hotel, onde aguardamos pelo transfer até o aeroporto, e... num vôo sem maiores problemas, S.P. parada obrigatória, antes de nosso Rio tão querido, tão humilhado pelos novos valores...

Friday, August 01, 2008

Com sol e com esperança

Na Alemanha fomos recebidos com sol. Era a última etapa da excursão, já estávamos mais experientes, mas, ao invés de um pouco mais folgados, graças à despedida de uma parte do grupo, ficamos foi mais apertadinhos, num novo ônibus ainda mais desconfortável que o anterior e com novas pessoas de um hotel ainda mais distante do que o nosso. Pois os hotéis eram de duas categorias: distantes, mas de boas acomodações ou próximos, mas horrorosinhos. Em Praga estávamos num no final de uma das linhas do metro. Não era mal, só a comida é que era terrível. Fugimos de nossas refeições de internato e comemos no centro da cidade, sempre. E, no café da manhã, depois da primeira decepção, passamos a trazer nossa própria comida e só aproveitávamos o café...
Mas a Alemanha foi generosa: sol, bom hotel, boa comida e localização perfeita -- Alexanderplatz, a um pequeno passeio de Nikolaiviertel, do Museumsinsel, do Berliner Dom. Com condução para todos os lados da cidade e uma profusão de bons restaurantes que nos deixavam sem saber para qual ir. Antes de Berlim, porém, uma pequena parada em Dresden para o nosso deslumbramento. Que milagre, a reconstrução desta cidade, bombardeada desnecessariamente, e com tanta violência que os incêndios provocaram uma espécie de turbilhão de fogo que sugava as pessoas para seu âmago. Não há sinais disso, agora. A cidade se revela em toda sua beleza, em alegria de viver. Custava-me acreditar na sua prévia destruição. E passeei por ali com gosto, embora quase sem tempo, tendo que abandonar as vistas e os prédios, e seguir adiante, para conseguir alcançar o ônibus que já estava pronto para partir.
Em Berlin, passeamos. Não deu para ir a nenhum concerto, pois a orquestra estava de férias. Nem deu para perambular por nenhuma rua, sem destino, descompromissados. Havia que visitar o Pergamon, havia que pagar nossos respeitos à Nefertiti, havia que levar os amigos à Kadewe, passar pela Unter dem Linden, pelo Adlon, pelos monumentos famosos e museus extraordinários. E eu ainda queria ir até Potsdam, para ver o palácio do rei filósofo, e conhecer o quarto que hospedou Voltaire, por três anos, dar uma olhada na biblioteca, ciosamente vedada a estranhos, olhar os jardins e o túmulo de quem preferiu ser enterrado à noite, junto a seus cachorros, num túmulo sem pompa, mas de enorme dignidade, onde alguns admiradores depositavam batatas, cuja cultura ele tanto se esforçou para introduzir em seu reino.
Depois, as despedidas. O grupo se desfez. Amigos recentes indo para Portugal e Galiza, eu e N. embarcando para a Roma alegre e quente, cheia de canções de outros festivais...

Thursday, July 31, 2008

Praguejando

Passei a manhã tentando me entender com as fotos. Pelo menos, consegui retirá-las de dentro da máquina e passá-las para o computador. Acho que vou ter de ligar para Celina que, em sua gentileza, se propõe a me ajudar. Agradeço às mensagens dos amigos, que voltam e me alegram com suas mensagens de boas-vindas.
São muitas as fotos, umas trezentas e cinquenta, como o poema de Mário
Eu sou trezentos, eu sou trezentos e cinquenta... Só que eu não estou em quase nenhuma das fotos. Mas apareço, aqui e ali, quando minha companheira de viagem acertava fazer a misteriosa câmara funcionar. Como vocês podem ver, o equipamento é complicado, não sou assim tão ruim quanto minhas reclamações me fazem parecer. Coisas de filhos, que acham que suas mães têm a mesma habilidade que eles com esses novos equipamentos!
A maquininha não impediu minha fruição. Nem mesmo a chuva. Estive olhando algumas das fotos que tirei de dentro do ônibus em movimento e ficaram parecendo uns quadros impressionistas. Não revelam os lugares, mas demonstram bem o clima, acho que até os arrepios de frio que nos tiravam a vontade de saltar e visitar as inúmeras belezas que víamos. Isso até ajudou a não nos revoltarmos contra o regime cruel da excursão, que nos mostrava as coisas de longe, sem se deter. Sossegamos, nos encolhemos, friorentos, e olhamos a cidade das pontes e dos recantos românticos, com olhos próximos da sensibilidade simbolista.
Mas andamos para lá e para cá, a pé e de metrô, seguindo mapinhas turísticos e atravessando tantas pontes quanto nossa fantasia e disponibilidade permitiu. Ousamos ônibus que nos levaram para longe dos caminhos usuais. Retornamos de metrô, sempre por ali por perto da ponte Carlos, e dos recantos sagrados onde encostávamos as mãos suplicando graças a um santo de língua cortada e guardada em belo relicário. Vestidos como turístas friorentos jantamos num dos restaurantes mais elegantes de Praga. Vestidos como príncipes, comemos em restaurante de segunda. Carregados de embrulhos, assistimos a uma ópera -- Don Giovanni -- montada com cenários antigos, lindos, num teatro tão bonito que nos deixou felizes só por estar ali. Assistimos o bailado dos apóstolos, desfilando no relógio astronômico, escondidos em sua janelinha, enquanto a morte se requebrava, avisando que está sempre presente, a cada hora do dia. Servimos de testemunhas a diversos casamentos: Como as pessoas se casam! Era um entra e sai contínuo, uma corrente humana que se metamorfoseava em noivas ricas e pobres, elegantes e vulgares, populares ou não. O casal que mais me comoveu foi o que compareceu tão solitário para o casamento que não puderam ter uma foto dos dois juntos. Um tirou a foto do outro, e aquilo fez sangrar meu coração. Quis me oferecer para ajudar, mas, na multidão, não consegui chegar a tempo de fazer minha mímica, pois não teria conseguido dizer nada em tcheco. Mas fiquei assombrada por aqueles dois, tão sozinhos no meio da multidão, esperando que eles se acompanhem para sempre, que nunca mais se sintam tão sós. Tomamos café, escutamos mais música, pelas ruas, e depois, lá fomos nós para o ônibus, que nos levou para a Alemanha, onde, finalmente, reencontramos o sol.

