Sunday, March 02, 2008

Sozinha, numa ilha...

Passei estes últimos dias ilhada. Consegui descobrir um hotel onde nenhum telefone celular funcionava, a conexão de internet caía antes que alguma página se abrisse, até o telefone do meu apartamento se recusava a falar.
Foi bom? Não achei não. Eu me angustiava, sem saber o que estava acontecendo com o mundo lá fora. Pois o mundo, descobri nestes últimos dias, o mundo não é aquele que nos chega pelas notícias de jornais, que não nos têm como destinatários: essas notícias se entregam a qualquer um, notícias fáceis, indiferentes, esquecidas no dia seguinte. O mundo que nos faz falta é aquele da criança doente, da amiga festeira, do amigo que espera nossa opinião, da amiga que providenciava um ingresso para um concerto muito desejado, é aquele mundinho que não aparece nos jornais, mas que nos alimenta de novidades, que nos faz sentir queridos, que nos conta alegrias e tristezas que serão só nossas, ou de poucas pessoas mais.
Nossos corações e mentes precisam de seus ecos, de seus compassos, e vamos alimentando e sendo alimentados e assim sobrevivemos.
É verdade que consegui manter a vida e o juízo nestes dias de "desterro", mas agora estou muito mais feliz, de volta ao blog, lendo as coisas deliciosas que escreveram só para mim, ou para umas poucas pessoas que compartilham algum gosto comigo.
Obrigada a todos que me mandaram seus textos deliciosos, seja pelo humor, seja pela reflexão ou pela sinceridade. Obrigada a todos que quiseram me ver, me rever, escutar minha voz e nem entenderam essa mudez, preocupando-se com meu sumiço. Desculpas a todos os que me procuraram, contando com um afago, um gesto de compreensão e se surpreenderam com minha aparente indiferença. Agora estou de volta, mando meu coração a todos, confesso publicamente minhas saudades e espero que isso não se repita mais.
Na minha caixa de mensagem, o pedido de um amigo querido e talentoso -- ir conhecer o blog que ele edita. Fui e adorei. Lindo, bem paginado, gostoso de ler e mais ainda de ver. Aqui vai a informação, para que todos possam compartilhar:
http://ardotempo.blogs.sapo.pt/
Até breve.

Wednesday, February 20, 2008

Quase nada...

A gente precisa de muito pouco para se sentir feliz. Quase nada. Um aceno, um sorriso, uma lembrança. Saber que um amigo está quase publicando mais um romance, ou seu primeiro livro. Receber uma foto ou descobrir um álbum de fotos esquecido numa prateleira da estante. Dividir um bolo de aniversário com pessoas queridas.
A gente precisa lembrar de que tem que se sentir feliz. Pois um quase nada nos desanima: uma mensagem tristonha, a percepção de uma zanga, orgulho e preconceito... Quando as palavras e as pessoas me ferem, me coloco neste cantinho e contemplo o mar. Seu azul me redime. Sua cólera me resgata. Seu cinza me amortece. Sua limpidez me lava. Quando as memórias me entristecem, sinto o mar crescendo dentro de mim, suas águas transbordando em lágrimas que não consigo conter.
Aí lembro de algo que li: "para escrever é preciso sonhar peixes", e fico procurando os peixes em meu mar -- aquele que vejo e aquele que me habita.
Recrio peixes inábeis, que se escondem entre palavras salgadas. Pouco a pouco eles se organizam em cardumes e passeiam suas cores sem medo das aves que mergulham para buscá-los.
Um quase nada... e eu já estou sorrindo outra vez.

Monday, February 18, 2008

Iemanjá, a festa.

Fui a um candomblé no sábado. Um candomblé sui generis, comandado por uma francesa de mais de oitenta anos, socióloga, que veio ao Brasil acompanhando o marido, que era diplomata. Aqui ela se interessou pela religião de raízes africanas e acabou se convertendo. Quando o marido retornou a França, ela voltou com ele, mas não se adaptou mais e voltou para cá. Tem um sítio lá em Caxias, e montou seu centro, muito bem montado, por lá -- templo e casa, ela vive na companhia dos seus santos.
Quando cheguei, já havia por lá uma considerável multidão. Muitos carros, foi difícil até encontrar um lugar para parar. Fazia calor, e com tanta gente reunida, com roupas tão exóticas, só de olhá-los parecia que o calor aumentava, mas me concentrei nas bandeirinhas multicoloridas que se agitavam com o sopro dos ventiladores: parecia um mar sobre nossa cabeça, um mar iridescente, ondulante, festivo. As flores que enfeitavam as pilastras nem pareciam sofrer com o calor, e se mostravam orgulhosas em meio aos laços de fitas que as prendiam.

As pessoas convidadas, em suas roupas claras, aguardavam pacientes pelo cortejo, que após alguma demora veio com seus belos e calorentos trajes. Mulheres com turbantes e saias rodadas, panos amarrados, colares. Homens com seus costumes coloridos, seus chapéus bordados, suas túnicas de mangas longas. Os tambores acompanhavam os cânticos que saudavam os Orixás. Foram muitos os cantos, muita gente dançando em roda, com trejeitos ensaiados, ou predeterminados. Aqui e ali eu reconhecia um nome de Orixá. Ogum, Iemanjá, Obá, Oxóssi, Oxum, Xangô. Dançaram, dançaram, cantaram, cantaram até que, num determinado momento os santos começaram a baixar. Uma Iemanjá, três Ogum, um Xangô, três (ou quatro, se considerarmos um que só andava curvado, como se fosse um velhinho, ou uma velhinha) Oxalá, uma Obá, um outro santo que depois sumiu, que cantava como um pássaro...Foram vários. Houve, então, um intervalo nos cantos e danças e os Santos se retiraram, para se vestir com suas vestes específicas. Iemanjá, incorporada na velhinha francesa, veio muito elegante -- afinal, a festa era dela -- e dançou primeiro. Depois houve um cortejo, e uma ajudante de Iemanjá trouxe uma bilha de água equilibrada na cabeça, e essa água foi distribuída aos presentes, em copinhos plásticos. Finalmente ela se sentou, na companhia de outros santos que não reconheço, e ficou recebendo as homenagens dos visitantes e dos outros Orixás, que dançaram suas danças próprias. Após a dança eles eram levados por auxiliares para fora de cena, talvez para suas casinhas próprias, ao redor do pátio. O povo soltava algumas saudações. Sei que depois de tudo haveria um jantar, mas voltamos antes de a comida ser servida. O cheiro estava apetitoso, mas o caminho de volta era longo, e achamos melhor dispensar a comida e voltarmos em caravana com outro carro, de pessoas conhecidas.
Entendi pouco da cerimônia, mas adorei ter ido lá. Fico imaginando o que esta senhora francesa, formada em sociologia, descobriu no candomblé que a tornou uma devota. Logo uma francesa, uma compatriota de Descartes, representante de um povo tão racionalista... Ah, os mistérios da fé. Que encanto! E que linda festa, em sua sinceridade, em sua singeleza. Será que as pessoas entendem o que estão cantando? Será que percebem que os gestos que fazem são estilizações de atividades próprias de cada um dos orixás? Um caça, outro pesca, outro sega as colheitas...Isso são coisas que li, há muito tempo, quando visitei Salvador pela primeira vez. Agora que estou aqui escrevendo, estou pensando nos livros do Mia Couto. Em especial, no chamado O último vôo do flamingo.A Obá, toda vestida de cor de rosa, que estremecia como uma ave assustada, me faz evocar esse flamingo. A moça era linda, uma jovem negra de rosto redondo e olhos amendoados, que se mantinham fechados. Ela parecia uma Mia Farrow, esguia, delicada, traços finos, tão profundamente negra que seu corpo parecia absorver a luz que chegava até ela.
Lembro da entrevista em que o Mia Couto falou que manteve, no escritório, enquanto escrevia o livro em questão, uma pena de flamingo que havia encontrado. E espero manter em minha lembrança essa dança e essas imagens até que um dia elas passem a pertencer a alguma história que eu conte. Seja o tom de pele dessa moça, seja o gemido contínuo que a francesa deixava escapar em seu transe, seja o gosto estranho da água que foi compartilhada e a gentileza extremada das pessoas que nos indicaram por onde passar, sei que, em algum conto meu, mais cedo ou mais tarde, esses detalhes vão compor algum personagem, alguma cena. Talvez quando entender melhor o que presenciei, eu seja capaz de contar essa história. Até lá, guardo aqui no blog esses detalhes, aguardando o vôo, que guiará o sol... ou o sonho.

