Monday, November 26, 2007

Feliz Aniversário

U.C.B., meu querido sogro, faria aniversário hoje. O "patinho", meu primeiro carrinho, amarelinho, foi comprado num dia 27 de novembro. Signo de Sagitário, que mira as estrelas, sonhador. Gosto desse dia. Acho que hoje vai ser um dia de bons fluidos, de boas acontecências...
Vamos novelar. Já está quase acabando.

Capítulo XVI

Acorda, Mari!

Que foi?

Você está tendo um pesadelo...

É horrível!

Está tudo bem, fica calma. Não chore.

Estou com muita dor de cabeça...

Sua febre voltou. Acho que vou te levar para o hospital. O porteiro da noite me disse que tem um aqui perto.

Não me deixa. Fica aqui comigo.

Estou aqui do seu lado.

Me abraça.

Ah, Mariana...

Por que você vai embora?

Não vou embora. Estou aqui com você, para sempre.

Não me deixe.

Não chora. Calma, calma. Acho que você está delirando. Deixa eu ver a sua febre... Cuidado! Assim você quebra o termômetro. Mariana! Meu Deus! Acorda, Mari. Acorda!

Fábio.

Que susto você me deu. Deixa eu me vestir, vou te levar para o hospital.

Não, não quero. Estou bem.

Você está com febre de novo.

Me dá o remédio. Está na hora.

Estou preocupado, é melhor eu te levar para o hospital.

Bobagem. Homem é tão assustado. Não é nada.

Você estava delirando, e até desmaiou.

Delirando? O que foi que eu disse?

Sei lá, não prestei atenção.

Falei da gente?

Não entendi direito.

Mas, era da gente?

Acho que não, era um pesadelo, você não queria que eu fosse embora.

Que dia é hoje?

Porque?

Já está na hora de voltar para o Brasil?

Você não pode viajar dessa maneira!

E o livro?

Você já terminou, não lembra?

Terminei?

Terminou. Você separou o Francesco e a Paula.

Você já leu a Divina Comédia?

Li.

Não viu que Paolo e Francesca estavam juntos no Inferno, e que esse era o castigo deles? Juntos para sempre. O amor acaba e eles, literalmente, se danam. Eu me baseei na Divina Comédia para escrever a história. Os amantes que se juntam por causa de um livro, o amor que eles não conseguem resistir... Só que fiquei com pena, e dei outra chance a eles.

Não, você não entendeu nada! As palavras de Francesca são mais ou menos isso: não há maior dor do que recordar o tempo feliz na tristeza. Lembre-se que Dante era um moralista. Ele não está punindo o amor dos dois: ele está punindo o adultério que eles cometeram. E eles estão juntos para recordar o tempo feliz... O amor deles não acaba, o problema é que eles têm a consciência culpada por terem cometido adultério.

Não existe amor para sempre...

Existe!

Os próprios cientistas falam que não. A paixão tem curta duração...

Não confunda paixão com amor. Paixão é coisa infeliz, é sofrimento. Amor é outra coisa.

Eu não sei o que é amor.

Amor não é para se saber. Se a gente mete o intelecto no meio, estraga. Olha a lenda de Eros e Psichê. Se a Alma humana resolve “conhecer” o Amor, ele desaparece. Amor é para sentir, no escuro, sem noção de outra coisa que não seja o sentimento. Amor exige entrega, confiança.

Eu queria tanto amar! Queria me apaixonar, mas não consigo! Nem escrevendo eu consigo. Estou farta de viver assim, sozinha, solitária. Eu queria alguém. Eu preciso de alguém que me queira, que tenha prazer de estar comigo, que me escute...

E você não tem? Eu te escuto. Eu adoro estar com você...

É diferente. Você é meu amigo.

Sou tão repulsivo assim?

Repulsivo? Você não é nada repulsivo! Você é atraente, bonito, charmoso, inteligente, sexy.

Tudo isso? Se eu sou tudo isso porque você nunca ...

Prá não estragar nossa amizade. A gente ia perder essa intimidade, essa liberdade que nos une!

Então você já me olhou com outros olhos?

E você?

Homem é diferente.

Sabe que eu detesto essas suas recaídas machistas? Diferente por que? Homem e mulher são absolutamente iguais!

Não são não, graças a Deus! Essa história de viver num mundo de iguais é a coisa mais autoritária que conheço. Mulher e homem são diferentes, e é preciso respeitar as diferenças uns dos outros. O bom é isso, o não igual, o nosso esforço para chegar no Outro. Poder olhar e não ver um espelho, entende?

Sabe que eu nunca entendi por que é que a Vera te deixou?

É porque nos dois nunca estivemos juntos, realmente. Nunca fui capaz de ter uma conversa com ela. A gente não se falava...

Mas você adora conversar! E ela também.