Wednesday, July 30, 2008

Una bambola

Não me atrevo aqui a citar a letra da canção italiana antiguinha, que mais ou menos queria dizer (pelo menos é o que eu entendia) que a amada fazia o namorado girar como una bambola e depois o deixava de lado, brinquedo esquecido. Essa bambola, para mim, era o bambolê, rodinha hoje em desuso, mas da qual eu era uma grande atleta! Comandava o bambolê com perícia, e o aro volteava ao redor do meu pescoço, descia, orbitava em volta de minha cintura, coxas, joelhos, e depois, com pequenas alterações no movimento do corpo, subia tudo de novo, e eu conseguia, de vez em quando, retirá-lo para um único braço, proeza muito admirada pelos meus grandes fãs: meus avós.
Eles me deram bambolês de diversas cores e eu usava mais de um ao mesmo tempo, mas isso às vezes desandava. Minha avó estava convencida de que o "exercício" afinaria minha cintura, mas ela estava enganada. Nunca tive o corpinho de violão que ela desejava para mim. Talvez por isso eu tenha abandonado meu esporte, e hoje (juro que tentei recentemente) não consigo mais manter o bambolê girando. Só no braço, e, assim mesmo, com alguma dificuldade, perigando de ver o aro fugitivo se escapar e causar algum acidente. Na verdade, nunca fui muito atlética, nem muito preocupada com o corpo. Talvez por isso tenha sido tão crítica com relação à Sissi, imperatriz tão preocupada com sua beleza e sua silhueta que me impressionou, quando menina, de uma maneira positiva graças aos filmes da suave e sorridente Rommy Schneider. Ela estava sempre sorrindo, nas fotos e nas cenas dos filmes, e descobri que a verdadeira nunca sorria, envergonhada pelos dentes escuros que enfeiavam sua boca.
Quando cheguei a Viena, pela primeira vez, comprei todos os livros que encontrei sobre sua vida e descobri sua provável anorexia, sua complicada relação com os cabelos, que lhe provocavam dores enormes de cabeça visto pesarem muito, e necessitarem de suporte para serem penteados. Um parêntese: ela não admitia que caíssem fios de cabelo ao ser penteada, e espancava as cabeleireiras.
Entendo que a Sofia não fosse fácil, mas acho que a Sissi era ainda mais difícil que sua sogra...
Visitando a Áustria, a gente sempre se maravilha com a beleza do lugar. Pequenina, a cidade de Viena é tão acolhedora para os turistas que chega a parecer uma espécie de Disneyland: todas as atrações estão a curta distância, e um bondinho interliga todas elas, e nos permite descansar as pernas cansadas de percorrer quilômetros de galerias de palácios e museus. Como já tinha estado ali antes, esnobei algumas visitas e fiz outras, não planejadas pela excursão. Não fui ao palácio de inverno mas voltei ao museu de nome difícil (Kunsthistorischesmuseum). Fui lá rever meus amigos Arcimboldo e Brueggel, e tomar um cafezinho sob a rotunda, admirando o palácio lindo, lindo, que devemos à Maria Teresa, mãe de outra austríaca famosa, a Antonieta, e, por incrível que pareça, avó do único filho de Napoleão, L'Aiglon, tão lindinho e lourinho, mas que morreu tão cedo.
Corremos toda a cidade atrás da casa de Freud, pois nos deram o endereço errado no hotel. Não foi culpa do concierge, foi a internet que estava com o endereço errado, um engano de digitação numa letra nos levou a uma casa que ostentava um cartaz bem humorado, avisando que não era ali que ele morava, lá só viviam alguns de seus pacientes -- provavelmente enlouquecidos com a romaria mal orientada. Já havíamos desistido quando um tempinho extra nos permitiu fugir até lá na manhã de nossa partida para Praga. Uma casa pequena, mas muito bem localizada, com um jardim tranquilo, poucos móveis, muitas fotos... Claro que chovia, mas nós enfrentamos a chuva felizes e até nos recompensamos com um capuccino e um strudel no Café Freud, que oportunamente se instalou ao lado da entrada da casa.
Além disso, passeamos pelo Schönnburg Hof e seus jardins, pelas ruas da cidade, correndo atrás de um guia "maratonista" que se chamava Carlos, era intensamente gay e perdeu metade do grupo na correria pelas ruas super cheias de gente. Os velhos e as crianças tiveram de ser resgatados e nós tivemos que aturar a impaciência dele que não entendia como as pessoas tinham se perdido do grupo. Fotos? Talvez eu tenha conseguido tirar uma ou outra, nalgum momento em que a marcha ficava um pouco mais lenta... Vou ver depois. Ah, se conseguir, farei um site de fotos da viagem. Por enquanto, nem consegui passar as fotos da máquina para o computador: inabilidade e incompetência.

Tuesday, July 29, 2008

O mundo gira, a Lusitana roda.

De vez em quando dou dessas bandeiras, relembrando um passado tão distante que me coloca quase na pré-história da humanidade! Quem se lembra do anúncio acima, é melhor não confessar, pois revela sua, digamos, eternidade. Por falar em eternidade, chego e descubro que Dercy Gonçalves morreu. E eu pensava que ela era verdadeiramente eterna... Descubro também que hoje é o "dia do orgasmo", e me pergunto: desde quando isso precisa de dia, gente? O que foi que aconteceu com os brasileiros? Chego num inverno que parece verão, regressando de um verão que mais parecia inverno. Budapeste, Viena e Praga me acolheram com muita chuva e frio. Nas pontes de Budapeste e de Praga encontrei foi muita chuva, que chegava assim de repente, e caía pesada sobre artistas e turistas incautos, sobre mendigos prostrados no chão, em súplicas infindáveis, sem mostrar seus rostos, sobre cegas que cantavam suas árias de óperas ou canções populares, indiferentes à indiferença que os passantes manifestavam. Não encontrei duplos, nem a morte, nem a vida. Nem os fantasmas de Cortázar, Borges ou Kafka. Ocupada em me desviar de pontas malignas de guarda-chuvas abertos, ou de sair da mira das câmeras fotográficas que pareciam hidras raivosas, mal conseguia olhar as esculturas e os monumentos que bordeavam o Duna, Danau ou Danúbio. Em Budapeste o rio não era mais azul, e sim verde, verde claro, largo, o chefe das muitas fontes de águas que se espalham pela cidade em piscinas e spas, em banhos turcos legítimos, em piscinas de água mineral construídas para hipopótamos, e em torrentes de chuva, gelada, que ensopavam os turistas em todos os pontos turísticos. Da correria que foi minha excursão, ficou a lembrança de uma cidade imensa, onde tudo o que nos parecia interessante estava sempre na margem oposta do rio. De pontes, extensas e muito belas, com histórias comoventes. De uma avenida larga, a Av. Andrassy, calçada com uma madeira especial para abafar o ruído dos cascos de cavalo, impedindo que o sono dos aristocratas fosse perturbado. De uma ópera que nos foi apresentada como uma caixinha de bombons -- coisas da língua espanhola, pois se fosse em português ela seria apresentada como uma caixinha de jóias -- onde imaginamos a Sissi (claro que na sua versão Rommy Schneider) se deixando admirar enquanto fingia escutar a música de que ela talvez gostasse. Outras lembranças que ficaram foi a enorme ampulheta que marca um ano inteiro, ao lado de um monumento aos heróis da resistência ao comunismo, uma bela escultura em formato de proa de nau. A grande praça com os sete guerreiros magyares que deram origem às cidades gêmeas, ao decidirem abandonar suas vidas nômades e se fixarem ali para sempre. A chuva intensa que nos deixou completamente encharcados no alto do Bastião dos pescadores, apesar do guarda-chuva aberto e do casaco que se dizia impermeável, mas que deixou a água passar pela gola e pelas mangas. A informação de que aquele tinha sido o limite do império romano. E a sensação de que as pessoas se sentiam um pouco sem sorte ali em Budapeste -- muitas invasões, escolhas erradas dos governantes quanto aos aliados nas guerras, políticos pouco escrupulosos -- mas muito orgulhosos de sua história e de sua cidade. Que é linda, mas que precisa de muito cuidado com a limpeza e recuperação das fachadas.
Não posso contar toda a viagem hoje, pois o post ficaria longo demais. Só esboço o trajeto: De Budapeste para Viena, dali para Praga, onde conheci o Castelo e a casa onde Kafka morou (não admira que ele tenha feito seu personagem virar barata: era o único ser que caberia confortavelmente dentro do espaço exíguo). Coincidentemente, ali ele escreveu um livro de contos (Um médico rural) que acabei de ler no semestre passado, visto que uma das histórias é retomada pelo Coetzee em seu livro A vida dos animais. De Praga para Dresden -- um deslumbre! E com sol, com gente pelas ruas, com uma alegria de festa. Depois Berlim, de onde fugi uma manhã para conhecer Potsdam, a da conferência de paz e do palácio Sans Souci. Finalmente, Roma a bela. Velha conhecida, ela me recebeu com carinhos de grande amiga, e mostrou lembranças e surpresas.
E de volta ao Rio. De volta ao blog. De volta aos amigos, às aulas, à família. O mundo girou, mas não saiu do lugar onde o deixei. A Lusitana não já não roda, pelo menos, nunca mais vi seus caminhões de mudança. E eu, pois mais que rode, volto sempre ao mesmo lugar.

Friday, July 11, 2008

Agora só na volta.

Estou fechando as malas, já quase a caminho. Vou.
Desta vez não levo computador nem outras muletas contra a solidão. Vou acreditando que conseguirei me divertir, distrair, e que não terei momentos de reflexão, quando busco o consolo das palavras. Vou. Desdobro as asas, receosa. Há um mundo para o qual não me preparei, esperando por mim com línguas ásperas e paisagens desconhecidas. Vou. Como escudo, apenas os livros, poucos. Poucas páginas. Uma caneta. Um caderno pequeno. Tudo no diminutivo, assim como me sinto: pequena, pouca, parca.
No entanto, me garantem, o Danúbio é mais azul em Budapeste. As pontes dali nos propiciam encontros inesperados, já me avisaram Cortázar e Borges. Quem caminhará ao meu encontro numa dessas pontes míticas? Meu passado? Meu duplo? A morte?
Imagino a morte em Praga: -- medieval, solene e lenta, ela medirá minha mão. Ansiosa, tentarei enlaçar seus dedos -- teria chegado a hora? Numa viagem tão apressada, o ônibus provavelmente já estará à minha espera, para me transportar, numa valsa, até Viena. E, depois, Berlim e o Spree, com suas barcas. Barcas novas. Democráticas como a do Auto: À barca, à barca, houlá, que temos gentil maré!...
Preciso dormir, um pouco que seja. Saio de casa de madrugada, ainda escuro. Meu coração, encolhido de frio, se fingirá de morto. Mas irei. Olhos entreabertos. Sorriso sempre a postos. Um cansaço...Dou um passo. Mais outro. O caminho se delineia por entre as brumas. Ainda há muito para caminhar.