Véspera de aniversário

Mais um ano, e eu comemoro na curva descendente: não acumulo, agora me alegro por ser menos um ano a cumprir o exílio a que fui condenada. E não há nem um pingo de amargor nisso. Os que convivem comigo sabem que estou bem.
E eu tenho muito a comemorar. Comemoro com o Dudu (Eduardo Couto) pois ele está cumprindo a promessa que fez ao pai, da qual eu sou testemunha -- ele vai para as Olimpíadas, e meu coração se alegra por ele. Ele batalhou incansavelmente todos esses anos. Eu torci por ele, de longe, mas com um carinho enorme.Vai, Dudu! a medalha é sua!
Comemoro porque este ano sai mais um livro meu, filho da dor, mas qual filho não nasce da dor? E todos prometem alegrias, e todos nos dão felicidade, mesmo que pouca.
Comemoro porque, embora não seja muito boa na arte de cultivar meus amigos (detesto telefonar, esqueço datas importantes, meto os pés pelas mãos pela minha timidez e insegurança) eles e elas continuam meus amigos, sorriem quando me vêem, até se dispõem a encontrar comigo em reuniões, ou fazem reuniões para se encontrar comigo.
Comemoro porque meus filhos estão bem, são pessoas boas e carinhosas, e carregam orgulhosamente os genes que herdaram do pai.
Comemoro porque tenho um "quarto só meu", o que, segundo Virginia Woolf é requisito indispensável para a gente crescer e florescer. Sei que já não cresço e que as flores que ainda produzo são modestas, afeiçoadas à sombra. Mas me alegram muito essas flores cotidianas, que se espalham nas aulas que dou, nas conversas que tenho, neste blog e nas impossíveis histórias que escrevo.
Bem, comemoro porque ainda me resta um pouco de desconfiômetro para não insistir neste post meloso e sentimental, que se escreveu à minha revelia, pois minha intenção era falar de uma festa de Iemanjá. Acho que talvez valha a pena guardar para uma próxima vez. Prometo que conto.

Wednesday, February 13, 2008

A falta que ela nos faz...

Mano André, amiga Adriana, e agora eu -- eles reclamaram e eu assino embaixo. As editoras não promovem nossos livrinhos: sniff, sniff.
Livro não é mercadoria, gente não é mercadoria, mas vivemos num mundo de valores trocados e truncados e parece que a gente só sabe se relacionar através do "Mercado". Já há muitos anos falava-se de "capital social", "capital intelectual", coisas assim. O mestre Graciliano escreveu uma obra-prima, um dos maiores livros de nossa literatura, revelando a "reificação" do homem. Na época a palavra era nova, o conceito também. Hoje em dia banalizou tanto, que é capaz das pessoas lerem São Bernardo e nem se comoverem. Fico imaginando um curta metragem em que um motorista, engarrafado num dos enormes congestionamentos de São Paulo, se ponha a ler o conto de Cortázar (Autopista del sur), e, num delírio, comece a agir como os personagens do conto. Em nosso very big brother, com as câmeras de vigilância em cada esquina e estacionamento, estamos vendo,-- se quisermos ver, pois a maioria tem olhos de não ver,-- uma sociedade que só vale enquanto espetáculo. O espetáculo que é vendido como vida real, como modelo, como ideal de comportamento. Mas que não vale nada, que é tão ilusório quanto um holograma. Aliás, existe uma teoria filosófica de que somos todos hologramas, que a vida se desenvolve em outro lugar do universo e o que experimentamos aqui não passa de ilusão, holografia capaz de se reproduzir. Acho que nós, escritores, nos debatemos para termos um lugar nessa projeção. Convenhamos, nada mais chato que assistir a um escritor vivendo: nossas imagens de vida se repetem -- escrevemos, escrevemos a lápis ou em computador, de pé ou sentados, com canetas ou máquinas antiquadas, com laptops ou bloquinhos de notas. Quando não estamos escrevendo, estamos lendo. Sentados, deitados, na praia... Um ou outro se enclausura num canto claustrofóbico e se deixa ficar anos a fio, escrevendo e lendo. Criamos mundos tão ilusórios quanto os hologramas que talvez sejamos. Mas nossa construção fala diretamente a algo que ainda possuímos: nosso cérebro, máquina de pensar. Não pretendemos iludir, mas des-iludir. Oferecemos a verdade que surpreendemos nas coisas, desvelamos, desmascaramos. Mesmo quando nossa obra é um castelo de cartas, ele se sustenta na lógica e os leitores podem decodificar essas construções, corrigi-las, melhorá-las. Mas esse processo não dá para ser revelado em imagem.
Ia falar de uma coisa e acabei falando em outra: mas, conserto, com um remendo. Nesse mundo "reificado", viramos mercadoria. E mercadorias existem para serem trocadas por dinheiro. Um bom livro é uma mercadoria que se comporta de uma maneira muito peculiar: a gente compra, lê e não joga fora. Empresta aos amigos, dá para um primo, recomenda para um colega. Um bom livro dura para sempre. E os deuses do mercado não sabem como lidar com um objeto que escapa às suas leis. Daí que os mercadores prefiram promover esse sub-lixo escrito nas oficinas de escrita criativa... Aliás, alguém conhece o software de roteiro que as grandes produtoras de filme de Hollywood têm? Incrível. Você vai alimentando, tipo: quantos personagens, tipo de conflito, quantas cenas de sexo, quantas de violência, e o roteiro vai saindo pronto do outro lado, e por isso a gente tem a sensação de que muitos filmes de Hollywood são iguais.
Bem, já falei demais e estou outra vez saindo do assunto.
Mais uma vez conserto, com outro remendo: leiam lá no blog do André e no da Adriana Lisboa as considerações sobre este assunto. E vejam se não é para concordar com o André, quando ele reclama: gastem cem mil dólares (ou seriam reais?) promovendo meu livro e vejam se ele não vira o primeiro da lista de mais vendidos!
Queremos entrar para o grupo dos Cem, e não ficar no grupo dos sem.
Ah, só para esclarecer: quem está nos fazendo falta é a propaganda mesmo, já que ninguém está nem aí para a literatura.

Sunday, February 10, 2008

Domingo de chuva...

Não, não começou com chuva, até deu praia, mas eu não pude ir. Agora contemplo a súbita tempestade, que coroa os morros com seus raios e curva as árvores por onde vai passando. Lembro do que disseram nesse Carnaval: "A Mangueira enverga mas não quebra." Olho para as árvores, olho para o mar, olho para o céu dividido: um lado tão escuro, outro se mantendo sereno e indiferente. Minha vida enverga, mas não quebra. Perco meus galhos, minhas flores e frutos, tudo levado por ventos mais ou menos fortes. Ao contrário das raízes da árvore apadrinhada pelo Rubem Fonseca (leiam o livro, leiam, que é muito bom), as minhas estão solidamente fincadas no chão. Como foi isso? Cuidados do meu jardineiro, que se foi, agora que a árvore já não é mais tenra e frágil? Acaso? Ou alguma literatura que se encarregou, compadecida, de me fornecer água e nutrientes? E por falar em literatura, quem se lembra de um romance chamado Vento Forte? Acho que era do Astúrias. Como eu adorei esse romance. Depois fui relê-lo, e já não encontrei o mesmo encanto. Mas, quando me lembro do romance, é com a emoção da primeira leitura que a lembrança vem, forte como o vento, com cheiro de chuva, inquietante.
Tenho algumas leituras urgentes para fazer, embora minha vontade fosse ficar aqui de papo. Mas não dá. Vou, então. Antes quero dar um abraço no Leandro -- o da Geovanna, lá no Histórias Possíveis. Ele me deixou um recado muito simpático, que eu agradeço de todo o coração. Achei engraçado que nossas histórias combinaram embora a gente nem soubesse nada um do outro. Recebi recados da Rô e do Henrique, também, no e-mail. Obrigada. Foi bom vocês mandarem as mensagens, pois eu estava muito insegura com esse meu conto meio canalha. E quero corrigir o que disse: meus parceiros não estão bem legais -- estão ótimos, instigantes, com textos vivos e variados. Parabéns ao mano André, nosso "editor".
PS -- verde de inveja: Tenho uma amiga, a quem muito admiro, que circula pelas altas esferas municipais e administrativas, que teve como chefe o Rubem Fonseca. E um outro amigo, do mesmo grupo, que além de ter sido colega de trabalho do RF ainda aparece nas páginas de A grande arte. O que eles não sabem é que eu também sou personagem do RF. Ou ninguém ainda lembrou de Lúcia MacCartney?... A história não é minha, mas o nome é. Ou foi, quando eu era beatlemaníaca.

Saturday, February 09, 2008

Sábado de sol

Finalmente um sábado de sol! Fui à praia, obedecendo aos instintos que fazem os moradores do Leblon se deslocarem em massa para a beira do mar em dias ensolarados. Que programa tão bacana. Levo um trocado para a barraca de praia, os óculos e.... ganhou um doce quem falou em Livro! Desta vez fui com o Rubem Fonseca me acompanhando, e, mal cheguei na praia mergulhei na leitura. Delícia. Fonseca em seus melhores dias de boa escrita e boa conversa. Falo de O Romance morreu, livro de crônicas, com um pequeno trecho autobiográfico que me fez ficar totalmente apaixonada. Por que é que eu cruzo com todos os artistas da Globo aqui no bairro e nunca tropecei com o meu vizinho? Quero dar um encontrão bem forte, prá ver se alguma coisa dele se transfere para mim. Quero que ele leia alguma coisa que eu tenha escrito e se diga:" puxa, como é que eu nunca esbarrei nessa minha vizinha?"
Aqui vai meu agradecimento público pelo belo dia de praia que a leitura de O romance morreu me proporcionou.
E, para terminar, um dedinho de auto-propaganda: Hoje é dia de Histórias Possíveis e lá tem novo conto meu. Não deixem de ir lá conferir, e ler as produções de meus colegas, que estão muito legais.