É, mas a coisa não fluía entre nós. Ela estava sempre ocupada. E me cobrava. Queria que eu fosse mais ambicioso, que eu parasse de dar aulas para ir ser assessor daquele meu tio, que era deputado, lembra?

Se você tivesse ido trabalhar com ele, teria uma grana preta, agora.

E daí?

E ainda estaria casado com a Vera.

E quem disse que eu gostaria de estar casado com a Vera? Só lamento é pela Clarinha. Ela está crescendo longe de mim. É uma pena.

Você está sempre com ela, Fábio! Todo fim de semana, nas férias, todos os dias vocês se falam.

Mas é diferente, assim. A gente nunca vai ter lembranças, assim tipo, de família, entende?

Não, nem quero pensar muito nisso. Não tive filhos, e o tempo passou, e agora acho que já não dá mais, já está muito tarde. Às vezes fico pensando que eu devia ter feito uma inseminação...

Taí, por que não fez?

Por que não queria ter filho com um estranho. Um doador anônimo. Ui, chego até a ficar arrepiada.

E por que não pediu a um amigo?

Isso lá é coisa que se peça? Imagine eu chegando prá você e pedindo alguns decilitros de sêmen.

Decilitros? Você pensa que é assim? Centilitros ainda vai. Mas o negócio é mais para mililitros... Assim, tipo uma colher de sopa.

É mesmo. É que não sou boa nessa coisa de medidas. Nossa! As pessoas iam ter que fazer amor na banheira!

Deixa eu ver a febre.

Já baixou. Estou me sentindo bem melhor. Você é um ótimo enfermeiro.

Você é que é uma ótima paciente.

Conferências

Já fui a diversas conferências pela vida afora, e, apesar de meu interesse, da qualidade dos conferencistas, dos temas abordados, acho que não guardei nada do que escutei. Fico tão embalada olhando as pessoas, vendo seus trejeitos, avaliando seu à vontade frente ao público, olhando a mobília, as estátuas, todas as coisas periféricas, que a substância das palavras me escapa. Claro que na hora eu percebo, entendo, concordo ou discordo. O que me falta é a memória do conteúdo, depois. Para reter algo, preciso escrever sobre aquilo que ouvi. Se não, vou me lembrar dos óculos do Saramago, do cavanhaque do Eco, das mãos pequeninas do Manguel, mas não de suas palavras e de seus pensamentos. Isso não acontece, porém, quando vou a um concerto. Não me lembro dos maestros nem dos músicos, mas me lembro da música, não das notas em si, mas da experiência da beleza que senti. Já não sei mais o que a Filarmônica de Berlim tocou aqui no Municipal quando a escutei. Mas lembro que, naquela noite, entendi porque as duquesas largavam palácios e jóias, maridos e filhos e iam atrás de um Beethoven, ou de um Liszt, ou de um Chopin -- como não existiam os meios de reprodução do som, para escutar de novo essas maravilhas, só seguindo-os.
E, agora, o momento mais esperado do dia: a continuação da novela! Boa leitura, a todos.

Capítulo XV

Está tão escuro, que horas são?

Quatro.

E já está assim escuro?

Quatro da manhã.

Eu dormi tanto assim?

Deixa eu ver a sua febre.

Estou tão suada. Preciso de um banho. Você não foi dormir?

Estava preocupado com você. A febre não baixava. Agora baixou. Você só está com 38.

E o que você ficou fazendo aqui?

Li o manuscrito. Está muito bom.

Gostou do final?

Vou preparar seu banho.

Não gostou.

Gostei. É que não esperava que eles acabassem assim. Vem, deixa eu te ajudar a levantar.

Eu levanto sozinha.

Olha aí! Cuidado. Quase caiu, viu? Essa tua gripe é muito violenta, e você está sem comer... Põe o chinelo, não anda descalça no chão frio.

Deixa. Agora aqui eu fico sozinha. Eu me seguro. Sai, vai.

Mas deixa a porta do banheiro entreaberta.

Que idéia! Deixo destrancada, mas entreaberta não.

Está com medo?

Não estou ouvindo.

Não posso falar mais alto, são quatro da manhã!

Não escuto nada.

Deixa, não tem importância. Enquanto isso eu vou ajeitando as coisas aqui no quarto.

O quê?

Estou fazendo tua cama.

Fábio?

Já terminou?

Sabe que você é o melhor amigo que eu tenho?

E você a minha. Vem, deita aqui.

Não, vou pegar roupa limpa, minha camisola está muito suada, e eu não vou ficar de roupão de banho.

Deixa que eu pego. Tá na gaveta? Eu pego.

Não, não mexe aí. Fico com vergonha de você ver minha roupa de baixo.

Por quê? Que é que tem? Mulher tem cada frescura! Não mostra isso, não mostra aquilo, mas vão prá praia de fio dental.