Wednesday, July 09, 2008

Conversa de Clip

Será que alguém ainda quer saber de Flip? Ou de Clip? Hoje, o artigo do Xexéo me fez lembrar do engano do Veríssimo. Mas tento me lembrar do que será que sobrou assim de mais substancial das conferências que assisti, e penso que, talvez, o melhor tenha acontecido nas programações paralelas. Ou nos restaurantes, que não se limitaram ao fabuloso Banana da Terra. Teve o Punto Divino, um italiano nota dez. Teve barzinhos modestos de comidinha caseira gostosa (e caríssima) e teve a barraquinha de pastel (pasteis de 30 cm!) e as barraquinhas de doce, tentadoras. Teve tira gostos imperdíveis. Teve a simpatia do espaço Bravo, na pousada do Sandi, com cafezinho e biscoitos maravilhosos. Muita cachaça, rios de cachaça e de batidinhas, sem problemas, porque ali ninguém dirige, mesmo. Parati não tem carros, agora tem umas charretes, mas ainda são poucas. As bicicletas são para os idealistas, que acham que conseguem se desviar das pedras absolutamente desiguais do calçamento. Em toda a cidade não há uma pedra igual a outra. É espantoso! Parati é para a gente andar a pé, devagar, olhando para o chão. É para cumprimentar os amigos de longa data que a gente reencontra na ponte, ou tentando encontrar lugar no bar apinhado. É para entabular conversa na fila, trocar opiniões sobre livros e ficar com a sensação de que essas pessoas são as mais simpáticas do mundo. É para comer um pão de mel do Café Pingado, sem acreditar que algo tão bom seja um simples pão de mel. É para ganhar uma fruta de presente, e comê-la com gosto, ali mesmo na rua, matando fome e sede ao mesmo tempo. É para escutar os poetas e os poetas chatos. É para folhear livros sem fim, com vontade de comprar todos, e comprar mais livros do que se pode, é para visitar as galerias de arte, para admirar o artesanato, para descobrir pessoas que são amigas de pássaros, que vêm visitá-las todos os dias.
Ah, tem os autores. A gente gosta de vê-los, gosta de ouvi-los, se espanta com alguns, se surpreende com outros, mas logo a gente esquece, pois, deles, o que preferimos são os livros, são as histórias que nos contam e que se tornam nossas histórias.
Eu adoro Parati, e aquele mar que se mantém discretamente escondido no final das ruas estreitas. Adoro minhas lembranças de Mamanguá, dos golfinhos brincalhões, do cheiro do mato nos acompanhando nos banhos de mar. Atravessar a ponte sobre aquele rio (Perequetê- Açu?, já não me lembro do nome...) e ver o céu refletido nas águas, exibindo nuvens gorduchas como bebês alegres. E adoro Parati cheia desse povo dos livros, dessa multidão de pessoas que, quando não gostam dos livros, vivem deles e por isso fingem que gostam. E é bom escutar os retalhos de conversa, os pedacinhos de história, os fiapos de assuntos. Chega de Flip, porém. Já é hora de pensar em meu novo caminho. La vou eu para Budapeste, e Praga, e Viena, e Berlim, e Roma! Meus sonhos já embarcaram, só eu que continuo tentando terminar trabalhos e atar as pontas das coisas por fazer.

Monday, July 07, 2008

Meu amigo!

Olavo, que maravilha te encontrar através deste meu blog. Veja só, se os deuses "virtuais" às vezes me maltratam, também me recompensam, me oferecendo amigos: os que eu já tinha e os que encontro através da rede. Aquela última vez que nos falamos eu estava de partida, e, desorganizada como sempre, esqueci onde anotei seu telefone. Mas agora estamos em contato! E meu celular continua sempre o mesmo. Este ano, quando for ver a Bárbara, espero conseguir te achar. Beijo.

Sunday, July 06, 2008

Traída pelo modem!

Infelizmente fracassei na minha missão de reportagem da Flip. Meu modem simplesmente parou de funcionar. Hoje, já aqui no Rio, consegui postar um pedaço incompleto do último post que escrevi lá. Vou fazer o seguinte, assim que puder, vou coligir as anotações dos últimos dias e fazer um resumo. Vou colocar as fotos, também. Só não pode ser agora, pois preciso urgentemente terminar um trabalho para entregar amanhã.
Para informar vocês, rapidamente, houve muitos desencontros nesta FLIP. Mesas com pessoas que não combinavam, mesas com autores de qualidade muito desigual. As que melhor funcionaram foram as que, com uma única "estrela", o mediador servia como um entrevistador. Na última que assisti, por exemplo, o Pierre Bayard, autor de Como falar de livros que não lemos, foi "comentado" pelo Marcelo Coelho -- um show, inteligente, articulado, bem preparado. O Contardo Calligaris estava lá como mediador, mas era dispensável a presença dele. Ele é meio estranho. Parece um marionete, meio duro, um pouco artificial.
Houve desastres, como um mediador (esqueci o nome, depois vejo nas anotações) que resolveu falar mais que os convidados, até que um deles deu um toque; "Acho que eu devia fazer as perguntas e você respondê-las." Foi aquela síndrome do microfone, que acomete as pessoas e as faz desligar o desconfiômetro.
Houve grandes momentos, mas muitas vezes esses momentos não atingiram a platéia em geral, dirigidos que eram para escritores, ou para um público mais acadêmico... Houve pouca empatia entre entrevistadores e entrevistados. Simpáticos ambos, por exemplo, o Veríssimo e o Stoppard não tinham química, e o Stoppard não conseguiu entender as gracinhas do Veríssimo -- talvez por culpa da tradução -- pois muitas vezes a impressão que se tinha era de que os estrangeiros não compreendiam as coisas que lhes perguntavam.
Desculpem, amigos. Anotei tudo e tirei retratos, mesmo proibidos. Não são grande coisa, mas vou colocar para vocês verem, mesmo assim
Uma amiga disse que achou que essa FLIP era a da escatologia. Falou-se muito palavrão, é verdade, mas discordo dela. Acho que foi uma Flip sem paixão. Os melhores momentos foram aqueles em que a alma das pessoas surgia luminosa das palavras proferidas, como foi o caso do Pepetela.
Mas agora vou trabalhar. Depois escrevo mais sobre o assunto

Friday, July 04, 2008

Todo mingau tem seu dia de araruta

Eu sei. Troquei de propósito, para ser engraçadinha. Mas hoje foi meu dia de troca-troca. O dia amanheceu bonito, sol e tudo o mais. Meus companheiros de viagem foram passear de barco, eu fui assistir a mais uma boa palestra: Formas breves. Moderação de Carlos Augusto Calil, participação de Ingo Schulze, Modesto Carone e Rodrigo Naves. Logo de cara já fiquei satisfeita,com o Calil fazendo o elogio do conto, e falando uma coisa que eu também acho: no nosso mundo moderno, apressado, nervoso, as formas breves são as que melhor se adequam ao ritmo que nos impomos. Já disse isso numa entrevista ao Leonardo Lichote de O Globo,quando ganhei o prêmio Josué Guimarães em Passo Fundo. O Ingo, alemão de Dresden, leu um conto seu do livro que está sendo lançado pela Cosac Naify

Perversões e pervertidos

Hoje foi o dia da Roudinesco. Que show!
A mediadora foi fantástica, orientou muito bem a palestra, apresentou sem exageros, mas demonstrando um profundo conhecimento e respeito pela obra de Mme. Roudinesco. Simpática, com cara da comadre da prima de Pindamonhangaba, uma voz aguda, mas um francês claríssimo, fácil de entender.
Falando sobre "uma" história da perversão -- a perversão no mundo ocidental, ela ensina que as perversões têm a ver com metamorfose -- modificação do corpo. As perversões foram mudando com o tempo, o homossexualismo,por exemplo, já foi considerado uma perversão, e hoje deixou de ser. Hoje, a perversão está ligada à falta de consentimento, pois se considera normal tudo o que se faz entre adultos capazes de consentir. Sobraria então a pedofilia e a zoofilia. A zoofilia é um pouco mais controversa, pois, desde que não haja sofrimento do animal, talvez não se deva falar em perversão. A pedofilia, então, com crianças pequenas, não com adolescentes, seria a última fronteira da perversão.
Ela ainda falou sobre o sadismo, sobre o nazismo, sobre Freud e a maneira de a psicanálise encarar a perversão (uma doença a ser curada). Tudo era tão interessante. Pena que há uma advertência aparecendo aqui na tela, demonstrando a instabilidade da conexão. Vou abreviar o relato, mencionando uma frase da mediadora: O sadismo concebeu o inconcebível, e o nazismo praticou o impraticável.
Mme. aproveitou essa frase para dizer que o nazismo não é uma herança de Sadeismo (para diferençar de sadismo, termo que foi cunhado pela psicanálise, mas que não corresponde exatamente, a uma lição de Sade) pois o naziemo é quando todo o estado se perverte. Além do mais, Sade tinha talento, e os nazistas todos eram medíocres.
Foi uma grande palestra. Volto a ela mais tarde.