Thursday, February 07, 2008

Agora eu conto

Aposto que alguém quer saber as respostas dos ganchinhos que deixei no questionário: A mulher foi a preclara senadora Benedita da Silva. A droga do século (juro que em alguns lugares ela é conhecida assim) é Viagra. Tenho algumas histórias interessantes sobre esse remédio. Logo depois que a pílula saiu, meu marido e eu estávamos em Paris, passeando pela Île St. Louis e, na vitrine de um restaurante, havia um cartaz anunciando Bife com Viagra. Francês come de tudo, né? A outra história é sobre os "poderosos" que, numa reunião, receberam uma caixinha de viagra nas respectivas suites -- Nenhum deles admitiu ter usado, é claro. Mas algumas mulheres estavam bem satisfeitas com o resultado... E algumas modelos e manequins estavam com caras mais enjoadas do que nunca...
Agora vou contar mais uma outra coisa: assisti um filme excelente! Trata-se de Desejo e Reparação (não sei porque encompridaram o título que era apenas Reparação -- Attonement -- no original) O romance é maravilhoso e o filme ficou excelente, lindo, com um final grandioso da maravilhosa Vanessa Redgrave. Ela é uma grande atriz, das melhores que conheço. Aliás, naquela ilha o pessoal sabe representar. Deve ter alguma coisa a ver com Shakespeare, será? Ou com as águas do Avon? Richard Burton, Lawrence Olivier, Glenda Jackson, Vanessa Redgrave, tanta gente boa...
Bem, se vocês ainda não viram o filme, parem de ler imediatamente e corram para o cinema. Vocês vão me agradecer muito! E, por falar em agradecer, obrigada pelas palavras carinhosas, Thali. Adoro vocês, meus leitores queridos! Obrigada a todos.

Monday, February 04, 2008

Passando a bola

Meu meme desmemoriado ficou sem passagem de bola. Passo aqui, para o André, para a Ronize e para a Vera. Com carinho, viu?

Meme desmemoriado

Bem, No dia 23 de janeiro, estava viajando e lá longe recebi este Meme, da Adriana Lisboa. Como estava num hotel que me cobrava caro a internet, soube que ela havia me mandado esse tal de meme, mas fiquei sem saber o que era até chegar no Rio e ir ver de que se tratava, lá no www.caquiscaidos.blogspot.com Transcrevo aqui em baixo:

1. O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?
Escrevendo poesia e brincando de boneca na estrada da fazenda do meu avô, metida no vestido de casamento da minha mãe.

2. E em 1983, há 25?
Escrevendo poesia, enquanto ao fundo Frank Sinatra cantava “New York, New York” e tudo tinha um certo ar de novela das oito.

3. O que você estava fazendo em 1988?
Escrevendo poesia e cantando MPB na França, quando era moda por lá “Essa moça tá diferente”, do Chico (por causa de um comercial de Orangina).

4. E em 1993?
Escrevendo poesia e tocando flauta – mas prestes a jogar a flauta para o alto, assim que me formasse, para me enfiar de vez nos livros.

5. O que estava fazendo há 10 anos?
Escrevendo poesia e esperando.

6. E há cinco?
Sonhando com as montanhas e pensando em voltar a escrever poesia.

Vejam só como são as coisas: eu não me lembro de nada do que fazia, nem há 30 horas, nem há 30 meses, nem há 30 anos. Fui procurar coisas para falar no google. Esse mexeriqueiro me contou tudo o que sabia, e eu vou tentar reconstruir meu passado aqui:
1. O que você estava fazendo em 1978 (há 30 anos)?
Assistindo aos bons filmes daquele ano: Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (ganhou o Oscar!), The Deer Hunter; Expresso da meia-noite. Não dei muita importância ao suicídio coletivo orquestrado pelo louco do Jim Jones, nem às mortes dos papas Paulo VI e João Paulo I -- quando a gente é jovem, nem liga para essa coisa de morte, que nos parece muito distante. E escrevia romances de amor para a Ediouro, uma curtição. Colocava o nome de minhas amigas nas personagens, e me divertia muito com essa ocupação.
2. E em 1983, há 25?
Estava ouvindo, pela primeira vez, os Paralamas do Sucesso, e também Capital Inicial e Titãs. Os EUA estavam invadindo Granada e nas Bahamas o "crack" estava sendo desenvolvido, e logo começou a se espalhar nas terras do Tio Sam: seria vingança?No cinema, estava assistindo The Big Chill (esqueci o nome em português) naquele cinema que acabou lá na Praça da Paz.
3. O que você estava fazendo em 1988?
Estava vivendo nos EUA, e sendo aceita em Yale, indiferente ao fato de que o Estado de Tocantins estava sendo criado no Brasil, que ia haver eleições e eu não estaria presente para votar, sem saber que Chico Mendes tinha sido assassinado. Neste ano, Nagib Mafouz ganhou o prêmio Nobel de Literatura. Até hoje não li nada dele...
4. E em 1993?
Escrevendo poesia -- Tinha um livro pronto (A Contramão da palavra) e estava escrevendo outro cujo título é Alma Ocidental, por enquanto. Nosso país decidia, num plebiscito, se íamos optar pela monarquia, pelo presidencialismo ou pelo parlamentarismo. E eu conhecia algumas pessoas que eram monarquistas.
5. O que estava fazendo há 10 anos?
Em 1998, pela primeira vez na História do Brasil, uma mulher presidiu a sessão do Congresso Nacional... Sabem quem foi? Só conto no próximo blog. Neste ano, a FDA aprovou a droga do século...No próximo blog eu conto. Quem gosta de futebol sabe que esse foi o ano da Copa da França, um grande vexame. Eu jurei que nunca mais ia assistir a um jogo da seleção. Ah, o José Saramago ganhou o prêmio Nobel de Literatura.
6. E há cinco?
A Columbia explodiu no ar e matou seus sete tripulantes. Eu fiquei comovida com a história. Durante dias fiquei revendo aquele céu muito azul cortado por uma linha de fumaça, como tinha sido mostrado na TV, e me perguntando como é que se pode desaparecer assim? Uma hora estamos lá. Na outra, somos apenas lembrança. Como vêem, a morte já tinha começado a me incomodar em 2003, mas não tanto como em 2005, ano de minha tragédia pessoal.
Eu ainda achava que seria feliz para sempre. Escrevia e lia, sonhando com o dia em que seria lida.

Saturday, February 02, 2008

É Carnaval

Vejam só: Comprei uma fantasia de Melindrosa, improvisei uma fantasia de Espanhola, outra de Gênia da Lâmpada, e tenho uma fantasia do Império Serrano. Tudo pendurado num cabide, esperando a animação da dona... Só que a animação não chegou ainda. Acho que ficou pendurada nas cordas da tirolesa lá de Bariloche. Hoje à noite, porém, irei, na madrugada, para o Sambódromo. Se vocês que me lêem virem um palhacinho sem muita graça, já sabem que sou eu.
Enquanto isso, releio Walter Benjamin -- pelo menos tento. Como as aulas vão recomeçar, tenho que cultivar meu lado sério e trabalhador. Mau sinal: peguei o livro e já esqueci no carro. Vou lá buscar, para ficar com a consciência mais tranqüila.
Outra coisa: recebi um "meme" da Adriana Lisboa (autora excelente, que recomendo a todos os leitores). Eu confesso que nem sabia o que era meme, parecido só o DJ, mas era Memê. Descobri mil coisas interessantes, tipo, é o equivalente ao genoma, mas do lado cultural - unidade mínima transmissível de saber. Chique, né? Meu meme não vai transmitir nada, pois minha memória não é mememória. Já não lembro de mais nada. Por isso estou demorando a passar a bola. Vou catar pelos albuns (se achar algum) ou pela internet, para saber o que se fazia há 30 anos atrás, para ver se me lembro de fazer alguma coisa nesta época. Eu, provavelmente, só lia. Ah, acho que estava escrevendo romances de amor para a Ediouro. Bem, vou ver e volto com meu meme desmemoriado.