Eu não uso fio dental.

E isso aqui?

Fábio! Que droga! Eu não disse prá você não mexer na minha gaveta?

Sinceramente, prá que é que vocês mulheres se dão ao trabalho de vestir uma calcinha dessas? Não vêem que não cobre nada? Isso não protege nenhuma das partes importantes.

Esse tipo de calcinha é para ocasiões especiais... Ah, estou tão mole! Nem consigo levantar o braço para pentear meus cabelos.

Deixa que eu penteio. Sempre tive vontade de pentear os teus cabelos.

Já notei. Você sempre arruma um pretexto para mexer neles. “Está no seu olho, tem uma coisinha aqui presa, acho que vi um fio branco”...

É que seus cabelos são lindos. Tão pretos. Os cabelos de Iracema deviam ser assim, pretos como a asa da graúna...

Os meus são pretos como a caixinha de tintura.

Olha o seu pêssego. Quer comer agora?

Ah, está uma delícia. Não sabia que eu estava com tanta fome!

Come mais um.

Não. Só quero água. Estou morrendo de sede. Olha só como a minha boca está ressecada.

Vem, deixa eu te ajudar a deitar.

O dia está amanhecendo...

Está frio, lá fora.

É a umidade. Aqui chove tanto. Estou com saudade do sol... De ficar na praia, te vendo jogar vôlei...

Você sempre debaixo da barraca... Não vai nem na água!

Não gosto de água fria!

Não quer a coberta?

Agora estou com calor. Acho que vou dormir mais um pouquinho.

Antes me diz uma coisa: por que é que tua história acaba assim?

Por que eu não acredito em amor! Quando a gente baixa a guarda, vapt, lá vem o golpe!

Como é que você pode ser assim?

Sunday, November 25, 2007

Histórias Possíveis - primeiríssima edição

Saiu hoje a primeira edição de Histórias possíveis. Mais uma "reinação" do André, meu irmão siamês, juntando um monte de escritores em torno de histórias mais ou menos impossíveis de se encontrar nos jornais. Porque o real é muito mais incrível do que sonha nossa van-literatura...
Leiam, leiam, embarque em nossa van que ela te leva longe daqui, aqui mesmo. Neste primeiro número, um único homem (Wesley Peres) com suas donas flores: Daniela Mendes, Dheyne de Souza, Suzana Fuentes e esta que vos escreve.
E agora, mais um capítulo da novelinha que virou novela e agora já está se metamorfoseando em novelona:

Capítulo XIV

Quer mais um travesseiro?

Não.

Toma um golinho, vai...

Não quero. Nem quero que você fique aqui. Estou me sentindo mal. Quero ficar sozinha, quero dormir.

Bobagem. Imagina se eu ia te deixar sozinha assim, nessas condições.

O que é que você está fazendo?

Montando a câmera.

Mas, que idéia! Quem disse que eu ia permitir que você me filmasse na cama?

Que é que tem?

Isso é invasão de privacidade! E eu estou horrível!

Você está linda, como sempre.

Estou arrasada.

Nem um pouquinho.

E chateada.

Por quê?

Fiquei imaginando a sua cara de decepção, quando não me encontrou à tua espera.

Eu pensei que tinha acontecido alguma coisa.

Pensou nada. Você achou que eu estava puta com você e que tinha resolvido não ir. E aí ficou puto comigo, foi ou não foi?

Foi. Mas também não foi. Por que no fundo eu sabia que tinha acontecido alguma coisa. Ainda bem que eu cheguei. Se eu não estivesse aqui você não iria ao médico.

Bobagem ir a médico. É só uma gripe. É só tomar um chá de limão que amanhã estou boa.

Estou vendo, uma gripe de nada, né? Sabe quantos graus de febre você tem? 41.

Bem que estava sentindo dor de cabeça.

Bebe um pouco d’água, vai.

Obrigada. Desliga essa câmera. Não quero que você me filme assim. Vai prá rua passear, vai.

Deixar você aqui sozinha? Nunca.

Quero dormir.

Dorme, que eu tomo conta de você.

Não, vai passear. Não quero que você me veja dormindo. Fico com vergonha. Inda mais, com essa câmera. Você quer me filmar babando e roncando, prá me envergonhar.

Eu nunca faria isso...

Faria, sim. E eu quero dormir. Por que você não sai para comprar uma fruta para mim. Quero um pêssego, bem gostoso.

Será que está na época de pêssego?

Saturday, November 24, 2007

Sol, praia e bicicleta


Sábado de sol, fui andar de bicicleta e depois à praia. Me distraí, tomei mate/limão e água de coco.
Coisas boas do Rio: um programão feito de quase nada...
Agora blog, almoço, conferência e cinema...

Capítulo XIII

Oi.