Falando sobre as perambulações favoritas, meu lugar mais aconchegante é o espaço Bravo, na Pousada do Sandi. Ontem e hoje passei alguns momentos agradáveis por lá. Somos recebidos com simpatia, e nos oferecem café, queijinhos, frutas...e muita solicitude.
Um espaço muito agradável é a casa do Jornal do Brasil. Lá os autores vão dar umas mini palestras, o povo em pé, ao redor deles, ouvindo um bate-papo quase íntimo.

A outra palestra que assisti hoje foi concorridíssima, também: Sexo, mentiras e videotape, onde três mulheres poderosas nocautearam o português que fez a mediação. Inês Pedrosa, Zoe Heller e Cynthia Moscovitch (já está muito tarde, faz frio e eu não quero ir buscar minhas anotações para confirmar grafias e nomes) contra um escritor tatuado que fazia sua primeira mediação...Só podia dar no que deu --o rapaz sofreu. A Inês é simplesmente ótima. Fala bem, tem um texto excelente e é muuuiiito inteligente e esperta, vivaz. A Zoe é uma inglesa de voz extremamente sexy, atraente e também muito articulada, inteligente, e a que mais expunha a fraqueza do mediador, talvez porque tivesse dificuldades com a tradução. A Cynthia fala bem, se posiciona polemicamente, é engraçada, e foi simpática. Cada uma leu um pequeno trecho de suas obras e depois responderam às perguntas do mediador, que acabaram descambando para essa coisa de insistir na literatura feminina. Elas retrucaram à altura, e mostraram que existe um certo desconcerto por parte do público, que reconhece que existe uma característica "feminina" no que lêem, mas que as autoras recusam o rótulo. É como se estivessem criando uma nova divisão no reino animal, os seres humanos e as mulheres. Quando um homem escreve sobre angústia e solidão é um problema humano. Se a mulher escreve sobre isso, é um problema feminino. E, como lembrou a Inês Pedrosa, porque é que ninguém lembra de perguntar a um homem como ele concilia seu trabalho e a vida familiar, e nenhuma mulher escapa dessa pergunta?
Foi muito interessante o debate.

Depois fui jantar com Agualusa, Maitê Proença, Gisela Amaral, Helcio Pitangy e muitos outros famosos. Na verdade, em minha mesa estavam os convivas mais interessantes: os meus amigos. Mas eu devo estar lendo demais a revista Caras, porque fui capaz de identificar quase todo o mundo que entrou no restaurante. A comida estava deliciosa, a música era boa, e depois saímos e fomos ao Bar do Che, encontrar a galera da Record. Sergio França, Ana Paula Costa, Anna Maria, e aí fomos topando com o pessoal do SESC, com os poetas de plantão (desde Elisa Lucinda, a poeta sestroza que enriquece a editora, passando pelo Claufe Rodrigues e pelo Chacal), com o pessoal da Globo (Paulo Betti, que tem o dom da ubiquidade, estava em todos os lugares para onde eu olhava -- vai ver que ele foi clonado --, e um bando de atrizes cujas caras eu reconheço, mas cujos nomes não sei).

Já estou quase congelando, não escrevo mais por hoje, nem coloco as fotos que tirei. Amanhã eu volto, mais organizada, prometo.

Thursday, July 03, 2008

Manhã de festa


Aí ao lado está o retratinho do R.S. Como prometi impressões particulares de quem estava presente no local, aqui vão alguns detalhes: as paradas na fala. Volta e meia o professor se interrompia para beber água -- no que fazia muito bem. Sua voz límpida e clara revela cordas vocais bem cuidadas e hidratadas. Bebam água, professores! A outra paradinha era quando ele procurava um raciocínio. Ele interrompia o que estava falando e se concentrava tão profundamente, que o silêncio adquiria uma certa espessura.
Bem, estou tentando publicar este post desde cedo, mas a conexão não colaborou. Perdi o final dos meus comentários, e agora já tenho novas fotos e histórias para contar.

Wednesday, July 02, 2008

FLIP/FLOP

Cheguei! Como sempre, encantada com Parati, suas casinhas encantadoras, as ruas de calçamento imperfeito, a alegria de cada barzinho, dos músicos pela rua, das tendinhas com artesanatos, das tarólogas, que se oferecem para ler nosso futuro. Sempre me admiro com essas leitoras de obras inexistentes.
Dirigi durante horas, tinha me esquecido de como é longe este recanto. Mas, a companhia era boa, viemos conversando no carro, nem sequer escutamos música. A pousada Villagio merece nota dez. Bonitinha, pertinho de tudo, tem até piscina para nos tentar a .cair n'agua.
Jantamos e depois fui assistir a interessantíssima palestra do Roberto Schwartz, simpático, competente, claro e cheio de conteúdo, um grande professor.
Ele chamou nossa atenção para o fato de que todos os capítulos iniciais dos romances da segunda fase de Machado são verdadeiras obras primas. E, então, leu o capítulo inicial de Dom Casmurro, e demonstrou como ele anuncia o problema da paternidade com tanta singeleza e habilidade que por décadas a crítica nem se apercebeu que ele já oferecia a chave da leitura ali mesmo na abertura. Falando sobre autoria problemática, na verdade ele anunciava a questão da paternidade questionável. Depois ele enumerou as diferentes leituras do romance através do tempo, revelou como a crítica literária foi "cegada" por ideologias paternalistas, que pouco a pouco, graças a percepção de críticos americanos e ingleses, as leituras foram se modificando e aprendendo a ler os mecanismos de crítica social presentes na ironia do autor, e no uso magistral da primeira pessoa que revela sua verdadeira face nos exageros pintados pelo narrador falsamente complacente.
Adorei cada minuto. Depois, à saída, encontrei meus amigos, e desisti de ir assistir o show de Luís Melodia, preferi ir tomar uma taça de vinho na pousada do Sandi.
Filmei e fotografei, mas não acredito que saberei transferir as imagens paraq o Blog. Agora vou terminar de ver o jogo do Fluminense.
Amanhã conto mais.
Quanto ao título, é assim que são conhecidas as sandálias havaianas lá nos EUA. Nada mais distante das ruas de pedras irregulares. Toda atenção é pouca para caminhar, mas cada passo vale a pena.

Tuesday, July 01, 2008

Ia me esquecendo!

Ainda está em tempo! Hoje é dia da entrega do Prêmio SESC. Parabéns aos novos vencedores. Que o sucesso de vocês seja duradouro e que seu "ano de miss" transcorra com muitas alegrias e oportunidades. Compareçam todos lá na ABL!