Tuesday, January 29, 2008

De charretes, camelos e mulas

Oi, estou de volta, e achava que ia contar a vocês as peripécias de minha viagem, mas achei algo ainda mais interessante para falar: uma amiga foi para Petra e voltou cheia de histórias de charretes, camelos e mulas. De charrete eu já andei, e em mula também. Já andei até num cestinho sobre um elefante, mas num camelo nunca tive a chance. Fiquei me imaginando ao fundo de um desfiladeiro, no lombo de um camelo (provavelmente fedorento), sacudindo sob o sol implacável, meio adormecida, sonhando com um bom ar-condicionado. Estou aqui no conforto do meu cantinho ventilado, olhando a chuva miúda que cai lá fora e me enche de preguiça, sentindo falta das Cagarras, encobertas pela névoa. Nem parece que estamos a dois passos do Carnaval, e que eu estou cheia de coisas para fazer. Ainda nem desfiz as malas, não retomei minhas leituras, mas já terminei a resenha que precisava entregar e já recomecei as aulas de Pilates. Graças a essas aulas pude me divertir na Tirolesa, em Cerro Gonzáles, lá em Bariloche. Me pendurei naquela cordinha (na verdade, um poderoso fio de aço) e subi em plataformas presas em árvores por toda uma manhã. Eu teria passado lá o dia inteiro, mas os guias já estavam cansados, e nos enxotaram... De resto, em Bariloche passeei pelo lago Nahuel Huapi, fui a ilhas e bosques, contemplei a lua cheia sobre o lago em noites frias e lindas. Em seguida, em Buenos Aires, fui aos tangos e às compras e aos museus. Vi uma exposição de Miró encantadora, lá no Centro Cultural Borges. E descobri um fotógrafo extraordinário Bony não sei o quê, lá no Malba. Assim que desfizer as malas, volto a escrever, falando dos quadros deste cara, simplesmente geniais. E conto as reminiscências do Chile -- espelho de vulcões.
Não fui à feira de Santelmo (que só ocorre aos domingos) mas perambulei pela praça e pels ruas do bairro. Fiz o mesmo em Puerto Madero, e em Palermo Soho. Comprei cd's de Jorge Frexler (Uruguaio), de Kevin Johansen (Argentino, mas que adora música brasileira) , Mimi Maura (Argentina, também) e da Carla Bruni (Noiva/esposa do Sarkozy). Ah, e comprei partituras de tango -- hei de tocá-las ao piano, não sei quando, mas já estou me preparando para os grandes concertos que vou dar...E Buenos Aires está agradável mesmo no verão. E por hoje é só.

Friday, January 18, 2008

La Chascona, La Sebastiana...

Ora vejam só! Lá fui eu em Santiago visitar a casa de Neruda e dei com a cara na puerta! La Chascona tinha ido se pentear (chascona quer dizer descabelada) e estava fechada para balanço. Consolei-me indo visitar La Sebastiana, a casa dele em Valparaíso. Uma gracinha, cheia de mosaicos e de vidros antigos, recantos e escadas e mais escadas. Uma vista deslumbrante, da entrada na baía, e essa contemplação de barcos partindo sempre nos faz sonhar. Pelo menos a mim faz.
Estou sem sorte com as fotografias. Minha máquina não está funcionando, e estou tirando fotos com a máquina de minha amiga, mas não tenho como passá-las para o computador. Depois, se conseguir, publicarei as fotos de La Sebastiana e do vulcão Osorno, lindo de encantar. Santiago é uma graça de cidade, Valparaíso é colorida e montanhosa, Viña del Mar é florida e alegre, Puerto Varas é tão tranquila quanto as águas do lago que reflete o vulcão Osorno. Tentarei colocar uma foto de cada lugar. Mañana parto para Bariloche. Assim que conseguir me conectar de novo, conto o que estiver acontecendo. Obrigada a todos pelas dicas, mas não consegui fazer nada de recomendado. Tentei, mas Isla Negra não estava incluída na excursão, e os restaurantes e vinhos terão que ficar para uma próxima ocasião. Alguém aí tem alguma sugestão para Bariloche e Buenos Aires?

Sunday, January 13, 2008

Por que me ufano de meu país.

Esse negócio de escrever ficção está me deixando meio...diferente. Minhas memórias agora tendem a se mesclar com minha imaginação, e eu já não sei se me lembro de ter que fazer redações com esse título ou se isso é uma lembrança adquirida em leituras. Sou assim, agora me vejo lembrando de países que não conheço, recordando histórias de personagens como se fossem de pessoas reais...tudo se confundindo e se esbarrando pois, na minha vida tão sem ocorrências, acabo ficando marcada pelas leituras. Aliás, me lembro de uma vez (essa aconteceu mesmo) que estava viajando com um grupo de pessoas do trabalho do Guilherme e depois de, pela milionésima vez, falar de alguma coisa que tinha lido (para cada assunto eu "tinha lido" alguma coisa) uma das mulheres me perguntou: "Você nunca viveu nada, não? Só leu?" Acho que data daí essa minha confusão, pois, refletindo sobre a pergunta, percebi que vivenciava mais o que lia do que o que vivia, pois a leitura envolve reflexão, necessariamente, enquanto que a vida simplesmente acontece. Às vezes a gente reflete sobre ela, e é isso que estou tentando fazer aqui, agora, apesar de me deixar levar pelas digressões.
Voltemos ao título -- não me lembro de ter escrito nada que prestasse sob este título, até porque tenho uma grande antipatia pela palavra ufano, que me faz lembrar o desconforto causado por gases... Gosto do meu país, adoro minha cidade vitimada, me encanto com os brasileiros, mas não me ufano de nada assim como não arroto em público. Isso até ontem à noite, quando fui assistir ao espetáculo Aquarelas do Ari. Aquelas músicas encantadoras, cada qual melhor que a outra, e eu pensando que aquilo era obra de um único compositor, unzinho só, que nós ainda temos Noel Rosa e Cartola, Tom Jobim e Chico, Caetano e Antônio Maria e Cazuza e Renato Russo e Marina e toda uma legião de compositores geniais. Isso prá só falar no popular, pois até em música clássica temos compositores maravilhosos. Gente, tive um legítimo ataque de ufanismo: queria me levantar e gritar bem alto: Sou brasileira, da terra que tem a melhor música popular do planeta! Foi uma senhora noite.
Saí dali e fui ao Rio Cenário, comemorar minha epifania ufanista. Fiquei pensando que até as músicas bregas daqui são mais legais: nossos amores têm mais cores, nossas cores mais sabores, nossos sabores mais odores e por aí vai. Amar ao som de Kleiton e Kledir tem seu valor, declarar-se com uma canção de Tim Maia, é declarar-se para sempre, deixo que vocês completem essas minhas afirmações com suas lembranças...
Agora me despeço por uns tempos. Vou ao Chile: Santiago, lagos andinos, e depois Bariloche e Buenos Aires, na Argentina. Não será a primeira vez que contemplo os Andes, nem o Oceano Pacífico (Vou a Viñas del Mar e a Valparaiso, também) mas isso ainda me entusiasma como novidade. E é minha primeira vez no Chile e em Bariloche, vou voltar cheia de novidades e de fotos, espero. Se eu conseguir, mando notícias de lá. Se não, só na volta. Até.

Saturday, January 05, 2008

São Jorge e os dragões

Janeiro, o mês que deve seu nome ao deus Janus, um deus de duas caras, que olha o passado com uma e tenta divisar o futuro com a outra, começou com inúmeras festas espalhadas pela cidade. Eu estava numa delas, e, no apartamento ao lado, havia outra festa, ainda maior do que a em que eu estava, e que foi se expandindo para dentro da casa de minha amiga. Primeiro foram as bolas de gás que buscaram as cores alegres das paredes de Helena como refúgio. Depois foram os vizinhos e seus amigos, que se achegavam para brindar e para trazer bons votos a todos. No fim, o "dia da confraternização universal" fez jus a seu nome, pelo menos ali naquele oásis atlântico, e tudo virou uma grande festa. Agora escuto as histórias de outras festas, e me divirto com os rituais que juntaram champanhe francês, brilhantes de família, São Jorge e, ouso acrescentar, os dragões que cuspiam fogos de artifício na paisagem serena da Lagoa. Ou histórias mais íntimas de quem passou o reveillon dormindo na Serra ou na própria Lagoa, com os filhos pequenos protegidos entre braços maternos e paternos contra os ruídos ecoando no granito dos morros. Ou comemorações improvisadas em aeroportos de vôos atrasados para que a tripulação tivesse a chance de ver, mais uma vez, a festa no Rio. Pois bem, São Jorge, descubro hoje, será o padroeiro deste ano! Viva o Santo popular, bem amado pelos brasileiros, que o colocam na Lua e o celebram com lindas canções como a de Caetano. Invoco, então, a proteção do santo para minhas histórias, já que uma delas está publicada em http://historiaspossiveis.wordpress.com/.
Ia falar da qualidade das histórias e dos colaboradores, mas, como sou integrante do grupo, acho meio cabotino dizer como está excelente o nível dos textos, etc... Só vou lembrar a meus leitores o propósito do site: histórias cujos estopins se encontrem em notícias recentes. Algumas se prendem àquelas notícias que chamam a atenção de todo o mundo, às grandes manchetes. Outras procuram as pequenas historinhas marginais. Eu sou deste tipo, prefiro as pequenas notinhas que me trazem inspiração. Minha história possível desta vez é "Sísifo", e fala sobre o processo de digitalização das obras da literatura mundial. Aproveito para passar um puxão de orelha em público no Mano André, pois coloquei-o ao lado de Joyce, Proust, Machado e ele nem notou! Ô mano distraído! Presta atenção, hein? Em breve estarei colaborando em outro projeto do André, um site de poesias. Depois dou as indicações de como acessá-lo.
E vou seguindo, pensando em mais outras histórias impossíveis para torná-las possíveis.