Nossa, que voz... Está tudo bem?

Estava escrevendo.

Ah, desculpe. Só liguei prá dizer que estou embarcando hoje. Quer alguma coisa daqui?

Não.

Nada, nada?

Nada, mesmo.

Nem amendoim japonês?

Nada.

Está chateada por que estou indo para aí?

Não. É que estou no meio de uma cena importante, não quero perder o embalo.

A cena da cama?!

É.

Eles já chegaram às vias de fato?

Como já? Você passou o tempo todo reclamando da falta de sexo na minha história! E já estou terminando o romance. Se eles não transarem agora, só em outro livro.

Pensei que você ia deixar para escrever o final quando eu estivesse aí. Como é que vou fazer o documentário, te filmar escrevendo?

Olha, acho melhor você desligar, se não pode perder o avião. É melhor chegar com três horas de antecedência, ou até mais. Os procedimentos de segurança estão cada vez mais complicados.

Isso para não falar nos problemas dos aeroportos daqui. Além de apagão aéreo, temos operação padrão da polícia federal. As filas estão enormes.

Então, tá. Vai logo.

Poxa! Essa cena deve de estar mesmo quente. Nunca te vi com tamanha vontade de voltar a escrever.

Ai, que saco! Já perdi o clima. Que coisa! Por que é que você não desliga?

O que é que eles estão fazendo? Me manda por e-mail, ainda dá tempo. Eles estão próximos do orgasmo, é?

Fábio, qual é? Você pensa que está ligando para o tele-sexo?

É que eu estou preocupado com esse teu poeta. Acho que ele, na hora H, vai falhar!

Só se você telefonar e atrapalhar. Por que é que ele havia de falhar? E, mesmo que falhe, isso é problema do passado. Se ele perceber que as coisas não vão bem, ele toma uma pílula.

Ah! Não falei que esse teu poeta não era de nada? E você também está por fora. Pílula é coisa de mulher. Macho toma é viagra mesmo.

Eu não lembrava do nome. Me admiro é de você ter o nome assim, na ponta da língua.

Isso é porque você nunca frequentou academia de ginástica. Os caras ficam lá só falando nisso: uns dizendo que os outros estão tomando. Ninguém toma, mas acha que todo o resto já tomou.

Que horas são aí, Fábio?

Caraca! Já estou atrasado!

Corre, não vá perder o vôo.

Manda por e-mail, vai. Ainda dá tempo.

Não mando nada. Anda logo. Amanhã você lê.

Friday, November 23, 2007

Meu professor de piano

Meu professor de piano é genial! Me fez sentir uma concertista, embora eu só tivesse tocado uma modesta escala em clave de dó (e não tenho muita certeza se toquei também uma outra escala em clave de fá) Mas, só estar aqui falando em clave de fá e de dó já abriu as "chaves" do meu imaginário. Então, vou dizer bye, bye e vou escolher um CD bem lindo, e ficar escutando, maravilhada, me preparando para quando o meu dia chegar. Por que meu professor de piano (não canso de repetir, bem orgulhosa) me garante que vou tocar um "Schumanzinho", imagine! E me promete que não vou ter que ficar tocando Cai-cai balão, mas que vai me fazer tocar Villa Lobos (bem, com certeza aquele das cantigas, mas um cai-cai balão com griffe eu toco com boa-vontade!)
Meu professor de piano me prometeu um caderninho com "pentagrama" e um livro americano, me prometeu que volta na próxima sexta-feira e me deixou assim, sorridente e boba, com uma alegria de menina que vai ver o circo.
É mesmo genial, o meu professor de piano!

Lua apressada

Ontem, lá pelas 16:30h a lua, que me parecia cheia, já estava se mostrando no céu azul. Como estava bonita, na verdade, linda, ela não teve paciência para esperar o sol se por, e veio a passeio, aproveitar a tarde com suas cores lavadas pelas chuvas recentes. Brincou com as nuvens, rodopiou no céu e depois postou-se, brilhando, como sentinela de uma cidade ainda esperançosa. Ela se deixou ficar ali, perto do Cristo, solitária, sem estrelas em seu séquito. Depois caminhou lenta, e umas estrelinhas estremunhadas vieram ocupar o lugar que ela havia deixado vago. Imagino o prazer de quem, como eu, teve a chance de olhar para ela -- e vê-la em toda sua beleza. Outros a viram junto ao mar, outros entre as nuvens, e ela mostrou a todos sua melhor face. Hoje o sol, enciumado, vem mostrar suas belezas, iluminando, sombreando, emprestando energia e calor, e até um pouquinho de inspiração...
Que esse meu texto faça os leitores pararem um momento para olhar o dia, ou a noite, com um sorriso.
E agora, mais um capítulo da sensacional novela blogueira:

Capítulo XII

O quarto era muito pequeno, e a enorme cama de dossel dificultava a circulação. As portas dos armários esbarravam nas laterais trabalhadas, deixando sulcos na madeira dourada, polida pelos anos. Entraram com dificuldade, a porta dupla se abrindo pela metade, deixando uma passagem estreita e traiçoeira, que aprisionava as roupas de quem entrava distraído.