Encontros e desencontros

Estou arrumando as malas para a FLIP -- isso é metafórico, não me leiam literalmente, pois deixo sempre as malas para o último minuto. Tenho horror a fazer malas, só gosto de viajar. Devia existir um guarda roupa descartável, para viagens. Meu ideal é partir sem malas, sem bagagens, só velas enfunadas, nenhuma âncora. Mas eu não conseguiria abrir mão dos meus queridos e constantes companheiros de viagem: meus livrinhos. Desta vez, comprei uma série de livrinhos de 10 reais, pequenininhos, interessantes. Um é de Baudelaire, falando sobre a modernidade. Outro é de Foucault, falando sobre sexualidade. São ensaios, excertos de outros livros grandes, que não pesam na mala, mas são bastante substanciais. Outro que comprei, e que estou levando, é mais um de filosofia para festa. Só que esse comprei porque ele está organizado em Banquete, e, como minha tese é sobre o banquete...não resisti. E é divertido, embora seja muito mais sofisticado do que o dos professores de Harvard, que já recomendei aqui. Finalmente as pessoas recuperaram esse espírito filosófico, que tinha sido perdido. O prazer de pensar, substituto de tantos outros prazeres... O prazer de ler, a alegria do saber, a gaia ciência!
Bem, vou levar o computador para a FLIP, pretendo fazer um diário para os amigos que não puderam ir. Vou emprestar meus olhos e meus ouvidos. Então, a partir de amanhã, podem contar com as minhas impressões da FLIP, aqui neste mesmo bat-canal.
Vou contar para vocês, em primeira mão, como é a voz do Stoppard, qual a cor dos olhos do Pepetela, se a Roudinesco sabe combinar cores tão bem como idéias... E vou contar segredos entreouvidos pelas vielas e bares. E, se eu não surpreender ninguém, nem descobrir alguma coisa nova, inventarei tudo! Mas prometo que não deixarei vocês sem notícias, a não ser que os santos internéticos resolvam boicotar esta intrépida navegante dos teclados virtuais.
Bem, só para terminar, queria dizer que gostei de saber dessas coincidências com o Amauri -- Parabéns -- você nasceu no dia mais belo do ano!; contar que quase conheci o Ernane -- que estava com a Rachel no concerto do Eduardo Monteiro; agradecer aos comentários sempre gentis dos amigos, que me alimentam de idéias e de carinho.
Até amanhã, então, depois da festa de abertura da FLIP.

Sunday, June 29, 2008

São Pedro e pinguins...

Quem disse que os dois assuntos acima não combinam? A gente pode combiná-los, por exemplo, através do canto do galo -- uma ave, outra ave, e acaba-se por rezar uma Ave Maria, no dia de hoje, que é dia do santo. Ou a gente pode combiná-los, numa outra hipótese, pelas ocupações: São Pedro era pescador, os pinguins são pescadores, e aí a gente sai para uma volta de barco, na procissão lá na Urca, num barquinho de nome...Pinguim. Sou fã de São Pedro. Acho que gosto de todos esses santos que, em suas histórias, conseguem nos transmitir um pouco de sua humanidade. Me lembro de quando era pequenina, minha avó contando histórias da sogra de São Pedro. Um santo casado! Não é o máximo? O primeiro chefe da Igreja católica era casado, e aí resolveram transformar a vida dos padres num negócio meio anti-natural:
"Olha, daqui por diante, como você vai ser padre, tem de abdicar de uma das suas funções biológicas, viu? Escolha: deixar de respirar, deixar de comer, deixar de ..."
"Mas assim eu morro!"
"Bem, sua saída é deixar de transar."
"Acho que prefiro morrer!"
Bem, esse diálogo hipotético, pelos vistos, não acontece assim como eu o imagino. Afinal, ainda existem padres vivos por aí. Mas não era por isso que o santo me agradava: ele era meio covarde, meio teimoso, meio egoísta. Estava sempre objetando alguma coisa a Jesus: "Como, dividir o pão? A gente só tem cinco!" ou "Quem, eu? Mas se eu nunca vi esse maluco antes!" ou "Jogar a rede prá quê? Acabei de passar a noite inteira pescando e não bateu nenhum peixe!"
Pois foi esse mesmo que aprendeu a "transcender" -- deixou de lado esse lado humano pela força de uma idéia, de um amor. Jesus há de saber quantas noites sem dormir, quantos litros de suor frio custaram as resoluções posteriores de Pedro. Mas, homem de bom caráter, ele foi cumprir o seu dever. E por isso ganhou as chaves do céu: ele pode avaliar e perdoar gente como a gente. Um daqueles santinhos feitos com jejuns e êxtases nunca poderá avaliar as dificuldades de quem vive no mundo, tendo que alimentar uma sogra gulosa e exigente! Viva meu São Pedro! E perdão pela minha teosofia?teologia?teolalia?
Guido me mandou um vídeo de um pinguim "amigo da onça", derrubando um coleguinha. O Amir Klink contou uma história de pinguins, que contei para meu marido, e ele adorava: tinha a ver com liderança, motivação, e esperteza. Meu marido dizia que era o exemplo da diretoria executiva. Vou tentar resumir: Observando os pinguins na Antártica, num dia, quando havia muitos predadores nadando por perto, o Amir viu um grupo de pinguins que hesitava em se jogar na água. Olhavam, chegavam perto, voltavam, disfarçavam, e iam ficando. Mas, a fome foi apertando, e, de repente, do meio do grupo de pinguins, uns cinco ou seis começaram a correr em direção ao mar. Os outros se empolgaram e começaram a correr também, de repente, todos os pinguins desabalaram numa carreira e se atiraram no mar, com exceção dos primeiros cinco ou seis pinguins, que, ao chegar na borda, estacaram, esperaram os outros mergulhar, deixaram que os predadores se saciassem e aí então foram à pesca. Espertos, né?
Para finalizar, conto que hoje completaria mais um ano de casamento civil. É que, como casei muito cedo, precisava de licença dos pais para casar, e tive que oficializar o casamento antes da festa, marcada para 19/07. Era o último dia da licença, o dia era de sol, como o de hoje, e eu estava usando um chapéu de palha branco, me achando o máximo, num vestido comprado na Loja das Meias -- a loja mais chique de Lisboa na época. O sapato estava apertando, mas nas minhas fotos ninguém vê o desconforto: só o sorriso nos lábios, e uma ligeira sombra de medo pela responsabilidade, assumida tão cedo, bem lá no fundo dos olhos. O Gui estava sério, pálido, sempre muito mais responsável do que eu. Ainda bem que ele não parou na borda! Nadamos em mares revoltos, mas ele estava sempre junto comigo. Quanta saudade!

Friday, June 27, 2008

Dia de reza forte

Voltando aos meus santos, que estão se acotovelando lá nos céus, em busca de um espaço, não consigo pensar num céu sem escritores. Pensemos em algo assim como uma gigantesca Hollywood, e os escritores vão virando roteiristas para Deus, que, cansado de sua obra, resolveu fazer greve, ou sair de férias. Então pensem num seriado, em que todo o mundo vai metendo sua colher, e teremos nossas vidas aqui embaixo (porque em baixo? estamos soltos no espaço, afinal!) interrompidas, modificadas, sem coerência, pois as idéias vão se misturando, as tramas vão se esgarçando, personagens se mudam sem explicação, teorias se multiplicam, escândalos explodem... O cenário também começa a decair, os figurinos mudam, algumas coisas parecem ainda perdurar, mas, um exame mais atento, vai revelando suas contradições, suas falhas, os defeitos e os vícios dos roteiristas, nem todos assim tão talentosos. E a mistura, o jogo de vaidades e de personalidades, os estilos diferentes, tudo isso contribui para que não se consiga obter uma homogeneidade. Acho que falta edição! Já que estou alfinetando a criação, aproveito para ver se algum santo ou roteirista me ouve neste momento, e peço-lhe que me facilite a entrevista de visto americano. Lá vou eu ter que me explicar que quero ir para lá, mas que não quero ficar. E que não tenho intenção de modificar o american way of life. Mas que pretendo ir a muitos museus, a muitas livrarias, a teatros e parques de diversão. Que tenho vontade de voltar a Disney, para ver as novidades. Que talvez ainda me entusiasme a descer o Rio Colorado numa balsa, ou que resolva enfrentar os calores do deserto para ver um geiser, quase tão old e tão faithfull quanto eu. Ou canyons, mais profundamente rasgados que o meu coração. Que gostaria de visitar amigos que deixei por lá, e de quem me lembro com carinho. Convencê-los de que meu trabalho não depende da economia americana -- sei lá, talvez até dependa, tudo parece depender daquela borboleta que bate asas lá longe e nos desequilibra o mundo por aqui. Que não vou com intenção de fazer compras, mas que já sei que cairei na tentação e que comprarei tudo o que meu orçamento permitir... Que vou comprar maquiagens que não uso e cremes que me prometem conservar uma aparência que já não tenho. Que descobrirei mais um aparelhinho sem o qual não conseguirei viver nas duas semanas após sua compra, e que depois ficará esquecido numa gaveta, com baterias descarregadas, obsoleto. Que comerei sem reclamar as comidas da moda, sejam elas tailandesas ou africanas, desde que a companhia seja boa e gentil. Que, sozinha, substituirei o almoço por um balde de frappuccino, deliciada com essa maravilha que ainda não chegou até nós.
Bem, estou indo. Munida de papéis e recibos e extratos de banco, atestados de bons antecedentes, sorrisos inúteis, que resvalarão nos rostos treinados dos funcionários, e cairão por terra, agonizantes. Depois, à noite, vou ao teatro, ver a Noviça Rebelde. Será que quer dizer alguma coisa, essa coincidência?