Tuesday, January 01, 2008

Um sorriso inesperado

Passei um reveillon diferente: fui ao aeroporto, dirigindo um carro alheio, que, na volta, parecia grande demais, vazio demais... As ruas estavam vazias, desertas de carro e de gente. Pelas saídas da Linha Vermelha, carros de polícia insistiam em lembrar-nos da violência de uma cidade que se modifica com os anos. Ao chegar na Lagoa, encontrei todos os carros que não havia visto pelas outras ruas. Um engarrafamento bloqueava a chegada ao Corte Cantagalo, e os carros progrediam devagar.Tinha pensado em seguir a pé, mas o calor era grande, a hora já estava adiantada, e a visão de um ônibus não muito cheio que entraria no Corte, me convenceu que era melhor tomá-lo. Nos arrastamos lentamente e mesmo assim consegui chegar a tempo na casa de minha amiga, na Avenida Atlântica, onde me maravilhei, como sempre, com o espetáculo das gentes, aquele mar vivo que se movimentava em ondas brancas, e ressoava em uníssono sua admiração pelos fogos de artifício. Que, diga-se de passagem, estavam lindos, mesmo.
Depois de tudo, uma lua parecendo um gomo de laranja, sorriu na noite, e depois desapareceu. Foi uma passagem de ano tranquila, sem muitas esperanças no futuro, mas com alguma paz no coração ferido que carrego.

Hoje sei que o que me pareceu pacífico e ordenado ontem, desmente minha crença: gente baleada, gente morta, nem mesmo o reveillon escapou incólume. Mas fico com a lembrança do sorriso irônico daquela Lua zombeteira e esquiva, cor de laranja, de bons augúrios.

Esse primeiro dia de 2008, ensolarado e belo, passou suavemente, com um bom filme: A culpa é de Fidel. Que coisa boa acreditar que talento é hereditário! Parabéns ao Costa Gavras que assina a vida de Julie (ou seria Julia?) . Não deixem de ver essa jóia de filme, estrelado por uma menina genial, de olhos expressivos, reveladores.

Sunday, December 30, 2007

Quem fatiou o tempo?

Mais uma vez me pergunto porque este rito de passagem na noite de 31 de dezembro? Quem 'e que determina que as coisas mudam de um ano para outro? Estou assim, numa fase "protestante" -- questionando tradicoes, inquietamente esperando a noite de amanha, sem ilusoes. Esta e minha terceira passagem de ano sem o Guilherme, e mais uma vez vejo o tempo escoando neste funil de horas, sem que eu me anime, sem que as esperan'cas ressurjam. Vou levando, como se diz. Acho que estou me saindo bem, conforme prometi a ele que faria, mas meu cora'cao continua pesado, minhas alegrias ainda sao ocas, e comeco a acreditar que a vida agora sera sempre assim: risos vazios, planos construidos por mera forca de vontade e nenhuma tesao.
Gostaria de entender o mecanismo da esperanca, da ingenuidade da fe... Mas nao sei de nada, nem sei mais aquilo que julgava saber. E, no entanto, criei novos amigos, alcancei velhos objetivos, estabeleci metas para o futuro. Mas nao tenho nenhuma "vontade". Faco, porque faco, mas se nao fizesse, seria igual. Assim sendo, fico inquieta com tanta gente esperancosa e feliz a meu lado -- nao quero ser desmancha prazeres, mas nao consigo me contagiar nem entusiasmar um pouquinho com a mudanca de data. Mas muita coisa vai acontecer este ano. Minha amiga Ro vai ter seu primeiro filho. Minha amiga Laura completa suas bodas de ouro. Meu segundo livro sera publicado. O livro do Flavio tambem vai ser publicado. Vou voltar para a faculdade.Vou ver o Breno em janeiro, vou viajar com Natercia, vou andar de bicicleta na praia com o Marcio, vou rir muito com a Livia, vou colaborar com o Andre, vou continuar com minhas aulas de piano, quem sabe conseguirei tocar alguma coisa de Bartok? So que isso tudo eu faco assim, meio impostoramente, fingindo uma felicidade que sinto mas que nao e verdadeiramente minha. Nao sei explicar melhor. Tambem nao sei quem fatiou o tempo. So sei que o meu tempo estacionou no passado, e eu nao tenho vontade de seguir adiante. Mas vou andando assim mesmo.

Friday, December 28, 2007

Felicidade é....

Felicidade é um sentimento que chega assim de repente num carinho de amigo, numa palavra boa, numa lembrança. Agora no final de ano, tenho recebido mensagens carinhosas que me orgulham muito, me deixam feliz, contente com a delicadeza de meus amigos. Obrigada a todos aqui do Blog. Eugênia, querida, espero que sua experiência Carmelita te tenha deixado purificada e esbelta, mas saiba que você é uma mulher muito bonita, e uma pessoa muito legal. Meu amigo Guido, dos bons conselhos, vou experimentar sua receita no dia em que me animar a fazer uma feijoada. Tenho a certeza de que deve ficar deliciosa. Escreva sempre, Guido. Você tem tantas boas histórias para contar...E eu adoro lê-las. Meu querido amigo Amauri, como me sinto honrada por saber que você escolhe o hotel de maneira a poder ler meus escritos. Saiba que isso já me motiva a continuar escrevendo, pois sinto que meu esforço vale a pena. Minha silenciosa amiga Betty G., agradeço seu carinho, você me entende direitinho, sabe conjugar o verbo doer como eu sei, assim por dentro. Mas para você eu prevejo muitas alegrias, um futuro com apoio, companheirismo e amor. Acredite em mim. Teka e Fafá, a alegria de vocês me contagia, vocês são responsáveis por alguns bons momentos meus e por novos projetos -- veja só minha nova habilidade no piano! Gostaria de mandar uma mensagem carinhosa a cada um de vocês, mas não dá. No meu coração, agradeço a todos, e repito -- vocês nem imaginam como são importantes para mim. Felicidade é ter amigos assim como vocês.

Thursday, December 27, 2007

Quase novo, sempre novo, já antigo

Um novo ano bate à nossa porta. Mais um pouco e muda nossa folhinha. Mudará alguma coisa em nossas vidas? Muitas pessoas acham que sim. Mudamos a data e mudamos de vida. Fazemos planos, prometemos coisas, fazemos listas, e nem sabemos bem porque é nessa virada de ano que resolvemos tomar essas resoluções. Talvez pela mesma razão que nos leva da dizer que "segunda-feira começo a dieta". Precisamos de um limite e tomamos essas datas, essas convenções, como orientações. Na verdade, cada novo amanhecer é um recomeço, e um milagre. Existe uma oração judaica para o início do dia que diz: Obrigada, Senhor, por devolver minha alma intacta! Dormimos e nossa alma sai vagueando por aí. É realmente um milagre que ela nos seja devolvida sem danos a cada manhã...
Bem, vou ficando por aqui, sem muito mais o que dizer por hoje. Tenho andado ocupada, envolvida em comemorações familiares, assim que conseguir um tempinho venho para nosso recanto, já antigo, de mais de um ano. Obrigada a todos os meus leitores. tentarei escrever antes da nossa data limite, para desejar a todos tudo de bom em 2008. Beijos.

Sunday, December 16, 2007

Domingo de sol e de... feijoada.

Não sei qual a conjuntura astral que levou todos os cariocas a resolverem comemorar o fim de ano com feijoadas. Talvez porque a "coisa esteja preta", já comi feijoada em aniversário, em confraternização, em reunião de família, em formatura... Isso, já que os aniversários são dois, dá uma média de uma feijoada a cada três dias nestas últimas duas semanas. Mas eu não reclamo, Adoro feijão, preto, com caldinho puxando para o salgado, misturado com a couve bem fininha e a laranja e sua pausa refrescante entre garfadas sólidas. Eu adoro, mas o corpo protesta. E se expande. Não vou mais aceitar convite para feijoada. Nem para as festas bem brasileiras, com cardápios que misturam desde rabada a empadinha de bobó de camarão. Aviso, portanto aos amigos: só aceito convites para chá de tília com madalenas. Portanto, não se admirem, hoje, quando eu chegar na feijoada e recusar, pedir somente uma águinha quente para mergulhar meu pacotinho de chá de boldo (sim, e também aceito o de erva-doce). Meus olhos passearão gulosos pelos pratos fumegantes e apetitosos mas, asceticamente, resistirei, pois penso nas rabanadas que não tardam a chegar!
Estou com um outro problema sério,também de gula, mas de um tipo diferente: Imaginem que estou comprando os presentes de natal para os amigos, e as coisas que gosto de dar são aquelas que gosto de receber: livros, CDs, DVDs. Então comprei um livro para A. Enquanto esperava para pagar, comecei a folhear a obra e fui fisgada, comprei um para mim também. Dei um DVD para B, mas já sei que vou voltar na loja para comprar um igualzinho para mim. Fui comprar um livro de uma autora que aprecio para C e de um autor que adoro para D, acabei comprando para mim um dele que ainda não tinha. O dela, estou relutando em entregar! O pior é que não tenho tempo para ler tudo isso, pois estou com uma pilha de livros que só faz crescer, e me olhar desaprovadoramente quando me aproximo com mais um exemplar para aumentá-la.
Socorro.
Alguma receita para conseguir me moderar? Por favor, ajudem.

Wednesday, December 12, 2007

pensamentos em voz alta I

Não tenho quase nada para dizer, mas não me calo, na esperança de, entre as palavras vãs, surpreender alguma verdade...

Tuesday, December 11, 2007

Mais um presente

Imitação da água
(João Cabral de Melo Neto) Foto de Howard Schatz

De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada,
na praia te parecias.

Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parara
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista

e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
na praia, cama finita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,

e em sua imobilidade,
que precária se advinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas

mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.