Francesco entrou primeiro, seu corpo esguio evitou as armadilhas da maçaneta e, com movimentos acostumados, aproximou-se do interruptor saliente para acender a luz do cômodo. Ela pousou a mão sobre a dele, desejosa de permanecer na penumbra azulada e trêmula que as águas do canal projetavam dentro do quarto. Compreendendo o seu gesto, ele respeitou sua vontade, e esperou que ela olhasse à sua volta, se familiarizando com o aposento.

Paula olhou demoradamente a pilha de cadernos sobre a mesa de cabeceira. Sem precisar abri-los, ela sabia do que se tratava: eram os cadernos onde ele escrevia seus versos. Depois, procurou a mesa, encaixada entre as janelas, miúda, desconfortável. Imaginou-o debruçado sobre os cadernos, escrevendo, febril. Voltou-se, sorrindo, e encontrou o rosto dele, também sorridente, mas com um ar de quem se prosta em adoração perante um altar. Não era esse o olhar que desejava surpreender, assustada com o fervor e a devoção a que não se sentia fazer juz. Baixou os olhos, e corou.

Francesco se aproximou dela, tentando não espantá-la. Sua mão se elevou lentamente, até tocar-lhe o rosto. Ela inclinou a face para encaixá-la no côncavo de sua mão, os olhos fechados, a boca ligeiramente entreaberta.

Com delicadeza, ele levou a mão até sua nuca e puxou-a de encontro a ele. O beijo que se seguiu poderia ter sido terno e suave, mas os dois se surpreenderam com a explosão do desejo que os invadiu.

As pernas de Paula fraquejaram, e ela colou-se ao corpo dele, buscando apoio. Ele lhe ofereceu mais do que ela esperava: mostrou-se forte, exigente, faminto. Paula começou a gemer baixinho, sem perceber. Ele diminuiu um pouco as carícias, com receio de estar sendo precipitado, até compreender que os gemidos dela eram de prazer. Estimulado pelos sons, ele se deixou levar pelo instinto, e, sôfrego, desceu os lábios procurando o decote de seu vestido.

Paula hesitava entre deixar-se beijar ou corresponder ativamente às carícias. Tímida, ela sufocava suas reações, tentando não demonstrar o desejo que sentia. Queria que ele lhe arrancasse a roupa e a jogasse na cama. Queria que ele se colocasse entre suas pernas e a penetrasse logo, com impaciência. Francesco, porém, não tinha pressa. Tanto havia esperado por esse momento que se preocupava em saboreá-lo devagar, como criança que come uma guloseima com dentadas mínimas, procurando prolongar seu prazer.

Logo Paula se acalmou e compreendeu as regras que ele lhe impunha. Ao invés de pensar, deixou que seu corpo reagisse instintivamente, sem peias... Os dois foram se despindo devagar, com método. A cada peça retirada, cada pedaço de pele exposta era coberta de beijos, saboreada, línguas e dentes experimentando a textura e o sabor do outro.

Francesco despiu-se completamente, mas Paula conservou as peças íntimas, rendadas e brancas como as de uma noiva. Subiram na cama, ajoelhados de frente um para o outro. Ele deixou que seus olhos percorressem o corpo dela, maduro, mas ainda guardando a mesma flexibilidade de uma adolescente. Com sua pele muito clara e a lingerie branca, ela parecia um anjo envergonhado, a cabeça pendida, um braço cruzado protegendo os seios, o outro descido, com a mão aberta em frente à virilha.

Francesco tomou-lhe as mãos delicadamente, abriu seus braços e olhou-a. Depois colou-se a ela, os braços esticados para o lado, como se fossem dois crucificados. Ficaram assim até que o ritmo de suas respirações se igualasse e eles pudessem agir em sincronia. Abraçando-a, ele retirou seu soutien, beijou-lhe os ombros e desceu a boca até os delicados mamilos róseos, cuidadoso, receoso de sua fragilidade. Paula foi-se deitando devagar e ele acompanhou seus movimentos, amparando-a, sentando-se a seu lado, de maneira a poder ajudá-la a libertar-se da calcinha.

Thursday, November 22, 2007

Thanks Giving.