Thursday, June 26, 2008

Dias santos, tantos santos...

Ontem à noite fui a uma palestra no Centro Loyola. Não sei se conhecem o local, ali perto do parque da Cidade, ao lado da Escola Parque, uma casa com um belo projeto arquitetônico, mas que não sei de quem é. Tem cara de ser ou do Niemeyer ou de um discípulo dele, com aquelas colunas meio arcos, que parecem uma ilustração de um salto. O Centro pertence a PUC, e antigamente só faziam cursos relativos a teologia, estudos bíblicos, sei lá. Agora querem fazer dali um verdadeiro centro cultural, com atividades de literatura, música etc. Ontem convidaram um poeta que também é músico, mestre e doutor em Letras, egresso de um curso de engenharia. Ele me falou de sua tese, um projeto tripartido sobre Tobias Barreto, de mais de mil páginas. A primeira parte era desenvolvida em forma de romance, onde se contava a experiência do doutorando que, na véspera de sua defesa de tese, vai tomar umas biritas num bar onde todas as pessoas que encontra sabem muito mais de Tobias Barreto que o próprio. Desconsolado, ou bêbado, o doutorando desmaia e acorda na segunda parte da tese, uma peça teatral de época, com personagens contemporâneos a Tobias Barreto. A terceira parte eu me esqueci como era, mas acho que se compunha de textos de pessoas que haviam contribuído para o interesse do doutorando no autor escolhido. O que me levou a conclusão de que devo estar no lugar errado. Acho que na UFF ninguém está se ficcionalizando na hora da tese, e eu vou perder a chance de fazer de mim mesma, uma personagem. Ou será que devo inaugurar uma tradição?
Eu, que tento me esconder como um bichinho assustado, que até hoje tenho ataque de ansiedade antes de aulas e seminários -- embora adore dar aulas-- que escamoteio nomes até em personagens, nunca faria isso. E, no entanto, conforme disse ao Guido, me acho bem corajosa. Corajosa porque conheço o medo e o enfrento. Corajosa porque o que tinha de mais precioso já perdi, mesmo, e agora o resto não importa. Mas, voltando ao título, enquanto esperava que a palestra começasse, fui inspecionar uma folhinha (ainda existem!) pregada na parede, que anunciava o santo de cada dia. Impressionante. Ontem era dia de São Adalberto, e de São Próspero, e ainda de mais um outro, cujo nome já me esqueci. Cada dia tinha uns dois ou três santos, abençoando-os, e clamando seus direitos. Nossa, com essa história de vida eterna, o outro mundo deve de estar mais apertado que lata de sardinha. Quando eu morrer, dificilmente vou encontrar as pessoas com quem gostaria de passar a eternidade. Conforme for, a gente nem vai conseguir encontrar um conterrâneo, ou mesmo um coetâneo. Até que era uma boa idéia, um romance assim na minha tese: vejam -- os autores de que trato estão todos mortos, e assim seria engraçado que eles se esbarrassem na eternidade. Numa eternidade sem religião, ócio puro, sem nem anjinho tocando alaúde, nem trombeta, nem harpa, ou seja lá o que anjos tocam. Mário de Andrade, ansioso por continuar suas pesquisas musicais, encontrando com Carpentier e Lezama Lima, começam a conversar sobre ritmo e ritmos, os vitais e os essenciais, os efêmeros e os eternos. Lezama se ateria ao ritmo da respiração, defenderia o canto, enquanto Carpentier discorreria sobre os tambores e o jazz, a subversão da linguagem musical devolvida ao mundo blasé e existencialista da Europa. Mário, um colecionador, estaria gravando as cantigas e tentando descrever o mato que pareceria sufocá-las com suas gavinhas. Sócrates assistiria a tudo, lamentando a falta de flautistas, que ele havia desprezado em vida. Numa rede, tranquilo e elegante, Callado assobiaria antigas canções de Carnaval, com saudades das lança-perfumes. Enquanto isso, uma doutoranda, esfalfada e provavelmente cheirando a refogado, se esforçaria em servir uma mesa com vários alimentos, servidos em louças que imitavam livros abertos. Pilhas de empadinhas, montanhas de ambrosia, rios de café, peixes e pães metafóricos se espalhariam pelas toalhas que estariam sendo bordadas por nativas americanas, nuas, de corpos pintados e mãos incessantes...
Vou propor à minha orientadora. Quem sabe?
Boa noite, então, aos meus leitores. Peço a São Guido e a Santa Eugênia, a Santa Lúcia e a Santo André, a São Próspero e a Santo Ariel, a São Pedro, São João e Santo Antônio, a São Judas Tadeu e a São Jorge, a São Marcelo e a Santa Marcelina, a Santo Agostinho (gosto dele: dai-me a castidade, mas não agora!) e a Santa Mônica, a São Guilherme, aos santos que conheço e aos que desconheço, que nos protejam a todos e que nos reservem um lugar na multidão da outra vida.

Wednesday, June 25, 2008

De mares e de mortes

Ontem morreu Dona Ruth Cardoso. Gostava dela, uma pessoa com brilho próprio que não se deixou ofuscar pelo brilho fácil e o sorriso constante do presidente seu marido. Morreu assim, como os que morrem do coração. Uma morte fácil, se é que a morte é fácil. Um interruptor, esse nosso coração. Apaga e é a escuridão, ou a luz.
O mar, acompanhando esses tempos de tristeza -- morreu um ex-professor meu, Carlos Tannus, de uma geração de professores de Latim que nos faziam gostar da língua (morta) -- tem se mostrado cinzento, escuro e bravio. Mas, quando a gente se aproxima dele, vê sua franja alegre, verde, límpida, brincando de embolar com a espuma muito branca -- uma espécie de consolo.
Enquanto isso, ponho em dia os trabalhos. Estou em vésperas de viagem, preciso adiantar tudo para não ter que andar por aí carregando meu computador. Vou para a FLIP, já estou quase lá.
Desta vez tenho ingresso para a Tenda dos Autores (consegui, depois de ficar horas na fila do telefone), vou assistir a um extraordinário dramaturgo -- Tom Stoppard, que eu conheço desde os tempos de Rozencrantz e Guilderstein. Vou assistir a Roudinesco. E vou mediar a palestra dos vencedores do prêmio SESC deste ano. Estou tão contente! Terminei minha resenha para o Rascunho, só preciso de fazer mais três trabalhos, sendo que um é para terça-feira que vem. Mas vai dar, vou conseguir. E o livro vai saindo, devagar, mas caprichadinho. Em agosto fica pronto, em setembro faço a festa de lançamento. Ótimo!
Mas há mais um motivo de tristeza: um casamento que se desfaz, corações partidos, sonhos que se transformam em pesadelos... Não digo quem, mas sofro pelos dois, que sofrem as dores do mundo. O negócio é apelar para o Deus Janus, e, ao mesmo tempo que vemos o fim, encarar um possível recomeço. Agora me lembrei da Ellis, cantando Caça à raposa, quem lembra? Ah, recomeçar, recomeçar, como paixões e epidemias... Nossa, como eu adorava essa música! Nunca mais escutei. Nem vou escutar, pois não tenho o CD, que pena. E estou cada vez menos musical. Ainda vou aos meus concertos, tento estudar o piano, que está perdendo seu sorriso, por falta de prática, mas quase já não escuto CD's. Nem vejo DVD's, tudo por absoluta falta de tempo.
Guido, em resposta ao seu comentário, acho que sou muito aventureira, mesmo. Não tenho grandes rasgos de coragem, mas sou corajosa, principalmente porque sou orgulhosa e odeio me dar por vencida. Posso escolher não ir, mas, quando vou, vou com tudo.
Para terminar numa nota musical, queria dar de presente um CD bem dançante. Alguém tem alguma sugestão? Dançante mesmo, daqueles que fazem todo o mundo ir para a pista, tipo YMCA e It's Rainning Man. I will survive. É, termino com essa. I will survive.