Beleza, não? Para rivalizar com o dia deslumbrante de hoje.

Monday, December 10, 2007

Cartão de Natal




Acabo de receber um cartão de Natal de meu amigo Dolino, cujas telas aprecio muito. É uma nova modalidade, essa, um cartão criado por ele, mas eletrônico. Gostei tanto que quero mostrar para vocês, vejam como é lindo. E aproveito para desejar:

Feliz Natal
ou
Chanuká
.

Sunday, December 09, 2007

Mais música


Há dias que acordo assim, me recusando a viver. Não atendo telefone, não tomo café, não me ponho para funcionar. Vou esbarrando pelos móveis e coisas, até "pegar no tranco". Hoje o que me ajudou a pegar foi música. Exercícios de piano -- vou poupá-los, não conto as notas que toquei/troquei -- Depois vídeos de música no U-tube. Fiquei refletindo que rock hoje é coisa de velho. Bem, velho não, mas de gente antiga. De Beatles a Rolling Stones; de Dire Straits a The Police; Queen, Eagles, Lulu Santos, Rita Lee, Chico e Caetano. Olho para esses caras e vejo senhores freqüentadores do Jobi, ou jogadores da rede de vôlei do Baixo Vovô, onde "todo mundo é professor e ninguém aprende". Escutei coisas lindas. Mas u-tube é cansativo, parei para olhar a vista e descobri que, por alguma brincadeira de nuvens, as Cagarras haviam se transformado no quadro Monte Fuji com flores, do David Hockney. Bem, numa espécie de negativo, pois as neves, ilusão criada pelas nuvens, estavam embaixo e o pico se destacava escuro. Faltava a flor, mas coloquei uma na janela e recriei a beleza, efêmera, mas agudamente satisfatória. Agora coloco aqui no blog uma imagem de um poster, e compartilho com vocês minha ilusão.
Ontem saiu mais um número de Histórias Possíveis. Desta vez Ronize e Nereu brilham numa constelação afiada, só com estrelas alfa. Agora vou, lentamente, começar a me arrumar para o Municipal -- é dia de Mahler. Há, ainda, muita beleza no mundo.

Saturday, December 08, 2007

Aula de piano

Esqueci de contar meu progresso na aula de piano. Meu professor não cansa de se maravilhar com meus dotes musicais -- tadinho -- que ele jura que são muitos. Isso porque consegui tocar uma musiquinha de três notas, errando apenas três... Mas entendo de frase, até de frase musical. Posso ver as frases, acho que me arrisco até a identificá-las. Consigo ler umas cinco notas, mas às vezes me confundo. Ele me passou muitos deveres de casa: Vou ter que tocar cinco musiquinhas na próxima sexta, pobres vizinhos...Isso significa que vou ter que praticar essas cinco musiquinhas durante toda a semana... Vou ter que escrever as notas e estabelecer o ritmo, ou o compasso, ou sei lá o que aquela fração inicial indica. Em compensação, o professor tocou Chopin e Rachmaninoff, e eu toquei (no CDplayer) Reynaldo Hahn, que ele não conhecia. E falamos sobre ópera, que ele cantarolou e eu reconheci e eu cantarolei e ele não reconheceu... Me despeço com um dó, ré, dóo; dó, ré, dóo; dó, si, dó ré.

Ser ou ...

Vocês sabem o resto, não preciso completar o título. A razão da pergunta é pensar: o que faz de mim uma escritora?
Leio os outros -- as outras -- e me sinto tão pouquinha... Insegura, preciso de palavras que me animem nas quais, no entanto, nunca acredito (você só diz isso porque gosta de mim!-- penso).
Mas essas palavras me fazem bem, preciso delas como uma planta precisa de água, mas, diferentemente das minhas belas amigas vegetais, não espicho raízes para os lençóis freáticos: sou uma planta arrancada, sobrevivendo ainda, mas já quase sem seiva.
Tudo o que sempre quis fazer foi escrever, escrever histórias tão maravilhosas quanto as que me encantavam.Não sei como, mas, ao invés das histórias que queria contar, saíam poemas. As histórias saíam, também, mas poucas, anêmicas. Até que um dia, assim de repente, mas sem que eu soubesse que algo estava acontecendo, eu parei de escrever poemas. Fiquei anos, vários, só escrevendo contos, ou escrevendo outras coisas, como, por exemplo, os e-mails mais longos da internet (devo ser campeã nesta categoria). Tento ser breve e concisa, mas não tenho em mim nenhum DNA de Graciliano Ramos. Sou derramada, palavrosa, prolixa. Escrevo. Na hora, gosto do que escrevi. Depois tenho um ataque de rejeição -- releio e detesto tudo. Fico me perguntando porque é que escrevi o que escrevi. Então não leio mais, evito meus textos, até que um dia, mexendo em papéis que proliferam à minha volta, encontro algum conto que imprimi por alguma razão já esquecida, e até gosto do que está escrito. Ou, numa outra possibilidade, me surpreendo com alguma passagem, acho-a repetitiva, quero corrigir, mas dou de ombros, achando que não vale a pena.
Drummond tem um poema que diz mais ou menos isso:
Lutar com palavras
é a luta mais vã
no entanto lutamos
mal rompe a manhã...
Drummond não lutava contra as palavras, mas com elas, notem a sutileza.
Eu?
Preciso delas. Elas me alimentam, me sustentam. Sou aquilo que li e leio.
Então, termino aqui esse post, colocando meu auto-retrato (que Arcimboldo fez a gentileza de pintar para mim). Deliciem-se.

Thursday, December 06, 2007

dezembro

Dezembro --- mês que passa tão rápido, festeiro como ele só. Tem aniversários, casamentos, confraternizações, pré-reveillons, Natal... E ainda compras, compras, compras. Tem praia, acenando de longe, num sonho impossível. Tem passeio à Árvore, ao Coral da Esquina, ao Teatro Municipal...Dezembro passa rápido, levado entre o desejo de ajudar o próximo, de satisfazer as crianças, de esquecer o triste, de preparar a casa... E dezembro engorda, com todas as suas comidinhas e "só um pedacinho"...
Dezembro também tem lembranças, mas, como não dá para lembrar só do alegre, a gente guarda tudo e decide lembrar só em janeiro (como se fosse possível). E aí sai, vai às compras, ou ao encontro de Papai Noel, com uma cartinha onde o primeiro item é "cola para coração" e o segundo, "máscara sorridente".
A brisa do mar desmancha meus cabelos, numa carícia. Dezembro é um lindo mês, afinal!

Sunday, December 02, 2007

Gosto não se discute


Adoro Machado de Assis, li tudo dele, inclusive suas poesias, embora não seja uma grande fã de seu "lavor poético". Em poesia, adoro Drummond, Bandeira, João Cabral, Cecília Meirelles, Camões. Fiz esse recuo no tempo, e me lembrei de Vieira, outra paixão: quando, enfim, tive a capacidade de lê-lo, fiquei deslumbrada, acompanhando seus raciocínios e sua elegante exuberância. Não sou grande fã de García Marques, embora goste de Cem anos de solidão. Adoro Julio Cortázar, Monteiro Lobato e Maupassant contistas precisos. Sou fã de antologias, pois me apresentavam autores que ainda não conhecia, mas detesto os cortes nas antologias, pela mesma razão que detesto novelas de TV: interrompem o autor quando querem, não quando eu quero. Adoro Proust, mais que um autor, um amigo por escrito. Os russos que conheço me fascinam. Flaubert e suas histórias me encantam. Zweig, Alencar, Balzac e Eça, Pearl S. Buck, Melville, Camilo Castelo Branco, Lin Yu Tang todos são autores queridos e lembrados. Vargas Llosa, Carpentier, Callado, Guimarães Rosa e Graciliano Ramos também... Mais recentemente, descobri Agualusa, Mia Couto e Adriana Lisboa. Isso para não mencionar os amigos-amigões e ser acusada de ser parcial, por isso não vou falar de Rachel Jardim e da turma de Histórias Possíveis. Não posso terminar essa lista de preferências, sem citar Homero, Cervantes e Dante, mesmo sabendo que não seria justo deixar de fora Oswald de Andrade, nem Mário, nem tanta gente boa que habita minhas estantes.
Com tantos autores maravilhosos mencionados, tantos autores deslumbrantes que não entraram na lista escrita, mas que deveriam ter seu lugar aqui, não vou perder meu tempo, nem ocupar meus neurônios lembrando do que não gosto. Quero mais é abrir espaço para minhas preferências. Comecei o post meio tristonha, mas agora já me consolei um pouco. Sou assim, prefiro ver o lado bom, as coisas positivas. Meu grande problema seria responder àquela pergunta-clichê, que acompanha todos os autores que chegam à "fama": Que autor levaria para uma ilha deserta? Acho que, até que me decidisse, a ilha já estaria povoada...

Saturday, December 01, 2007

Acabou-se o que era doce?