Uma coisa que me ficou dos tempos em que morei nos EUA foi essa espécie de tristeza que me atacava no feriado de Ação de Graças. Como não é nosso hábito comemorar essa data, eu me sentia mal-agradecida, envergonhada com tantos agradecimentos deles e nenhum nosso. Às vezes ficava cismando se não seria por isso que o país deles tinha virado potência e o nosso se arrastava, com ares terceiro mundistas. Afinal, temos tanto para agradecer! Olho pela janela e vejo as Cagarras, que se colocaram ali entre os prédios só para me ver escrevendo. Elas são minhas sentinelas. Vejo o caminho de árvores que vai de minha porta até o mar, escuto o canto das cigarras, ao longe, lá nos Dois Irmãos. Lembro da música do Chico (aprendi a respeitar tua prumada e a desconfiar dos teus silêncios...), tão linda. A brisa do mar agita as folhas de papel sobre minha escrivaninha, meus livros me rodeiam sorrindo suas capas coloridas, me convidando para lê-los. Temos muito para agradecer, mesmo quando esse muito não nos pertence, como o sol, como o mar e a cor azul. Precisamos parar para dizer obrigado, contar nossas bênçãos, como dizem os de lá. Se bem que os daqui, pescadores escolados, nos avisariam: não conte seus peixes pois eles param de vir... Bem, minha zanga com Deus me faz ficar teimosamente muda, de cabeça baixa, amuada. Mas, em algum cantinho de mim, uma vozinha insiste em repetir: mal-agradecida. E eu tenho que concordar, e peço desculpas pela minha impolidez.

Cartas de amor

Quando fico assim sem sono, trabalho no meu projeto -- Cartas de amor. Cartas e mais cartas, que vão ficando sem resposta, mas que continuam sendo escritas. Penso que para escrever melhor devia reler as de Mariana Alcoforado. Será mesmo? Mariana achava que com suas palavras poderia fazer o amado voltar para ela, mesmo que fosse por piedade (pelo menos é assim que me lembro do livro turbilhonante que li há tanto tempo) A autora de minhas cartas sabe que seu amado não vem. Ela gostaria que ele lhe respondesse, mas está conformada com sua mudez. Ela delira, vê cartas que se desfazem no ar, interpreta os silêncios. O bonito é que ela escreve, mesmo sabendo que vai ficar sem resposta. Escreve cartas, cartas antigas, à mão, coloca em envelopes, envia por via terrestre, para que sua carta chegue com calma ao destinatário -- o dono de seu destino...
Mas não dá para escrever mais de uma carta de cada vez, senão fica artificial. Cartas necessitam de maturação, eu acho. Daí que já escrevi e, como continuo sem sono, resolvi continuar e postar o próximo capítulo da novela.
Bom capítulo para todos nós:

Capítulo XI


Ué? Você me ligando? Que milagre é esse?

Milagre nenhum. Saudades. Queria saber com é que você está?

Como dizia a Mira, “mérdia”.

Mira era gente fina.

Finíssima. Ela me faz muita falta.

E eu?

Você está aí. Vivíssimo!

Mas estamos longe. Acho que já não sei mais como é o teu rosto.

Mas eu sei como é o teu. Já decorei. Teu cabelo sempre curtinho, teus óculos, o sinal que você tem na sobrancelha direita...

Decorou mesmo.

Pois, é. E aí não acho graça quando você diz que já não sabe como é meu rosto.

É um rosto sorridente.

Isso é muito vago.

E muito branco.

E está mais branco ainda. Aí no Rio a gente ainda toma um solzinho, mas aqui...

E os cabelos são bem pretos.

Tingidos, infelizmente.

Com sobrancelhas retas. O nariz um tantinho comprido.

Me chamando de nariguda?

Não. Você tem o nariz de Cleópatra. E os lábios bem desenhados, parecem uma escultura.

Você não me esqueceu nada!

Acho que não.


E daqui a mais dez dias estou voltando.

É mesmo.

Não está contente?

É que estou com vontade de viajar, também.

Logo agora que estou voltando? Está fugindo de mim?

Não. Pelo contrário. Pensei que podia ir aí, me encontrar com você.

Ah...

Não gosta da idéia?

Não sei. Já estou de saco cheio de estar aqui. Tudo úmido, tudo frio, tudo caro! Por outro lado, com você aqui talvez o tempo passe mais rápido... Mas também complica, porque ainda não consegui escrever o final da minha história. Você vai chegar com sua alma de turista e vai querer que eu saia com você... E eu vou ter que escrever... Vai ser complicado.

Tá, já entendi. Pode deixar, não vou.

Pôxa, não quis te desencorajar...É que não estou conseguindo montar minha cena.

A da cama?

É.

Mas a da gôndola ficou boa. Só achei que começa meio depressiva, com os barcos que lembram caixões...

Mas eles lembram mesmo. São pretos. E tem umas lanchinhas todas de madeira que também parecem caixões. Aliás, o nome delas em português é mesmo esquife, sinônimo de caixão.

Pois eu acho o formato das gôndolas lindo!