Tuesday, June 17, 2008

Ondas

Saio de casa, vejo amigos, escuto coisas seriíssimas, mas olho o mar e esqueço os problemas. Em São Conrado o mar estava agitado, cheio de ondas, um grande friso de espuma por toda a praia, e aquela coisa linda que algumas ondas sabem fazer, de soltar um véu de gotículas, como uma cabeleira. Me pergunto o que é que as pessoas veem (ai, meus acentos!) nas ondas. Muitas pessoas falam em carneirinhos, mas essas são as ondinhas pequenas, espalhadas por toda a superfície do mar, um rebanho inquieto e apressado.
Os gregos viam cavalos nas ondas. Daí que Posídon, o Netuno romano, tivesse tentado subornar a cidade de Atenas oferecendo o cavalo a seus habitantes. A história é linda: Fundada a cidade, os deuses Palas Atena e Posídon, encantados pela beleza da mesma, disputavam para serem os padroeiros. Posídon ofereceu o cavalo, como presente, e Atena ofereceu a oliveira. Ganhou Atena que, sábia, conquistou os habitantes pela boca. Talvez por isso azeitonas e azeite pareçam ter um sabor especial quando degustados nalguma viela da Plaka.
Já vi quadros em que as ondas se transformam nos cavalos de Posídon, outros em que elas se metamorfoseiam em mulheres. Assisti um programa na TV sobre um pintor japonês que pintou uma onda perfeita, onda essa que ele passou o resto da vida repintando, e que virou paradigma de outras pinturas de outros artistas. No programa, eles identificaram o tipo de onda e quando ela ocorria. Esperaram, então, que ela acontecesse e filmaram a onda real e sobrepuseram sua imagem sobre a da pintura.
Imagino como seria a tsunami: sua velocidade, sua altura, sua cor. O dia devia de estar bonito, as praias estavam cheias. De repente, a água que brincava, morninha, aos pés das pessoas, refluiu, desertou a praia, e como ela voltou? Sombria? Uma parede de água, alta e veloz? Ou veio na forma de torrente, espumosa, imperfeita, maculada de areia e detritos? Como seria a face desta morte? Nas imagens da TV, a gente não via a onda, mas o seu efeito. Quem conseguiu filmá-la estava longe da praia, em hoteis, em restaurantes, mostrava não uma onda, mas uma espécie de lamaçal, uma enchente que não diferia muito das imagens de alagamentos e enxurradas a que estamos, infelizmente, habituados no Brasil.
Lembro de filmes, catastróficos: The Perfect Storm é um deles. Aquelas ondas enormes e o barquinho pequenino subindo e descendo até não conseguir mais resistir. Já enfrentei ondas raivosas, perto de Cabo Frio. Sei como o barco acelera na descida da onda, como parece faltar água ao redor dos hélices, que não conseguem impulsionar o barco, sei do ruído que encobre as batidas de nosso coração acelerado, e da sensação de alívio quando se consegue entrar num local abrigado.
Mas também conheço as ondas que nos embalam durante as noites passadas em baías tranquilas. Essas merecem ser conhecidas por todos. São maternais, protetoras, e nos levam a um sono profundo e repousante. De manhãzinha elas cessam, sua maneira de nos acordar. A imobilidade e o silêncio servindo como despertadores...

Sunday, June 15, 2008

A diarista do mago

Não percam! Grande lançamento! Em Histórias possíveis , iniciativa do mano Dré que já vai em sua vigésima primeira semana, mais um continho brincalhão que publico. Todo sábado vem uma nova safra de histórias, e o pessoal está arrasando. Eu tenho me divertido com essa válvula de escape para o choque de seriedade acadêmica em que me meti. Se gostarem, indiquem para os amigos! Eu até tenho feito amigos, por lá! Agora tenho mais um amigo em Goiania, o Leandro, que também publica no site. Coisa engraçada, essas palavras que a gente vai trocando na tela e que vão se solidificando em pessoas que a gente nunca viu e sempre amou...
Volto mais tarde, depois de uma festa junina...

Saturday, June 14, 2008

Velas brancas

Não, nada de plural. Apenas uma vela branca, fincada no meio do mar, imóvel. Aquele desenho branco, precariamente surpreendido numa implausível imobilidade me obrigou a interromper meu dia e olhar. De repente, o mundo recomeçou a se mover. Perdeu a nitidez. A vela se afastou, escondeu-se atrás dos prédios. Uma névoa desfez os contornos Na ilha, para me consolar, uma onda me pisca, brincalhona. Mas eu digo adeus. Volto às palavras, deixando as coisas...

Friday, June 13, 2008

Terceira margem

Hoje fui assistir à defesa de tese do Guilherme Zarvos. Não fiquei até o final, mas fiquei o bastante para me impressionar com a coragem de alguém que propõe sua vida como tese. As duas primeiras professoras se recusaram a "arguir" (e o trema? como escrever certas palavras sem trema?) a tese. Claro, como é que se põe em julgamento a vida de alguém, sua família, seus amigos, seus sonhos, seu sexo? A academia quer discutir idéias, se encabula de falar de afetos, de falhas concretas. Falam, até bastante, de erotização -- e talvez seja culpa de Freud, que descobriu o corpo erótico dos seres humanos e com isso tornou-o objeto de discurso. Mas o discurso agora já não aparece mais num fluxo: ele é entrecortado, recortado, fragmentado. Há tanto tempo que isso vem ocorrendo, e eu ainda nem tinha reparado nisso. Ou melhor, tinha reparado, sim. Mas agora tenho uma outra postura diante desses recortes. Agudamente consciente da ausência, agora dou valor a essa negação, única possibilidade de chegar aonde desejo estar -- no outro lado, no lado de lá do lado de lá. Minha terceira margem.

Santos Juninos e de todos os dias

Adoro as festas juninas. Desde pequena que acho um grande encantamento nestas festas de muitas musiquinhas, de encenações que aceleram os corações infantis, com um arraial inteiro embandeirado, com pescaria, capelinha, cadeia, fogueira e fogos de artifício. Acende a fogueira, iaiá!
Lembro-me de umas noites mais frias do que agora, de corre-corre para escapar da cadeia, de churrasquinho coberto de farinha, que grudava nas boquinhas pintadas de batom vermelho vivo, boquinhas que pareciam sangrar nas noites embaladas por sanfonas. Lembro-me da atrapalhação das quadrilhas, quando os dançarinos se atropelavam ora fugindo da chuva, ora passando pelo túnel formado pelas mãos dos casais. Ah, também tinha a hora do casamento: a noiva feia, o noivo relutante, o padre pândego, o delegado, o pai da noiva -- eu vivia a commedia dell'arte sem o saber!
As bandeirinhas se agitando no ventinho que levantava fagulhas de uma fogueira sempre fora de proporções; as lanternas e os balões que levavam os pedidos para São João, Santo Antônio e São Pedro. Havia as simpatias e as adivinhações, com a clara de ovo formando desenhos de navios ou de igrejas, com papeizinhos se desdobrando e revelando o nome dos futuros maridos, meio apagados pela umidade e incerteza.
O cheiro das batatas doce assando, o gosto do milho se desdobrando em bolos, canjicas e curaus, era de se admirar que São João não acordasse atraído pelas delícias. E as músicas continuavam, ensinando meu primeiro triângulo amoroso: Com a filha de João, Antônio ia se casar, mas Pedro fugiu com a noiva, na hora de ir para o altar. Tempos depois, na emoção teatral de Bodas de Sangue, do Lorca, era esse o fundo musical que eu imaginava durante a leitura de versos ardentes que diziam que a culpa era da terra e "do cheiro que desprendem teus peitos e tuas tranças" -- e o meu peito arfava, enquanto eu desfazia as tranças de meus cabelos quase tão longos quanto os de Rapunzel...
Sentei-me aqui no computador um pouco antes da meia noite, ainda lembrando os festejos do dia 12, comemorando, com a prova de meu livro no colo, as lembranças do amor passado. Agora já é hora de saudar santo Antônio, que ganhou fama de ser casamenteiro, mas que também é santo afeiçoado a uma batalha. Me lembro de uma charge do Ziraldo, antiga, antiga -- Um sujeito que vai caindo num abismo e grita: Valha-me Santo Antônio! Nisto uma enorme mão o segura e uma voz pergunta: De Lisboa ou de Pádua?... Grande dilema! Eu peço a bênção aos dois, e aos que mais existirem, ao Santo Antônio das brincadeiras infantis, dos festejos ingênuos, das saudades imensas dos trajes caipiras, dos olhos lacrimejantes de fumaça e de sono, do sorriso que persiste infantil num rosto marcado pela tristeza...

Saturday, June 07, 2008

Às vezes eu acerto...