A novela terminou, mas sinto saudades de vir aqui de manhã cedinho, para escolher mais uma ilustração, colocar mais um capítulo...
Foi bom compartilhar com vocês minha história, é bom esse bate-papo, pois companhia, mesmo à distância, é muito bom.
Não esqueçam de procurar Histórias Possíveis, a nova revista eletrônica. Amanhã deve sair uma nova edição, fresquinha, com cheiro de tinta eletrônica, se é que isso existe. Nesta nova edição são contistas diferentes, e isso é que é o barato dessas revistas, a diversidade. Sou fã de "diferente", gosto que as coisas e as pessoas tenham caras e hábitos diferentes, cores e cheiros distintos, sabores e valores contrastantes. No entanto, um outro lado meu se compraz no hábito, na mesmice, no conforto do já conhecido... Mas acho que todos somos assim. Stella, uma de minhas estrelas-guia, me falou de um curso que ela fez, de filosofia, em que o professor García Rosa postulava vetores que tornavam tudo relativo. Então, meu impulso para o novo se relativiza frente ao meu desejo de familiaridade, e assim me equilibro. Quando sigo em frente, não posso esquecer o que ficou para trás ( e eu completo: nem o que está à direita e à esquerda, acima e abaixo) De repente, vejo que sou uma espécie de ouriço, apontando minhas farpas para todas as direções, e o mundo uma espécie de engrenagem onde todos nós, ouriços, vamos encaixando nossos espinhos e girando, e nos movimentando, num louco ballet... Como foi que vim parar aqui? Acho que fugindo de uma notícia horrível que li hoje: do pai que matou seu bebê de cinco dias apenas, arrancando-lhe a perna esquerda quando foi trocar sua fralda. Cronos não teria feito melhor... Fugi, mas fui alcançada, tive que desabafar aqui com vocês, e, mesmo levando o caso para a mitologia, para tornar o horror um pouco mais distante, o mal-estar que me invade ainda é enorme, inquietante. Somos feras, somos bárbaros, mas somos diferentes, e aqui me refugio. Sou diferente do bárbaro, embora carregue em mim um vetor que me relativiza a ele. Mas avanço, assustada, para o oposto, e dou graças pela diversidade.

Friday, November 30, 2007

Último capítulo!

Sim, chegamos ao fim do mês, chegamos ao fim da novela. Depois de hoje é embarcar nas comemorações natalinas, cada vez mais descaracterizadas... Amanhã tem inauguração da Árvore da Lagoa -- grandes engarrafamentos à vista. A temporada de compras já começou. O assédio para contribuirmos com algum tipo de caridade, também. Os enfeites exagerados, cada vez mais luxuosos e de mau gosto estão por toda a parte e as festas de confraternização, as lembrancinhas de amigo oculto, os telefonemas das "primas da Sapucaia" já começaram! As musiquinhas eletrônicas repetidas até o estupor nos anestesiam os sentidos. Arre! Lá vou eu reclamar, mas houve um tempo em que Natal era diferente: a gente saía pelas ruas com um sorriso, com vontade de abraçar todo o mundo, e era um grande programa ir visitar os presépios que se armavam pelas Igrejas. Logo em seguida, porque éramos democráticos e tolerantes, todos iam à praia para receber as baforadas fedorentas dos charutos baratos dos pais e mães de santo, que se postavam, desde o dia 26, em ônibus estacionados na avenida Atlântica, cada vez mais numerosos. A praia se enchia de flores e de velas, e os tambores se aqueciam para a grande noite da virada, e todos nos sentíamos renovados. Os encantos outros são hoje são outros, e também me encantam -- não se enganem, vivo no presente. Mas tenho pena de me sentir acuada e, ao invés do impulso de abraçar e ser abraçada, me preocupar em desviar-me das pessoas na rua, abraçando apenas a minha bolsa... Olhar o próximo com desconfiança é a coisa mais anti-natalina que conheço, mas parece ser o novo mandamento. Ouvi dizer que existe uma campanha, que está correndo o mundo, de "Abraços grátis" -- A gente bem que podia fazer isso aqui no Rio, uma maratona de braços e corações abertos, como o Redentor, nossa maravilha.
E agora -- com meus abraços -- o último capítulo!

Capítulo XIX

Você disse que ia mudar o final.

Não pude. A história de Paula e Francesco não podia ser como a nossa. Aquele Francesco não merecia um final feliz. Ele estava traindo a mulher. Não merecia ser feliz.

Mas quem morreu foi a Paula! Ela é que foi castigada pelo erro do outro.

Castigada? Não, ela ficou com a melhor parte: Não teve que lidar com a culpa que ela já tinha começado a sentir. Não envelheceu. Não ficou com Alzheimer. Não foi trocada por outra. Não teve que lavar cueca nem meia suja...

Mas o Francesco não foi castigado...

Você é que pensa. A mulher dele vai presa, ele tem que cuidar dos dois filhos. Precisa parar de escrever poesia e se dedicar a dar aulas particulares, ou seja lá o que for, para complementar a renda. Os meninos crescem, se revoltam. Um enche o corpo todo de piercing, engorda, pára de estudar, se junta a uma turma de arruaceiros, neo-nazistas, ou mussolinistas, seja lá como se chamam na Itália. O outro se vicia, foge de casa, aqueles dramas de filho drogado, que quando aparece é só para arrumar mais dinheiro para as drogas...

Pôxa! Tem piedade do Francesco.

Não tenho não. Ele também engorda. Se casa de novo, desta vez com uma megera que reclama que ele é um fracassado...

Chega! Pobre coitado.

Olha o corporativismo... Mas ele continua um bom poeta. Os livros dele são redescobertos e ele recebe uma homenagem e um convite para participar da FLIP.

Nossa FLIP?

É, mas ele não vem. Está doente, tem diabetes mal cuidado e acaba perdendo uma perna...

Ah, não aguento mais. Chega.

Viu? A Paula escapou disso tudo.

Vem cá. Deixa eu te mostrar o que é que ela perdeu: Perdeu beijos assim. Perdeu abraços, perdeu as mãos do amado percorrendo suas costas, devagar, arrepiando sua pele...

Tudo isso é muito bom, concordo. E ainda perdeu as conversas, sem fim...

E as tardes de cinema, com aqueles emocionantes filmes de ação!

Isso não é grande coisa, melhor são filmes franceses, que fazem a gente pensar...

Ah, não. Isso é garantia de morrer de tédio: como aquele filme que mostra as imagens de uma câmera de vigilância e que os intelectuais acharam a grande maravilha do ano! Se nem os vigilantes aguentam ficar olhando sempre a mesma coisa...

Fábio, pelo amor de Deus! Não diz isso em frente aos nossos amigos, prá não me envergonhar!

Sim, senhora, dona Hipócrita. Pode deixar que vou fazer cara de “pensador”, se falarem no filme perto de mim.

Você está me gozando: o que é que você quer dizer com “cara de pensador”?

Regra número um: o importante não é o que o “autor quer dizer”, mas o sentido que o texto adquire em seu contexto.

Ô, meu amor, não faz isso com sua Mari, não, tá?

Não. Até porque já estou de saída. Maracanã, lá vou eu!

Maracanã? De novo?

É jogo do Botafogo, final. Um clássico! Imagine, Botafogo e Flamengo, e no Maraca! Hoje é um grande dia. As torcidas. Uahhh! As bandeiras, enormes. Os refletores, a fumaça colorida.

Você parece criança!

Por que você não vem comigo?

Detesto futebol.

Jogo no Maracanã não tem nada a ver com futebol. Tem a ver com o público, com o espetáculo de uma paixão compartilhada...

Prefiro ficar lendo meu livrinho...

Eu ia gostar que você fosse comigo.

Ah, não. Ninguém merece. Me poupe.

É pena. Porque eu ia mesmo gostar, se você fosse. Tchau.

Que bobagem. Uma infantilidade, isso. Eu nem gosto de futebol... Que é que eu ia fazer lá? Só se fosse para ficar vendo ele sofrendo com as ameaças de gol. E escutando ele xingar o juiz e o técnico... E para escutar aquele riso gostoso de alegria, quando ele joga a cabeça para trás e se entrega, e depois volta a si, procurando o meu olhar... Ah, não, e eu não vou estar lá para ver os olhos dele brilhando de alegria! Fábio! FÁBIO! Me espera. Eu vou sim! Fábio. Ah, meu amor!

Inda bem que consegui te alcançar!