Também acho, mas elas são tristes. Uma coisa não exclui a outra. Você sabia que as gôndolas não são simétricas?

Como assim?

Elas são mais largas do lado esquerdo, para contrabalançar a força do remo. Só assim é que elas conseguem andar para frente. Se os dois lados fossem iguais, elas iam ficar rodando no mesmo lugar, e não iam a canto nenhum.

Vê como as diferenças são importantes? Acho que você ainda não escreveu a cena da cama porque seu poeta...

Francesco...

Seu poeta está muito igual você. Ele é apenas uma projeção sua.

Não entendo o que você quer dizer com isso. Está me acusando de não saber construir um personagem? Era só o que faltava! E eu nem estou no texto. A Paula não é eu. O Francesco não é eu.

Claro que são você! É você quem dá vida a eles...

Dou vida, mas não a minha vida. Que leitura banalizante, a sua.

Não acho, não. Reconheço tantas coisas suas, tantos pensamentos seus...

Você reconhece o meu estilo, é isso.

Não é isso.

É o que, então?

É a sua voz, sua maneira inesperada de ver a vida, essas analogias loucas que você faz para explicar as coisas...

Isso é estilo.

Tá. Não vou discutir. E quanto à minha ida...

Você vai vir mesmo? E as aulas?

A Faculdade entrou em greve.

E a grana?

A editora vai pagar, contanto que eu te filme perambulando por aí.

Ah, essa não! Você com uma câmera é um perigo. Você sempre me pega numas situações....

Se eu não te filmo nem fotografo, você não teria nenhuma lembrança!

Tenho os meus textos. É por eles que desejo ser lembrada.

Mas é bom olhar para as suas fotos.

Eu nunca olho.

E, no entanto, sua casa é cheia de porta-retratos...

Com fotos dos amigos. E dos meus escritores prediletos.

Viu? Como você pode negar esse prazer aos seus fãs?

Então você vai vir mesmo?

Vou.

Quando?

Depois de amanhã.

Vai ficar onde?

No mesmo hotel que você está.

Neste pardieiro? Traz remédio para alergia, que tudo aqui cheira a mofo!

É muito ruim? Porque você não mudou?

Porque a gente se acostuma com tudo, até com hotel chinfrim. E ele é bem localizado. E gosto da plaquinha...

Que plaquinha?

Com o Arlequim e a Colombina. Quando escrevo, penso nos dois. Paula tem o mesmo sorriso da Colombina. E o Francesco tem o olhar sombrio do Arlequim.

Arlequim não tem olhar sombrio. O Pierrô é que tem. Ele é que se corrói de ciúmes, enquanto a Colombina se diverte com o outro.

Sabe o que eu penso? Não é uma questão do que a Colombina faz ou deixa de fazer com o outro. É uma questão de temperamento. O Pierrô é um ciumento, e um ciumento sempre terá ciúmes, não importa o que a Colombina faça ou deixe de fazer.

Você está re-escrevendo essa história.

Eu não. Estou interpretando da minha maneira. Nossa profissão é essa: interpretar textos. Lembra de nossos tempos de Faculdade? Nossos trabalhos de grupo? Nós éramos tão criativos.

Éramos não. Somos. Nossa turma fez história na faculdade.

É mesmo. Até porque os dois rapazes da turma não eram gays.

Mas nas outras turmas também tinha homem com H.

Tinha não. Só vocês dois. Gilson, Miguel, Cadu, Roberval, eram todos gay.

Roberval era gay? Mas ele namorou a Cleide! E a Gisele também.

Namorar, namorou, mas ficou só no namoro. Você nunca mais encontrou com ele? Pois eu dei de cara com ele quando fui naquela convenção em Porto Alegre . Ele estava lá, todo com cara de yuppie, completamente diferente do rapaz feioso, tímido e hesitante do passado.

Estava bonito?

Um bom trato faz milagres. Bonito ele não ficou, mas ficou charmoso. Elegante, acho que é o melhor termo. Ele fez rios de dinheiro, trabalhando para aquele deputado ligado às “comunidades”, sabia? Não é fofoca, porque foi ele mesmo quem me contou. Você também devia ter aceitado o emprego que teu tio te ofereceu... Hoje você estaria rico.

E de que me adiantaria estar rico? Eu gosto do que faço. Gosto da minha vidinha.

Mas vai me dizer que você não sonha com viagens, carros, restaurantes bacanas...

Viagens , sim. Mas carros? Prefiro andar a pé, caminhar pela beira da praia, sem me estressar. O carro que tenho me serve muito bem, para os programas de vez em quando. Restaurante só serve para engordar. A gente come demais, bebe demais. Uma vez ou outra, pra comemorar aniversário, me basta. E para isso eu tenho bala na agulha.