Hoje fui ler os comentários de meus amigos, e agradeço. Suspeito que a sereia, por falar francês, seja Eugênia. Acertei? E, no entanto, a figura é cara à Nina, que não escreveria...Outro dia volto às sereias, seres que me fascinam por híbridos. Gosto de compará-las com o Minotauro... O homem híbrido, que é único, mas incapaz de pensar, versus a mulher híbrida, múltipla, pensante e, talvez por isso mesmo, escorregadia. Belas e atemorizantes, soltas nas ondas, versus terrível e atemorizante, preso no centro mesmo do labirinto do eu.... Todos esses seres mitológicos, quando com cabeça humana, portanto dotados de pensamento, recebem também alguma marca da liberdade -- sejam asas, ou um corpo veloz de cavalo, ou patas de bode que lhes permitam galgar as mais altas montanhas... Realmente, o pensamento e a imaginação nos levam longe... Tão longe como estou agora de meu desejo de ruminar a indiferença olímpica do Obama. Híbrido também, meio americano meio africano, meio ocidental meio oriental, como ele seria representado pelos homens mais perspicazes do passado? Que traços o representariam? Sua indiferença olímpica, própria dos deuses que jamais se importaram com os humanos, cientes de que eles nada poderiam fazer já que o destino humano não lhes pertencia, será motivada pela consciência de se saber um títere? O perfeito boneco, bem articulado, para agradar aos interesses de um Destino cujo nome verdadeiro desconhecemos? Isso num ano de Olimpíadas, de jogos, de disputas, de ânsias e medos...
Deixo o resto para vocês ruminarem. Volto aos meus pensadores, mas antes lembro aqui o nome de um livro: O voo (saudades do acento) da Guará Vermelha, falando de como a leitura liberta. Conheci a autora na Bienal do Livro, em 2007. Freira, trabalhando com pessoas destituídas no interior do Brasil sob a capa da clandestinidade, pois Maria Valéria Resende era perseguida política, ela se dedicou a alfabetizar pessoas e, segundo elas, libertá-las. Esta seria a verdadeira teologia da libertação, pelo que eu entendi. Gostei tanto das palavras dela, e, no entanto, não consegui ainda ler seu livro. Mas hei de lê-lo. Acho que o mano Dré já leu, e gostou. Eu gosto da imagem e das palavras da autora...
E agora, depois de uma última e furtiva olhadinha para o mar, pintadinho de ondas travessas, vou a Benjamin.

Friday, June 06, 2008

Seis e meia dúzia

O que diferencia o seis da meia dúzia? Nada, dirão os mais práticos ou os menos detalhistas. Tudo, digo eu -- toda uma indagação filosófica pode ser levantada de uma coisa básica assim. De um lado o indivíduo, do outro o social; de um lado o absoluto, do outro o relativo, de um lado Portugal, do outro Brasil.... De um lado a solidão, do outro o grupo; de um lado o dia, do outro o mês, e é assim que revelo as voltas que o pensamento dá.
Resolvo escrever para guardar aqui, e talvez ruminar depois, uma inquietação que plantaram em mim, via TV. Falando do Obama, e aqui aproveito para fazer uma digressão: que diferença faz uma letra! -- o repórter dizia que ele não demonstrava emoção com as grandes vitórias que vinha conseguindo. Um homem que não se emociona será um homem? -- pergunto eu. E o repórter continuava: ninguém sabe o que pode esperar com ele. Um candidato sem programa pode ser levado a sério? -- pergunto eu. Mas porque eu deveria me preocupar com as eleições americanas? Na verdade, não ligo muito, apesar de saber que o que acontece por lá nos afeta aqui. Mas me interessei por algumas razões, e aqui vai uma delas: minha xará me disse que não sabia por que, mas estava torcendo pelo Obama. Outra: essa indiferença olímpica que ele demonstra. Mais uma: o relançamento de O presidente negro, de Monteiro Lobato, livro em que ele fala da disputa entre um negro e uma branca para a presidência dos EUA.
Como disse, deixo aqui as inquietações para ruminar depois. Agora vou voltar para Bauman, para Benjamin, para a difícil tarefa de compreender o presente sem esquecer o passado.

Monday, June 02, 2008

vida líquida

Contas para pagar, textos para ler, trabalhos... E, no entanto, o mar lá fora me chama para me dar lições de azul. Como não parar e refletir um pouco sobre essa beleza que se oferece a quem para ela tiver olhos? Olho para o azul e descubro tons desconhecidos, que se improvisam no momento mesmo em que olho. Aprendo.
Ontem o mar parecia congelado, uma faixa de gelo próxima ao horizonte, imobilizando ilhas e barcos. Hoje ele amanheceu líquido (e certo). Um navio se equilibra na linha do horizonte e as ilhas se aproximam, curiosas, arrastando suas mantas verdes para secar ao sol.
Meus olhos dançam nas águas enganadoramente calmas. Sei, marinheira que julgo ser, que as diferenças das cores se traduzem em correntezas. Desejo me deixar levar por uma dessas e é isso mesmo que faço, abandonando tarefas e me deixando arrastar pelos pensamentos, ora mergulhando nas ondas, ora embarcando nos navios. Convido. Querem vir comigo? Levantem os olhos, vejam o que está a seu redor. Tudo é tão fugaz. Agora mesmo acaba.
O navio que passava desapareceu de vista. Outro chegou. Mais longínquo, e, no entanto, no mesmo horizonte, agora também distanciado. Este também se vai, mas um outro volta, sustentando meus sonhos.
Boa semana para todos. O azul os acompanhe.

Sunday, June 01, 2008

Junho chegou!

Dia um de junho, dia primeiro de junho, dia inicial do sexto mês do ano. Já estamos quase na metade de 2008 e eu me espanto não com a rapidez do tempo, coisa de que todos estamos cientes, mas da indefinição desses dias já passados, que se misturam na minha lembrança sem nitidez. Já não sei se foi ontem ou mês passado que fiz isso ou aquilo, já não tenho certeza se disse ou se apenas tive a intenção de dizer, já não lembro se faltei ou não ao compromisso. Não se trata de doença, trata-se de indiferença, mesmo. Mais um dia, menos um na corrida do tempo, e assim eles se perdem na mistura de livros e palavras caladas para sempre.
Ontem estive conversando com uma amiga que falava de seus netos, descobrindo o amor: Ela sorria, deslumbrada: Como eles se apaixonam, como sofrem e se emocionam! admirava-se. Eu sorri, também, pensando que chega uma idade em que a gente já não é mais capaz de se apaixonar. Ou será que estou errada? Drummond tem aquele poema em que diz algo como "Na curva dos cinqüenta derrapei neste amor..." Fui conferir no google e vejo que me engano: várias são as confissões de quem, aos cinqüenta, cinquenta e poucos, sessenta, se descobrem amando de novo -- geralmente homens, geralmente apaixonados por alguém na inconseqüente curva dos vinte e poucos. Mas eu me pergunto, desapaixonadamente: será o mesmo clarão? Será a mesma sensação que avassala, nos toma de assalto, retira todas as reservas? Acho difícil, depois que nos ferimos, que adquirimos experiências e passamos por dores e desamores a entrega sem cautela, o mergulho no abismo. E todos os temores que nos assaltam, todos os receios -- como entregar esse corpo já cansado, do qual conhecemos os limites e as falhas, ao olhar e cuidado de pessoas que nunca chegaremos a conhecer bem? Por que aos cinqüenta a gente descobre que nunca se chega a conhecer o outro inteiramente, que passamos uma vida ao lado de desconhecidos íntimos.
Nem sei como embarquei nestas reflexões, talvez porque tenha passado a tarde escutando as angústias de uma jovem que não quer sair pensando se vai ou não beijar a boca de alguém. Sinceramente, nem sei -- e não tive coragem de perguntar -- se esse beijo era eufemismo ou não. Mas me admiro de pensar em pessoas que saem, não se perguntando se vão conhecer alguém interessante, mas em busca de um prazer imediato e perigoso, nestes tempos que não são do cólera, mas de outras pestes. Junto tudo com os dois dedos de filosofia que estou batalhando para aprender, e me ancoro em Baumann, no seu "amor líquido" -- imediatista, egocêntrico, de onde foi banida qualquer possibilidade de compromisso. Descubro, impressionada, que estou antenada com esses tempos pós-modernos, ou líquidos, ou até mais etéreos, tempos em que tudo se desmancha no ar, como fumaça, até a comida que comemos.
Meus dias se desfazem na indefinição de minhas memórias. Não guardo lembranças, pois não quero tê-las mais. Vivo assim, gota a gota, e, mais adiante ainda que esta geração, nem procuro o prazer, que sei fugaz. Só desejo o atordoamento, o vórtice.