Thursday, November 29, 2007

Confusões

Não desanimem com a minha imperícia: na novelinha, ou novela, como vocês querem, os personagens de Mariana são Paula e Francesco, mas ela baseou os dois no casal Paolo e Francesca, que estão no "quinto dos infernos", como dizia meu avô, o círculo infernal dos que pecaram por amor, segundo Dante. Se algum dos meus leitores não conhece a história (ela é famosíssima entre os que estudam literatura, pois o livro aparece como "alcoviteiro") aqui vai um resumo: Francesca era filha do príncipe de Rimini ( a Itália estava toda dividida em cidades-estado) que estava em luta com o príncipe da cidade vizinha, Giovanni Malatesta. Eles fazem um tratado de paz e, para selá-lo, combinam o casamento da jovem e linda Francesca com o brutal e velho Giovanni. Só que este tinha um irmão uns 20 anos mais moço, Paolo, que se apaixona pela cunhada e ameniza a existência da infeliz emprestando-lhe livros, que passam a ler juntos. Uma tarde, quando liam sobre a infidelidade de Guinevere e Lancelot, Paolo, tremendo, roubou um beijo de Francesca, que termina sua história dizendo mais ou menos isso: "naquela tarde não lemos mais..." Não leram, digo eu, porque "escreveram" uma linda história, mas foram surpreendidos pelo furioso Giovanni de nome profético, que ficou com sua testa pior do que já estava, com o novo problema. Os amantes foram parar no Inferno de Dante, que os suplicia, segundo alguns com a indissolubilidade de sua relação: ficam juntos pela eternidade. Mariana, minha personagem, separa os amantes que ela criou. Vejam como:

Capítulo XVIII

Paula olhou o amante com tanta intensidade que seus olhos pareceram crescer e transbordar, como um mar em dia de tempestade. Ele ainda não sabia que ela havia tomado aquela decisão. Este era seu último dia juntos. Ela ia partir. Regressar ao seu mundo protegido e tranquilo. Nos poucos dias que compartilharam, eles haviam se amado de todas as maneiras. Ela abandonara todas as reservas e se entregara como uma adolescente. A cidade resplandecia lá fora, com seus pomposos dourados e suas impossíveis volutas, mas os dois se bastavam, e permaneciam no quarto atravancado de móveis exageradamente grandes. Ela havia perdido o pudor que a dominava nos primeiros encontros, e se deixava ficar nua, deitada de bruços sobre a cama de espaldar, os lençóis revoltos formando relevos sobre o colchão que curvava-se, ligeiramente, para dentro. Francesco sentava-se à mesa imprensada entre as duas janelas altas e escrevia, febril, até que ela deixasse seus dedos travessos brincar com os cachos de seus cabelos revoltos e desalinhados, ou passear pela pele sedosa de suas costas, queimadas do sol generoso da região. Quando tinham fome, tomavam um cichetti e l’ombra, algum tipo de refeição ligeira acompanhada por uma taça de vinho, chamada de “sombra” pelo hábito que os gondoleiros tinham de guardar na sombra uma garrafinha de vinho para se refrescarem.

Paula havia desabrochado nas mãos de seu amante. Seu corpo se revelara um instrumento digno de figurar numa grande orquestra, com surpreendentes ressonâncias. Mas a enormidade de sua descoberta a assustava, e ela desejava voltar à tranqüilidade de seus dias dedicados aos livros e à contemplação da vida, protegida por trás de sua redoma. Ela precisava dizer a ele que não estava à sua altura, que não podia ser a musa de um poeta. Ela era uma mulher comum, sem nenhuma grandiosidade. Ela comia, respirava, andava e sofria como as outras, não era mais bela, nem mais alta, nem mais perfeita. Ao contrário. Ela sabia que estava cheia de pequenos defeitos e manias, que tinha hábitos arraigados que lhe custava muito abandonar para adotar uma vida em comum. Além disso, outra coisa a impelia a partir. Francesco era casado. Sua mulher e seus dois filhos deviam chegar no fim de semana, e ela não podia suportar a idéia de separar uma família. Ela não conhecia a outra, mas imaginava os filhos dele, e o que a ausência do pai provocaria.

Era preciso abrir mão de sua pele macia, do cheiro que ela já não sabia se se desprendia do corpo dele ou do seu , do carinho e do aconchego que os braços dele lhe proporcionavam. Ela era uma mulher forte. Adulta. Madura. Ela resistiria. Ela lembraria de seus comentários e de seus versos coloridos como os dias de verão que haviam passado juntos. E usaria o que ele lhe ensinara para poder olhar os desenhos das nuvens e os espaços vazios entre os quadros dos museus.

Ela levantou da cama, silenciosamente, e começou a se vestir com gestos lentos. Francesco continuava escrevendo, absorto. Um sorriso flutuava em seu rosto, um sorriso resignado e angélico, como os que perpassavam os lábios dos santos mártires nos quadros clássicos. Ela ia para o martírio de amor. Renunciaria a ele para tê-lo para sempre em um sacrário.

As batidas na porta foram suaves, quase não se fizeram ouvir. Ela não as teria escutado, se não estivesse tão junto às espessas madeiras trabalhadas da porta, já em seu caminho para fora da vida de Francesco. Atravessando a bolsa nos ombros, deixou sobre a cama o papel onde explicava sua partida. Tratava-se de uma carta confusa, cheia de repetições e argumentos que não se sustentavam logicamente. Ela deu um último passo para trás, olhando-o com tanta intensidade que se admirava que seus olhos não deixassem marcas pelos locais que percorria. Voltou-se, e abriu a porta. Paula chegou a ver o clarão que iluminou um rosto retorcido de angústia. Não escutou os ruídos que se seguiram, os gritos, o eco, o baque do corpo caindo. Só sentiu o turbilhão. Depois, o nada.

Wednesday, November 28, 2007

Um carro, uma estante

Quando adotei o André como irmão, foi meio que por impulso, a gente ainda nem se conhecia, mas ouvi a voz dele e minha intuição já me avisou, como um jingle: "esse cara é bom". O tempo foi confirmando as coisas boas, e cimentando nossa irmandade. Mas esse post dele tem que ser copiado e repetido, como um mantra, confiram: http://aleones.wordpress.com/2007/11/20/um-carro-na-estante/

E, agora, mais um capítulo, quase final.

Capítulo XVII

Até que enfim parou de chover! Estava doida para dar uma voltinha. Me despedir da cidade. Estou com pena de você, que não viu nada...

Vi muita coisa. Passeei por aqui por essas ruas escondidas. Visitei todas as lojinhas...

Vamos tomar um vaporeto e ir para o Lido?

Não, vamos ficar aqui mesmo, fazer um passeio de gôndola.

Claro! Você não andou de gôndola, isso é imperdível. E, depois, vou te levar para tomar um sorvete! Ai, são tão bons! É difícil escolher qual o melhor sabor. E um espresso duplo, uma delícia.

Você está tão animada!

Estou contente. Perdi um quilo e meio! Bendita gripe. Quer parar de me filmar?

Não é você. É a cidade. Olha que escadaria maravilhosa. Parece a torre de Pisa.

É o Palazzo Contarini del Bovolo. Vamos dar mais uma andadinha, para você ver como o la Fenice ficou lindo. Olha lá.

Nossa, ele é muito pequeno. Pela fama achei que fosse muito maior.

Não, esse teatro pertencia a uma família, que o construiu em 1792. Não é chique? Um teatro particular? Depois , não lembro quando, passou a ser da cidade, acho que foi depois do primeiro incendio, em 1836. Não deve ter sido antes, porque Rossini e Verdi estrearam algumas de suas óperas aqui. Sabia que os italianos, durante a ocupação austríaca, protestavam aqui no teatro? Jogavam flores brancas verdes e vermelhas no palco, da cor da bandeira italiana, e gritavam Viva, Verdi!

E isso é protesto?

É que v-e-r-d-i são as iniciais de Vittorio Emanuele, Re d’ Italia. Espertinhos, não?

Olha, o que é isso? Fila para gôndola?

Ih, o dia inteiro é assim. Mas anda rápido. Logo, logo chega a nossa vez. Porque você não aproveita para filmar a praça de San Marco, enquanto eu fico aqui na fila?

Prefiro ficar a seu lado. Vou filmar o vai e vem das gôndolas. Olha que lindo. Repara na perícia que esses remadores têm. E olha como fica lindo o grupo de embarcações junto a todos esses mastros coloridos. É uma loucura, são centenas de gôndolas.

É que aqui é uma espécie de ponto final delas. São poucos os lugares onde se pode pegar uma gôndola. Eu só conheço aqui no Molo, e lá perto da ponte de Rialto. Mas lá ainda é mais movimentado, porque todo mundo anda por lá, para fazer compras. Nunca pensei que uma ponte conseguisse sustentar tantas lojas. E são altas, alguma têm uns dois ou três andares. E tudo em cima da ponte, dá até medo.

Agora é nossa vez.

Viu como foi rápido? Cuidado. Ai, eu morro de medo. Está balançando muito.

Não se preocupe. Você está segura. Viu? Eu não deixo você cair.

É melhor eu sentar ali do outro lado.

Não, senta aqui mesmo, do meu lado. E abotoa esse casaco, não vá apanhar uma recaída. Põe o lenço aqui, no pescoço.

Não, Fábio. Não é preciso. E vira essa câmera para lá. Estou ficando irritada com isso.

Sabe que o seu documentário vai mostrar a escritora mais ranzinza de todo o Brasil?

Eu reclamo muito?

Só um pouquinho.

Eu devo ser muito chata. Não admira que eu esteja sozinha.

Você não está sozinha, está comigo.

É diferente. Somos amigos. Eu estava falando de uma coisa mais intensa...

Intensa como? Assim?

Fábio! Você me beijou!

Beijei. E de língua!

Mas, você não entende...

Quem não entende nada é você! Será que eu preciso colocar um cartaz no meio da rua? Será que tenho que mandar publicar no jornal? Eu sempre fui apaixonado por você. Mas esta é sua última chance!

Fábio, isso é um erro.

O que é que é um erro? Este beijo? Ou este? Ou este aqui?

Fábio, você está se aproveitando de mim... Estou carente... Ah, Fábio, assim, vai. Oh. Você beija tão bem. Ai, pára, está todo mundo olhando. E a câmera? Esta ligada? Desliga, isso vai.

Você só tem um defeito.

Qual?

Fala demais. E a câmera está desligada.