Ah, sei lá! Eu gostaria de ser rica... Entrar numa loja e comprar um sapato de 1500 reais só porque eu achei bonito, seria o máximo!

Acho melhor você forrar o pé com notas de cem. Do jeito que seu pé é pequenininho, você economizaria uns setecentos paus! Mulher tem cada coisa! Que mania de sapato. Prá que um desperdício desse? E sua consciência social?

Eu nunca comprei um sapato de 1500! Era só uma hipótese... Você também já falou em comprar um Z-3 ou sei lá que número. Já reparou que carro é cheio de número? A-8, XC 90; CLK 350; Gol 1000

Só mesmo você para misturar Gol 1000 com carrão!

Vê as diferenças? Eu falo de número, você fala de potência! Por que é que homem tem essa mania de potência?

Prá ganhar as mulheres, claro.

Você acha, sinceramente, que as mulheres ligam para isso?

Não engrena. Tenho que preparar a mala e não posso ficar de bate-papo.

Você sempre arruma uma evasiva, prá não me responder sobre essas coisas homem-mulher...

Sempre que eu caio na besteira de dizer alguma coisa, você se apropria do que eu digo e vai logo tacando em uma de suas histórias. E me crucifica com isso, depois.

Quer saber? Acho melhor a gente deixar para falar isso pessoalmente. Depois de amanhã você chega...

Depois de amanhã eu embarco.

E a gente vai ter muito tempo prá falar.

E eu posso te fotografar, com Veneza ao fundo...

Mas eu ainda tenho muito o que escrever!

Então eu te filmo, escrevendo. Filmo a tua plaquinha... O teu sorriso quando está gostando da cena... Teus dedos catando milho no teclado... Teu ar de boba, jogando paciência...

Eu nunca pensei que você reparasse em mim quando estou escrevendo...

Mas eu reparo em você o tempo todo. Sempre reparei. Você é que não presta atenção em mim.

Wednesday, November 21, 2007

Dia de prova


Hoje vou fazer uma prova, e não tenho tempo para bate-papo.
Por isso vou direto ao capítulo. Aviso que a novela está na sua metade. Ela já está escrita há algum tempo e estou apenas publicando um capítulo por dia. Fico feliz que estejam gostando.

Capítulo X

Paula estava toda trêmula. O primeiro beijo ia finalmente acontecer, ali, naquela gôndola que se embalava docemente sobre as águas tumultuadas do grande canal. A lua prateava a água, o cantor se esforçava cantando as conhecidas áreas românticas para deixar o clima propício para o amor dos diversos casais nas diferentes gôndolas.

A austeridade das embarcações, no entanto, a amedrontava. Os barcos negros, com enfeites dourados, lembravam-lhe ataúdes. O rosto do gondoleiro, sério e suado, parecia a máscara de Caronte, que remava por remar, indiferente a seus passageiros. Paula, porém, estava decidida a se sentir feliz. Desviando o olhar do barqueiro ela examinou o rosto de Francesco, um pouco mais pálido devido à luz esbranquiçada da lua.

A brisa marinha esfriava e ela sentiu um calafrio percorrendo sua pele. Francesco notou seu estremecimento, e passou o braço por cima de seus ombros, aconchegando-a. O corpo dele era quente, e exalava um perfume seco, de madeira. Ela pensou nas estantes de sua casa, no seu cantinho predileto de leitura, e se abandonou contra o corpo dele, sentindo-se abrigada. Com a cabeça levemente inclinada para trás, ela olhava o perfil sério que se destacava contra a claridade das águas lunares. O barqueiro cantava coisas como “mar prateado” e “ondas plácidas”. O grupo de gôndolas seguiu por entre águas mais escuras, entrando pelos pequenos canais, onde a luz da lua não conseguia penetrar, passando sob pontes minúsculas. A pequena lanterna que cada gôndola carregava transformava o grupo numa constelação misteriosa, que deslizava por águas cada vez mais silenciosas e escuras. Quando o cantor encerrou sua serenata, Francesco finalmente voltou o rosto para o dela. Os olhos dele brilhavam na escuridão, de tal forma que ela se viu compelida a fechar os seus, ofuscada. E foi então que ele a beijou. Os lábios quentes e secos pousaram suavemente sobre os lábios dela, entreabertos. Ela sentiu o hálito dele, sentiu o sabor de seus lábios finos, de pele muito suave. Sentiu a língua que se insinuava e sugou-a, ávida. Suas bocas se misturaram, em diversas combinações. Eles se beijavam com ternura, com fome, com desespero, com respeito. Ela sentiu uma lágrima escapar-se de seus olhos. Ele percebeu sua emoção e murmurou, dentro de sua boca, “carina”. Paula soube que as carícias não terminariam ali. E foi com urgência que o abraçou, e que escondeu o rosto esfogueado na curva de seu pescoço.